A CONSCINCIA DE ZENO

Italo Svevo

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Orelhas do livro

Orelha esquerda:

Italo Svevo  o primeiro grande romancista italiano do sculo XX.
Durante vrios anos ignorado pelo pblico e pelos crticos, foi preciso
que James Joyce - casualmente seu professor de ingls em Trieste - e o
poeta Eugenio Montale se surpreendessem com suas qualidades e inovaes
para que ele conhecesse o justo sucesso, no s na Itlia, mas logo em
todo mundo ocidental.

Ettore Schmitz - seu verdadeiro nome - nasceu em Trieste em 1861 e
morreu em 1928, num desastre de automvel, perto de Treviso. Filho de
pai alemo e me italiana, vivendo na confluncia de duas culturas, em
ambiente cosmopolita, mergulhado nos agudos problemas de uma poca de
transformaes polticas e sociais drsticas, Svevo comeou a escrever
ainda adolescente. O primeiro romance, Uma Vida,  de 1892; o segundo,
Senilidade, de 1898. Entre estas datas e 1923, ano da publicao de A
Conscincia de Zeno, Svevo dedicou-se aos negcios, em sociedade com o
sogro, constituindo um slido estilo de vida burgus - em tudo o que
este adjetivo implica para um cidado europeu.

A inteno central de A Conscincia de Zeno  justamente a dissecao
da existncia ntima de um burgus. A partir da auto-anlise, praticada
de forma implacvel pelo protagonista, o que se traa, porm,  o
retrato de uma poca. O pretexto que faz Zeno se debruar sobre suas
experincias pessoais  o tratamento psicanaltico a que se submete, 
procura da resoluo de sua incapacidade de tomar decises.

Por encomenda do mdico, pe-se a

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Orelha direita:

escrever uma espcie de autobiografia, como subsdio s sesses de
anlise. Embora o tratamento se interrompa - Zeno desacredita da
psicanlise -, o registro de sua vida permaneceu em mos do mdico, que
o faz publicar.

A Conscincia de Zeno  uma das maiores obras literrias do nosso
tempo, principalmente porque nela Svevo conseguiu, com notvel
equilbrio, construir ao mesmo tempo a histria de um indivduo, da
classe e da sociedade a que ele pertence.

Nenhum sentimento, pensamento ou gesto devassado pelo prprio Zeno deixa
de ser referido ao meio em que ele se move: suas ambies e seus
fracassos, suas hesitaes, suas fraudes, suas maquinaes - relativas a
interesses tanto ntimos como pblicos - no so apenas elementos de uma
biografia que se compraz numa autopiedade inconseqente; pelo contrrio,
o desnimo e o pessimismo, que nascem ao longo do livro para culminar
numa viso quase apocalptica do fim do mundo, so tpicos dos
integrantes de uma classe que, tendo desempenhado seu papel na histria,
trai os prprios ideais, aliena-se de seus melhores valores e s
sobrevive atravs da corrupo e da opresso.

A Nova Fronteira foi a primeira editora a editar Italo Svevo no Brasil
e, consciente do alcance de sua iniciativa, entregou a traduo a Ivo
Barroso, ntimo conhecedor da obra e que, conforme o leitor ver,
produziu um texto que, se fosse brasileiro, Svevo sem dvida assinaria.

Capa: Carol S

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Contra-capa:

Italo Svevo  o primeiro grande romancista italiano do sculo XX, e a
Conscincia de Zeno, publicada em 1923, a sua obra-prima.

Escritor desde o fim do sculo XIX, mas s conhecido, inclusive na
prpria Itlia, depois que James Joyce, seu professor de ingls em
Trieste, chamou a ateno para suas qualidades, Svevo  o primeiro
ficcionista contemporneo a incorporar explicitamente a seu trabalho as
descobertas ento "espantosas" da psicanlise.

A Conscincia de Zeno, que um crtico do porte de Otto Maria Carpeaux
classificou de "genial", no se limita a ser uma autobiografia
fictcia. Ao narrar suas experincias, ao mergulhar no sentido mais
fundo dos principais acontecimentos de sua vida, Zeno, na verdade,
retrata e disseca as caractersticas de um tempo, de uma sociedade e de
uma classe, no momento em que a Europa passava por transformaes
drsticas - a Primeira Guerra Mundial.

Svevo mostra, assim, de forma implacvel, que toda e qualquer
conscincia individual, se honesta e levada as ltimas consequncias, 
tambm, e sobretudo, a conscincia crtica dos seus prprios limites e
da sua poca.



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A
CONSCINCIA
DE ZENO

Traduo de
Ivo Barroso



3 impresso



A
EDITORA
NOVA
FRONTEIRA



. dall'Oglio editore 1938

Ttulo original: LA COSCIENZA DI ZENO

Direitos adquiridos para a lngua portuguesa, no Brasil, pela

EDITORA NOVA FRONTEIRA S.A.
Rua Bambina, 25 - Botafogo - CEP 22251-050
Rio de Janeiro - RJ - Brasil
Tel.: (21) 2537-8770 - Fax: (21) 2537-2659
http://www.novafronteira.com.br
e-mail: sac@novafronteira.com.br


Capa
Carol S

Diagramao
Gustavo Meyer

Reviso
Jorge Uranga

          Alfredo Bosi

        CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
        Svevo, Italo, 1861-1928
        S974        A conscincia de Zeno / talo Svevo traduo de Ivo Barroso. -2. cd. -
2.        ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
        (Grandes Romances)


Traduo de: La conscienza di Zeno.
                ISBN 85.209.1237-0


1.        Romance italiano. 1. Barroso, Ivo. II. Titulo. III. Srie.



CDD 853
CDU 850-3



SUMRIO

        1. Prefcio        7
        2. Prembulo        9
        3.Ofumo        11
        4. A morte de meu pai        33
        5. A histria de meu casamento        61
        6. A mulher e a amante        147
        7. Histria de uma sociedade comercial        253
        8. Psicanlise        371
        Posfcio - Uma cultura doente9        405





1

PREFCIO

Sou o mdico de quem s vezes se fala neste romance com
palavras pouco lisonjeiras. Quem entende de psicanlise sabe como
interpretar a antipatia que o paciente me dedica.
        No me ocuparei de psicanlise porque j se fala dela o
suficiente neste livro. Devo escusar-me por haver induzido meu
paciente a escrever sua autobiografia; os estudiosos de
psicanlise torcero o nariz a tamanha novidade. Mas ele era velho, e
eu supunha que com tal evocao o seu passado reflorisse e que
a autobiografia se mostrasse um bom preldio ao tratamento.
At hoje a idia me parece boa, pois forneceu-me resultados
inesperados, os quais teriam sido ainda melhores se o paciente,
no momento crtico, no se tivesse subtrado  cura, furtando-me
assim os frutos da longa e paciente anlise destas memrias.
        Publico-as por vingana e espero que o autor se aborrea.
Seja dito, porm, que estou pronto a dividir com ele os direitos
autorais desta publicao, desde que ele reinicie o tratamento.
Parecia to curioso de si mesmo! Se soubesse quantas surpresas
poderiam resultar do comentrio de todas as verdades e mentiras
que ele aqui acumulou!. -.
DOUTOR S.



7



2

PREMBULO

Rever a minha infncia? J l se vo mais de dez lustros, mas
minha vista cansada talvez pudesse ver a luz que dela ainda
dimana, no fosse a interposio de obstculos de toda espcie,
verdadeiras montanhas: todos esses anos e algumas horas de
minha vida.
        O doutor recomendou-me que no me obstinasse em
perscrutar longe demais. Os fatos recentes so igualmente preciosos,
sobretudo as imagens e os sonhos da noite anterior. Mas 
preciso estabelecer uma certa ordem para poder comear ab ovo.
Mal deixei o consultrio do mdico, que dever estar ausente
de Trieste por algum tempo, corri a comprar um compndio de
psicanlise e li-o no intuito de facilitar-me a tarefa. No o achei
difcil de entender, embora bastante enfadonho.
        Depois do almoo, comodamente esparramado numa poltrona
de braos, eis-me de lpis e papel na mo. Tenho a fronte
completamente descontrada, pois eliminei da mente todo e qualquer
esforo. Meu pensamento parece dissociado de mim. Chego a
v-lo. Ergue-se, torna a baixar... e esta  sua nica atividade.
Para recordar-lhe que  meu pensamento e que tem por
obrigao manifestar-se, empunho o lpis. Eis que minha fronte se
enruga ao pensar nas palavras que so compostas de tantas letras.
O presente imperioso ressurge e ofusca o passado.
        Ontem tentei um abandono total. A experincia terminou no
sono mais profundo e no obtive outro resultado seno um
grande descanso e a curiosa sensao de haver visto alguma
coisa importante durante o sono. Mas esqueci-me do que era,
perdendo-a para sempre.
        Graas ao lpis que hoje trago  mo, mantenho-me desperto.
Vejo, entrevejo imagens bizarras que no podem ter qualquer
relao com meu passado: uma locomotiva que resfolega pela

8 9

encosta acima a arrastar inmeros vages; sabe-se l de onde
vem e para onde vai e o que estar fazendo nestas recordaes?!
        Na minha sonolncia, recordo que o compndio assegurava,
por este sistema, ser possvel recordarmos a primeira infncia,
a dos cueiros. De repente, vejo uma criana de fraldas, mas por
que tem de ser eu? No se parece nada comigo; na verdade,
acho que se trata do beb de minha cunhada, nascido h poucas
semanas e que ela mostrava a todos como se fosse um milagre,
porque tinha as mos to pequenas e os olhos to grandes.
Pobre criana! Ainda bem que se trata de recordar a minha
infncia! No saberia encontrar um jeito de te aconselhar, agora
que vives a tua, sobre a importncia de record-la para o bem
de tua inteligncia e de tua sade. Quando chegars a saber que
seria bom se pudesses reter na memria a tua vida, at mesmo
as partes que te possam repugnar? E, no entanto, inconsciente,
vais investigando o teu pequeno organismo  procura do prazer,
e as tuas deliciosas descobertas te levaro  dor e  doena, para
as quais contribuiro at mesmo aqueles que mais te querem.
Que fazer?  impossvel tutelar teu bero. No teu seio -
pequerrucho! - se vai processando uma combinao misteriosa.
Cada minuto que passa, lana-lhe um reagente. H demasiadas
possibilidades de doenas para ti, porque no  possvel que
sejam puros todos esses minutos. E alm disso - pequerrucho!
- s consangneo de pessoas que conheo. Os minutos que
agora passam at que podiam ser puros, mas tal no foram
decerto os sculos que te prepararam.
        Eis-me bem afastado das imagens que prenunciam o sono.
Vejamos amanh.


3

O FUMO

O        mdico com quem falei a esse respeito disse-me que iniciasse
meu trabalho com uma anlise histrica da minha propenso ao
fumo!
        - Escreva! Escreva! O que acontecer, ento,  que voc vai
se ver por inteiro.
        Acredito, inclusive, que a respeito do fumo posso escrever aqui
mesmo,  minha mesa, sem necessidade de ir sonhar ali naquela
poltrona. No sei como comear e invoco a assistncia de todos
os cigarros, todos iguais quele que tenho na mo.
        Hoje, descubro de repente algo de que no mais me recordava.
Os primeiros cigarros que fumei j no se encontram  venda.
Pelos anos 70, tnhamos na ustria daqueles cigarros vendidos
em caixinhas de papelo, nas quais se estampava o braso da
guia bicfala. Era isto: ao redor de uma das pequenas caixas
agrupavam-se vrias pessoas, mostravam um ou outro trao de
sua fisionomia, suficiente para insinuar-me o nome deste ou
daquele, embora no fosse ele bastante para deixar comover-me
pelo inesperado encontro. Procuro buscar mais e vou para a
poltrona; as pessoas esfumam-se, dando lugar a indivduos
cmicos, de pouca graa, a escarnecer de mim. Com desconforto,
retorno  mesa.
        Uma das figuras, de voz meio rouca, era Giuseppe,
adolescente de minha idade, e a outra, meu irmo, um ano mais novo
que eu, j falecido h tanto tempo. Parece que Giuseppe ganhava
muito dinheiro do pai e nos presenteava com aqueles cigarros.
Tenho certeza, porm, de que os oferecia mais a meu irmo do
que a mim. Vem da a necessidade que enfrentei para conseguir
outros por conta prpria. Sucedeu, portanto, que passei a roubar.
No vero, meu pai deixava sobre uma cadeira, na sala de jantar,
seu colete, em cujo bolso havia sempre alguns trocados: eu

        10        11

catava as moedas necessrias para adquirir a preciosa caixinha
e fumava um cigarro aps o outro, os dez que ela continha,
para no conservar por muito tempo o fruto comprometedor de
meu furto.
        Todas essas coisas jaziam em minha conscincia ao alcance
da mo. S agora ressurgem, porque no sabia antes que
pudessem ter importncia. Mas com isso j registrei a origem do
hbito pernicioso e (quem sabe?) talvez assim esteja curado.
Para certificar-me, vou acender um ltimo cigarro, que talvez
atire fora em seguida, enojado.
        Recordo-me de que meu pai um dia me surpreendeu com o
colete dele na mo. Eu, com uma desfaatez que agora no
teria e que ainda hoje me repugna ( possvel que tal sentimento
de repulsa venha a ter mesmo grande importncia em minha
cura), disse-lhe que fora assaltado pela curiosidade de contar
os botes de seu colete. Meu pai riu dessa minha disposio
para a matemtica ou para a alfaiataria e no percebeu que eu
tinha os dedos metidos no bolsinho. Seja dito em meu louvor que
bastou aquele riso, provocado por uma inocncia que no havia
em mim, para impedir-me para sempre de roubar. Ou melhor...
roubei outras vezes, mas sem sab-lo. Meu pai deixava pela casa
charutos virgnia fumados a meio, equilibrados  borda das mesas
e das cmodas. Eu imaginava que era a sua maneira de jog-los
fora e pensava tambm que nossa velha criada Catina dali os
poria no lixo. Comecei a fum-los s escondidas. O simples
fato de apossar-me deles j vinha pervadido por uma sensao
de estremecer, ao dar-me conta do mal que me estava reservado.
Mas mesmo assim fumava-os at sentir a fronte coberta de suores
frios e o estmago embrulhando. No se pode dizer que na
infncia eu fosse isento de fora de vontade.
        Sei perfeitamente como meu pai me curou tambm desse
hbito. Num dia de vero, eu tinha voltado de uma excurso
escolar, cansado e banhado de suor. Mame ajudou-me a tirar as
vestes e, depois de envolver-me num roupo, me ps a dormir
num sof onde ela prpria sentou-se tambm para fazer uma
costura. Eu estava quase adormecido, mas, com os olhos ainda
cheios de sol; custava a entregar-me ao sono. A deliciosa
sensao que naquela idade encontramos no repouso que se segue
a uma grande fadiga aparece-me agora como uma imagem
prpria, to evidente como se eu ainda estivesse l, junto daquele
corpo que no existe mais.
        Recordo a sala grande e fresca onde ns, crianas,
brincvamos e que hoje, nestes tempos vidos de espao, foi dividida em
duas. Meu irmo no aparece nesta cena, o que muito me
surpreende, pois creio que certamente participara da excurso e
teria, portanto, igual direito ao repouso. Tambm teria sido
posto a dormir, no outro brao do sof? Olho para o local, mas
me parece vazio. Vejo apenas a mim, a delcia do repouso, minha
me, e depois meu pai cujas palavras sinto ecoar. Entrara sem
perceber que eu ali estava, pois chamou em voz alta:
        - Maria!
        Mame, com um gesto acompanhado de um leve movimento
dos lbios, apontou para mim, pois me supunha imerso no sono
acima do qual eu ainda vagava em plena conscincia. Agradou-me
tanto que papai tivesse de tratar-me com aquela
considerao que permaneci imvel.
        Ele ps-se a lamentar em voz baixa:
        - Devo estar maluco. Estou quase certo de ter deixado ainda
h pouco um charuto apagado em cima daquela cmoda e no
consigo encontr-lo. Estou cada vez pior. No me lembro de
nada.
        Tambm em voz baixa, mas que traa uma hilaridade contida
apenas pelo temor de despertar-me, minha me respondeu:
        - E olha que ningum esteve aqui na sala depois do almoo.
        Papai murmurou:
        - Exatamente por isso acho que estou doido!
        Voltou-se e saiu.
        Entreabri os olhos e espreitei minha me. Ela havia voltado
a ateno  costura, mas continuava a sorrir. Decerto no achava
que papai fosse ao ponto de estar doido para sorrir assim de
seu temor. Aquele sorriso me permaneceu de tal forma impresso
na lembrana que um dia o revi nos lbios de minha mulher.
        Mais tarde, a falta de dinheiro j no constitua obstculo 
satisfao de meu vcio, mas bastavam as proibies para
incit-lo.
        Lembro-me de haver fumado muito, escondido em todos os
lugares possveis. Recordo-me particularmente de uma meia hora
passada no interior de um poro sombrio, por fora da indis-

        12        13

posio fsica que em seguida me assaltou. Estava em companhia
de dois outros garotos de quem guardei na memria apenas a
ridcula infantilidade de suas roupas: dois pares de calas curtas
que ainda esto hirtos em minha memria como se os corpos
que as animavam j no tivessem sido eliminados pelo tempo.
Tnhamos muitos cigarros e queramos saber quem seria capaz
de fumar a maior quantidade em menos tempo. Ganhei a parada,
ocultando heroicamente o mal-estar que me adveio do estranho
exerccio. Depois samos para o ar livre e para o sol. Tive de
cerrar os olhos para no cair desmaiado. Logo me recompus e
vangloriei-me da proeza. Um dos garotos ento me disse:
        - No me importo de ter perdido. S fumo enquanto estou
gostando.
        Recordo-me da observao sadia, mas no da face certamente
saudvel do menino que a proferiu, embora devesse estar olhando
para ele no momento.
        quela poca eu no sabia se amava ou odiava o fumo e o
gosto do cigarro, bem como o estado a que a nicotina me
arrastava. Quando compreendi que odiava tudo aquilo, a coisa foi
pior. E s fui compreend-lo por volta dos vinte anos. Nessa
poca sofri durante algumas semanas de violenta dor de garganta
acompanhada de febre. O mdico prescreveu-me repouso e
absteno absoluta dc fumar. Recordo a impresso que a palavra
absoluta me causou, enfatizada pela febre: abriu-se diante de
mim um vazio enorme sem que houvesse algum que me
ajudasse a resistir a intensa presso que logo se produz em torno
de um vazio.
        Quando o doutor se foi, meu pai (mame j havia morrido h
muitos anos), com uma guimba de charuto na boca, ainda ficou
algum tempo me fazendo companhia. Ao ir-se embora, depois
de me haver passado ternamente a mo sobre a testa escaldante,
disse:
        - E nada de fumar, est ouvindo?
        Fui invadido por enorme inquietude. Pensei: "J que me faz
mal, nunca mais hei de fumar, mas antes disso quero faz-lo
pela ltima vez." Acendi um cigarro e logo me senti relevado da
inquietude, apesar de a febre talvez aumentar e de sentir a cada
tragada que as amgdalas me ardiam como se tocadas por um
tio. Fumei o cigarro at o fim com a determinao de quem
cumpre uma promessa. E, sempre experimentando dores
horrveis, fumei muitos outros enquanto estive acamado. Meu pai ia
e vinha com seu charuto na boca, dizendo:
-        Muito bem! Mais alguns dias de absteno e estar curado!
        Bastava esta frase para me fazer desejar que ele se fosse logo,
a fim de que eu pudesse correr imediatamente para o cigarro.
s vezes fingia mesmo dormir para induzi-lo a ir-se mais
depressa.
        Aquela enfermidade foi a causa de meu segundo distrbio: o
esforo para libertar-me do primeiro. Meus dias acabaram por
ser um rosrio de cigarros e de propsitos de no voltar a fumar,
e, para ser franco, de tempos em tempos so ainda assim. A
ciranda do ltimo cigarro comeou aos vinte anos e ainda hoje
est a girar. Minhas resolues so agora menos drsticas e, 
medida que envelheo, torno-me mais indulgente para com
minhas fraquezas. Ao envelhecermos, sorrimos da vida e de todo
o seu contedo. Posso assim dizer que, desde h algum tempo,
tenho fumado muitos cigarros... que no sero os ltimos.
        Na folha de rosto de um dicionrio encontro um registro meu
feito com bela caligrafia e alguns ornatos:
        "Hoje, 2 de fevereiro de 1886, deixo de estudar leis para me
dedicar  qumica. ltimo cigarro!"
        Tratava-se de um 'ltimo cigarro' muito importante. Recordo
todas as esperanas que o acompanharam. Havia perdido o gosto
pelo direito cannico, que me parecia distanciado da vida, e
corri para a cincia, que  a prpria vida, se bem que reduzida
a uma retorta.
        Aquele ltimo cigarro representava o prprio anseio de
atividade (tambm manual) e de meditao sbria, serena e slida.
        Para fugir das cadeias de combinaes do carbono, em que
no acreditava, resolvi voltar ao direito. Muito pior! Foi um
erro igualmente registrado com um ltimo cigarro, cuja data
encontro inscrita numa pgina de livro. Tambm este foi
importante. Eu me resignava a voltar s intrincncias do direito com
os melhores propsitos, abandonando para sempre as cadeias de
carbono. Convenci-me de falta de pendor para a qumica at
mesmo pela minha inabilidade manual. Como poderia t-la, se
continuava a fumar como um turco?

14 15

        Agora que estou a analisar-me, assalta-me uma dvida: no
me teria apegado tanto ao cigarro para poder atribuir-lhe a culpa
de minha incapacidade? Ser que, deixando de fumar, eu
conseguiria de fato chegar ao homem forte e ideal que eu me
supunha? Talvez tenha sido essa mesma dvida que me
escravizou ao vcio, j que  bastante cmodo podermos acreditar
em nossa grandeza latente. Avento esta hiptese para explicar
minha fraqueza juvenil, embora sem convico definida. Agora
que sou velho e que ningum exige nada de mim, passo com
freqncia dos cigarros aos bons propsitos e destes novamente
aos cigarros. Que significam hoje tais propsitos? Como aquele
velho hipocondraco, descrito por Goldoni, ser que desejo
morrer so depois de ter passado toda a vida doente?
        Certa vez, quando era estudante, ao mudar de uma penso,
tive que mandar pintar de novo as paredes do quarto, porque
eu as havia coberto de datas. Devo ter mudado de quarto
exatamente porque aquele se havia transformado em cemitrio de
minhas boas intenes e j no achava possvel formular outras
naquele mesmo lugar.
        Creio que o cigarro, quando se trata do ltimo, revela muito
mais sabor. Os outros tm, sem dvida, seu gosto especial, porm
menos intenso. O ltimo deriva seu sabor do sentimento de
vitria sobre ns mesmos e da esperana de um futuro de fora
e de sade. Os outros tm a sua importncia porque, acendendo-os,
afirmamos a nossa liberdade e o futuro de fora e de sade
permanece, embora um pouco mais distanciado.
        As datas inscritas nas paredes de meu quarto eram de cores
variadas e algumas at a leo. O propsito, refeito com a f mais
ingnua, encontrava expresso adequada no vigor do colorido
que devia fazer esmaecer o da inteno precedente. Algumas
delas gozavam de minha preferncia pela concordncia dos
algarismos. Recordo uma data do sculo passado que me pareceu a
lpide capaz de selar para sempre o tmulo de meu vicio: "Nono
dia do nono ms de 1899." Significativa, no  mesmo? O novo
sculo trouxe-me datas igualmente musicais: Primeiro dia do
primeiro ms de 1901." Ainda hoje sinto que se fosse possvel
repetir a data eu saberia como iniciar nova vida.
        Mas outras datas viriam, e, com um pouco de imaginao,
qualquer uma delas poderia adaptar-se a uma boa inteno.
Recordo, pelo fato de que me pareceu conter um imperativo
supremamente categrico, a seguinte data: "Terceiro dia do sexto ms
de 1912 s 24 horas." Soa como se cada nmero dobrasse a
parada do antecedente.
        O ano de 1913 deu-me um momento de hesitao. Faltava o
dcimo-terceiro ms para faz-lo corresponder ao ano. Mas no
se pense que seja necessrio tamanho acordo numa data para
dar ensejo a um ltimo cigarro. Muitas datas, que encontro
consignadas em livros ou quadros preferidos, despertam a
ateno pela sua inconseqncia. Por exemplo, o terceiro dia do
segundo ms de 1905, s seis horas! Nesta h tambm um ritmo,
quando se observa que cada uma das cifras  como uma negao
da precedente. Muitos acontecimentos, quase todos, desde a
morte de Pio IX ao nascimento de meu filho, pareceram-me
dignos de ser festejados com o frreo propsito de sempre.
Todos na famlia se admiram de minha memria para os
aniversrios alegres ou tristes e atribuem isso  minha bondade!
        Para atenuar-lhe a aparncia ridcula, tentei dar um contedo
filosfico  enfermidade do ltimo cigarro. Assume-se uma
atitude altiva e diz-se: "Nunca mais!" Porm, o que  feito da
atitude se mantemos a promessa? S podemos reassumi-la se
renovamos o propsito. Alm disso, o tempo para mim no  essa
coisa insensata que nunca pra. Para mim, s para mim, ele
retorna.



A doena  uma convico, e eu nasci com essa convico. No
me lembraria da que contra aos vinte anos se no a tivesse
naquela poca relatado a um mdico. Curioso como recordamos
melhor as palavras ditas que os sentimentos que no chegaram
a repercutir no ar.
        Fora ver esse mdico que me disseram curar doenas nervosas
com emprego da eletricidade. Pensei poder extrair da
eletricidade a fora que me faltava para deixar o fumo.
        O doutor tinha uma barriga enorme e sua respirao
asmtica acompanhava as batidas da mquina eltrica, posta em
funcionamento desde a primeira consulta; isso me desiludiu, porque
esperava que o doutor, examinando-me, descobrisse o veneno

16 17

que me inquinava o sangue. Em vez disso, declarou que me
achava em perfeita sade e, j que me queixava de m digesto
e de insnia, admitiu que eu tivesse carncia de cidos no
estmago e um movimento peristltico preguioso (disse tal palavra
tantas vezes que nunca mais a esqueci). Chegou a prescrever
certo cido que me arruinou o estmago de tal forma que at
hoje sofro de excesso de acidez.
        Quando compreendi que por si mesmo ele jamais chegaria a
descobrir que a nicotina me contaminava o sangue quis ajud-lo,
aventando-lhe a hiptese de que minha indisposio pudesse
ser atribuda a isso. Ergueu os grandes ombros com enfado:
        - Movimento peristltico... cido.., a nicotina nada tem
a ver com isso!
        Submeti-me a setenta aplicaes eltricas e elas teriam
continuado se eu no resolvesse que j eram o bastante. Mais do
que  espera de um milagre, corria ao consultrio na esperana
de convencer o mdico a me proibir de fumar. Quem sabe as
coisas tomariam outro rumo se meus propsitos fossem
fortificados por uma tal proibio?
        Mas vamos  descrio de minha doena, tal como a relatei ao
mdico: "No consigo estudar e, nas raras vezes em que me
deito cedo, permaneo insone at os primeiros toques de sinos.
 por isso que hesito entre a qumica e o direito, pois ambas as
cincias exigem um trabalho que comea em hora fixa, ao passo
que no sei quando conseguiria levantar-me."
        - A eletricidade cura qualquer insnia - sentenciou o
esculpio, olhos sempre voltados para o mostrador do aparelho em
vez de t-los fixos no doente.
        Cheguei a conversar com ele como se o homem fosse capaz
de compreender a psicanlise em que eu, timidamente, me
iniciava. Contei-lhe sobre o meu problema com as mulheres. Uma
s no me bastava, nem mesmo muitas. Queria-as todas! Pelas
ruas, minha agitao era enorme:  medida que passavam, as
mulheres eram minhas. Olhava-as com insolncia pela
necessidade de sentir-me brutal. No pensamento despia-as todas,
deixando-as apenas de sapatos, tomava-as nos braos e s as soltava
quando tinha certeza de conhec-las bem.
        Sinceridade e flego desperdiados! O doutor resfolegava:
        - Espero que as aplicaes eltricas no o venham curar
desse mal. Era o que faltava! Jamais empregaria estas ondas se
pudesse temer semelhante efeito.
        Contou-me uma anedota que achava saborosssima. Um doente,
que se queixava da mesma molstia que eu, consultou um
mdico famoso para pedir que o curasse; o mdico, tendo
conseguido faz-lo perfeitamente, foi obrigado a mudar de consultrio
seno o outro o teria esfolado vivo.
        - A minha excitao no  normal - gritava eu. - Vem
do veneno que arde em minhas veias!
        O doutor murmurava com expresso amargurada:
        - Ningum est feliz com sua sorte.
        Foi para convenc-lo que fiz o que ele no se dispunha a
fazer: estudei minha enfermidade atravs de todos os seus
sintomas. Minha distrao! At esta me impedia de estudar. Quando
me preparava em Graz para o primeiro exame de direito, anotei
cuidadosamente todos os testes de que necessitava at a prova
final. Acontece que, poucos dias antes do exame, percebi que
estudava s as matrias de que iria precisar alguns anos mais
tarde. Por isso tive de trancar matrcula.  bem verdade que
mesmo as outras matrias eu pouco havia estudado por causa
de uma vizinha que, de resto, s me brindava com sua descarada
provocao. Quando chegava  janela, eu no via mais o texto.
S um imbecil se comportaria assim. Recordo a carinha
pequenina e clara da moa na janela: oval, circundada de airosos
cachinhos louros. Eu a contemplava, sonhando esmagar contra
o meu travesseiro aquela brancura emoldurada de ouro.
        O esculpio murmurou:
        - Sempre h na excitao alguma coisa de bom. Ver que
na minha idade  intil excitar-se.
        Hoje sei com certeza que ele no entendia nada do assunto.
Tenho cinqenta e sete anos e estou certo de que, se no deixar
de fumar ou se no for curado pela psicanlise, em meu leito
de morte meu ltimo olhar ser de desejo pela minha
enfermeira, se esta no for minha mulher e se minha mulher tiver
permitido que ela seja bela!
        Fui sincero como se me confessasse: a mulher no me atraa
como um todo, mas... fragmentariamente. Em todas apreciava
os pezinhos bem calados; em muitas o colo delicado ou mesmo

        18        19

portentoso; e sempre os seios pequenos, pequeninos. E continuava
enumerando as partes anatmicas femininas, quando o doutor
me interrompeu:
        - Estas partes formam uma mulher inteira.
        Disse ento algo importante:
        - O amor saudvel  aquele que se resume numa mulher
apenas, ntegra, inclusive de carter e inteligncia.
        At ento no conhecera tal amor e, quando este me
sobreveio, nem mesmo ele conseguiu restaurar-me a sade, embora
para mim seja importante recordar que detectava a doena ali
onde os doutos s viam sade, acabando assim por confirmar
o meu diagnstico.
        Na pessoa de um amigo leigo encontrei quem melhor entendeu
a meu respeito e de minha doena. No tive com isso grande
vantagem, mas em minha vida vibrou uma nota nova que ecoa
ainda hoje.
        Meu amigo era um senhor rico que ornava seus cios com
estudos e trabalhos literrios. Falava muito melhor do que
escrevia e por isso o mundo no poder avaliar o bom literato
que perdeu. Era grande e gordo e quando o conheci estava
empenhado num regime de emagrecimento. Em poucos dias
chegara a to excelentes resultados que os conhecidos se
aproximavam dele na rua para comparar sua prpria gordura com a
progressiva magreza deste amigo. Tinha-lhe inveja porque
conseguia fazer tudo quanto desejava, e por isso no o larguei
enquanto durou seu tratamento. Fazia-me tocar-lhe a barriga que
a cada dia diminua mais, e eu, rodo de despeito, para
enfraquecer-lhe a determinao, dizia:
        - Mas, concluda a dieta, o que far voc com toda esta
pelanca?
        Com grande calma, que tornava cmico seu rosto emaciado,
respondia:
        -        Daqui a dois dias comearei as massagens.
        Seu tratamento fora preparado em todos os detalhes e no
tenho dvida de que ele os cumpria com estrita regularidade.
        Acabou por inspirar-me grande confiana e um dia descrevi-lhe
a minha enfermidade. Recordo-me perfeitamente a minha
descrio. Expliquei-lhe que me parecia muito mais fcil deixar
de comer trs vezes por dia do que ter de tomar a cada instante
a fatigante resoluo de no fumar outro cigarro. Com tal
resoluo em mente no nos sobrava tempo para mais nada, pois
s Jlio Csar sabia fazer vrias coisas ao mesmo tempo. 
verdade que ningum vai querer que eu trabalhe enquanto estiver
vivo o meu procurador Olivi, mas de que modo explicar que
uma pessoa como eu no saiba fazer outra coisa no mundo
seno sonhar ou arranhar o violino, para o qual, alis, no tenho
a menor vocao?
        O        gordo emagrecido no respondeu imediatamente. Era
homem metdico e primeiro meditou com vagar. Depois, com ar
doutoral, que lhe cabia dada a sua superioridade de
argumentao, explicou-me que eu estava realmente sofrendo mais por
causa de minhas resolues do que propriamente pelo cigarro.
Devia tentar deixar o vcio sem uma expressa determinao.
Em mim - segundo ele - com o correr do tempo se haviam
formado duas personalidades, uma que comandava e outra que
lhe era escrava, a qual, to logo enfraquecia a vigilncia,
contrapunha-se  vontade do senhor pelo simples amor  liberdade.
Era necessrio conceder-lhe liberdade absoluta e ao mesmo
tempo encarar meu vcio como algo de novo que visse pela primeira
vez. Era preciso no combat-lo, mas descur-lo, tratando-o com
total indiferena, voltando-lhe as costas como se faz a algum
que achamos indigno de nossa companhia. Simples, no 
mesmo?
        Na verdade, a coisa pareceu-me simples.  certo que, tendo
conseguido com grande esforo eliminar de meu esprito
quaisquer propsitos, cheguei a no fumar por vrias horas, mas,
estando a boca isenta do gosto do fumo, senti um sabor inocente
como o que devem sentir os recm-nascidos e veio-me o desejo
de um cigarro; mal o fumei, porm, adveio o remorso e de
novo retornei  resoluo que havia tentado suprimir. Tratava-se
de uma via mais longa, mas o fim era o mesmo.
        O        safado do Olivi um dia deu-me uma idia: fortalecer minha
resoluo mediante uma aposta.
        Creio que Olivi sempre teve o mesmo aspecto com que ainda
o        vejo. Sempre o vi assim, um pouco curvo, conquanto robusto.
e sempre me pareceu velho, como velho o vejo agora que conta
oitenta anos. Trabalhou e trabalha para mim, mas no gosto dele,
pois penso que me impediu de fazer o trabalho que ele faz.

20 21

        Vamos apostar! Quem fumar primeiro paga a aposta e depois
ambos recuperamos a liberdade de fumar. Dessa forma, o
procurador, que me fora imposto para impedir que eu dilapidasse
a herana de meu pai, tentava diminuir a de minha me, ento
administrada livremente por mim!
        A aposta revelou-se perniciosa. J no era alternativamente
senhor e escravo, mas s escravo, e de Olivi, de quem no
gostava! Logo voltei a fumar. Depois pensei engan-lo, fumando s
escondidas. Mas, neste caso, para que a aposta? Tratei de
procurar uma data que guardasse certa relao com a do incio
da aposta para poder fumar um ltimo cigarro e assim, de certa
forma, iludir-me de estar a cumpri-la. Mas a rebelio continuava,
e fumei tanto que acabei angustiado. Para libertar-me do peso
da conscincia, fui a Olivi e confessei-lhe tudo.
        O velho embolsou sorridente o dinheiro da aposta e, em
seguida, sacou um grosso charuto, que acendeu e se ps a fumar
com volpia. No tive mais dvida de que ele cumprira a
promessa. Compreende-se que os outros sejam diferentes de mim.
        Meu filho acabava de completar trs anos quando minha
mulher teve uma idia excelente. Insistiu para que eu me
internasse por algum tempo numa casa de sade, a fim de
desintoxicar-me. Aceitei incontinenti, primeiro porque queria que meu
filho, ao chegar  idade da razo, pudesse considerar-me
equilibrado e sereno, e tambm pela razo mais urgente de Olivi
andar adoentado e ameaar abandonar-me. Tendo eu assim de
assumir suas atividades de um momento para o outro,
considerava-me pouco apto para tamanha atividade com toda aquela
nicotina no corpo.
        A princpio, pensamos na Sua, o clssico pas dos
sanatrios, mas depois soubemos que um certo Dr. Muli acabara de
abrir uma clnica em Trieste. Encarreguei minha mulher de
procur-lo, e ele se disps a colocar  minha disposio um pequeno
apartamento fechado, onde eu ficaria sob cuidados de uma
enfermeira, auxiliada por outras pessoas. Ao falar-me do assunto,
minha mulher ora sorria ora gargalhava clamorosamente.
Divertia-lhe a idia de fazer-me encerrar, e eu, de boa vontade,
tambm ria com ela. Era a primeira vez que se associava s
minhas tentativas de cura. At ento no levava minha doena a
srio e dizia que o fumo no passava de uma forma um tanto
estranha, mas no das piores, de viver.
        Acho que constituiu para ela surpresa agradvel constatar que
depois de nosso casamento jamais lamentei a perda de minha
liberdade, preocupado que estava em lamentar outras coisas.
        Fomos  casa de sade no dia em que Olivi me comunicou
sua deciso inabalvel de deixar os servios no ms seguinte.
Preparamos uma valise com alguma roupa e seguimos naquela
tarde para ver o Dr. Muli.
        Recebeu-nos pessoalmente  porta. Tratava-se de um belo
jovem. Estvamos em pleno vero e ele, pequenino, nervoso,
a face bronzeada pelo sol, na qual brilhavam ainda melhor os
seus vvidos olhos negros, era a imagem da elegncia, na
indumentria toda branca do colete aos sapatos. Logo despertou
minha admirao, embora evidentemente eu tambm me sentisse
objeto da sua.
        Um pouco embaraado, compreendendo a razo de sua
admirao, disse-lhe:
        -        Vejo que o senhor no acredita nem na minha necessidade
de tratamento nem na sinceridade com que a ele me entrego.
        Com um leve sorriso, que me ofendeu, retorquiu:
        -        Por qu? Pode acontecer perfeitamente que o cigarro lhe
seja mais prejudicial do que ns mdicos julgamos. S no
compreendo por que o senhor, em vez de querer deixar de fumar
ex abrupto, no tenha antes decidido diminuir o nmero de
cigarros que fuma por dia. Pode-se fumar, o que no se deve 
exagerar.
        Na verdade,  fora de querer deixar de todo o fumo, a
eventualidade de fumar menos nunca me havia ocorrido. Mas,
chegando-me naquele momento, o conselho no conseguiu seno
esmorecer o meu propsito. Tomei, porm, uma deciso:
        -        Em todo caso, j que estou aqui, deixe-me tentar a cura.
        -        Tentar? - riu o mdico com ar de superioridade. - Uma
vez iniciado o tratamento, a cura  quase certa. Se o senhor no
quiser usar de fora fsica para com a pobre Giovanna, no
poder sair daqui. As formalidades para libertar-se levariam
tanto tempo que o senhor at l esqueceria o vcio.

        22        23

        Estvamos no apartamento que me era destinado e ao qual
chegamos descendo ao trreo depois de havermos subido antes
ao segundo piso.
        - Est vendo? Aquela porta trancada impede a comunicaO
com a outra parte do trreo onde est a sada. Nem mesmo
Giovanna tem as chaves. Ela prpria, para chegar  rua, tem que
subir ao segundo andar e s ela tem a chave da porta que
cruzamos no patamar. Alm disso, h sempre um vigilante no
segundo andar. O que no  mau para uma casa de sade
destinada a recm-nascidos e parturientes.
        E ps-se a rir, talvez ante a idia de me haver trancado junto
com as crianas.
        Chamou Giovanna e ele apresentou-a a mim. Era uma
criatura de idade indefinida, que podia variar dos quarenta aos
sessenta anos. Tinha olhos pequeninOS e de intensa
luminosidade, emoldurados por cabelos grisalhos. O doutor lhe disse:
        - Este  o senhor com quem voc deve estar pronta at
para brigar.
        A mulher perscrutou-me a face, ruborizoU-Se e redargiu com
voz estrdula:
        - Cumprirei meu dever, mas de maneira alguma irei lutar
com o senhor. Se me ameaar, chamarei o enfermeiro que  um
homem forte, e se ele no vier logo, deixarei o senhor ir para
onde bem quiser, pois no estou aqui para arriscar a pele!
        Soube depois que o doutor lhe havia confiado aquele encargo
mediante a promessa de uma compensao bastante polpuda, o
que contribura para amedront-la. Mas no momento suas
palavras me irritaram. Em boa coisa eu me havia metido
voluntariamente!
        - Ora, vai arriscar coisa nenhuma! - gritei. - Quem est
pensando que lhe vai tocar na pele? - Voltei-me para o
doutor: - Faa saber a essa senhora que no quero ser
importunado! Trouxe comigo alguns livros e exijo que me deixem
em paz.
        O doutor interveio com algumas palavras de admoestao a
Giovanna. Esta, para justificar-Se, voltou a atacar-me.
        - Tenho duas filhas menores e preciso viver.
        - Esteja tranqila que no vou mat-la - respondi num
tom que de certo no seria de acalmar a pobrezinha.
        O doutor fez com que ela fosse ao andar superior a pretexto
de buscar qualquer coisa e, para sossegar-me, props-me colocar
outra pessoa no lugar dela, ajuntando:
        - No  m pessoa e, depois que lhe recomendei para ser
mais discreta, estou certo de que no lhe dar motivo de queixa.
        No intuito de demonstrar que no dava a menor importncia
 pessoa encarregada de vigiar-me, manifestei minha
concordncia em atur-la. Sentindo desejo de acalmar-me, tirei do
bolso o penltimo cigarro e fumei-o avidamente. Expliquei ao
doutor que havia trazido apenas dois comigo e que iria deixar
de fumar  meia-noite em ponto.
        Minha mulher despediu-se de mim juntamente com o doutor.
Disse-me sorrindo:
        - J que voc assim resolveu, agente firme.
        Seu sorriso, que eu amava tanto, pareceu-me zombeteiro e foi
exatamente nesse instante que germinou em meu esprito um
sentimento novo que levaria uma tentativa iniciada com tanta
seriedade a falir miseravelmente. Senti-me logo mal e percebi
o que me fazia sofrer quando me deixaram s. Um estpido e
amargo cime pelo jovem doutor. Ele era bonito, livre! Por que
minha mulher no haveria de gostar dele? Seguindo-a, ao sarem,
ele havia observado seus ps elegantemente calados. Desde que
me casara, era a primeira vez que sentia cimes. Que tristeza!
Isso decorria certamente de meu abjeto estado de prisioneiro!
Lutei! O sorriso de minha mulher era o seu sorriso de sempre
e no um escrnio por me haver afastado de casa. Contudo,
partira dela a idia de me fazer internar, embora no desse
nenhuma importncia ao meu vcio; sem dvida, fizera-o para
me agradar. Alm de tudo, no era nada fcil para algum
enamorar-se de minha mulher. Se o doutor lhe havia reparado os
sapatos, era certamente porque queria comprar uns iguais para
a sua amante. Ento, fumei meu ltimo cigarro; ainda no era
meia-noite, mas onze horas, hora inteiramente impossvel para
um ltimo cigarro.
        Abri um livro. Lia sem prestar ateno e comecei a ter vises.
A pgina sobre a qual fixava os olhos cobria-se de fotografias
do Dr. Muli em toda a glria de sua beleza e elegncia. No
consegui resistir! Chamei Giovanna. Talvez conversando me
aquietasse.

24 25

        Ela chegou e de imediato me deitou um olhar desconfiado.
Foi dizendo com sua voz estrdula:
        - No pense que vai afastar-me de meu dever.
        Menti, para acalm-la, dizendo que isso nem me passava pela
cabea, mas que estava sem vontade de ler e preferia conversar
um pouco. Fi-la sentar-se  minha frente.  bem verdade que
me repugnava seu aspecto de velha e os olhos juvenis e espertos
que contrastavam com os dos animais tmidos. Tinha pena de
mim mesmo por ter que suportar tal companhia!  certo que,
mesmo em liberdade, no sei escolher as companhias que mais
me convm, porque em geral so os outros que me escolhem,
tal como fez minha mulher.
        Pedi a Giovanna que me distrasse e, como respondesse nada
saber que merecesse minha ateno, pedi que falasse da famlia
dela, j que quase todos neste mundo tm a sua.
        Aquiesceu e ps-se a contar como fora obrigada a internar as
duas filhas em instituies de caridade.
        Comecei a ouvir com agrado a sua histria e achei graa na
facilidade com que despachou os dezoito meses de gravidez. Mas
a mulher tinha ndole polmica e eu j no conseguia ouvi-la
quando quis provar que agira assim dada  exigidade de seu
salrio e que o doutor fora injusto quando alguns dias antes
afirmara que duas coroas por dia bastavam, de vez que a
instituio de caridade manteria a famlia dela. Gritava:
        - E o resto? Embora tenham roupa e comida, h muitas
coisas de que precisam! - E desfiou uma srie de coisas que
precisava prover para as filhas e de que no me recordo mais,
j que, para proteger meus ouvidos da voz estrdula, afastei meu
pensamento para outros assuntos. Mas tinha os tmpanos feridos
e achei que fazia jus a uma compensao:
        - No dava jeito de arranjar um cigarrinho, um s? Sou
capaz de lhe dar dez coroas, mas amanh, pois agora no tenho
um vintm comigo.
        Giovanna ficou terrivelmente espantada com a minha
proposta. Comeou a vociferar; queria chamar imediatamente o
enfermeiro e levantou-se para sair.
        Para faz-la calar-se, desisti de meu intento e, ao acaso, s
para dizer qualquer coisa e dominar-me, perguntei:
        - Mas nesta priso no haver pelo menos algo que se beba?
        Giovanna foi pronta na resposta e, para minha surpresa, num
tom de conversao adequada, sem gritar:
        - Isso, sim! O doutor, antes de ir embora, entregou-me esta
garrafa de conhaque. Ainda nem abri. Veja, est intacta.
        Encontrava-me em tais condies que no via outra sada para
mim seno a embriaguez. Eis aonde me havia conduzido a
confiana em minha mulher!
        Naquele momento, pareceu-me que o vcio do fumo no valia
o esforo a que me deixara arrastar. J no fumava havia meia
hora e nem pensava verdadeiramente nisso, ocupado que andava
em imaginar minha mulher em companhia de Muli. Podia estar
de todo curado, mas sentia-me irremediavelmente ridculo!
        Destapei a garrafa e servi-me um clice do lquido amarelo.
Giovanna observava-me de boca aberta, mas hesitei em oferecer-lhe
um trago.
        - Pode conseguir outra garrafa quando acabar esta?
        Giovanna, sempre no mais cordial tom de conversao,
garantiu-me:
        - Tantas quantas quiser! Para atender seu pedido, a senhora
que toma conta da despensa tem ordens para se levantar nem
que seja  meia-noite!
        Nunca sofri de avareza e Giovanna logo teve o seu clice cheio
at a borda. Mal acabou de dizer obrigada e j havia entornado
o clice, voltando os olhos vidos para a garrafa. Foi, portanto,
ela mesma quem me deu a idia de embriag-la. Mas no foi
fcil!
        No saberia repetir exatamente o que essa mulher me contou
aps haver ingerido vrios clices, em seu puro dialeto triestino,
mas tive afinal a impresso de encontrar-me em presena de
algum que, no fossem as minhas preocupaes, teria estado a
ouvir com prazer.
        Antes de mais nada confidenciou-me que era bem assim que
gostava de trabalhar. Todo mundo devia ter direito a passar
algumas horas por dia em uma boa poltrona, diante de uma
garrafa de bebida, dessas que no fazem mal.
        Tentei falar por minha vez. Perguntei-lhe se era assim que ela
trabalhava quando o marido ainda vivia.
        A mulher ps-se a rir. Em vida, o marido bateu-lhe mais do
que beijou-a e, em comparao com o que teve de trabalhar para

        26        27

ele, tudo agora no passava de um verdadeiro descanso, mesmo
antes de minha chegada para o tratamento.
        Depois Giovanna ficou pensativa e perguntou-me se eu achava
que os mortos viam o que fazem os vivos. Anu vagamente. Mas
ela queria saber se os mortos, quando chegavam ao alm,
adquiriam conhecimento de tudo que se passara na terra quando ainda
eram vivos.
        Por um momento a pergunta valeu para distrair-me um pouco.
Fora formulada numa voz cada vez mais baixa, Giovanna com
receio de que os mortos pudessem ouvi-la.
        - Ento, hem - disse-lhe -, voc andou enganando seu
marido?
        Ela fez um gesto para que no falasse alto e em seguida
confessou que o havia trado, mas s durante os primeiros meses do
casamento. Depois habituara-se s surras e acabara por amar o
marido.
        Para manter viva a conversa, perguntei:
        - Quer dizer que a mais velha  filha de outro homem?
        Sempre em voz baixa admitiu que sim, tendo em vista certas
semelhanas notadas posteriormente. Compungia-lhe haver
trado o esposo. Afirmava-o, mas sempre a rir, pois so coisas de
que nos rimos mesmo quando nos doem. Mas s depois que ele
morreu; antes, visto que no sabia, a coisa no tinha a menor
importncia.
        Tocado por certa simpatia fraternal, tentei aliviar-lhe a dor,
dizendo que decerto os mortos sabiam de tudo, mas que pouco
ligavam para certas coisas.
        - S os vivos sofrem com isso! - exclamei batendo com o
punho sobre a mesa.
        Senti uma contuso e nada melhor do que a dor fsica para
despertar idias novas. Sbito ocorreu-me que, enquanto me
torturava com o pensamento de que minha mulher estaria
aproveitando minha recluso para trair-me, talvez o mdico ainda
se achasse ali na casa de sade, o que me faria recuperar a
tranqilidade. Pedi a Giovanna que fosse ver, informando que
tinha necessidade de perguntar algo ao doutor e prometendo a
recompensa de uma garrafa inteira. A mulher protestou,
retrucando que no gostava de beber tanto assim, mas logo aquiesceu
em ir e senti que subia trpega pela escada de madeira at o
segundo andar, de onde poderia sair de nossa clausura. Depois,
voltou a descer, mas escorregou, provocando grande barulho
seguido de gritos.
        - Que o diabo te carregue! - murmurei com mpeto. Se
ela tivesse quebrado o pescoo, minha situao estaria bastante
simplificada.
        Ao contrrio, regressou aos risos, achando-se j naquele
estado em que a dor no di tanto. Disse-me haver falado com o
enfermeiro que estava prestes a deitar-se, mas que
permaneceria  disposio dela mesmo na cama, caso me tornasse
perigoso. Ergueu a mo e com o indicador estendido acompanhou
aquelas palavras com um gesto de ameaa atenuado por um
sorriso. Depois, mais secamente, acrescentou que o doutor no
havia voltado desde que sara junto com minha mulher. Desde
aquela hora! A enfermeira estivera at pouco  espera de que
ele voltasse, pois havia um doente que precisava ser medicado
por ele. Mas desistiu de esperar.
        Encarei-a, tentando descobrir se o sorriso que lhe contraa a
face era estereotipado ou inteiramente novo, produzido pelo fato
de o doutor encontrar-se em companhia de minha mulher, em
vez de estar comigo, seu paciente. Fui tomado por uma ira que
me punha a cabea a girar. Devo dizer que, como sempre, em
meu esprito lutavam duas personalidades; a mais racional delas
me dizia: "Imbecil! Por que acha que sua mulher trai voc?
No precisaria intern-lo para ter essa oportunidade." A outra,
a que certamente queria fumar, tambm me chamava de
imbecil e gritava: "Ignora voc a comodidade que advm da
ausncia do marido? E com o doutor, a quem voc est pagando!"
        Giovanna, sem parar de beber, falava:
        - Esqueci de fechar a porta do segundo andar. Mas no
quero subir e descer de novo dois andares. Seja como for, h
gente l embaixo e o senhor se daria mal se tentasse escapar.
        - Nem pense nisso! - disse eu com o mnimo da hipocrisia
necessria para enganar a pobre. Depois ingeri tambm uns
goles de conhaque e declarei que, tendo bebida  vontade, j no
fazia questo dos cigarros. A mulher acreditou imediatamente
em mim e ento contei que, na verdade, no queria afastar-me
do fumo. Minha mulher, sim,  que o queria. Pois quando eu

28 29

chegava a fumar uma dezena deles ficava insuportvel.
Qualquer mulher que estivesse ao meu alcance corria risco.
        Giovanna ps-se a rir ruidosamente, abandonando-se na
poltrona:
        -        E a sua mulher  quem o impede de fumar os dez
cigarros de que necessita?
        - Ela mesma! Pelo menos costumava impedir.
        Giovanna no era nada tola, mesmo com todo aquele
conhaque no sangue. Foi tomada por um acesso de riso que quase
a fez cair da poltrona; contudo, quando o flego permitiu, com
palavras espaadas pintou um magnfico esboo do que minha
doena lhe sugeria:
        - Dez cigarros... meia hora... pe-se o despertador. . . e
depois...
        Corrigi-a:
        - Com dez cigarros preciso de cerca de uma hora. Depois,
para chegar ao pleno efeito  necessrio ainda meia hora, dez
minutos a mais, dez minutos a menos.
        Giovanna ficou subitamente sria e levantou-se sem grande
esforo da poltrona. Disse que ia deitar-se, sentia um pouco de
dor de cabea. Convidei-a a levar a garrafa consigo, pois eu j
havia bebido o suficiente. Para disfarar, disse-lhe que no dia
seguinte queria que me trouxesse um bom vinho.
        Ela, porm, no pensava em vinho. Antes de sair com a
garrafa sob o brao lanou-me um olhar que me deixou aturdido.
        A porta ficara aberta; passados alguns instantes caiu em
meio ao quarto um pacote que logo apanhei: continha onze
cigarros exatamente. Para estar segura, a pobre Giovanna
mostrara-se prdiga. Cigarros ordinrios, hngaros. Mas o primeiro
que acendi revelou-se timo. Senti-me profundamente aliviado.
A princpio pensei que me regozijava por haver iludido aquela
casa, excelente para encerrar crianas, no um homem como
eu. Depois me ocorreu que tinha iludido igualmente a minha
mulher, pagando-lhe na mesma moeda. No fosse assim, por que
ento meu cime se havia transformado numa curiosidade to
suportvel? Fiquei tranqilo onde estava, fumando os cigarros
nauseabundos.
        Meia hora depois, recordei que precisava escapar daquela
casa onde Giovanna estava  espera de sua recompensa. Tirei
os sapatos e sa para o corredor. A porta do quarto de Giovanna
mantinha-se entreaberta e, a julgar pela sua respirao regular
e rumorosa, pareceu-me que dormia. Subi com toda cautela at
o segundo andar e uma vez atravessada aquela porta que era o
orgulho do Dr. Muli voltei a calar os sapatos. Alcancei o
patamar e me pus a descer as escadas, lentamente para no
despertar suspeitas.
        Chegava ao primeiro andar quando uma senhorita com seu
algo elegante uniforme de enfermeira veio atrs de mim,
perguntando cortesmente:
        - O senhor est  procura de algum?
        Era engraadinha e eu teria acabado com prazer junto dela
os meus dez cigarros. Sorri um tanto agressivo:
        - O Dr. Muli no est?
        Mostrou-se um pouco surpresa:
        - A esta hora nunca est aqui.
        - No poderia dizer-me onde poderei encontr-lo? Tenho
em casa uma pessoa enferma que necessita dos cuidados dele.
        Delicadamente forneceu-me o endereo do mdico e eu o
repeti vrias vezes para fingir que desejava decor-lo. E no teria
mais pressa em afastar-me se ela, impaciente, no me tivesse
voltado as costas. Estava acabando por ser posto para fora de
minha priso.
         sada, uma mulher prontificou-se a abrir-me a porta. No
tinha um nquel comigo e murmurei:
        - Da prxima vez lhe darei algum.
        No se pode prever o futuro. Comigo as coisas costumam
repetir-se: no se exclua a hiptese de eu voltar a passar por
ali.
        A noite estava clara e agradvel. Tirei o chapu para melhor
sentir a brisa da liberdade. Contemplei as estrelas com
admirao, como se as visse pela primeira vez. No dia seguinte, longe
da casa de sade, iria deixar de fumar. Mas, at l, num caf
que ainda estava aberto, tratei de conseguir cigarros de boa
qualidade, j que me seria impossvel encerrar minha carreira
de fumante com aqueles que me dera a pobre Giovanna. O
rapaz que me atendeu conhecia-me e vendeu-me fiado.
        Quando cheguei a casa, toquei furiosamente a campainha.
De incio, a empregada veio  janela, e em seguida, aps um

30 31

tempo que no me pareceu de todo breve, surgiu minha mulher.
Eu a esperava pensando com perfeita frieza: "Tudo indica que
o Dr. Muli esteja aqui." Mas, tendo-me reconhecido, minha
mulher fez ecoar pela rua deserta uma gargalhada to sincera que
seria suficiente para apagar qualquer suspeita.
        Depois de entrar, demorei pelos cantos um olhar inquisidor.
Minha mulher, a quem prometi contar no dia seguinte as
minhas aventuras, que ela j imaginava quais fossem, no tardou
a perguntar:
        - Mas por que voc no vai deitar-se?
        Para justificar-me, disse:
        - Acho que voc aproveitou a minha ausncia para mudar
aquele armrio de lugar.
         verdade que, em casa, acho as coisas sempre fora dos
lugares e  igualmente verdade que minha mulher quase sempre 
quem as muda, mas naquele momento eu perscrutava todos os
cantos apenas para ver se por ali estaria escondido o elegante e
minsculo corpo do Dr. Muli.
        De minha mulher recebi mas foi um boa notcia. Ao voltar da
casa de sade, encontrou na rua o filho de Olivi que lhe
contara estar o velho muito melhor depois que tomara um remdio
prescrito pelo novo mdico a quem consultara.
        Ao deitar-me, achei que fizera bem em deixar a casa de
sade, pois tinha tempo suficiente para curar-me aos poucos. Meu
filho, que dormia no quarto ao lado, ainda no estava
certamente em idade de julgar-me ou imitar-me. No havia pressa
absolutamente nenhuma.



4

A MORTE DE MEU PAI

Com o mdico ausente, no sei na verdade se a biografia de meu
pai  necessria. Descrev-lo minuciosamente poderia parecer
que minha cura estivesse condicionada a analis-lo primeiro, e
chegar-se-ia assim a um impasse. Se tenho a coragem de
prosseguir  porque sei que, se meu pai necessitasse desse tratamento,
seria por algum mal totalmente diverso do meu. De toda
ma neira, para no perder tempo, direi dele somente o que puder
reavivar as recordaes de mim mesmo.
        "15.4.1890, s 4 e 30. Meu pai morreu. U.S." Para os menos
avisados as duas ltimas letras no significam United States,
mas ltima sigaretta".  a anotao que encontro num volume
de filosofia positiva de Ostwald sobre o qual passei vrias
horas cheio de esperana e que nunca cheguei a compreender.
Ningum acreditaria mas, malgrado aquela forma, essa
anotao registra o acontecimento mais importante de minha vida.
        Minha me faleceu quando eu no tinha ainda quinze anos.
Escrevi versos em sua memria, o que no equivale exatamente
a chorar a sua morte e, na minha dor, fui sempre assaltado pelo
sentimento de que a partir daquele instante deveria iniciar-se
para mim uma vida sria e de trabalho. A prpria dor acenava
para uma vida mais intensa. Depois, um sentimento religioso
sempre vivo atenuou e deliu a grave perda. Minha me
continuava a viver, embora distante de mim, e poderia compartilhar
dos sucessos que eu viesse a alcanar. Uma bela comdia!
Recordo exatamente o meu estado de ento. A morte de minha
me e a salutar emoo que me causou fizeram-me sentir que
tudo deveria melhorar para mim.
        J a morte de meu pai foi uma grande e verdadeira catstrofe.
O paraso deixou de existir e eu, aos trinta anos, era um homem
desiludido. Morto tambm! Ocorreu-me pela primeira vez que

32 33

a parte mais importante e decisiva de minha vida ficava
irremediavelmente para trs. Minha dor no era exclusivamente
egosta, como se poderia depreender destas palavras. Ao contrrio!
Chorava por ele e por mim, e por mim apenas porque ele havia
morrido. At ento eu passara de cigarro a cigarro e de uma
universidade a outra, com uma confiana indestrutvel em minha
capacidade. Contudo, creio que aquela confiana que tornava
a vida to doce teria continuado, quem sabe at hoje, se meu
pai no tivesse morrido. Com ele morto j no havia um futuro
para onde assestar minhas resolues.
        Muitas vezes, ao pensar nisto, fico intrigado pelo fato
estranho de que essa desesperana quanto ao meu futuro s se veio a
produzir com a morte de meu pai, e no antes. Tudo isso
ocorreu muito recentemente e para recordar a minha intensa dor e
todos os pormenores de minha desventura no tenho
necessidade de sonhar, segundo querem estes senhores da psicanlise.
Recordo tudo, mas no compreendo nada. At sua morte, nunca
vivi para meu pai. Nunca fiz nenhum esforo para aproximar-me
dele e, quando podia fazer isso sem ofend-lo, at me
afastava dele. Na universidade todos o conheciam pelo apelido que eu
lhe dava: O Velho Silva Mo-Aberta. Foi preciso a doena para
ligar-me a ele; doena que foi logo a morte, pois durou pouco
e o mdico o deu por desenganado. Quando me achava em
Trieste, nos vamos vez por outra, uma hora por dia no mximo.
Nunca estivemos to juntos e por tanto tempo quanto por ocasio
de sua morte. Quem dera o tivesse assistido melhor e chorado
menos! No estaria to doente! Era difcil o nosso convvio, at
porque entre ns dois nada havia de comum intelectualmente.
Olhando-nos, mostrvamos ambos o mesmo sorriso de tolerncia,
nele tornado mais amargo por uma viva ansiedade paterna com
relao ao meu futuro; em mim, ao contrrio, todo indulgncia,
certo que estava de suas fraquezas j agora destitudas de
conseqncias, tanto que as atribua em parte a sua idade. Ele foi
o primeiro a duvidar de minha fora de vontade e - ao que
me parece - um pouco cedo demais. Suspeito, embora sem
apoio de uma convico cientfica, que duvidasse de mim pelo
fato mesmo de ser seu filho, o que contribui - e aqui com
perfeita base cientfica - para aumentar minha falta de
confiana nele.
        Meu pai passava por hbil comerciante, embora eu soubesse
que seus negcios desde muito eram administrados por Olivi.
Nessa incapacidade para o comrcio residia toda a semelhana
entre ns; no havia outras. Posso dizer que eu representava a
fora e ele a fraqueza. O que venho registrando neste relato j
prova que em mim existe e sempre existiu - talvez para minha
maior desventura - um impetuoso impulso para o melhor.
Todos os meus sonhos de equilbrio e de fora no podem ser
definidos de outra maneira. Meu pai no conhecia nada disto. Vivia
perfeitamente de acordo com aquilo que fizeram dele e devo
observar que nunca se esforou no sentido de aperfeioar-se.
Fumava o dia inteiro e, aps a morte de mame, quando no
conseguia dormir, fumava durante a noite. Bebia, conquanto
com discrio, tal um gentleman,  hora do jantar, o suficiente
para assegurar-se de que dormiria, mal deitasse a cabea no
travesseiro. Considerava o fumo e o lcool dois bons
medicamentos.
        No que respeita s mulheres, soube pelos parentes que minha
me tivera alguns motivos de cime. Parece mesmo que aquela
suave mulher teve, uma ou outra vez, de intervir violentamente
para manter o marido nos eixos. Ele se deixava levar por ela,
a quem amava e respeitava, e creio que ela nunca chegou a obter
dele a confisso de alguma infidelidade, morrendo assim na
convico de se ter enganado. No entanto, os bons parentes
relatam que chegou a apanhar o marido quase em flagrante
delito com sua prpria costureira. Ele desculpou-se, alegando
distrao, com tal firmeza que acabou sendo acreditado. No
houve maiores conseqncias, a no ser a de que minha me
nunca mais foi  costureira nem deixou que meu pai l fosse.
Creio que, fosse eu a estar nesse embrulho, acabaria
confessando tudo, de preferncia a abandonar a costureira, visto que crio
razes onde quer que me detenha.
        Meu pai sabia defender sua tranqilidade como autntico
pater familias. Mantinha essa tranqilidade em casa e em seu
esprito. Lia apenas insossos livros morais, no por hipocrisia,
mas conforme a mais sincera convico: acredito que aceitasse
        piamente a verdade dessas prdicas morais e que sua conscincia
se acalmasse com essa predisposio sincera para a virtude. Agora
que envelheo e me aproximo daquele tipo de patriarca

        34        35

tambm sinto que a imoralidade preconizada  mais recriminvel
que a ao imoral. Pode-se chegar ao assassnio por dio
ou por amor; mas  instigao do assassnio s se chega por
crueldade.
        Tnhamos to pouco em comum que ele me confessou ser eu
uma das pessoas que mais o inquietavam no mundo. Meu
anseio de sade me havia levado a estudar o corpo humano. Ele,
ao contrrio, conseguira apagar da memria qualquer noo
sobre o funcionamento da prodigiosa mquina. Para ele o
corao no pulsava e no havia necessidade alguma de estarmos a
recordar a funo das vlvulas e das veias a fim de explicar o
funcionamento do organismo. Nada de movimentos, porquanto
a experincia ensinava que tudo quanto se move acaba por parar.
At mesmo a Terra para ele era imvel e solidamente plantada
sobre suas bases. Naturalmente nunca afirmara tal coisa
taxativamente, mas sofria quando eu lhe expunha um ou outro
conceito com o qual no concordasse. Interrompeu-me
desgostoso um dia em que lhe falei sobre os antpodas. Afligia-lhe a
idia daquela gente a andar de cabea para baixo.
        Reprovava-me duas outras coisas: a minha distrao e a
minha tendncia de rir das coisas mais srias. No que respeita 
distrao, a nica diferena entre ns  que ele anotava numa
agenda tudo aquilo de que se queria lembrar, revendo-a vrias
vezes ao dia. Supunha que assim acabava com a distrao e no
sofria mais com isso. Quis impor-me tambm o uso da agenda,
mas nela no cheguei a registrar seno alguns ltimos cigarros.
        Quanto ao meu desprezo pelas coisas srias, creio que meu
pai tinha o defeito de considerar como tais demasiadas coisas
deste mundo. Vejamos um exemplo: quando, depois de passar
do estudo do direito ao da qumica, e com seu consentimento
retornar ao primeiro, disse-me bonacho: - Mas fique
sabendo que voc est doido.
        No me senti de fato ofendido e, bastante grato pela sua
condescendncia, quis premi-lo fazendo-o rir. Fui consultar-me
com o Dr. Canestrini com o fim de obter um certificado. A coisa
no foi fcil, pois tive para isso de submeter-me a longos e
minuciosos exames. Depois de obt-lo, levei-o triunfalmente a meu
pai; ele, porm, no soube achar graa. Num tom amargurado
e com lgrimas nos olhos, exclamou:
-        Ah! Voc est realmente doido!
        Esse foi o prmio de minha fatigante e incua comediota.
Nunca me perdoou e jamais riria do incidente. Consultar um
mdico por troa? Fazer expedir por troa uma declarao com
selos e tudo? Coisa de doido!
        Em suma, comparado com ele, eu representava a fora e s
vezes penso que o desaparecimento daquela criatura fraca,
diante da qual eu me elevava, foi sentido por mim como uma quebra
de energia.
        Recordo que sua fraqueza ficou patente quando o canalha do
Olivi convenceu-o a fazer seu testamento. Olivi tinha pressa em
obter um documento que poria todos os meus negcios sob sua
tutela, mas parece que teve bastante trabalho para induzir o
velho a um gesto to penoso. Finalmente, meu pai decidiu-se,
conquanto seu amplo rosto sereno ensombrecesse. Pensava
constantemente na morte como se aquele ato tivesse um
compromisso com ela.
        Uma noite perguntou-me:
-        Voc acha que tudo acaba com a morte?
        Penso com freqncia no mistrio da morte, mas no estava
ainda preparado para dar-lhe a opinio que me pedia. Para
ser-lhe agradvel, arquitetei uma teoria tranqilizadora sobre o
nosso destino:
        - Creio que o prazer sobrexiste, j que a dor no  mais
necessria. A decomposio seria assim como o prazer sexual.
Em todo caso h de ser acompanhada de uma sensao de
felicidade e repouso, visto que a recomposio  sempre muito
fatigante. A morte deve ser o prmio da vida!
        Foi um belo fiasco. Estvamos ainda  mesa aps o jantar.
Ele, sem responder, levantou-se da cadeira, tomou um ltimo
gole de vinho e disse:
        - J no so horas de filosofar, principalmente com voc!
        E saiu. Segui-o preocupado e pensei ficar junto dele para
distra-lo de pensamentos tristes. Mas ele me afastou, dizendo
que eu lhe havia feito pensar na morte e nos prazeres que teve.
        No conseguia esquecer o testamento, embora ainda no me
houvesse falado a esse respeito. Recordava-se dele toda vez que
me via. Uma noite explodiu:
        - Quero dizer-lhe que fiz meu testamento.

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        Eu, para afast-lo do seu ncubo, refiz-me logo da surpresa
que sua comunicao me produzira e retruquei:
        - Eu no me darei a esse trabalho, pois espero que meus
herdeiros morram antes de mim!
        Ele inquietou-se por eu rir de um assunto to srio e reavivou
seu velho desejo de punir-me. Foi-lhe assim fcil contar-me que
bela pea me pregava colocando-me sob a tutela de Olivi.
        Devo diz-lo: comportei-me como um bom rapaz; abstive-me
de fazer objees de qualquer natureza, a fim de arranc-lo dos
pensamentos que o faziam sofrer. Declarei que me submeteria
incondicionalmente  sua ltima vontade.
        - Talvez - acrescentei - sabia comportar-me de maneira
a que o senhor se veja inclinado a modificar suas disposies.
        Isso lhe agradou bastante, inclusive porque notava que eu lhe
atribua uma longa vida, a bem dizer longussima. Contudo, quis
de mim o juramento imediato de que, se ele no viesse a dispor
de outra forma, eu no iria interferir nas atribuies de Olivi.
Tive que jurar, j que no se contentava com minha palavra
de honra. Mostrou-se to meigo a partir de ento que, quando
me torturo de remorsos por no t-lo amado devidamente antes
da morte, reevoco como paliativo aquela cena. Para ser sincero,
devo dizer que a resignao s suas disposies testamentrias
foi para mim bem fcil, pois a idia de que seria forado a no
trabalhar me pareceu ento bastante simptica.
        Cerca de um ano antes de sua morte, eu soube uma vez
intervir de maneira bastante eficiente em favor de sua sade.
Confiando-me que se sentia mal, forcei-o a procurar um mdico,
tendo-o at acompanhado ao consultrio. O doutor prescreveu
um remdio qualquer e pediu que voltasse algumas semanas
depois. Mas meu pai no quis, dizendo que odiava os mdicos
tanto quanto os coveiros; e no tomou o remdio porque isso
tambm lembrava mdicos e coveiros- Ficou algumas horas sem
fumar e, durante uma refeio, sem beber. Sentiu-se muito bem
quando pde livrar-se do tratamento, e eu, vendo-o alegre, no
pensei mais nisso.
        Depois voltei a v-lo triste. Mas seria absurdo esperar v-lo
sempre contente, velho e solitrio que agora era.


        Uma noite em fins de maro cheguei a casa mais tarde que
de costume. Nada de mau: havia cado nas mos de um amigo
erudito que queria confiar-me algumas idias sobre as origens do
cristianismo. Era a primeira vez que algum me imaginava
interessado no assunto e me dispus  longa dissertao s para
no melindrar esse amigo. Chuviscava e fazia frio. Tudo parecia
esfumado e maante, inclusive os gregos e os hebreus de que
falava o amigo, embora eu me tivesse resignado quele
sofrimento por bem umas duas horas. Minha fraqueza de sempre!
Aposto que mesmo hoje sou incapaz de qualquer resistncia, e
se algum realmente quisesse poderia por algum tempo induzir-me
a estudar at mesmo astronomia.
        Entrei no jardim que circunda a nossa casa. A ela se chega
por um curto caminho ensaibrado. Maria, nossa criada,
esperava-me  janela e, sentindo-me avizinhar, gritou na escurido.
-        o Sr. Zeno?
        Maria era uma daquelas empregadas como j no existem
hoje. Estava conosco h uns quinze anos. Depositava
mensalmente na Caixa de Penses uma parte de seu salrio para
quando chegasse  velhice, peclio que, contudo, de nada lhe serviu,
pois morreu em nossa casa pouco tempo depois de meu
casamento, trabalhando sempre.
        Contou-me que meu pai havia chegado j h algumas horas,
mas que tinha resolvido esperar-me para jantar. Como insistisse
para que jantasse sem esperar por mim, o velho mandara-a
embora com palavras meio speras. Depois, perguntou por mim
vrias vezes, inquieto e ansioso. Maria deu a entender que meu
pai no se sentia bem. Atribua-lhe certa dificuldade de falar e
respirao ofegante. Devo dizer que,  fora de estar sempre s
com o velho, Maria s vezes encasquetava a idia de que ele
andava mal. A pobre mulher pouco tinha a fazer naquela casa
solitria e achava que todos amos morrer antes dela, aps a
experincia que tivera no caso de minha me.
        Corri  sala de jantar com alguma curiosidade, mas ainda
sem preocupao. Meu pai ergueu-se repentinamente do sof
em que estava reclinado e recebeu-me com uma alegria que s
no conseguiu comover-me porque nela perpassava antes de tudo
uma expresso de censura. Isso bastou para tranqilizar-me,
pois a alegria pareceu-me sinal de sade. No percebi nenhum

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trao do balbuciar e da respirao opressa de que falara Maria.
E, em vez de reprovar-me, foi ele quem se desculpou por haver
Insistido em esperar.
        - Que vou fazer? - disse-me o bonachO. - Somos s os
dois neste mundo e queria v-lo antes de deitar-me.
        Ah! Bem que eu podia ter-me comportado com simplicidade,
tomando nos braos o pobre pai que a doena havia tornado
terno e afetuoso! Em vez disso, comecei a fazer um frio
diagnstico: o velho Silva to sensvel? Devia estar doente. Olhei-o
suspicaz e no achei nada melhor para dizer do que esta
reprovao:
        - Mas por que esperou at agora para jantar? Podia ter
comido e depois esperado por mim!
        Riu jovialmente:
        - Come-se melhor a dois.
        Essa disposiO podia ser tambm um sinal de apetite:
tranqilizei-me e me pus a comer. Com suas chinelas de casa, passo
infirme, aproximou-se da mesa e ocupou o lugar costumeirO.
Ficou a ver-me comer, depois de engolir apenas umas poucas
colheres e afastar o prato de sua frente como se este lhe repugnasse.
O riso ainda permanecia em seu rosto. S recordo, como se
fosse ontem, que nas duas ou trs vezes que o encarei afastou o
olhar de mim. Dizem que isso  sinal de falsidade; hoje, no
entantO, sei que  sinal de doena. O animal enfermo no se
deixa olhar pelas frestas atravs das quais se poderia detectar a
doena, a debilidade.
        Parecia  espera de que eu lhe contasse como havia passado
aquelas horas em que esteve  minha espera. E vendo que
atribua tanta importncia a isso, parei por um instante de comer e
disse-lhe que estivera at aquela hora discutindo as origens do
cristianiSmO.
        Fitou-me, duvidoso e perplexo:
        - Voc tambm se preocupa agora com a religio?
        Era evidente que eu lhe teria dado uma grande alegria se
me dispusesse a discutir o assunto com ele. Em vez disso, eu,
que durante a vida de meu pai me sentia combativo (mas no
depois), respondi com uma dessas frases vulgares que se ouvem
todos os dias nos cafs prximos  Universidade:
        - Para mim a religio no passa de um fenmeno como
outro qualquer que precisa ser estudado.
        - Fenmeno? - volveu ele, desconcertado. Procurou uma
resposta pronta e abriu a boca para d-la. Depois hesitou, voltou
os olhos para o segundo prato, que Maria naquele momento
lhe apresentava, e nem tocou nele. Como que para calar
melhor a boca, meteu-lhe um toco de charuto, que acendeu mas
que logo deixou apagar. Com isso obtivera uma pausa para
refletir tranqilamente. Por um instante observou-me, resoluto:
        - Voc no vai querer rir da religio?
        Eu, no papel do estudante vadio que sempre fui, respondi
com a boca cheia:
        - Nada de rir! Quero estud-la!
        Calou-se e ficou a olhar longamente o toco de charuto
descansado  beira do prato. Compreendo agora por que me disse
aquilo. Compreendo agora tudo quanto passou por aquela mente
perturbada e fico surpreso de no o haver compreendido ento.
Creio que me faltava no esprito o afeto que nos faz
compreender tantas coisas. Depois, foi-me to fcil! Ele evitava enfrentar
o meu ceticismo: uma luta difcil demais para ele naquele
momento; eu, porm, esperava poder atac-lo suavemente de
flanco, como convinha a um enfermo. Recordo que, quando falou,
sua respirao se mostrava entrecortada e suas palavras,
hesitantes.  muito cansativo prepararmo-nos para um combate.
Julguei que ele no resignaria a ir deitar-se sem antes me haver
posto em meu lugar; assim, preparei-me para uma discusso que
afinal no houve.
        - Eu - disse ele, sem tirar os olhos da ponta do charuto
j agora apagado - sinto que tenho grande experincia e
conhecimento da vida. Ningum vive inutilmente tantos anos. Sei
de muitas coisas, mas no consigo ensin-las a voc como queria.
Ah, se eu pudesse! Vejo o mago das coisas e sei distinguir o
que  justo e verdadeiro daquilo que no .
        No havia o que discutir. Murmurei pouco convicto e sem
deixar de comer:
        -  mesmo?
        No queria ofend-lo.
        - Pena que voc tenha chegado to tarde. Antes eu estava
menos cansado e saberia dizer-lhe algumas coisas.

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        Pensei que quisesse ainda me repreender por ter chegado
tarde e propus deixarmos a discusso para outro dia.
        - No se trata de discusso - respondeu em devaneio -,
mas de algo muito diferente. Algo que no se pode discutir e
que voc tambm compreenderia to logo lhe dissesse. O difcil
 diz-lo!
        Aqui, tive uma dvida:
        -        O senhor no est se sentindo bem?
        -        No posso dizer que estou mal, mas me sinto muito
cansado e agora vou dormir.
        Fez soar a campainha, embora ao mesmo tempo tivesse
chamado a criada de viva voz. Quando Maria chegou, perguntou-lhe
se a cama estava feita. Ergueu-se de repente e saiu arrastando
as chinelas. Ao passar por mim, inclinou a cabea para
oferecer a face ao beijo de costume.
        Vendo-o movimentar-se assim pouco seguro, tive novamente
a impresso de que estivesse mal e voltei a perguntar-lhe.
Repetimos ambos outra vez as mesmas palavras e ele confirmou que
estava cansado, mas no doente. Acrescentou:
        -        Agora vou pensar nas palavras que lhe direi amanh. Ver
como elas o convencero.
        -        Papai - exclamei comovido -, terei muito prazer com
isso.
        Vendo-me to disposto a submeter-me  sua experincia,
hesitou em deixar-me: tinha que aproveitar momento to favorvel!
Passou a mo pela fronte e sentou-se na cadeira sobre a
qual se apoiara para inclinar-se ao beijo. Ofegava levemente.
        -        Curioso! - falou. - No consigo dizer-lhe nada, nada
mesmo.
        Olhou em torno como se buscasse fora de si o que em seu
interior no chegava a apreender.
        -        E afinal sei tantas coisas, sei todas elas. Talvez por causa
de minha longa experincia.
        Agora sentia menos a incapacidade de expressar-se, pois at
sorria ante a prpria fora, a prpria grandeza.
        No sei por que no chamei logo o mdico. Em vez disso,
devo confessar com pena e remorso: achei que as palavras de
meu pai eram ditadas por uma presuno que muitas vezes
julguei surpreender nele. No podia, contudo, fugir  evidncia
de sua fraqueza e s por isso no discuti com ele. Agradava-me
v-lo feliz na iluso de ser to forte, quando na verdade era
fraqussimo. Lisonjeava-me o afeto que demonstrava por mim,
manifestando desejo de transmitir-me a cincia de que se
julgava possuidor, embora eu estivesse convicto de que nada
aprenderia com ele. Para lisonje-lo tambm e dar-lhe tranqilidade,
disse que no devia esforar-se em encontrar logo as palavras
que lhe faltavam, porque em ocasies semelhantes os sbios
mais ilustres punham as coisas mais complexas num cantinho do
crebro para se simplificarem por si mesmas.
        Respondeu:
        -        O que procuro no  nada complicado, na verdade. Trata-se
mesmo de encontrar uma palavra, uma nica, e hei-de
encontr-la! Mas no hoje, porque quero dormir imediatamente,
sem me perturbar por qualquer pensamento.
        Mas no se ergueu da cadeira. Hesitante e perscrutando por
um instante o meu semblante, disse:
        -        Tenho medo de no conseguir dizer-lhe o que penso, s
porque voc tem a mania de rir de tudo.
        Sorriu como se quisesse pedir para no me ressentir de suas
palavras, ergueu-se da cadeira e ofereceu pela segunda vez a
face. Renunciei a convenc-lo de que neste mundo havia muita
coisa de que se podia e se devia rir e quis afianar-lhe isto com
um forte abrao. Meu gesto foi talvez forte demais, pois ele se
desvencilhou de mim mais perturbado ainda, embora
compreendesse o meu afeto, saudando-me afavelmente com a mo.
-        Vamos dormir! - disse, alegre, e saiu seguido por Maria.
Uma vez s (estranho tambm isso!), no pensei na sade de
meu pai; comovido e - posso diz-lo - com todo respeito
filial deplorei que um esprito como aquele, aspirando a metas
to elevadas, no tivesse tido a oportunidade de uma melhor
educao. Hoje que escrevo, depois de me haver avizinhado da
idade que meu pai tinha quela poca, sei por experincia que
um homem pode ter a conscincia de possuir um elevado
intelecto, mesmo quando essa conscincia  a nica prova que tem
disso. Basta isto: enchemos os pulmes de ar e sentimos como
a Natureza  grandiosa e como se nos apresenta imutvel: 
assim que manifestamos e participamos da mesma inteligncia
que concebeu a Criao.  certo que o sentimento de intelign-

42 43

cia de meu pai no ltimo instante lcido de vida foi originado
por sua repentina inspirao religiosa, tanto  verdade que se
disps a falar-me depois de saber que eu andara ocupado com
as origens do cristianismo. Contudo, agora sei que tal
sentimento era tambm o primeiro sintoma de um edema cerebral.
        Maria veio tirar a mesa e disse que lhe parecia que meu pai
adormecera imediatamente. DepOiS, tambm eu me recolhi,
inteiramente despreOcupado. L fora o vento soprava e gemia. No
calor da cama, era para mim como uma cano de ninar que
se afastava cada vez mais,  medida que eu mergulhaVa no SOno.
        No sei quanto tempo dormi. Fui despertado por Maria. Creio
que vrias vezes viera a meu quarto chamarme e depois correra
de volta. Em meu sono profundo passei a princpio por certa
inquietao, depois entreVi a velha que se agitava pelo quarto e
finalmente compreendi. Quis mesmo despertar, e quando
finalmente consegui ela j no estava no quarto. O vento
continuava a embalarme e, para dizer a verdade, confesso que segui em
direo ao quarto de meu pai com a satisfaO de ter sido
arrebatado ao sono. Recordo que Maria achava meu pai sempre
em perigo. Ai dela se ele agora no estivesse se sentindo
realmente mal!
        O quarto de meu pai, nada grande, tinha mveis demais.
Depois da morte de minha me, para melhor poder esquecer,
mudara de aposentos, levando consigo para o novo ambiente, bem
menor, todo o seu mobilirio. O quarto, escassamente iluminado
por um bico de gs acima da mesinha de cabeceira muito baixa,
estava imerso na sombra. Maria amparava meu pai a jazer de
costas, mas com uma parte do tronco desbordando do leito. O
rosto de meu pai coberto de Suor parecia corado  luz do gs.
Tinha a testa apoiada sobre o peito da fiel Maria. Gemia de dor
e a boca estava to inerte que a saliva escorria pelo queixo.
Olhava imvel para a parede em frente e no se voltou quando
entrei.
        Maria disse-me que ouvira seu gemido e que correra a tempO
de impedir que casse. A princpio - assegurava a mulher -
estava mais agitado, ao passO que agora parecia relativamente
tranqilo, mas ela no quis arriscar deix-lo sozinho. Queria
talvez desculpar-se por me haver chamado, embora j lhe tivesse
dito que fizera bem. Ela chorava ao falar comigo, enquanto eu,
ao contrrio, ordenava-lhe que se acalmasse, a fim de no
aumentar com seus lamentos a inquietao do instante. Eu ainda
no compreendera de todo o que ocorria. A pobre mulher fez um
esforo para aquietar os seus soluos.
        Aproximeime do ouvido de meu pai e gritei:
        -        Por que est gemendo, papai? No se sente bem?
        Creio que me ouviu, pois o gemido enfraqueceu e ele volveu
os olhos na minha direo como se procurasse ver-me, mas no
chegOu a encararme. Vrias vezes gritei-lhe no ouvido a mesma
pergUnta, sempre com o mesmo resultado. Minha resistncia
esmOreceu. Meu pai, naquele instante, estava muito mais
prximo da morte que de mim, pois meu grito j no o atingia. Fui
tomado de grande pavor e recordei imediatamente as palavras
trocadas na vspera: poucas horas depois, ele j se punha a
caminho para ver quem de ns tinha razo. CuriOSO! Minha dor
vinha acompanhada de remorso. Deixei cair a cabea sobre o
prpriO travesseiro de meu pai e chorei desesPeradamente,
emitindo os mesmos soluos que ainda h pouco reprovara a Maria-
        Tocou a ela ento acalmarme, mas o fez de modo estranho.
Exortavame  calma, falando de meu pai como se ele j tivesse
morrido, embora o velho ainda gemesse com os olhos abertos
at demais.
        - Pobrezinho! - dizia. - Morrer assim, com estes cabelos
to lindos! - Acariciava-o. Era verdade. A cabea de meu pai
era cingida por uma bela cabeleira branca encaracolada,
enquanto que eu aos trinta anos j tinha cabelos bastante ralos.
        No me lembrava de que neste mundo havia mdicos e que
era suposto vez por outra nos trazerem a salvao. Eu j via a
morte naquela face transtornada pela dor e nada mais esperava.
Foi Maria quem teve a idia do mdico e correu a acordar o
jardineirO para mand-lo ao centro.
        Fiquei sozinho a amparar meu pai por minutos que me
pareceram interminveis. Recordo que tentei comunicar s minhas
mos, que seguravam aquele corpO torturado, toda a doura que
havia invadido meu corao. Palavras, ele j no as podia ouvir.
Como fazer para dizer-lhe quanto o amava?
        Quando o jardineiro apareceu, fui at meu quarto escrever
um bilhete, com dificuldade de concatenar poucas palavras que
dessem ao doutor uma idia do caso, para que trouxesse consi-

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go imediatamente a medicao necessria. No deixava
continuamente de ver diante de mim a indubitvel iminncia da
morte de meu pai e me perguntava: "Que hei-de fazer agora neste
mundo?"
        Seguiram-se longas horas de espera. Conservo lembrana
bastante ntida daquelas horas. Depois da primeira, tornou-se
desnecessrio amparar meu pai, que jazia inconsciente no leito.
Cessara o gemido e a insensibilidade era completa. Apresentava
respirao precipitada, que eu imitava quase inconscientemente.
Mas eu no consegui respirar por muito tempo naquele ritmo,
concedendo-me pausas na esperana de que o enfermo me
acompanhasse. Ele, contudo, continuava infatigvel. Tentamos
inutilmente fazer com que tomasse uma colherada de ch. Sua
inconscincia diminua quando se tratava de defender-se de nossa
interveno. Resoluto, cerrava os dentes. Mesmo em sua
inconscincia no o abandonava uma indomvel obstinao. Ainda
muito antes do amanhecer, a respirao mudou de ritmo.
Caracterizava-se por perodos iniciados por movimentos lentos, que
podiam aparecer os de um homem so, aos quais se seguiam
outros precipitados, terminando por uma pausa aterradora, que
a Maria e a mim parecia o prenncio da morte. Mas o ciclo
recomeava sempre, com sua msica de tristeza infinita,
desprovida de cor. Aquela respirao nem sempre igual, mas
permanentemente rumorosa, acabou por incorporar-se ao prprio
quarto. A partir daquele dia, esteve ali sempre, por muito, muito
tempo!
        Passei algumas horas estendido num sof, enquanto Maria
continuava sentada junto ao leito. Naquele sof chorei minhas
lgrimas mais frvidas. O pranto oblitera as nossas culpas e nos
permite acusar, sem reservas, o destino. Chorava por perder o
pai por quem sempre vivera. No importa que lhe tivesse
prestado to pouca companhia. Meus esforos por me tornar melhor
no eram feitos para dar satisfao a ele? O sucesso que eu
anelava deveria ser por certo minha vitria diante dele, que
sempre duvidara de mim, mas lhe seria tambm um consolo. Agora,
j no podia esperar por mim e partia convicto de minha
incurvel fraqueza. De fato, minhas lgrimas eram amargas.
        Enquanto escrevo ou quase gravo estas dolorosas recordaes
no papel, descubro que a imagem que me obcecou desde a
primeira tentativa de perscrutar o passado, a locomotiva que
arrasta uma srie de vages ladeira acima, surgiu em meu esprito,
ouvindo daquele sof a respirao de meu pai.  exatamente
assim que fazem as locomotivas que arrastam pesas enormes:
emitem baforadas regulares, que depois aceleram para terminar
numa parada, tambm esta perigosa, porque quem a ouve teme
que a mquina e seus vages se precipitem morro abaixo.
        Curioso! Meu primeiro esforo para evocar o passado
conduziu-me precisamente quela noite, s horas mais importantes da
minha vida.
        O Dr. Coprosich chegou ainda antes do amanhecer,
acompanhado de um enfermeiro que trazia uma caixa de medicamentos.
Tivera que vir a p, pois no encontrara conduo devido ao
mau tempo.
        Recebi-o a chorar e ele me tratou com grande bondade,
encorajando-me a ter esperana. Contudo, devo logo dizer que,
depois desse nosso encontro, h neste mundo poucos homens a
quem voto mais antipatia que ao Dr. Coprosich. Ainda hoje vive,
decrpito e gozando da estima de todos. Quando o vejo caminhar
pelas ruas, trmulo e inseguro,  procura de um pouco de ar
e de exerccio, sinto renovar-se em mim a averso.
        quela poca o doutor teria pouco mais de quarenta anos.
Dedicara-se com afinco  medicina legal e, conquanto fosse
notoriamente italiano, as autoridades imperiais lhe confiavam as
percias mais importantes. Era homem magro e nervoso, a face
pequenina posta em relevo pela calvcie que simulava uma
fronte amplssima. Outro defeito que lhe dava tambm
importncia: quando tirava os culos (e o fazia sempre que queria
meditar), os olhos mopes miravam para o lado ou por cima de
seu interlocutor e mostravam o curioso aspecto dos olhos sem
cor das esttuas, ameaadores ou, talvez, irnicos. Eram ento
desagradveis. Mas, se tinha de dizer ainda que uma unica
palavra, voltava a pr os culos no nariz e eis que seus olhos se
tornavam novamente como os de um bom burgus qualquer que
examina acuradamente as coisas de que fala.
        Sentou-se na antecmara e repousou por alguns minutos.
Pediu-me que lhe contasse exatamente o que havia ocorrido desde
o primeiro sinal de perigo at o momento de sua chegada. Tirou

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os culos e fitou com seus olhos enviesados a parede atrs de
mim.
        Procurei ser exato, o que no foi fcil, em conseqncia do
estado em que me achava. Lembrava-me ainda que o Dr.
Coprosich no suportava que pessoas no versadas em medicina
usassem terminologia mdica numa afetao de entender da
matria. E quando acabei por me referir quilo que me parecia
uma "respirao cerebral", voltou a pr os culos, dizendo:
"Devagar com as definies. Veremos depois do que se trata."
Cheguei a falar tambm do estranho comportamento de meu
pai, de sua nsia de ver-me, de sua pressa em recolher-se. No
lhe relatei seus estranhos discursos: talvez com medo de ser
forado a falar algo sobre as respostas que ento eu lhe dera.
Contei, todavia, que ele no conseguia exprimir-se com exatido
e parecia pensar com intensidade em alguma coisa que se
agitava em seu crebro e que ele no conseguia formular. O mdico,
no que tirou os culos do nariz, exclamou triunfante:
        -        Eu sei o que ele tem no crebro!
        Eu tambm sabia, mas no disse para no molestar o Dr.
Coprosich: edema.
        Passamos ao quarto do doente. Com ajuda do enfermeiro,
virou e revirou aquele pobre corpo inerte por um tempo que me
pareceu longo demais. Auscultou-o e examinou-o. Em vo tentou
fazer com que o prprio paciente o ajudasse.
        -        Basta! - disse em certo ponto. Aproximou-se de mim
com os culos na mo, olhando para o cho e, com um suspiro,
disse:
        -        Tenha coragem!  gravssimo.
        Voltamos ao meu quarto, onde ele lavou as mos e o rosto.
        Tinha para tanto tirado os culos e quando ergueu a face
para enxug-la a fronte molhada parecia a testa estranha de
um amuleto feito por mos inexperientes. Recordou-se de que o
havamos consultado uns meses antes e mostrou-se surpreso
por no termos voltado depois. Chegou a insinuar que talvez o
tivssemos abandonado por outro mdico; quando o
consultamos, chegou a dizer que meu pai necessitava de tratamento. Ao
repreender-me, assim sem os culos, mostrou-se terrvel. Tinha
erguido a voz e queria uma explicao. Seus olhos buscavam-na
por toda a parte.
        Certo que tinha razo e eu merecia a reprimenda. Devo dizer
aqui que estou seguro de que no foram aquelas palavras que
me fizeram odiar o Dr. Coprosich. Desculpei-me, dando-lhe
conta da averso de meu pai por mdicos e medicamentos;
falava quase chorando, e o doutor, com generosa bondade,
procurou tranqilizar-me, afirmando que mesmo que tivssemos
recorrido a ele antes tudo o que sua cincia poderia fazer seria
quando muito retardar a catstrofe a que agora assistamos,
nunca impedi-la.
        Contudo, como continuasse a perguntar pelos antecedentes da
enfermidade, acabou encontrando novos argumentos para
reprovar-me. Queria saber se meu pai nos ltimos meses se havia
queixado de sua condio de sade, de seu apetite ou do sono.
No lhe pude informar nada com exatido; nem mesmo se meu
pai comia muito ou pouco  mesa em que nos sentvamos todos
os dias juntos. A evidncia de minha culpa aterrou-me, embora
o mdico no insistisse verdadeiramente em suas perguntas.
Soube por mim que Maria o achava sempre moribundo e que
eu a criticava por isso.
        Limpou os culos, olhando para o alto.
        - Dentro de uma ou duas horas provavelmente recuperar
a conscincia, ao menos em parte - disse.
        - Ento h alguma esperana?
        - Absolutamente! - respondeu seco. - Mas as
sanguessugas nunca falham nestes casos. Estou certo de que recuperar
em parte a conscincia, mas em seguida perder a razo.
        Ergueu os ombros e colocou a toalha no lugar. Aquele erguer
de ombros significava certo desdm pelo que fazia, e isso me
encorajou a falar. Sentia-me aterrorizado s de pensar que meu
pai pudesse voltar de seu torpor apenas para ver a prpria
morte; no entanto, sem aquele erguer de ombros eu no teria
tido coragem para dizer isto ao doutor:
        - Doutor! - supliquei. - No lhe parece uma maldade
faz-lo voltar a si?
        Rompi a chorar. Trazia sempre em meus nervos agitados o
desejo de chorar e ento deixei-me levar sem resistncia para
que o mdico visse as minhas lgrimas e me perdoasse pelo
juzo que eu ousara emitir sobre a sua atuao.
        Com grande bondade disse-me:

48 49

        - Vamos, acalme-se. O enfermo, no sendo mdico, nunca
ter conscincia bastante para avaliar o estado em que se
encontra. No vamos dizer-lhe que est moribundo; portanto, nada
saber. Pode sobrevir algo pior: que ele enlouquea. Prevendo
isto, trouxe comigo uma camisa-de-fora, e o enfermeiro vai
ficar aqui.
        Mais apavorado do que nunca, roguei-lhe que no aplicasse
as sanguessugas. Ento com toda a calma, disse-me que o
enfermeiro certamente j o teria feito, pois dera-lhe ordens ao sair
do quarto de meu pai. Irritei-me. Poderia haver ao mais
deprimente que a de recuperar os sentidos de um enfermo, sem a
menor esperana de salvao, s para exp-lo ao desespero ou
ao risco de ter de suportar - com angstia! - a
camisa-de-fora? Com toda a energia, mas sempre acompanhando minhas
palavras com o pranto que implorava indulgncia, declarei que
me parecia crueldade inominvel no se deixar morrer em paz
quem estava definitivamente condenado.
        Odeio este homem porque ele, a essa altura, se irritou
comigo. Jamais pude perdo-lo. Estava to agitado que se esqueceu
de colocar os culos; mesmo assim descobriu perfeitamente
onde se achava a minha face para fix-la com os olhos terrveis.
Falou que eu parecia querer partir at mesmo o tnue fio de
esperana que ainda nos restava. Disse-me isso exatamente
assim, de maneira crua.
        O conflito era iminente. Chorando e gritando objetei que ele
prprio havia, h poucos instantes, excludo qualquer
esperana de salvao para o doente. A casa era minha e as pessoas
que nela habitavam no deviam servir a experimentos para os
quais havia outros lugares neste mundo!
        Com grande severidade, e uma calma que a tornava quase
ameaadora, respondeu:
        - Eu lhe defini o estado da cincia naquele instante. Mas
quem pode afirmar o que pode acontecer daqui a meia hora ou
at amanh? Mantendo seu pobre pai com vida, pretendo deixar
aberto o caminho a todas as probabilidades.
        Ps ento os culos e, com seu aspecto de empregado
pedante, acrescentou ainda algumas interminveis observaes sobre a
importncia que podia ter a interveno do mdico no destino
econmico de uma famlia. Meia hora a mais de respirao era
possvel de decidir o destino de um patrimnio.
        Se eu chorava ainda, era mais por autocomiserao de ter que
ouvir tais coisas em semelhante momento. Sentia-me exausto e
parei de discutir. Ademais, as sanguessugas j haviam sido
aplicadas!
        O        mdico  um ser poderoso quando se encontra  cabeceira
de um doente; por isso tratei o Dr. Coprosich com todo o
respeito. Deve ter sido este o motivo por que no ousei propor uma
junta mdica, do que me arrependi anos a fio. Hoje, at mesmo
aquele remorso desapareceu, juntamente com todos os outros
sentimentos de que falo aqui com a frieza de quem descreve
fatos ocorridos a um estranho. Em meu corao perdura apenas,
desde ento, o sentimento de antipatia por esse mdico que se
obstina em viver at hoje.
        Um pouco mais tarde, retornamos ainda uma vez ao quarto
de meu pai. Encontramo-lo a dormir, reclinado sobre o lado
direito. Tinham-lhe posto um esparadrapo sobre a tmpora para
cobrir as feridas provocadas pelas sanguessugas. O doutor quis
logo certificar-se de que o enfermo havia recobrado a
conscincia e gritou-lhe ao ouvido. O doente no manifestou qualquer
reao.
        -         melhor assim! - disse eu com grande firmeza, mas
sem deixar de chorar.
        -        O efeito esperado no poder falhar! - respondeu o
mdico. - No v que a respirao j se modifica?
        Na verdade, ofegante e fatigada, a respirao j no obedecia
aos ciclos que me haviam horrorizado.
        O        enfermeiro disse qualquer coisa ao mdico, que anuiu.
Tratava-se de experimentar no doente a camisa-de-fora. Tiraram
a indumentria da valise e ergueram meu pai, obrigando-o a
ficar sentado na cama. Ento ele abriu os olhos: apareciam
ofuscados, ainda no afeitos  luz. Eu continuava a soluar, temendo
que pudessem de repente abrir-se e ver tudo. Em vez disso,
quando a cabea do doente retornou ao travesseiro, os olhos
voltaram a cerrar-se, como os de um boneco.
        O        doutor, triunfante:
        -        A reao foi totalmente diversa - murmurou.

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        Sim: era algo diverso, o que para mim representava ameaa
ainda maior. Beijei meu pai com respeito na testa e desejei-lhe
em meu pensamento:
        - Oh! Durma! Durma at chegar ao sono eterno!
        Foi assim que augurei a morte de meu pai, mas o mdico no
percebeu, pois falou benevolamente:
        - Deve admitir que lhe causou satisfao v-lo voltar a si!
        Quando o doutor partiu, raiava a madrugada. Uma alvorada
fosca, hesitante. O vento que ainda soprava em rajadas
pareceu-me menos violento, embora continuasse a levantar a neve
gelada.
        Acompanhei-o ao jardim. Exagerava os atos de cortesia para
disfarar meu rancor. Meu rosto demonstrava apenas
considerao e respeito. S quando o vi afastar-se pela alameda aliviei
meu esforo de conteno. Pequenino e obscuro em meio  neve
ele oscilava e detinha-se a cada rajada para melhor resistir. O
alvio que senti no bastou e tive necessidade de aes mais
violentas, depois de tamanho esforo. Caminhei alguns
instantes pela alameda, na friagem, a cabea descoberta, pisoteando
furiosamente a neve alta. No sei, contudo, se essa ira pueril
era dirigida realmente contra o mdico ou antes contra mim.
Contra mim, sem dvida, contra mim que desejara a morte de
meu pai e que no ousara confess-lo. Meu silncio convertia
aquele desejo, inspirado pelo mais puro afeto filial, num
verdadeiro delito que me pesava horrivelmente.
        O doente continuava adormecido. S pronunciou duas
palavras que no consegui perceber, no mais calmo tom de conversa,
estranhssimO porque contrastava com a respirao ofegante.
Estaria prximo da conscincia e do desespero?
        Maria achava-se agora sentada ao p da cama junto com o
enfermeiro. Este inspirou-me confiana e s me aborreci com
suas exigncias excessivamente conscienciosas. Ops-se 
sugesto de Maria de dar ao enfermo uma colher de sopa, que ela
reputava santo remdio. O mdico no falara em sopa e o
enfermeiro queria que se esperasse a sua volta para se tomar uma
deciso to importante. Seu tom era mais imperioso do que a
situao requeria, e a pobre empregada no voltou a insistir,
nem mesmo eu. Tive, porm, outra expresso de desgosto.
        Insistiram para que eu fosse descansar; bastavam duas
pessoas para assistir o doente; mais tarde eu faria companhia ao
enfermeiro; agora podia repousar no sof. Deitei-me e adormeci
imediatamente, com completa e agradvel perda da conscincia
e - estou seguro - no interrompida por qualquer vislumbre
de sonho.
        J agora, na noite passada, depois de haver estado boa parte
do dia de ontem entretido em evocar estas recordaes, tive um
sono to ntido, to real, que me transportou de um salto,
atravs do tempo, queles dias. Via-me junto ao doutor exatamente
ali onde havamos discutido sobre as sanguessugas e a
camisa-de-fora, na sala que tem hoje aspecto inteiramente diverso, pois
passou a ser o quarto do casal. Eu o instrua sobre a melhor
maneira de tratar meu pai, enquanto ele (no o velho e decadente
de hoje, mas o homem vigoroso e agitado de ento), cheio de
ira, os culos na mo e os olhos desencontrados, gritava que
no valia a pena tamanhos percalos. Falava assim: "As
sanguessugas iriam traz-lo de volta  vida e ao sofrimento e 
melhor no aplic-las!" Ao passo que eu batia com o punho sobre
um livro de medicina e gritava: "As sanguessugas! Quero as
sanguessugas! E tambm a camisa-de-fora!"
        Parece que me agitei no sonho, pois fui despertado por
minha mulher. Sombras distantes! Creio que para vos vislumbrar
seja necessrio um instrumento ptico, que inverte vossa imagem.
        Aquele sono tranqilo  a ltima recordao que guardo desse
dia a que se seguiu uma infinidade de horas sempre iguais. O
tempo havia melhorado; dir-se-ia que melhorava igualmente o
estado de meu pai. Ele se movimentava livremente pelo quarto
e comeava a correr da cama para a poltrona, em busca de ar
Atravs das janelas fechadas, olhava por instantes o jardim
coberto de neve que ofuscava ao sol. Quase sempre que entrava
naquele quarto estava pronto a discutir com meu pai para
reconhecer a conscincia que Coprosich esperava voltar. E,
embora a cada dia ele demonstrasse ouvir e compreender melhor, a
conscincia permanecia distante.
        Infelizmente devo confessar que, junto ao leito de morte de
meu pai, acomodei em meu esprito um grande ressentimento
que se apoderou de minha dor e adulterou-a. Esse rancor era
dirigido em primeiro lugar a Coprosich e aumentava com O meu

52 53

esforo de dissimul-lo. Em seguida, dirigia-o a mim mesmo por
no ter sabido retomar a discusso com o doutor para dizer-lhe
claramente que no dava um nquel por toda a sua cincia e
que preferia ver meu pai morto se com isso pudesse encerrar seu
sofrimento.
        Acabei por volt-lo contra o prprio enfermo. Quem j teve
de passar dias e semanas  cabeceira de um doente inquieto, sem
ter em si a menor tendncia para enfermeiro, bancando o
espectador passivo de tudo quanto os outros fazem, certamente
me compreender. Alm de tudo, necessitava de um bom
repouso para aclarar as idias e melhor avaliar o sofrimento de
meu pai e o meu prprio. Em vez disso, tinha de esforar-me
para faz-lo ingerir os remdios e s vezes impedi-lo de sair do
quarto. O conflito sempre gera algum rancor.
        Uma noite, Carlo, o enfermeiro, veio chamar-me para que eu
presenciasse uma nova melhora de meu pai. Corri com o corao
agitado ante a idia de que o velho pudesse tornar-se cnscio de
seu estado e atribu-lo a mim.
        Meu pai achava-se de p em meio ao quarto, s com a roupa
de baixo e tendo na cabea o seu barrete de dormir de seda
encarnada. Embora continuasse sua grande dificuldade de
respirar, pronunciava de tempos em tempos algumas palavras
coerentes. Quando entrei, ordenou a Carlo:
        - Abra!
        Queria que abrissemos a janela. Carlo argumentou que no
podia faz-lo por causa do frio intenso. Meu pai, por alguns
instantes, esqueceu-se do prprio pedido. Foi sentar-se a uma
poltrona prximo da janela e ali ficou procurando alvio.
Quando me viu, esboou um sorriso e perguntou:
        - Voc dormiu?
        No creio que chegasse a ouvir minha resposta. No havia
readquirido aquele tipo de conscincia que eu tanto temia.
Quando se est morrendo tem-se outras preocupaes que no
a de pensar na morte. Todo o seu organismo mostrava-se
entregue  respirao. E em vez de ouvir-me preferiu gritar de novo
a Carlo:
        - Abra!
        No tinha repouso. Saa da poltrona para se pr de p. Em
seguida, com grande dificuldade e com auxlio do enfermeiro,
deitava-se na cama, apoiando-se primeiro por um instante sobre
o lado esquerdo para logo virar-se sobre o direito, no qual
conseguia permanecer alguns minutos mais. Pedia de novo o auxlio
do enfermeiro para voltar a levantar-se e acabava retornando 
poltrona, onde afinal vez por outra permanecia por mais tempo.
        Nesse dia, passando do leito  poltrona, deteve-se diante do
espelho e, contemplando-se, murmurou:
        - Pareo um mexicano!
        Penso que foi para espantar a horrenda monotonia de correr
de um lado a outro que ele ento sentiu o desejo de fumar.
Chegou a encher a boca com uma nica tragada para logo
expeli-la, sufocado.
        Carlo viera chamar-me para assistir a um momento de
inequvoca conscincia do enfermo:
        - Ento estou mesmo gravemente enfermo? - perguntara
angustiado. Esse grau de conscincia no voltou a manifestar-se.
Em vez disso, teve em seguida um instante de delrio. Ergueu-se
do leito imaginando despertar de uma noite de sono num hotel
em Viena. Deve ter sonhado com Viena por sentir desejo de
refrescar a boca ardente na gua pura e gelada que recordava
existir nessa cidade. Chegou a mencionar o frescor que o
aguardava numa fonte que via prxima de si.
        No mais, era um doente inquieto, embora dcil. Eu o temia
porque sempre receava v-lo exacebar-se quando compreendesse
a situao em que se achava e porque a sua passividade no
chegava a atenuar minha imensa fadiga; ele, porm, aceitava
obediente qualquer proposta que lhe fosse feita porque sempre
esperava que alguma delas viesse salv-lo de sua opresso. O
enfermeiro ofereceu-se para ir buscar-lhe um copo de leite e ele
aceitou com verdadeira alegria. Com a mesma ansiedade com que
ento esperou pelo leite, quis ser dispensado de tom-lo aps
ingerir um gole; como no fosse imediatamente atendido, deixou
cair o copo no cho.
        O doutor jamais se mostrava insatisfeito com o estado do
enfermo. A cada dia constatava uma melhora, conquanto visse a
catstrofe iminente. Certa feita veio de carro e teve pressa em
retirar-se. Recomendou-me que insistisse com o doente para que
permanecesse deitado o maior tempo possvel, pois a posio
horizontal favorecia a circulao. Chegou a recomendar dire-

        54        55

tamente a meu pai que agisse assim, e ele, embora parecesse
entender perfeitamente, permaneceu de p em meio ao quarto,
voltando logo  sua distrao, ou melhor, ao que parecia ser sua
meditao sobre a doena.
        Durante a noite que se seguiu, tive pela ltima vez o receio
de ver o retorno da conscincia que eu tanto temia. Ele estava
sentado na poltrona junto  janela e contemplava atravs da
vidraa, na noite clara, o cu totalmente estrelado. A respirao
continuava ofegante, mas ele parecia no sofrer, absorto que
estava na contemplao. Talvez por causa da respirao, dava
a impresso de fazer com a cabea sinais de assentimento.
        Pensei espavonido: "Ei-lo a dedicar-se aos problemas que
sempre evitou." Tentei descobrir o ponto exato do cu fixado por
ele. Sempre de busto ereto, observava com o esforo de quem
espia atravs da fresta de uma janela muito alta. Pareceu-me
que contemplava as Pliades. Creio que em toda a sua vida
jamais observara por tanto tempo uma coisa to distante. De
repente, virou-se para mim, sempre de busto ereto:
        - Voc viu? Viu?
        Tentou regressar s estrelas, mas no conseguiu: deixou-se
cair exausto no encosto da poltrona e quando lhe perguntei o
que me desejava mostrar, j no me entendia nem se lembrava
do que vira ou de que quisesse que eu visse alguma coisa. A
palavra que sempre procurou transmitir-me havia-lhe fugido
para sempre.
        A noite foi longa mas, devo confessar, no especialmente
fatigante para mim ou para o enfermeiro. Deixvamos o doente
fazer o que bem entendia, e ele caminhava pelo quarto em sua
estranha roupa, sem saber que o esperava a morte. Em dado
momento, tentou sair para o corredor onde fazia frio. Impedi-o
de faz-lo e obedeceu de imediato. De outra feita, ao contrrio, o
enfermeiro, que levava  risca a recomendao do mdico, quis
impedi-lo de levantar-se, mas meu pai se rebelou. Saiu de seu
marasmo, ergueu-se chorando e xingando, e eu consegui que
lhe dessem liberdade de mover-se  vontade. Aquietou-se de
repente e voltou  sua vida silenciosa e  desesperada busca
de alvio.
        Quando o mdico voltou, ele se deixou examinar, tentando at
mesmo respirar profundamente, como o doutor lhe
recomendara. Depois voltou-se para mim:
        - Que disse ele?
        Abandonou-me por um instante, mas logo voltou a falar-me:
        - Quando vou sair daqui?
        O mdico, encorajado por tanta docilidade, exortou-me a
pedir-lhe que permanecesse por mais tempo no leito. Meu pai s
ouvia as vozes a que estava acostumado: a minha, a de Maria
e a do enfermeiro. Eu no acreditava na eficcia das
recomendaes; no obstante as fiz, pondo na voz at mesmo um certo
tom de ameaa.
        - Est bem - prometeu meu pai e, nesse exato momento,
levantou-se e foi para a poltrona.
        O mdico observou-o e, resignado, murmurou:
        - V-se que a mudana de posio lhe proporciona um
pouco de alvio.
        Deitei-me em seguida; no consegui dormir. Pensava no
futuro, indagando por que e para quem haveria de perseverar nos
meus esforos de aperfeioamento. Chorei bastante, antes por
mim mesmo do que pelo infeliz que perambulava sem repouso
no quarto.
        Quando me levantei, Maria foi descansar e eu fiquei junto 
cama de meu pai com o enfermeiro. Estava cansado e abatido;
meu pai mais irrequieto do que nunca.
        Ocorreu ento a cena de que jamais me esquecerei e que
estendeu sua sombra imensa para ofuscar toda a minha coragem,
toda a minha alegria. Para esquecer essa dor foi necessrio que
todos os meus sentimentos se embotassem com o tempo.
        O enfermeiro me disse:
        - Seria bom se consegussemos mant-lo na cama. O doutor
d muita importncia a isso!
        At esse instante achava-me meio reclinado sobre o sof.
Levantei-me e encaminhei-me ao leito onde, mais ansioso do que
nunca, o doente jazia deitado. Estava decidido: haveria de
obrigar meu pai a permanecer pelo menos meia hora no repouso
requerido pelo mdico. No era este o meu dever?
        De repente, meu pai tentou revirar para a beira da cama, a
fim de subtrair-se  minha presso e levantar-se. Com a mo

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vigorosa apoiada sobre seu ombro, impedi-o de faz-lo, enquanto
com voz alta e imperiosa ordenava-lhe que no se movesse.
Momentaneamente aterrorizado, obedeceu. Depois exclamou:
        - Estou morrendo!
        E ergueu-se da cama. Por minha vez, surpreendido com o
grito, relaxei a presso dos dedos, o que lhe permitiu sentar-se
 beira da cama, bem  minha frente. Creio que ento sua ira
aumentou ao ver-se - ainda que apenas por um instante -
constrangido em seus movimentos; decerto pareceu-lhe que eu
no s lhe tolhia o ar de que tanto precisava como tambm
lhe roubava a luz, interpondo-me entre ele e a janela. Com
um esforo supremo conseguiu ficar de p, ergueu a mo o mais
alto que pde, como se soubesse que no conseguiria
comunicar-lhe outra fora seno a de seu prprio peso, e deixou-a
cair contra a minha face. Depois tombou sobre o leito e dele
para o cho. Estava morto!
        No atinei logo com isso, mas senti o corao contrair-me
na dor da punio que ele, moribundo, ainda me quisera aplicar.
Com a ajuda de Carlo, ergui-o e recoloquei-o no leito.
Chorando, igual a uma criana castigada, gritei-lhe ao ouvido:
        - No tenho culpa! O maldito doutor  quem quer obrig-lo
a permanecer deitado!
        Era mentira. Em seguida, ainda como uma criana chorosa,
acrescentei a promessa de que no o perturbaria mais:
        - Pode fazer o que quiser.
        O enfermeiro disse:
        - Morreu.
        Tiveram que afastar-me  fora do quarto. Meu pai estava
morto e eu no podia mais provar-lhe minha inocncia!
        Quando fiquei s, procurei acalmar-me. Pensava: era
inadmissvel que meu pai, fora de seu raciocnio normal, tivesse
resolvido punir-me e conseguisse dirigir seu golpe com tal preciso
contra o meu rosto.
        Como ter certeza de que minha suposio era correta?
Cheguei a pensar em dirigir-me a Coprosich. Ele, como mdico,
poderia dizer-me algo sobre a capacidade de querer e de agir
dos moribundos. Talvez eu tivesse sido vtima de um ato
provocado pelo seu esforo de tentar respirar! Mas no cheguei a
falar com ele. Era-me impossvel revelar-lhe a maneira como
meu pai se despedira de mim. A ele, exatamente, que j me
havia acusado de falta de afeto filial!
        Para mim foi como um segundo golpe muito grave ouvir
Carlo, o enfermeiro, naquela noite, contar a Maria, na cozinha:
        - O velho ergueu a mo no alto e a ltima coisa que fez foi
csbofetear o filho. - Carlo vira tudo e, por seu intermdio,
Coprosich ficaria sabendo.
        Ao retornar ao quarto do defunto, observei que o haviam
vestido e que o enfermeiro lhe penteara a bela cabeleira branca.
A morte j havia enrijecido aquele corpo que jazia soberbo e
ameaador. As grandes mos, potentes, bem formadas,
apareciam lvidas; repousavam, porm, com tamanha naturalidade
que pareciam prontas a agarrar e a punir. No quis, no
consegui v-lo mais.
        Depois, no funeral, voltei a lembrar-me de meu pai, fraco
e bom, como sempre o vira desde a minha infncia, e me
convenci de que a bofetada que me dera, moribundo, no fora de
fato proposital. Fiz-me bom e afvel, e a lembrana de meu pai
me acompanhou sempre, tornando-se-me cada vez mais cara. Era
como um sonho delicioso: estvamos ento perfeitamente de
acordo, eu reassumindo meu papel de fraco e ele o do mais
forte.
        Regressei  religio de minha infncia e durante muito tempo
nela permaneci. Imaginava meu pai capaz de ouvir-me, e que eu
pudesse dizer-lhe que a culpa no fora minha, mas do mdico.
A mentira no tinha importncia, agora que ele compreendia
tudo e eu tambm. Durante algum tempo os colquios com meu
pai seguiam meigos e discretos como um amor ilcito, pois que
aos olhos dos outros continuei a zombar das prticas religiosas,
enquanto na verdade - e quero aqui confess-lo - a todo
instante e fervorosamente rezava por inteno de sua alma. A
verdadeira religio  exatamente aquela de que no se tem
necessidade de professar em alta voz para obter - embora raramente
-        o conforto que algumas vezes nos  indispensvel.



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A HISTRIA DE MEU CASAMENTO



No esprito de um jovem de origem burguesa o conceito da vida
humana associa-se ao da carreira e, na mocidade, o que se
entende por carreira  a de Napoleo. No que necessariamente
o jovem sonhe em tornar-se imperador, j que  possvel
assemelhar-se a Napoleo permanecendo em escala muito inferior.
A vida mais intensa pode ser sintetizada pelo mais rudimentar
dos sons, o da onda do mar, que, a partir do momento em que
se forma, muda sem cessar at o instante em que morre! Eu
tambm aspirava a transformar-me e desfazer-me, a exemplo de
Napoleo e da onda.
        Minha vida constitua-se de uma nica nota, sem variaes,
certamente alta e invejada por muitos, mas horrivelmente tediosa
para mim. Meus amigos dedicaram-me durante toda a vida
sempre a mesma estima, e creio que eu mesmo, a partir da idade
da razo, no terei mudado muito o conceito que fazia de mim.
        Da talvez ter-me vindo a idia de casar-me apenas pelo
cansao de emitir e ouvir aquela mesma nota. Quem no o
experimentou ainda julga que o casamento  muito mais importante
do que na verdade . A companheira que se escolhe renovar,
piorando ou melhorando, nossa raa nos filhos,  a natureza que
assim o quer, mas que de moto prprio no saberia encaminhar-nos
a isso, persuade-nos de que a mulher empreender
igualmente nossa renovao, embora a rigor isto no passe de uma
iluso curiosa no autorizada por nenhum texto. Na verdade,
podemos viver um ao lado do outro, sem alteraes, a no ser
uma nova antipatia por essa outra pessoa to diferente de ns
ou por uma certa inveja desse algum que nos parece superior.
        O curioso de minha aventura matrimonial  que fiz
conhecimento de incio com meu futuro sogro e a ele uni-me por
amizade e admirao antes de saber que fosse pai de mocinhas

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casadouras. , pois, evidente que no foi uma resoluo
predeterminada o que me encaminhou em direo  meta que eu no
previa. Desdenhei de uma moa que por um instante me pareceu
a indicada para mim e no obstante continuei ligado ao meu
futuro sogro. Chego a sentir-me inclinado a acreditar no destino.
        O        desejo de novidade que havia em meu esprito encontrou
perfeita satisfao em Giovanni Malfenti, pessoa completamente
diversa de mim e de quantas com quem at ento eu buscara
a companhia e a amizade. Eu era bastante culto, com passagem
por duas universidades e por um perodo de profunda inrcia
que reputo bastante instrutiva. Ele, ao contrrio, era grande
negociante, ativo e tacanho. Contudo, de sua ignorncia advinha-lhe
fora e serenidade, e eu me deslumbrava simplesmente em
contempl-lo, invejando-o.
        O        Sr. Malfenti contava ento cinqenta anos, dispunha de
sade de ferro, num corpo imenso e alto, pesando mais de cem
quilos. As poucas idias que se lhe agitavam no bestunto
emanavam dele com tamanha clareza, desentranhadas com tal
assiduidade, que se tornavam partes dele, seus membros, seu carter.
Eu era muito pobre de idias desse gnero e agarrei-me a ele
para enriquecer-me.
        Passei a freqentar o Tergesteo* por indicao de Olivi, que
me dizia ser esse um bom exrdio  minha atividade comercial
e um lugar onde poderia recolher informaes que lhe seriam
teis. Aboletei-me  mesa em que pontificava o meu futuro
sogro e dela nunca mais me afastei, parecendo-me ter
finalmente acesso a uma verdadeira ctedra comercial, que h tanto
tempo procurava.
        Ele percebeu imediatamente minha admirao e correspondeu
com uma amizade que logo me pareceu paternal. Teria ele
intudo de incio como tudo haveria de acabar? Certa vez,
quando, empolgado pelo exemplo de sua grande atividade, confessei
meu desejo de livrar-me de Olivi para gerir pessoalmente meus
negcios, tratou de dissuadir-me, parecendo inclusive alarmado
com o meu propsito. Nada obstava que eu me dedicasse ao
comrcio, mas devia permanecer solidamente amparado por
Olivi, a quem ele conhecia.

---

*        A Bolsa de Valores da cidade de Trieste. (N. do T.)

---

        Estava totalmente disposto a instruir-me e chegou mesmo a
anotar com sua prpria letra em minha agenda trs
mandamentos que reputava suficientes para fazer prosperar qualquer
empresa: 1. No  preciso saber trabalhar, mas est perdido
aquele que no sabe fazer com que os outros trabalhem para si.
2.        S h um grande remorso, o de no ter sabido agir em seu
prprio interesse. 3. No comrcio a teoria  utilssima, mas s
se deve aplic-la depois de fechado o negcio.
        Guardei de cor estes e muitos outros axiomas seus, que, no
entanto, pouco me valeram.
        Quando admiro uma pessoa, trato imediatamente de parecer-me
com ela. Passei a copiar Malfenti. Tinha loucura para ser
astuto e logo pensei que o fosse. Certa vez cheguei mesmo a
pensar que era mais astuto que ele. Supunha ter encontrado um
erro em sua organizao comercial e quis revel-lo a ele para
assim conquistar sua estim. Um dia, na mesa do Tergesteo,
interrompi-o quando, discutindo um negcio, chamou seu
interlocutor de imbecil. Adverti-o de que achava insensato que
estivesse a proclamar sua esperteza aos quatro ventos, O verdadeiro
astuto em matria de comrcio, dizia-lhe eu, devia fazer com
que os outros o julgassem tolo.
        Achou-me graa. A fama de astcia era utilssima. Todos lhe
vinham pedir conselhos e lhe traziam novidades frescas, ao passo
que ele lhes dava conselhos utilssimos confirmados por uma
experincia que remontava  Idade Mdia. No raro tinha
oportunidade de, ao mesmo tempo, obter notcias e vender
mercadorias. Enfim - e neste ponto ps-se a berrar porque lhe
pareceu ter finalmente encontrado o argumento decisivo -, para
vender ou comprar vantajosamente, o mais certo era recorrer ao
astuto. Do tolo nada se pode esperar seno induzi-lo a abrir
mo de qualquer lucro, mas as mercadorias de que dispe ho
de ser sempre mais caras do que as do astuto, porquanto o
primeiro j foi ludibriado desde a aquisio original.
        Eu era a pessoa mais importante para ele naquela mesa.
Revelou-me seus segredos comerciais, que nunca tra. Tinha razo
de confiar em mim, tanto que chegou a me passar para trs em
duas ocasies, quando j seu genro. Na primeira vez a sua
astcia custou-me bastante caro, mas como foi Olivi o verdadeiro
enganado, a partida no me doeu tanto. Pedira-me Olivi que o

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sondasse prudentemente sobre determinado negcio e eu o fiz. A
operao resultou de tal forma desastrosa que Olivi jamais me
perdoou e toda vez que eu abria a boca para lhe dar alguma
informao perguntava: "Quem foi que lhe disse? Seu sogro?"
Para defender-me tive que acobertar Malfenti e acabei por sentir-me
mais embrulho do que embrulhado. Uma sensao
maravilhosa.
        De outra feita, banquei de fato o imbecil; nem por isso,
contudo, cheguei a nutrir rancor pelo meu sogro. Ele provocava
ora minha inveja ora minha hilaridade. No meu infortnio no
via seno a aplicao exata dos princpios que to bem me
explicara. Conseguiu at rir-se de tudo comigo, jamais confessando
haver-me enganado e sempre insistindo em que se ria apenas do
aspecto cmico de minha desdita. S uma vez confessou haver-me
ludibriado, isso no dia do casamento de sua filha Ada (no
comigo), depois que a champanha transtornou aquele corpanzil
que se abeberava exclusivamente de gua pura.
        Contou-me ento o fato, lutando para vencer o riso que lhe
dificultava a fala:
        - Aconteceu que o decreto passou! Eu, acabrunhado, j
estava fazendo as contas de quanto seria meu prejuzo, quando
de repente entra meu genro declarando sua inteno de fazer
negcios. "Eis aqui uma boa oportunidade", digo-lhe. E ele se
precipita sobre o contrato para assin-lo, receoso de que Olivi
pudesse aparecer a tempo de querer dissuadi-lo. E a operao
se concretizou!
        Terminou a histria fazendo-me grandes elogios: - Conhece
os clssicos de cor. Sabe quem disse isto, quem disse aquilo.
No sabe  ler os jornais!
        E era verdade! Se tivesse encontrado o decreto que sara sem
destaque num dos cinco jornais que habitualmente lia, talvez
no casse na esparrela. Bastava compreender de um relance o
texto e avaliar-lhe as conseqncias, embora no fosse assim
to fcil, pois se tratava da reduo da taxa alfandegria de
determinada mercadoria que com isso teria seu preo interno
reduzido.
        No dia seguinte, meu sogro desmentiu a confisso. O caso
readquiria o aspecto de antes.
-        O vinho excita a imaginao - afirmou serenamente,
deixando positivado que o decreto em questo fora realmente
publicado, s que dois dias depois de assinado o contrato. Nunca
levantou a suposio de que eu no saberia interpret-lo mesmo
que o tivesse visto. Senti-me lisonjeado, mas no era por gentileza
que me poupava, e sim por achar que todos se atinham aos
prprios interesses ao ler os jornais. J no meu caso, quando
leio um jornal, sinto-me transformado em opinio pblica e,
diante de uma reduo alfandegria, sou antes levado a pensar
em Cobden e no liberalismo do que na oportunidade de fazer
bons negcios.
        Em outra ocasio, porm, consegui conquistar sua admirao
por mim tal como sou, ou seja, por minhas piores qualidades.
        J havia algum tempo que tanto eu quanto ele possuamos aes
de uma fbrica de acar de que espervamos resultados
extraordinrios. Contudo, as aes baixavam continuamente, dia aps
dia, e meu sogro, que no estava acostumado a nadar contra a
corrente, desfez-se das suas e aconselhou-me a que fizesse o
mesmo. Perfeitamente de acordo, dispus-me a dar ordem de
venda ao meu corretor e disso tomei nota numa agenda que
naquela poca acabara de adotar. Mas, como se sabe, ningum
anda a apalpar os bolsos durante o dia; assim, por vrias noites,
tive a surpresa de recair sobre aquela anotao j no momento
de deitar-me, tarde demais para qualquer providncia. Uma vez
fiquei to contrariado que cheguei a gritar de raiva e, para no
ter que dar explicaes desnecessrias  minha mulher, disse
que havia mordido a lngua. Outra vez, transtornado com
tamanha imprevidncia, mordi as mos. "S faltam os ps agora!",
disse ela criticando. S no houve outros incidentes porque j
estava habituado. Olhava com ar estpido aquele maldito
livrinho, fino demais para chamar a ateno durante o dia e de que
s me dava conta  noite ao deitar.
        Um dia, uma chuvarada imprevista obrigou-me a me refugiar
no Tergesteo. Ali encontrei por acaso meu corretor, que veio
informar-me terem as aes quase dobrado de preo no espao
de uma semana.
                    - Bom, agora vendo! - exclamei triunfante.

64 65

        Corri ao meu sogro que j sabia do aumento de preo das
aes e se queixava de haver vendido as suas e, um pouco menos,
de me haver induzido a vender as minhas.
        -        Mas no se queixe! - disse ele rindo. - Esta  a primeira
vez que voc perde por ter seguido o meu conselho.
        O        outro negcio no havia resultado de um conselho seu,
mas de uma proposta sua, o que, no entender dele, era muito
diferente.
        Pus-me a rir de satisfao.
        -        Mas no cheguei a seguir o meu conselho! - Como se
no me tivesse bastado a sorte, tentei gabar-me um pouco do
caso. Contei-lhe que as aes s seriam vendidas no dia seguinte
e, assumindo um ar de importncia, tentei convenc-lo de que
dispusera de informaes confidenciais que me haviam inclinado
a no levar em conta o conselho dele.
        Furioso e vexado falou sem olhar-me de frente.
        -        Quando se tem uma caixola como a sua no se deve meter
em negcios. E quando se faz uma sujeira destas, no se deve
confess-la. Voc tem ainda muito o que aprender.
        No me agradava irrit-lo. Era muito mais divertido quando
me passava para trs. Por isso contei sinceramente como as
coisas se tinham passado.
        -        Como v,  exatamente uma cabea area igual  minha
que deve dedicar-se aos negcios.
        Amansado, riu-se comigo:
        -        O que voc teve no foi propriamente lucro, mas uma
indenizao. Os seus miolos j custaram tanto a voc que 
justo venham agora reembols-lo de uma parte dos prejuzos!
        No sei por que me detenho tanto em narrar os dissdios
que tive com meu sogro, os quais na verdade foram poucos.
Eu lhe queria realmente bem, e a prova  que buscava sua
companhia, embora ele tivesse o hbito dos gritos para
melhor expor seus pensamentos. Meus tmpanos aprenderam a
suportar os berros- Se as gritasse menos, suas teorias imorais
teriam sido mais ofensivas e, se tivesse recebido melhor
educao, sua fora pareceria menos importante. Embora fosse to
diferente dele, creio que sempre me correspondeu com afeto
semelhante. No tivesse ele morrido to cedo, hoje eu saberia
com maior certeza. Mesmo depois de meu casamento, continuou
a dar-me lies assiduamente, temperadas no raro com gritos
e insolncias que eu acatava convicto de merec-los.
        Casei-me com sua filha. A natureza misteriosa conduziu-me a
isso e logo se ver com que violncia imperativa. At hoje, vez
por outra, perscruto a face de meus filhos para ver se juntamente
com o queixo fino, indcio de fraqueza, juntamente com meus
olhos sonhadores, que lhes transmiti, no existe neles pelo menos
algum trao da fora descomunal do av que escolhi para eles.
         beira de seu tmulo chorei bastante, embora seu ltimo
adeus para mim no tenha sido exatamente afetuoso. No leito
de morte, revelou invejar minha rica sade que me permitia
mover-me livremente, ao passo que ele estava confinado  cama.
Surpreso, perguntei que mal lhe havia feito para que desejasse
ver-me doente. Respondeu assim:
        - Se pudesse livrar-me desta doena rogando-a a voc, saiba
que o faria sem pestanejar! No tenho nada dos seus pruridos
humanitrios!
        No havia nisso nada de ofensivo: era mera tentativa de,
como da outra vez, impingir-me um produto aviltado. E ainda
assim amavelmente, pois no me desagradava ver minha
fraqueza explicada em termos dos 'pruridos humanitrios' que me
atribua.
        Em seu tmulo, bem como em todos os outros junto a que
chorei, minha dor foi dedicada tambm quela parte de mim
que se enterrava com o morto. Que perda para mim era ficar
privado de um segundo pai, ordinrio, ignorante, lutador feroz
que fazia sobressair minha fraqueza, minha cultura, minha
timidez. Eis a verdade: sou um tmido! No teria descoberto isto
se no estivesse aqui a analisar meu sogro. Quem sabe eu me
teria conhecido melhor se ele continuasse ao meu lado!
        No demorei muito a perceber que na mesa do Tergesteo,
onde se divertia em se mostrar tal qual era, e at um tanto pior,
Giovanni Malfenti se impunha uma reserva: nunca falava de
sua vida particular ou, quando forado a isso, s o fazia de
maneira discreta, numa voz um pouco mais suave que a habitual.
Nutria grande respeito pela famlia e talvez considerasse que
nem todos os que se sentavam quela mesa fossem dignos de
buas confidncias. O mximo que ali consegui saber a seu
respeito  que as quatro filhas tinham nomes com a inicial 'A',

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coisa, segundo ele, vantajoSamente prtica, pois todas as peas
de roupa e objetos com aquela inicial podiam passar de uma
filha a outra, sem necessidade de qualquer alterao. Chamavam-se
(logo retive de cor os nomes): Ada, Augusta, Alberta e Anna.
A mesa dizia-se ainda que todas eram muito bonitaS. Essa inicial
impressionou-me bem mais do que seria admissvel. Sonhava com
aquelas jovens atadas umas s outras pelo nome, como
mercadoria a ser vendida por atacado. A inicial lembrava algo mais:
como me chamo Zeno, tinha a impresso de que, se me quisesse
casar, s no estrangeiro poderia encontrar uma mulher cujo nome
comeasse por 'Z'.
        Ter sido por mero acaso que, antes de apresentar-me na
casa de Malfenti, eu tivesse desfeito uma ligao bastante antiga,
com uma mulher que talvez merecesse um tratamento melhor?
Seria um acaso que d o que pensar. A deciso de concretizar
o rompimento foi tomada por motivo bastante ftil. A pobre
coitada achou que a melhor maneira de prender-me seria
despertando o meu cime. A suspeita, ao contrrio, foi suficiente
para levar-me a abandon-la de vez. No podia ela imaginar que,
quela altura, eu estivesse invadido pela idia de casar-me, s
no admitindo fosse com ela por julgar que assim a novidade no
me pareceria suficientemente grande. A suspeita que fez nascer
em mim por artifcio era uma demonstrao da superioridade
do matrimnio, no qual tais dvidas no devem existir. Afinal,
quando se desfez a suspeita, cuja inconsistncia no tardei a
sentir, agarrei-me logo ao fato de que aquela mulher gastava
muito. Hoje, aps vinte e quatro anos de honesto matrimnio,
j no advogo o mesmo parecer.
        Para essa mulher, o rompimento foi uma verdadeira sorte,
pois casou-se pouco depois com algum de destaque, alcanando
a meta ambicionada ainda antes de mim. Mal me havia casado,
vim a encontr-la em casa de meu sogro, de quem o marido
era grande amigo. Vamo-nos com freqncia, e por muitos anos,
enquanto a mocidade durou, sempre existiu entre ns a mxima
reserva e jamais fizemos qualquer aluso ao passado. Um dia,
contudo, perguntou-me  queima-rouPas com o rosto j
circundado por cabelos grisalhos, embora juvenilmente ruborizado.
        -        Por que voc me abandonou?
        Fui sincero, por no dispor do tempo necessrio a arquitetar
uma mentira:
        - Nem sei mais. H tantas coisas que ignoro sobre minha
vida.
        - Pois lamento - disse (e eu quase j me inclinava a fim
de acolher o elogio que ela parecia prometer). - Depois de
velho voc se tornou uma pessoa agradvel. - Endireitei-me
num impulso. No havia motivo para agradecimentos.
        Um dia, fiquei sabendo que a famlia Malfenti estava de
volta a Trieste aps uma viagem de recreio bastante demorada,
a que se seguiu uma temporada de vero no campo. No cheguei
a tomar nenhuma iniciativa para ser convidado  casa, pois
Giovanni se antecipou.
        Mostrou-me uma carta de um amigo ntimo seu, em que este
pedia notcias minhas: fora meu colega de estudos e eu lhe
dedicava bastante simpatia enquanto o supus destinado a tornar-se
um grande qumico. Presentemente, ao contrrio, j no lhe dava
nenhuma importncia, pois acabara por se transformar num
grande comerciante de adubos e, como tal, no merecia respeito.
Giovanni Malfenti convidou-me precisamente por eu conhecer
aquele amigo e - compreende-se - nesse caso nada protestei.
        Recordo-me dessa primeira visita como se tivesse sido ontem.
Era uma tarde acinzentada e fria de outono; recordo at mesmo
a satisfao que me invadiu ao tirar o sobretudo na tepidez
da sala. Sentia-me como se entrasse num porto seguro. Ainda
agora me admiro da cegueira que ento me parecia pura
clarividncia. Eu buscava a salvao, a honorabilidade.  certo que
naquela inicial 'A' estavam encerradas quatro moas; trs delas
seriam logo eliminadas e a quarta haveria de ser submetida a um
exame severssimo. Devo ter sido um juiz bastante rigoroso,
embora no saiba descrever ao certo as qualidades que viria a
exigir de minha futura esposa.
        No elegante salo fartamente mobiliado em dois estilos
diferentes - um  Lus XIV, outro veneziano com profuso de
dourados impressos at mesmo sobre couro -, dividido em duas
partes pelos mveis como na poca se usava, fui encontrar
Augusta, que lia, a ss, junto a uma das janelas. Estendeu-me
a mo, sabia meu nome e chegou a dizer-me que estavam a minha

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espera, pois o pai a prevenira de minha visita. Em seguida saiu
para chamar a me.
        Eis que das quatro jovenS com a mesma inicial uma para mim
j no contava. Como tiveram coragem de ach-la bonita? A
primeira coisa que se notava nela era o estrabismo to
pronUnciado que, na minha frente, consegUia personificla toda. Os
cabelos, no muito abundantes, eram louros, de um tom
esmaecido, isento de luz, e o corpo, embora interessante, era um
pouco gordo demais para a idade. Nos poucOS instantes em que
estive s, pensei: "Se as outras so parecidas com esta!"
        Pouco depois o grupo das jovens reduziU-se a duas. Uma
delas, que entroU em companhia da me, no tinha mais que
oito anos- Linda menina de cabelos anelados, brilhantes, longos
e cados sobre os ombroS! Sua face gordUchinha e suave fazia
pensar nos querubins contemplativos (enquanto esteve calada)
tais como Rafael os figurava.
        Minha sogra... Realmente, eu mesmo experimento certo
escrpulo ao falar dela com tamanha liberdade. H muitos anos
lhe dedico um sentimento filial, mas  que estou contando uma
velha histria em que ela no figurOU como minha amiga, e
cuido no lhe fazer referncias neste fascculo (que ela, de resto,
Ademais, nO ver) seno com palavras totalmente respeitosas,
sua interveno foi to breve que eu poderia esquec-la: um
empurrozinho no momento exato, no maiS forte que o
necessrio para me fazer perder o eventual equilbrio. Talvez o tivesse
perdido mesmo sem sua intervenO e, alm disso, quem sabe
se ela queria de fato o que por fim aconteceu? Era to
bem-educada que no lhe poderia acontecer, como ao marido, um
momento de indiscrio provocado pelo lcool. Na verdade,
nunca lhe ocorreu nada semelhante e talvez eu esteja contando
uma histria que no conheo devidamente. No sei, portantO,
se foi devido  sua astcia ou  minha estolidez que acabei por
me casar com a filha que eu no queria.
        Contudo, posSO dizer que  poca da primeira visita minha
sogra era ainda muito atraente. Elegante inclusive no modo de
vestir, luxuoso sem ser ostensivo. Tudo nela era suave e
adequado.
        Eu tinha, pois, nos meus prpriOS sogros um exemplo da
integrao conjugal com que sonhava. Sempre haviam sido felizes,
ele vociferando e ela sorrindO, um sorriso que ao mesmo tempo
significava assentimento e compaixo. Ela amava o rude marido,
que deve t-la conquistado e conservado  custa dos bons
negciOS. No era o interesse, mas uma admirao verdadeira o
que a unia a ele, uma admirao de que eu participava e que,
assim, compreendia perfeitamente. A intensa vitalidade que ele
desenvolvia em ambiente restrito - uma jaula em que s havia
uma mercadoria e dois inimigos (os dois contratantes) e onde
nasciam e se descobriam sempre novas combinaes e
relacionamentos - animava maravilhosamente a vida de ambos. O
marido contava-lhe todos os negcios e a esposa era to sensata
que jamais lhe dava conselhos com receio de desencaminhlo.
Ele sentia necessidade daquela assistncia muda e no raro
corria para casa a fim de monologar, convicto de estar recebendo
conselhos da mulher.
        No foi para mim surpresa quando soube que a traa e que
ela, no obstante soubesse, no lhe votava rancor. Eu j tinha
um ano de casado quando um dia Giovanni, perturbadssimo,
contou-me que havia perdido uma carta de muita
responsabilidade e queria ver os papis que me havia entregue na esperana
de encontr-la no meio deles. J, alguns dias mais tarde, todo
contente, informou-me que a encontrara em sua prpria carteira.
"Era de alguma mulher?", perguntei-lhe, e ele acenou que sim
com a cabea, gabando-se da sua boa estrela. Mais tarde, eu,
para me defender, num dia em que ele me acusava de haver
perdido uns documentos, disse  minha mulher e  minha sogra
que gostaria de ter a sorte do velho cujas cartas voltavam sozinhas
a seu lugar na carteira. Minha sogra ps-se a rir com
tamanha satisfao que no tive dvida de ter sido ela quem fizera
a carta voltar ao seu lugar. Evidentemente no relacionamento
deles tal fato no tinha importnCia. Cada um faz amor como
sabe, e o deles, segundo pensO, no era o modo mais estpido.
        A Sra. Malfenti acolheu-me com grande gentileza. DescUlpou-se
por trazer consigo a pequena Anna, mas no havia quem
pudesse ficar com ela naquele instante. A menina olhava-me,
estudando-me com olhos srios. Quando Augusta voltou  sala e
sentou-se num pequeno sof posto defronte aquele em que eu
e a Sra. Malfenti estvamos, a menina foi reclinar-se sobre o
colo da irm, passando a observar-me com uma persevetana

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que me divertia, antes de saber os pensamentos que passavam
por aquela cabecinha.
        A conversa foi, a princpio, arrastada. A senhora, como todas
as pessoas bem-educadas, era bastante enfadonha ao primeiro
encontro, Perguntava-me demais sobre o amigo que se pretendia
fosse meu introdutor naquela casa e de quem eu nem sequer
lembrava o primeiro nome.
        Entraram finalmente Ada e Alberta. Respirei: eram de fato
bonitas e traziam  sala a luz que at ento lhe faltara. Ambas
morenas, altas e esbeltas, mas muito diferentes uma da outra.
A escolha que eu devia fazer nada tinha de difcil. Alberta no
contava ento mais que dezessete anos. Igual a me -
conquanto morena -, tinha a pele rsea e transparente, o que
aumentava a infantilidade de seu aspecto. Ada, ao contrrio, j
era mulher, com seus olhos srios numa face que chegava a ser
azulada de to nvea, emoldurada por uma espessa cabeleira,
encaracolada, embora disposta com graa e rigor.
         difcil remontar  doce origem de um sentimento que se
tornou depois to violento, mas estou certo de que no
experimentei por Ada o que se costuma chamar de paixo  primeira
vista. Assim mesmo, tive imediatamente a convico de que era
ela a mulher de quem eu precisava para assegurar-me a sade
moral e fsica por meio de uma santa monogamia. Quando volto
a pensar no assunto, surpreende-me constatar que a paixo tenha
falhado, embora aquela convico haja permanecido.  sabido
que ns, os homens, no buscamos na esposa as qualidades que
adoramos ou desprezamos na amante. Parece, pois, que no
cheguei a ver desde logo toda a graa e beleza de Ada; em vez
disso me encantei em admirar uma seriedade e uma energia
que lhe atribu, qualidades essas, um tanto mitigadas, que eu
admirava em seu pai. Como depois vim a crer (e creio ainda)
que eu no me enganara e que Ada desde menina era possuidora
de tais qualidades, pude considerar-me um bom observador, mas
um observador um tanto cego. Naquela primeira vez
contemplava Ada com um s desejo: o de enamorar-me, porquanto
precisava de passar por isso para despos-la. Apliquei-me com a
energia que sempre dedico s minhas prticas higinicas. No sei
dizer quando o consegui; talvez j naquele reduzido perodo de
tempo de minha primeira visita.
        O pai deve ter falado bastante a meu respeito com as filhas.
Elas sabiam, entre outras coisas, que eu havia pulado nos meus
estudos da faculdade de direito para a de qumica, para de novo
- infelizmente! - retornar  primeira. Tentei explicar: quando
a gente se limita a uma nica universidade, a maior parte do
conhecimento nos passa despercebida. E falava:
        - Se no estivesse agora disposto a levar a vida a srio - e
no disse que tal seriedade s me ocorrera h pouco tempo,
desde quando resolvera casar-me -, ainda estaria pulando de
faculdade em faculdade.
        Depois, s por graa, comentei que achava curioso o fato de
que abandonava a faculdade exatamente na poca dos exames.
        - Por puro acaso - dizia com um sorriso de quem quer fazer
crer que est contando uma mentira. A verdade, porm,  que
eu havia mudado de objetivos nas ocasies mais diferentes.
        Parti assim na conquista de Ada e continuei sempre no
propsito de faz-la rir-se de mim ou  minha custa, sem lembrar
que a havia escolhido por sua seriedade. No deixo de ser um
tanto estranho, mas devo ter-lhe parecido perfeitamente
desequilibrado. Nem toda a culpa, no entanto, me cabe e v-se isso pelo
fato de que Augusta e Alberta, s quais no havia preferido,
julgavam-me diferentemente. Mas Ada, que era j madura a
ponto de andar lanando seus belos olhos  procura do homem
com quem se casaria, era incapaz de amar a pessoa que a fazia
rir. Ria, ria bastante, talvez at demais, e seu riso cobria de
um aspecto ridculo a pessoa que o provocava. Era decerto uma
inferioridade que acabaria por prejudic-la, embora tenha antes
prejudicado a mim. Se tivesse sabido calar-me a tempo, talvez
as coisas tivessem corrido de outra forma. Pelo menos eu lhe
teria dado uma oportunidade de falar, de revelar-se, e com isso
poderia defender-me.
        As quatro moas estavam sentadas no pequeno sof, um tanto
comprimidas para que Anna pudesse sentar-se nos joelhos de
Augusta. Eram belas assim juntas. Constatei-o com ntima
satisfao, vendo que me sentia magnificamente propenso a
admirao e ao amor. Verdadeiramente belas! Os cabelos descorados
de Augusta serviam para dar relevo s negras cabeleiras das
Outras.

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        Eu me referira  Universidade e Alberta, que cursava o
penltimo ano ginasial, ps-se a falar de seus estudos. Lamentou-se
do latim, que achava muito difcil. Eu disse que no me
admirava, pois o latim no era lngua para mulheres, e achava
mesmo que j entre os antigos romanos as mulheres falavam
italiano. Para mim, ao contrrio - asseverei -, o latim
constitua matria predileta. Pouco depois, contudo, cometi a
imprudncia de fazer uma citao em latim que Alberta acabou por
corrigir. Um verdadeiro desastre! No dei importncia ao caso
e disse a Alberta que depois de passar algum tempo na
universidade ela tambm teria que rever o seu latim.
        Ada, que estivera ultimamente com o pai alguns meses na
Inglaterra, informou que naquele pas muitas jovens aprendiam
o latim. Em seguida, com voz sempre sria, isenta de qualquer
musicalidade, um pouco mais baixo do que a que se esperaria
de sua gentil figurinha, contou que as mulheres inglesas tinham
uma vida muito diferente das nossas. Associavam-se para fins
beneficentes, religiosos ou mesmo econmicos. Suas irms
incentivavam-na a falar, pois queriam ouvir de novo coisas que
pareciam maravilhosas a jovens de nossa cidade quela poca. E,
para satisfaz-las, Ada contou que havia mulheres presidindo
sociedades, mulheres jornalistas, secretrias e propagandistas
politicas que subiam  tribuna para falar a centenas de pessoas sem
se envergonhar e sem se confundir quando se viam
interrompidas ou refutadas em seus argumentos. Falava com
simplicidade, sem carregar nas cores, alheia a qualquer inteno de nos
maravilhar ou divertir.
        Eu apreciava essa maneira simples de narrar, j que no meu
caso era impossvel abrir a boca sem desfigurar pessoas ou coisas,
pois de outra forma me parecia intil falar. Sem ser orador,
sofria da doena da palavra. Para mim, a palavra devia ser um
acontecimento em si e por isso no devia ser aprisionada por
nenhum acontecimento.
        A verdade  que eu sentia um dio especial pela prfida
lbion e acabei por manifest-lo sem temor de ofender Ada, que
de resto no manifestara nem dio nem amor pela Inglaterra.
Eu l havia passado alguns meses, mas no conseguira conhecer
nenhum ingls de boa cepa, havendo perdido em viagem algumas
cartas de recomendao obtidas junto a amigos de negcio de
meu pai. Por isso, em Londres, s freqentara famlias francesas
e italianas e acabei por pensar que todas as pessoas de bem
naquela cidade fossem oriundas do continente. Meus
conhecimentos do ingls eram bastante limitados. Com a ajuda dos
amigos, no entanto, pude compreender algo da vida daqueles
insulares e fui informado principalmente sobre a antipatia que
votavam a quantos no fossem ingleses.
        Descrevi s meninas o sentimento pouco agradvel que me
adveio daquela estada entre inimigos. Teria, contudo, resistido
e suportado a Inglaterra pelos seis meses que meu pai e Olivi
queriam infligir-me a fim de que estudasse o comrcio ingls
(coisa que nunca consegui, pois, ao que parece, ele  exercido
somente em lugares recnditos), se no me tivesse acontecido
uma aventura desagradvel. Eu entrara numa livraria  procura
de um dicionrio. L dentro, sobre um banco, repousava
estendido um magnfico e gordo gato angor cujo plo macio
convidava a carcias. Pois bem! S porque o acariciei suavemente,
o maldito atacou-me traioeiramente, arranhando-me com fora
a mo. A partir desse instante no consegui mais suportar a
inglaterra e no dia seguinte j me encontrava em Paris.
        Augusta, Alberta e tambm a Sra. Malfenti riram  vontade.
Ada, contudo, surpreendida, achou que no havia compreendido
bem. Fora o livreiro que me havia atacado e mordido a mo?
Tive que repetir a histria, o que  desagradvel, pois sempre
se repete mal.
        Alberta, a douta, quis ajudar-me:
        - Os antigos costumavam orientar-se em suas decises
importantes pelo movimento dos animais.
        No aceitei a ajuda. O gato ingls no funcionava como
orculo; fora o prprio destino.
        Ada, com os grandes olhos arregalados, quis outras
explicaes:
        - E o gato representou para o senhor todo o povo ingls?
        Que azar o meu! Embora verdadeira, aquela aventura me
parecia instrutiva e interessante como se tivesse sido inventada
com objetivos precisos. Para compreend-la, no bastava
recordar que na Itlia, onde conheo e amo tanta gente, a ao
daquele gato no teria adquirido tamanha importncia? Em vez
disso, falei:

74 75

        - O certo  que nenhum gato italiano seria capaz de tal ao.
        Ada ria, ria, no parava de rir. Mas eu, no satisfeito com
o sucesso alcanado, acabei por estragar toda a aventura,
aduzindo-lhe explicaes ulteriores.
        - O prprio livreiro mostrou-se surpreendido com a atitude
do gato que se portava to bem com outros clientes. O caso tinha
ocorrido por se tratar de mim ou porque eu fosse italiano.
It was really disgusting, e tive que fugir.
        Nesse momento aconteceu algo que deveria advertir-me e
salvar-me. A pequena Anna, que at ento estivera imvel a
observar-me, ps-se em voz alta a exprimir o sentimento de Ada.
Gritou:
        - No acham que ele  doido, doido de pedra?
        A Sra. Malfenti repreendeu-a:
        - Quer ficar quieta? No tem vergonha de se meter na
conversa dos mais velhos?
        A repreenso s serviu para piorar. Anna gritou:
        - Ele  doido! Fala com os gatos! Precisamos arranjar logo
uma corda para amarr-lo!
        Augusta, vermelha de desapontamento, ergueu-se e carregou
com a menina da sala, advertindo-a ao mesmo tempo que me
pedia desculpas. Ainda na porta, a pequena vbora conseguiu
fixar-me nos olhos, fazer-me uma careta horrvel e gritar:
        - Vai acabar amarrado!
        Eu fora agredido to inesperadamente que custei a encontrar
um modo de defender-me. Senti-me, porm, um tanto aliviado
ao perceber que Ada lastimava a expresso que encontrara um
sentimento que era seu. A impertinncia da irm nos havia
aproximado.
        Contei-lhes, a rir satisfeito, que eu possua em casa um
certificado com firma reconhecida atestando de maneira insofismvel
minha sanidade mental. Souberam assim da partida que eu havia
pregado ao meu velho. Propus trazer o certificado para mostr-lo
a Anninha.
        Quando fiz meno de levantar-me, no me deixaram partir.
Queriam primeiro que me esquecesse dos arranhes que me
tinham sido infligidos por aquele outro gato. Pediram-me para
ficar mais um pouco e ofereceram-me uma xcara de ch.
         certo que senti, vagamente e logo de incio, que, para ser
agradvel a Ada, teria que me mostrar um pouco diferente do
que era; julguei que me seria fcil tornar-me o ser que ela
queria. Continuando a falar da morte de meu pai, pareceu-me
que, se revelasse a grande dor que ainda me pesava, a sria
Ada poderia compartilh-la comigo. De repente, no esforo de
parecer-me com ela, perdi a naturalidade e por isso acabei -
como logo se ver - por afastar-me dela. Disse que a dor por
uma perda semelhante era tal que, se eu tivesse filhos, trataria
de fazer com que me amassem menos para evitar que mais tarde
sofressem tanto com minha partida. Fiquei um tanto embaraado
quando me perguntaram como eu me comportaria para alcanar
tal escopo. Havia de maltrat-los e castig-los? Alberta, rindo,
acrescentou:
        - O mtodo mais seguro talvez seja mat-los.
        Percebi que Ada estava imbuida do desejo de no
desagradar-me. Por isso hesitava; mas todo o seu esforo no
conseguia faz-la vencer a hesitao. Depois disse que, por
bondade, eu poderia assim organizar a vida de meus filhos, mas
no lhe parecia justo que algum vivesse a se preparar para a
morte. Insisti em meu ponto de vista e afirmei que a morte era
a verdadeira mentora da vida. Pensava permanentemente na
morte e tinha apenas um desgosto: a certeza de que iria morrer.
Todas as outras coisas se tornavam to pouco importantes que
eu no tinha para elas seno um jovial sorriso ou um riso
igualmente jovial. Deixei-me levar a dizer coisas que eram menos
verdicas, em especial quando estava com ela, que j se tornava
uma parte muito importante de minha vida. Na verdade, creio
haver-lhe falado assim no desejo de faz-la saber que eu era
um homem divertido. Em geral a alegria me ajudava a fazer a
boa figura que me havia favorecido junto s mulheres.
        Pensativa e hesitante, ela me confessou que no apreciava
semelhante estado de esprito. Menosprezando o valor da vida,
tornvamo-la ainda mais precria do que a natureza
predestinara que fosse. Na verdade, estava dizendo que eu no lhe
agradava; como, porm, conseguira faz-la hesitante e pensativa, isso
j me parecia grande vitria.

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        Alberta citou um filsofo da Antigidade cuja concepO da
vida se assemelhava  minha e Augusta disse que achava o
riso uma coisa muito boa. O pai gostava muito de rir.
        - Sempre que os negcios lhe andam bem - completou a
Sra. Malfenti, sorrindo.
        Interrompi finalmente aquela visita memorvel.
        Nada h mais difcil neste mundo do que se fazer o casamento
que se quer como se pretende. V-se pelo meu exemplo, em que
a deciso de casar-me precedera de muito a prpria escolha da
noiva. Por que no me dispus a ver umas quantas mulheres
antes de escolher a minha? No! Pareceu-me pura perda de tempo
e no quis dar-me ao trabalho. Uma vez escolhida a moa,
podia pelo menos t-la analisado melhor e assegurar-me de que
ela estaria disposta a vir ao meu encontro no meio do caminho,
como acontece nos romances de amor que acabam bem. Em vez
disso, escolhi a moa de voz um tanto grave e cabeleira um
pouco rebelde severamente presa e pensei que, sendo sria, no
recusaria um homem inteligente, nada feio, rico e de boa famlia
como eu. Desde as primeiras palavras que trocamos senti
algumas dissonnCias, mas a dissonncia  o caminho da harmonia.
Devo ainda confessar que pensei: "Ela deve permanecer como
, pois assim me agrada, estando eu disposto a mudar se ela
o quiser." No fundo era bem modesto, pois  sem dvida mais
fcil a gente modificar-se do que reeducar os outros".
        Com pouco a famlia Malfenti tornou-se o centro de minha
vida. Passava as noites em casa de Giovanni, que se tornara
mais afvel e ntimo comigo depois que me apresentara 
famlia. Foi essa afabilidade que me fez ficar afoitO. A prinCPiO,
visitava a casa apenas uma vez por semana, depois mais
freqentemente e, por fim, ia l todas as noites passar algumas
horas. Para insinuar-me naquela casa nO faltavam pretextos e
creio no me enganar admitindo que estes at me fossem
ofetecidos. s vezes levava comigo o violino e lia um pouco de
msica com Augusta, a nica da casa que sabia tocar piano.
Pena que Ada no tocasse, pena tambm que eu tocasse to
mal e pena ainda que Augusta fosse pior musicista. Via-me
obrigado a eliminar alguns trechos mais difceis das peas
executadas sob o falso pretexto de que h muito no pegava no
instrumento. Entre amadores o pianista  quase sempre melhor do
        que o violinista, e Augusta tinha uma tcnica razovel; no entanto,
eu, que tocava pior, nunca me contentava com sua execuo
e pensava: "Se eu tivesse uma tcnica assim, como tocaria
melhor!" Ao mesmo tempo que eu julgava Augusta, as outras
julgavam a mim e, como soube mais tarde, de modo nada
favorvel. Augusta teria de bom grado continuado com os saraus;
tendo percebido que Ada se enfastiava deles, simulei duas ou
trs vezes haver esquecido o violino, e Augusta por fim no
perguntou mais por ele.
        E dizer que com Ada eu no passava apenas as horas em
que permanecia naquela casa. A moa no me saa da mente
o dia inteiro. Era a mulher que eu havia escolhido, ja portanto
minha, e adornei-a com todos os predicados para que o prmio
da vida me parecesse mais belo. Emprestei-lhe todas as
qualidades de que sentia falta, para que, alm de minha
companheira, ela fosse tambm uma espcie de segunda me que me
conduzisse por uma vida ntegra, viril, de lutas e conquistas.
        Em meus sonhos, at fisicamente embelezei-a, antes de
apresent-la aos outros. Na vida real, andei correndo atrs de muitas
mulheres e boa parte delas se deixou conquistar. No pensamento
conquistei-as todas. Naturalmente, no as embelezo
alterando-lhes os traos; fao como um amigo meu, pintor sensibilssimO,
que, quando retrata mulheres bonitas, pensa intensamente em
outras coisas belas, como, por exemplo, porcelana fina. Um
sonho perigoso, pois pode-se conferir novo poder s mulheres com
quem se sonhou e que, vistas de novo  luz da realidade,
conservam algo das frutas, das flores ou da porcelana de que foram
adornadas.
        -me penoso relatar meu namoro com Ada. Passei mais tarde
por um perodo interminvel de minha vida em que me
esforava por esquecer aquela estpida aventura de que me
envergonhava a ponto de gritar e protestar. "Mas aquele idiota era
mesmo eu?!" Quem haveria de ser! Como o protesto confere
sempre algum conforto, eu insistia. O caso no teria tanta
importncia se tivesse ocorrido dez anos antes, quando eu estava
com vinte! Mas ser punido com tamanha imbecilidade s pelo
fato de que havia resolvido casar-me  algo que me parece
injusto. Eu, que j tinha passado por toda espcie de aventura,
guiado sempre por um esprito resoluto que chegava inclusive

78 79

 desfaatez, eis que de repente me transformava no rapazinho
tmido que procura aflorar a mo da bem-amada, de
preferncia sem que ela perceba, para depois adorar aquela parte do
prprio corpo que teve a glria de um tal contato. Essa
aventura, que foi a mais cndida de minha vida, at hoje, j velho,
recordo-a como se fosse a mais torpe. Era fora de propsito,
deslocada no tempo, como um rapaz de dez anos que ainda se
aferra ao seio de sua ama. Uma vergonha!
        E como explicar minha longa hesitao em dizer claramente
 moa: "Ento? Quer ou no casar comigo?" Eu chegava
quela casa levado por meus sonhos; contava os degraus que
me conduziam ao primeiro andar, dizendo para mim que, se
fossem mpares, estava provado que ela me amava, sabendo
bem que eram quarenta e trs. Chegava a ela armado de
resoluo e acabava falando de outras coisas. Ada estava a ponto
de manifestar-me o seu desdm, e eu calado! Em seu lugar eu
j teria expulso aquele rapazola de trinta anos a pontaps no
traseiro!
        Devo dizer que de certa forma eu no me comportava
exatamente como um colegial enamorado que se cala  espera de
que a bem-amada lhe salte ao pescoo. Nada disso. Eu queria
declarar-me, s que mais tarde. Esperava tornar-me um pouco
mais nobre, mais forte, mais digno da minha divina eleita. Isso
poderia acontecer de um momento para outro. Por que no
esperar?
        Envergonho-me de no haver percebido antes que
caminhava para um malogro. Ada era uma criatura inteiramente
ingnua, mas na imaginao eu a transformara numa namoradeira
das mais consumadas. Da ter sido totalmente injusto meu
enorme rancor quando ela afinal me fez compreender que no queria
nada comigo. Eu tanto havia confundido o sonho com a
realidade que no conseguia convencer-me de que ela jamais me
tivesse beijado.
        Equivocar-se a respeito das mulheres chega a ser um sinal de
inferioridade masculina. Eu jamais me enganara antes e quero
crer que s me enganei a respeito de Ada por haver desde o
princpio falseado minhas relaes com ela. Aproximei-me no
para conquist-la, mas para casar-me, e o casamento  uma via
inslita do amor, uma via larga e cmoda, mas que no conduz
 meta, embora muito se aproxime dela. O amor ao qual se
chega atravs dela est despido de sua caracterstica principal:
a sujeio da fmea. O macho, assim, se prepara para sua
funo com grande inrcia, a qual pode estender-se a todos os
sentidos, inclusive aos da vista e da audio.
        Eu levava diariamente flores s trs mocinhas e lhes
presenteava com as minhas extravagncias, principalmente, numa
leviandade incrvel, com trechos de minha autobiografia.
        Ocorre lembrarmo-nos com mais fervor do passado quando
o presente adquire uma importncia especial para ns. Diz-se
mesmo que os moribundos, em seu ltimo delrio, revem toda
a sua vida. O meu passado ento se agarrava a mim com a
violncia do ltimo adeus, pois eu tinha a sensao de afastar-me
muito dele. E por isso falava sem cessar desse passado s trs
meninas, encorajado pela grande ateno que Augusta e Alberta
demonstravam, o que talvez compensasse a desateno de Ada.
Augusta, com sua boa ndole, comovia-se facilmente, e Alberta,
ao ouvir as descries de minhas escapadas de estudante, ficava
corada de desejo de vir um dia a passar por aventuras
semelhantes.
        Muito tempo depois soube por Augusta que nenhuma das
trs moas levava a srio as minhas narrativas. Isso, para
Augusta, as fazia mais preciosas, pois, se inventadas por mim,
tornavam-se ainda mais pessoais do que se fosse o destino que
mas houvesse imposto. Para Alberta, mesmo as partes em
que no acreditava pareciam agradveis, porquanto lhe forneciam
timas sugestes. A nica que se indignava com minhas
mentiras era a circunspecta Ada. Assim os meus esforos para distra-las
acabava sendo algo como o atirador que consegue acertar
no alvo de seu companheiro ao lado.
        No entanto, as aventuras eram em grande parte verdadeiras.
No sei precisar exatamente em que proporo, pois, tendo-as
Contado a tantas outras mulheres antes de faz-lo s filhas de
Malfenti,  natural que as alterasse para que soassem mais
atraentes. Eram verdadeiras a partir do momento em que no
as podia mais modificar. J no me importa hoje provar que
eram autnticas. No pretendo desenganar Augusta, que adora
julg-las de minha inveno. Quanto a Ada, creio que ter hoje
mudado de opinio e as considera verdadeiras.

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        Meu total insucesso com Ada manifestou-se exatamente no
instante em que julguei oportuno declarar-me. Acolhi a
evidncia com surpresa e a princPiO com incredulidade. Ela no disse
uma nica palavra que patenteaSSe sua averso por mim; cerrei,
no entanto, os olhos para no ver aqueles pequenos gestos que
no me expressavam grande simpatia. Ademais, eu no havia
propriamente pronunciado a palavra adequada e podia assim
imaginar que Ada ignorasse minha inteno de despos-la,
suspeitando em vez disso que o estudante frvolo e muito pouco
virtuosO, ou seja, eu, quisesse coisa diferente.
        O mal-entendido prolongava-se sempre por causa das minhas
intenes demasiadamente matrimoniais.  verdade que ento
desejava Ada inteiramente, a quem, na imaginao, emprestava
uma face ainda mais suave, moS ainda menores e uma cintura
ainda mais fina. Desejava-a como mulher e amante. Mas 
decisivo o modo como nos aproximamos pela primeira vez de
uma mulher.
        Eis que por vrias vezes consecutivas fui recebido naquela
casa por uma das outras trs irms. A ausncia de Ada foi na
primeira vez levada  conta de uma visita de obrigao que
tivera de fazer; na segunda, um mal-estar; na terceira, no me
deram qualquer explicao, at o momento em que eu,
alarmado, tive de perguntar por ela. Augusta, a quem eu havia por
acaso feito a pergunta, nada respondeu. Respondeu Alberta, que
parecia ali de propsito para prestar-lhe assistncia: Ada fora
passar uns tempos com a tia.
        Quase perdi o flego. Era evidente que Ada me evitava. No
dia anterior eu ainda havia suportado a sua ausncia e
prolongara a visita na esperana de que ela acabasse por surgir.
Naquele outro dia, no entanto, permaneci ainda por alguns
instantes, incapaz de abrir a boca, e logo, pretextando uma
repentina dor de cabea, levantei-me para sair. Curioso que o
primeiro sentimento que me assaltou ao esbarrar na resistncia
de Ada fosse de clera e desdm! Pensei at em recorrer a
Malfenti para chamar a filha  ordem. Um homem a fim de
casar-Se  capaz de tais aes,  maneira de seus antepassados.
        A terceira ausncia de Ada devia tornar-se ainda mais
significativa. Quis o acaso que eu descobrisse estar ela em casa,
reclusa em seu quarto.
        Devo antes de mais nada dizer que naquela casa havia outra
pessoa que eu jamais conseguira conquistar: a pequena Anna.
Diante das outras ela nunca mais me agrediu, pois haviam-na
exemplado duramemte. De quando em quando, tambm ela vinha
ter com as irms e punha-se a ouvir minhas balelas. Quando
me levantava para sair, acompanhava-me at a porta, pedia-me
docilmente que me inclinasse para ela, erguia-se na ponta dos
pezinhos e, quando conseguia chegar exatamente  altura de
meu ouvido, dizia, baixando a voz para no ser ouvida seno
por mim:
        -        Voc  doido, completamente doido!
        O        engraado  que diante das outras a fingida me tratava
por senhor. Se estava presente a Sra. Malfenti, ela corria a
refugiar-se nos braos da me, que a acariciava dizendo:
        -        A Anninha agora est to educada, no  mesmo?
        Eu no protestava e a gentil Anninha continuou a me chamar
de doido. Acolhia sua declarao com um sorriso vil que podia
parecer de reconhecimento. Esperava que a menina no tivesse
coragem de contar sua agresso aos adultos e no queria que
Ada viesse a saber do juzo que de mim fazia a irmzinha. A
menina acabou realmente por embaraar-me. Quando falava
com as outras, se por acaso os meus olhos se fixavam nos dela,
eu tinha de encontrar um modo de desvi-los imediatamente,
sem com isso chamar ateno. A verdade, porm,  que me
ruborizava. Parecia-me que a danadinha podia prejudicar-me
com o juzo que de mim fazia. Passei a trazer-lhe presentes, que
no serviram para amans-la. Deve ter percebido a sua
influncia e a minha fraqueza, e na presena dos outros olhava-me com
ar insolente e inquisidor. Creio que todos ns temos, na
conscincia, como no corpo, certos pontos delicados e secretos sobre
os quais preferimos no pensar. No sabemos exatamente o que
so, mas sabemos que existem. Eu afastava os olhos daquela
criana que queria penetrar-me.
        Contudo, no dia em que, desolado e abatido, ia saindo
daquela casa e a peralta me obrigou mais uma vez a inclinar-me
para ouvir seus desaforos, voltei-me com uma expresso
transtornada de verdadeiro louco, ergui no ar as mos ameaadoras
com os dedos crispados, e a menina saiu correndo a gritar.

82 83

        Com isso cheguei a ver Ada nesse mesmo dia, tendo sido
ela quem acorreu aos gritos da irm. A criana contou
soluando que eu a havia ameaado rudemente porque me chamara
de doido:
        - Se ele  doido mesmo! Que mal tem em dizer?
        Eu no prestava ateno  menina, estupefato ao perceber
que Ada estava em casa. As irms, portanto, haviam mentido,
ou pelo menos Alberta, a quem Augusta havia transferido o
encargo, eximindo-se igualmente de faz-lo! Num instante
adivinhei toda a verdade. Disse a Ada:
        - Que prazer em v-la. Julguei que se achava em casa de
sua tia.
        Ela no respondeu imediatamente, ocupada que estava com
a irm aos prantos. Aquela delonga em obter as explicaes com
que me julgava no direito, fez-me o sangue subir  cabea.
Faltavam-me as palavras. Dei mais um passo em direo  porta
da rua e, se Ada no houvesse falado, teria sado daquela casa
para no voltar nunca mais. Na minha ira pareceu-me faclimo
renunciar ao sonho que ento julguei ter durado demais.
        Ela, porm, ruborizada, voltou-se para mim e disse que havia
acabado de chegar, vinda da casa da tia.
        Tanto bastou para acalmar-me. Como estava linda assim,
maternalmente inclinada sobre a menina que continuava
esperneando! Seu corpo era to flexvel que parecia ter diminudo
para melhor acolher a irm pequenina. Fiquei a admir-la,
considerando-a novamente minha.
        Senti-me to sereno que quis apagar todo o ressentimento
pouco antes manifestado e fui gentilssimo com Ada e tambm
com Anna. Falei, rindo sem maldade:
        - Chama-me tanto de doido que quis mostrar-lhe como era
realmente a cara e os gestos de um louco. Peo desculpas! A
voc tambm, Anninha, que no deve ter medo de mim, pois sou
um louco manso.
        Ada, por sua vez, tambm se mostrou gentil. Repreendeu a
irmzinha, que continuava a soluar, e pediu-me desculpas por
ela. Se, por sorte, Anninha tivesse escapado furiosa, eu teria
tido coragem de falar. Diria uma dessas frases que se
encontram nos livros de gramtica estrangeira, construdas de
propsito para facilitar a vida dos que no conhecem a lngua do
pas em que se encontram: "Posso pedir a vosso pai que me
conceda a vossa mo?" Era a primeira vez que sentia desejo
de casar-me; portanto, encontrava-me em territrio totalmente
desconhecido. At ali, meu tratamento com as mulheres com as
quais me relacionara havia sido completamente diferente.
Comeava por deitar-lhes as mos sem pedir permisso a ningum.
        No cheguei a pronunciar sequer aquelas poucas palavras.
At elas requeriam um certo lapso de tempo! Tinham que ser
acompanhadas de uma expresso facial de splica, difcil de
esboar imediatamente aps minha luta com Anna e tambm
com Ada, principalmente agora que do fundo do corredor
avanava a figura da Sra. Malfenti, atrada pela algazarra da menina.
        Estendi a mo a Ada, que me abriu cordialmente a sua, e
disse:
        - At amanh. Pea desculpas por mim  sua me.
        Hesitei, contudo, em largar a mo que repousava to
confiante na minha. Sentia que, se a abandonasse, estaria
renunciando  oportunidade nica que a jovem me ensejava, disposta
que se revelava a tratar-me cortesmente, para recompensar-me
das malcriaes da irm. Segui a inspirao do momento,
inclinei-me sobre a mo e aflorei-a com os lbios. Em seguida abri
a porta e sa s pressas, no sem antes ter visto que Ada, que
at ento havia abandonado a mo direita enquanto com a
esquerda segurava a irm agarrada ao seu vestido, ficara a olhar
espantada para a mo que sofrera o contato de meus lbios,
como se quisesse descobrir se nela havia alguma coisa escrita.
No creio que a Sra. Malfenti tivesse visto o que ocorrera.
        Detive-me um instante na escada, espantado tambm eu com
meu ato absolutamente imprevisto. No seria possvel retornar
a porta que se fechara atrs de mim, tocar de novo a campainha
e pedir para dizer a Ada aquelas palavras que ela havia
buscado inutilmente em sua prpria mo? Preferi no faz-lo. Seria
falta de dignidade demonstrar tamanha impacincia. Depois,
tendo-lhe prevenido que voltaria no dia seguinte, com isso lhe
prenunciava minhas explicaes. Tudo dependia agora dela, de
me propiciar a oportunidade para d-las. J no podia mais
contar lorotas a trs jovens, pois acabara de beijar a mo a
uma delas.

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O        resto do dia foi desagradvel. Sentia-me inquieto e ansioso.
Procurava acalmar-me, dizendo que toda a minha inquietude
provinha da impacincia de ver resolvido o meu assunto.
Parecia-me que, se Ada me houvesse recusado, teria podido
calmamente correr  procura de outras mulheres. Todo o meu apego
por ela era fruto de minha livre resoluo, a qual podia ser
anulada por outra que lhe fosse contrria! No compreendi
que, naquele instante, no havia outras mulheres no mundo
para mim e que tinha realmente necessidade de Ada.
        At mesmo a noite que se seguiu pareceu-me longussima
passei-a quase totalmente insone. Aps a morte de meu pai,
abandonara meus hbitos de noctmbulo; agora, depois de
tomada a resoluo de casar-me, teria sido estranho retornar a
eles. Tinha-me, pOiS, deitado bem cedo, ansiando por
mergulhar no sono que faz passar o tempo depressa.
Durante o dia aceitara com a mais cega confiana as
explicaes de Ada para as suas trs ausencias da sala de visitas
nas horas em que l estive, confiana devida  minha
inabalvel convico de que a mulher eleita jamais poderia mentir.
Durante a noite, porm, essa confiana diminuiu. Comecei a
imaginar se no teria sido eu mesmo a inform-la de que Alberta
-        quando Augusta se havia recusado a falar - alegara em
seu favor a visita  tia. No me lembrava bem das palavras
que lhe havia dirigido num momento de transtorno, mas creio
estar certo de lhe haver mencionado aquela desculpa. Que pena!
Se no o houvesse feito, talvez ela, para escusar-se, inventasse
outra coisa qualquer, e eu, apanhando-a na mentira, j
dispusesse do esclarecimento que desejava.
        Neste ponto poderia perceber a importncia que Ada
assumira para mim, porquanto, a fim de acalmar-me, dizia a mim
mesmo que, se ela no me quisesse, eu renunciaria para
sempre ao casamento. Sua recusa mudaria a minha vida. E
continuava a sonhar, confortando-me no pensamento de que talvez
aquela recusa representasse uma felicidade para mim.
Recordava o filsofo grego que previa arrependimentos tanto para os
que se casavam quanto para os que permaneciam solteiros. Em
suma, no me achava ainda incapaz de rir da minha aventura;
era incapaz apenas de dormir.
        S ca no sono ao amanhecer. Ao despertar, era to tarde
que s umas poucas horas me separavam do momento em que
a visita aos Malfenti me era permitida. No havia assim
necessidade de exercitar a minha fantasia  procura de outros
indcios que me esclarecessem os sentimentos de Ada. No entanto,
 difcil impedir que o nosso prprio pensamento se ocupe de
um assunto que nos importa. O homem seria um animal mais
feliz se soubesse como faz-lo. Enquanto me preparava com
exagerado cuidado, no pensava em outra coisa: fizera bem em
beijar a mo de Ada ou fizera mal em no t-la beijado logo
na boca?
        Naquela exata manh tive uma idia que suponho me ter
prejudicado bastante, privando-me da pouca iniciativa viril que
minha curiosa euforia de adolescente me havia proporcionado.
Uma dolorosa dvida: e se Ada quisesse casar comigo s por
instigao dos pais, sem amar-me e at sentindo certa averso
por mim? Porque era certo que todos na famlia, ou seja,
Giovanni, a Sra. Malfenti, Augusta e Alberta me queriam bem;
podia duvidar apenas de Ada. No horizonte delineava-se o
prprio enredo dos romances populares em que a 'mocinha' era
obrigada pela famlia a um casamento odioso. S que eu no
permitiria. Eis a nova razo por que devia falar com Ada, ou
seja, com ela a ss. No bastava que lhe dirigisse a frase feita
que trazia pronta comigo. Olhando-a nos olhos, perguntaria:
"Voc me ama?" Se dissesse sim, eu a estreitaria nos braos
para sentir-lhe a vibrao da sinceridade.
        Assim, supunha estar preparado para tudo. E acabaria por
chegar quela espcie de exame sem ter revisto exatamente as
pginas do texto sobre o qual me caberia falar.
        Fui recebido apenas pela Sra. Malfenti, que me fez acomodar
a um ngulo do grande salo e comeou logo a conversar
vivamente, impedindo-me de perguntar pelas filhas. Eu permanecia
um tanto distrado e repetia mentalmente a lio para no me
esquecer dela no momento oportuno. De repente, fui chamado
 ateno como por um toque de trombeta. A senhora estava
elaborando um prembulo. Assegurava-me a amizade de todos
da famlia, a sua, do marido, das filhas, inclusive da pequena
Anna. J nos conhecamos h bastante tempo. Vamo-nos regularmente h quatro meses.

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-        H cinco! - apressei-me em corrigir, pois havia feito os
clculos na vspera, ao recordar que minha primeira visita
ocorrera no outono e agora estvamos em plena primavera.
        -        Sim! Cinco! - disse a senhora, pensativa, como se
revisse os meus clculos. Depois, com ar de reprovao: - O
que acho  que o senhor est comprometendo a Augusta.
-        A Augusta? - perguntei, supondo ter ouvido mal.
        - Sim! - confirmou a senhora. - O senhor alimenta
esperanas e com isso a compromete.
        Ingenuamente deixei transparecer o meu sentimento:
        - Mas se quase no vejo a Augusta.
        Ela teve um gesto de surpresa, e (ou pareceu-me?) surpresa
dolorosa.
        Ao mesmo tempo, eu pensava intensamente numa maneira
de explicar aquilo que me parecia um equvoco e do qual
imediatamente percebi a importncia. Revi-me mentalmente em
cada uma daquelas visitas ao longo de cinco meses a observar
Ada. Tinha tocado com Augusta e at, na verdade, vez por
outra falava mais com ela, que estava a me ouvir, do que com
Ada, mas apenas para que ela transmitisse a Ada as minhas
conversas seguidas de sua aprovao. Devia falar claramente com
a senhora e dizer-lhe do meu interesse por Ada? Pouco antes
eu tinha resolvido que s falaria com Ada para sondar seus
sentimentos. Talvez, se tivesse falado claramente com a Sra.
Malfenti, as coisas se passassem agora de outra maneira e, no sendo
possvel casar-me com Ada, tambm no me teria casado com
Augusta. Deixando-me conduzir pela resoluo que tomara
antes de estar com a Sra. Malfenti e ouvir as coisas surpreendentes
que ela dizia, calei-me.
        Pensava intensamente; sentia-me um pouco confuso. Queria
compreender, queria adivinhar, e sem perda de tempo. Quanto
mais se arregalam os olhos, menos nitidamente se vem as coisas.
Entrevi a possibilidade de que me quisessem fechar a porta.
Logo a exclu. Eu era inocente, j que no fazia a corte a Augusta
a quem queriam proteger. Talvez me atribussem
intenes sobre Augusta a fim de no comprometerem Ada. E por
que proteger daquela maneira Ada, que j no era mais
nenhuma criana? Eu estava certo de no t-la agarrado pelos cabelos
seno em sonhos. Na realidade, s lhe havia aflorado a mo com
os meus lbios. No queria que me fosse interdito o acesso
quela casa; antes de abandon-la, queria falar com Ada. Assim,
perguntei com voz trmula:
        -        A senhora diga-me o que devo fazer para no desagradar
a ninguem.
        Ela hesitou. Eu teria preferido tratar desses assuntos com
Giovanni, que pensava aos berros. Depois, decidida, embora
fazendo um visvel esforo para se mostrar corts, o que
transparecia no tom de sua voz, respondeu:
        -        O melhor ser vir menos freqentemente  nossa casa por
uns tempos, ou seja, em vez de vir todos os dias, venha duas ou
trs vezes por semana.
         certo que, se me tivesse dito rudemente que me fosse
embora e no voltasse mais, eu, sempre seguindo o meu propsito,
lhe teria suplicado que me tolerasse na casa, ao menos por mais
um ou dois dias, a fim de esclarecer minhas relaes com Ada.
Em vez disso, suas palavras, mais brandas do que eu temia,
deram-me coragem de manifestar meu sentimento:
        -        Mas se a senhora assim deseja, no porei mais os ps nesta
casa!
        Sucedeu o que eu previa. Ela protestou, voltou a falar da
estima que todos me votavam e suplicou que no me agastasse
com ela. E eu me mostrei magnnimo, prometi-lhe tudo o que
queria, ou seja, abster-me de vir ali por uns quatro ou cinco dias,
para retornar depois com certa regularidade, todas as semanas,
duas ou trs vezes, e, acima de tudo, que no lhe guardaria
rancor.
        Depois de feitas as promessas, quis dar-lhe uma prova de
que as cumpriria e levantei-me para sair. A senhora protestou,
sorrindo:
        - Pode ficar mais um pouco, porque a mim o senhor no
compromete em nada.
        Como eu insistisse em ir embora, alegando um compromisso de
que s ento me recordava, embora fosse verdade que no via
a hora de ficar s para refletir melhor sobre a extraordinria
aventura que me acontecia, a senhora pediu-me insistentemente
que ficasse mais, dizendo-me que assim lhe daria a prova
de que no me zangara com ela. Permaneci, exposto  tortura de
ouvir continuamente o palavrrio vazio com que agora atacava

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as modas femininas que ela se recusava a seguir, ou com que
discorria sobre teatro ou sobre o tempo seco que anunciava a
primavera.
        Pouco depois senti-me contente por ter permanecido, pois
percebi que tinha necessidade de um esclarecimento ulterior.
Sem a menor cerimnia interrompi a senhora, cujas palavras j
nem ouvia, e perguntei:
        - E todos da famlia sabem que a senhora ia pedir para
me afastar desta casa?
        A princpio pareceu que ela no se recordava mais do nosso
pacto. Depois protestou:
        -        Afastar-se desta casa? Mas  apenas por uns dias, fique
bem claro. No direi nada a ningum, nem mesmo a meu
marido, e lhe ficaria grata se o senhor mantivesse a mesma discrio.
        Prometi; prometi at que, se me fosse pedida alguma
explicao por que no aparecia mais com a mesma freqncia,
alegaria um pretexto qualquer. Por ora, dei f s palavras da
senhora e fiquei imaginando que Ada pudesse ficar admirada e
sentida com a minha ausncia imprevista. Uma idia
agradabilssima!
        Permaneci mais um pouco, sempre  espera de que me viesse
alguma inspirao para continuar, enquanto a senhora falava do
preo dos comestveis que nos ltimos tempos se tornara
altssimo.
        Em vez de outra inspirao, quem chegou foi tia Rosina, irm
de Giovanni, mais velha e muito menos inteligente do que ele.
Havia, contudo, alguns traos de sua fisionomia moral que
bastavam para caracteriz-la como irm dele. Antes de mais
nada a mesma conscincia um tanto cmica do seus prprios
direitos e dos deveres dos outros, de vez que era destituda de
qualquer meio para impor-se, e padecia tambm do vcio de
elevar freqentemente a voz. Acreditava-se com tamanhos
direitos na casa do irmo que - como logo apreendi - por muito
tempo considerou a Sra. Malfenti quase como intrusa. Era
solteirona e vivia com uma nica criada de quem falava sempre
como se se referisse  pior inimiga. Quando estava para morrer,
recomendou a minha mulher que vigiasse a casa at que se fosse
embora aquela que a assistira durante toda a vida. Todos em
casa suportavam-na com medo de sua agressividade.
        Assim, fui ficando. Tia Rosina gostava mais de Ada que das
outras sobrinhas. Veio-me o desejo de conquistar-lhe tambm
a amizade e busquei uma frase amvel com que me dirigir a ela.
Recordei-me vagamente de que na ltima vez que a vira (ou
melhor, que a entrevira, j que ento no sentia a menor vontade
de estar com ela) as sobrinhas, mal ela sara, observaram que a
tia estava de maus bofes. Uma delas chegou a dizer:
        -        Deve ter-se enfurecido em alguma discusso com a
empregada!
        Encontrei o que buscava. Fitando afetuosamente a carranca
enrugada da velha senhora, disse:
        - A senhora est muito melhor agora.
        Antes no tivesse pronunciado tal frase. Olhou-me espantada
e protestou:
        -        Estou sempre na mesma. Por que haveria de estar melhor?
        Queria saber quando a vira pela ltima vez. No recordava
precisamente a data e tive de lembrar-lhe que havamos passado
uma tarde inteira juntos, sentados naquele mesmo salo com as
trs mocinhas, mas no na parte em que nos achvamos agora,
e sim na outra. Estava disposto a demonstrar-lhe meu interesse,
embora as explicaes que ela exigia tornassem a coisa tediosa.
Minha falsidade me pesava, provocando-me verdadeira dor.
        A Sra. Malfenti interveio sorridente:
        - O senhor no queria de maneira alguma dizer que a tia
Rosina est mais gorda?
        Diabo! Ali estava a razo do ressentimento de tia Rosina, que
era muito gorda, como o irmo, e fazia tudo para emagrecer.
        - Gorda? Claro que no! Referia-me simplesmente ao bom
aspecto da senhora.
        Tentava manter uma fisionomia afetuosa e fazia esforos para
no dizer alguma impertinncia.
        Nem assim tia Rosina pareceu satisfeita. No estivera doente
nos ltimos tempos e no compreendia por que pudesse parecer
melhor. E a Sra. Malfenti veio dar-lhe razo:
        -         mesmo uma de suas caractersticas no mudar de aspecto
-        disse, voltando-se para mim. - No lhe parece?
Ora se me parecia! Era evidente. Levantei-me rpido. Estendi
COm grande cordialidade a mo a tia Rosina, esperando
amans-la; ela concedeume a sua sem olhar para o meu lado.

        90        91

Mal atravessei o prtico da casa, meu estado de esprito
modificou-se. Que alvio! No tinha mais que estudar as intenes
da Sra. Malfenti nem fingir satisfao diante de tia Rosifla. Na
verdade, acho que, se no fosse pela rude interveno desta ltima,
a ardilosa Sra. Malfenti teria conseguido perfeitamente o seu
escopo e eu teria sado daquela casa satisfeitO com o bom
tratamento que todos ali me dispensavam. Corri aos saltos escada
abaixo. Tia Rosina fora uma espcie de comentrio s intenes
da Sra. Malfenti.
Queria que me afastasse de sua casa por uns tempos? Que
boazinha, a cara senhora! Pois iria satisfaz-la muito alm de
sua expectativa; jamais me voltaria a ver! Haviam-me torturado,
ela, a tia, at mesmo Ada! Com que direito? S porque queria
casar-me? E j nem pensava mais niSSO! Como era bela a
liberdade!
Durante um bom quarto de hora corri pelas ruas
acompanhado de um sentimento de exaltao. Depois senti necessidade
de uma liberao ainda maior. Devia encontrar um jeito de
assinalar de modo definitivo a minha vontade de no mais pr
os ps naquela casa. Afastei a idia de escrever uma carta de
despedida. Meu abandOno tornar-se-ia mais desdenhoSO ainda se
no comunicasse a minha inteno. Como se eu simplesmente
me esquecesse de procurar Giovanni e toda a sua famlia.
Achei uma forma discreta e delicada, embora um tanto
irnica, de assinalar o meu desgnio. Corri a um florista e escolhi
um magnfico ramo de flores que endereCei  Sra. Malfenti:
acompanhado apenas do meu carto de visita, no qual escrevi
simplesmente a data. No me ocorria nada mais. Uma data de
que nunca me esqueci e de que talvez no se esqueceram Ada e
sua me: 5 de maio, aniversrio da morte de Napoleo.
Ordenei O envio imediato. Era importantSsimo que as flores
chegassem no mesmo dia.
E agora? j fizera tudo; no, podia fazer mais nada! Ada e
toda a sua famlia estavam segregadas de mim e eu teria de
permanecer  espera de que algum deles viesse procurarme,
dando-me assim ensejo de dizer ou fazer alguma coisa mais.
Corri para o meu estdio para refletir e ficar trancado. Se
desse azo  minha espantosa impacincia, teria logo voltado a
correr quela casa, arriscando-me a chegar antes de meu ramo
de flores. Pretextos  que no me faltariam. Poderia ter
esquecido o guarda-chuva!
        No quis fazer semelhante coisa. Com o envio das flores eu
firmara uma belssima atitude que me impunha a mim mesmo
conservar. O caso era manter-me firme, competindo a eles o
primeiro passo.
        O        recolhimento que busquei em meu pequeno estdio, e do
qual esperava algum alvio, s serviu para esclarecer as razes
do meu desespero, exaltando-me at as lgrimas. Eu amava Ada!
No sabia ainda se era aquele o verbo, e assim continuei a
anlise. No queria apenas que fosse minha, mas que se tornasse
minha esposa. Ela, com sua face marmrea num corpo acerbo; ela,
com sua seriedade, incapaz de compreender o meu esprito, o qual
eu no lhe haveria de ensinar, mas antes a ele renunciar para
sempre; ela, que me encaminharia para uma vida de inteligncia e
de trabalho. Eu a queria por inteira e tudo aspirava dela. Acabei
por concluir que o verbo era exato: eu amava Ada.
        Pareceu-me haver pensado uma coisa muito importante, que
me poderia guiar. Bastava de hesitaes! No importava saber
se ela me amava ou no. O importante era obt-la, e j nem
pensava em falar com ela, porquanto Giovanni me poderia
conced-la. Foroso era esclarecer tudo de uma vez, para chegar
logo  felicidade, ou, em vez disso, esquecer tudo e curar-me.
Por que haveria de sofrer tanto naquela expectativa? Quando
soubesse - e s por meio de Giovanni poderia sab-lo - que
eu havia perdido Ada definitivamente, pelo menos no teria
mais que lutar contra o tempo, que ento passaria lentamente
sem que eu sentisse necessidade de empurr-lo. Uma coisa
definitiva  sempre calma, de vez que dissociada do tempo.
        Corri imediatamente  procura de Giovanni. Alis, duas
corridas. A primeira em direo a seu escritrio, situado na rua
que continuamos a chamar das Casas Novas, j que assim a
designavam nossos avs. Velhas casas altas que ensombrecem
uma rua prxima da beira-mar, quase deserta ao entardecer, e
onde eu podia chegar com rapidez. Enquanto caminhava,
preparei da maneira mais sucinta possvel a frase a ser-lhe dirigida.
Bastaria manifestar minha determinao de casar com sua filha.
No precisava nem conquist-lo nem convenc-lo. Aquele homem
de negcios haveria de saber responder mal ouvisse a minha

92 93

pergunta. A nica questo que me preocupava era decidir se
numa ocasio assim eu devia falar em lngua castia ou dialeto.
Giovanni, porm, havia sado do escritrio e fora para o
TergesteO. Encaminheme para l. Mais lentamente, pois sabia que
na Bolsa teria que esperar algum tempo para falar com ele a SS.
Depois, chegando  rua Cavana, tive que diminuir o passo por
causa da multido que obstrUa o caminho estreito. Foi no
instante em que me debatia por romper aquela multido que tive
finalmente, como numa Viso, a certeza h tanto tempo buscada.
Os Malfenti queriam que me casasse com Augusta e nO com
Ada, pela simples razo de que Augusta estava apaixonada por
mim e Ada no. E nO devia estar mesmo, seno no teria
intervindo para dividir-nos. Disseram-me que eu comprometia
Augusta; na verdade, era ela quem se comprometia a si mesma por
amar-me. compreendi tudo naquele momento, com viva clareza,
como se algum da famlia me tivesse dito. E pressenti que Ada
estaria de acordo para que eu fosse afastado daquela casa. Ela
no me amava e no me haveria de amar nem que fosse para
que a irm me pudesse amar. Na congestionada rua Cavana
consegUira pensar mais acertadamente do que na solido de meu
estdio.
        Hoje, quando recordo os cinco dias memorveis que me
conduziram ao matrimnio, surpreendeme o fato de meu
ressentimento no se haver mitigadO ao descobrir que a pobre Augusta
me amava. Eu, expulso da casa dos Malfenti, amava Ada
iradamente. Por que nO me trouxe alguma satisfao a ntida idia
de que a Sra. Malfenti me afastava em vo, j que eu
permanecia ali de qualquer forma, bem vizinho a Ada, ou seja, no
corao da irm? Em vez disso, parecia-me uma nova ofensa O
pedido da Sra. Malfenti de ou no comprometer Augusta ou
espos-la. Pela fria jovem que me amava nutria todo o desdm
que no admitia tivesse por mim sua bela irm, amada por mim.
Acelerei mais o passo; desviei-me, contudo, e retornei em
direo a casa. No mais sentia necessidade de falar com
Giovanni; agora, sabia claramente como condUzirme, e com uma
evidncia to desesperadora que talvez encontrasse finalmente a
paz ao dissociarme do tempo que corria lento. Alm do mais era
perigoso falar com Giovanni, aquele mal-educado. A Sra.
Malfenti exprimira-se de um modo que s cheguei a perceber quando
        me vi na rua Cavana. O marido era capaz de comportar-se
contrariamente. Talvez me dissesse de improviso: "Por que quer
casar com Ada? Ora essa! No seria melhor se casasse com
Augusta?" Ele tinha um axioma de que me lembrava e que poderia
gui-lo naquele caso: "Deve-se sempre explicar claramente o
negcio ao nosso adversrio porque s assim se pode estar certo
de que o compreendemos melhor do que ele!" E ento? A
conseqncia seria um rompimento formal. O tempo ento poderia
caminhar ao seu bel-prazer, pois eu j no teria qualquer motivo
para inserir-me em sua marcha: teria chegado ao ponto morto!
        Recordei-me ainda de outro axioma de Giovanni e a ele me
agarrei porque me propiciava grande esperana. Soube agarrar-me
a ele durante cinco dias, durante cinco dias que converteram
a minha paixo em doena. Giovanni costumava dizer que no
se devia ter pressa de chegar  liquidao de um negocio quando
dessa liquidao no se esperava alguma vantagem: todos os
negcios acabam por se liquidarem mais cedo ou mais tarde, coisa
que se prova pelo fato de, na histria do mundo, que  to
longa, to poucos assuntos ficarem em suspenso. Desde que no
se proceda  sua liquidao, qualquer negcio pode evoluir para
uma situao vantajosa.
        No me lembrei de outros axiomas de Giovanni que provavam
o contrrio, agarrei-me, portanto, quele. J era algo a que podia
agarrar-me. Pus-me na firme determinao de no agir antes de
saber qualquer coisa de novo que fizesse o assunto pender a
meu favor. Com isso tive tamanho prejuzo que talvez, a partir
da, nenhum propsito meu me acompanhou por tanto tempo.
        Mal acabara de firmar tal propsito, recebi um bilhete da
Sra. Malfenti. Reconheci a letra no envelope e, antes de abri-lo,
alimentei a iluso de que bastara o meu propsito frreo para
que ela se arrependesse de me haver maltratado e corresse ao
meu encalo. Quando percebi que continha apenas um carto
com as letras P.R., acusando o recebimento das flores, atirei-me
na cama e mordi com fora o travesseiro, como para agarrar-me a
ele e impedir-me de sair correndo a romper meu compromisso.
Que irnica serenidade emanava daquelas simples iniciaiS!
Muito maior do que a expressa pela data aposta por mim em
meu bilhete e que j encerrava em si um propsito e at mesmo
uma reprovao. Remember, disse Carlos I momentos antes de

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lhe cortarem a cabea, decerto pensando naquele dia! Eu
tambm havia exortado minha adversria a recordar e a temer
aquela data!
        Foram cinco dias e cinco noites terrveis, dos quais assinalei a
madrugada e o crepsculo que significavam o fim e o princpio
de cada um, avizinhando-me da hora de minha liberdade, a
liberdade de poder novamente lutar por meu amor.
        Preparava-me para a luta. Sabia agora como queria a minha
amada que eu fosse. -me fcil recordar os propsitos que fiz
na ocasio, antes de mais nada porque tornei a fazer idnticos
em poca mais recente e, ademais, porque os anotei numa folha
de papel que conservo at hoje. Propunha-me tornar-me pessoa
mais sria. O que significava que no devia mais contar aquelas
anedotas que faziam todos rir, mas que me degradavam,
fazendo-me amado pela feia Augusta e desprezado pela minha Ada.
Depois, havia a inteno de estar todos os dias s oito da manh
em meu escritrio, aonde j no ia h tanto tempo, no para
discutir sobre os meus direitos com Olivi, mas para trabalhar
com ele e poder assumir no devido tempo a direo de meus
negcios. Tal deliberao devia ser posta em prtica numa
ocasio mais tranqila, quando tambm deixaria de fumar, ou seja,
ao recuperar a minha liberdade, j que no havia necessidade
de piorar ainda mais aquele horrvel interregno. A Ada caberia
um marido perfeito. Alm disso, havia vrios outros propsitos,
como o de dedicar-me a leituras srias, de praticar meia hora de
esgrima todos os dias e de cavalgar duas vezes por semana. As
vinte e quatro horas do dia no seriam suficientes.
        Durante esses dias de segregao, o cime mais doentio foi
o meu companheiro de todas as horas. Era um propsito herico
querer corrigir-me de todos os defeitos naquela preparao para
conquistar Ada ao fim de algumas semanas. E enquanto isso.
Enquanto me sujeitava  mais dura constrio, haveriam de estar
tranqilos os outros cavalheiros da praa, ou estariam buscando
uma forma de me roubar a dama? Devia haver certamente entre
eles algum que no precisava de tanto exerccio para ser bem
recebido. Eu sabia, ou julgava saber, que, quando Ada
encontrasse algum que lhe servisse, haveria facilmente de se deixar
enamorar. Quando, em tais dias, eu cruzava por algum senhor
bem-vestido, bem-posto e sereno, odiava-o porque o achava
digno de Ada. Desses dias, o que mais recordo  o cime, baixado
como uma nvoa sobre a minha vida.
        No se pode acoimar de ridculo o receio atroz de que Ada
me fosse ento arrebatada, mormente quando se sabe como as
coisas se passaram. Quando me lembro daqueles tempos de
paixo, sinto profunda admirao pela minha alma proftica.
        Vrias vezes, de noite, passei sob as janelas daquela casa.
No alto, continuavam aparentemente a divertir-se como nos
tempos em que eu tambm por l andava.  meia-noite ou pouco
antes, apagavam-se as luzes da sala de visitas. E eu fugia com
temor de ser surpreendido por algum visitante que estivesse
deixando a casa.
        Todas as horas desses dias foram penosas tambm pela
impacincia. Por que ningum perguntava por mim? Por que
Giovanni no se manifestava? No devia estar admirado de no
me ver nem em sua casa nem no Tergesteo? Acaso ele tambm
estaria de acordo em que eu fosse afastado? No raro interrompia
os meus passeios noturnos e diurnos e corria para casa a
fim de certificar-me de que ningum viera  minha procura. No
conseguia deitar-me na dvida e despertava a pobre Maria para
interrog-la. Passava horas  espera no local da casa em que fosse
mais facilmente encontrvel. Ningum veio  minha procura e,
se eu no tivesse resolvido tomar a iniciativa, decerto ainda
estaria solteiro.
        Uma noite fui ao clube jogar. Havia muitos anos que no
aparecia por l em razo de uma promessa feita ao meu pai. Parecia-me
agora que tal promessa no devia ser considerada vlida,
j que meu pai no poderia prever as dolorosas circunstncias
em que me achava e a minha urgente necessidade de buscar uma
distrao. A princpio, ganhei uma pequena fortuna, que me
pesou por me parecer uma recompensa pelo meu infortnio
amoroso. Depois, perdi, o que tambm me pesou por me parecer
fracassar no jogo da mesma forma como fracassara no amor.
Logo senti repugnncia pelo jogo: no era digno de mim nem
de Ada. To puro me tornava aquele amor!
        De tais dias sei ainda que os devaneios de amor eram
aniquilados pela dura realidade. O sonho era agora diferente. Sonhava
COm a vitria em vez de com o amor. Meu sonho foi uma vez
adornado pela presena de Ada. Estava vestida de noiva e subia

96 97

comigo ao altar; s que, quando ficamos a ss, no nos
entregamos ao amor, apesar de tudo. Era seu marido e havia adquirido
o direito de perguntar-lhe: "Como pde permitir que me tratassem
desta maneira?" E no me apressei em exercer outros
direitos.
        Encontro em meu cofre alguns rascunhos de cartas a Ada, a
Giovanni e  Sra. Malfenti. Pertencem queles dias.  Sra.
Malfenti dirigia uma missiva singela, a ttulo de despedida, antes
de empreender uma longa viagem. No me recordo, contudO, de
haver tido tal inteno. No poderia deixar a cidade enquanto
no estivesse certo de que ningum viria mesmo  minha
procura. Que desventUra se algum viesse e no me encontrasse!
Nenhuma daquelas cartas chegou a ser enviada. Creio mesmo
que as teria escrito apenas para fixar no papel meus
pensamentos.
        Desde muito me considerava enfermo, de uma enfermidade
que antes fazia sofrer aos outros que a mim. Foi ento que
conheci a enfermidade 'dolorosa', uma quantidade de sensaes
fsicas desagradveis que me deixaram bastante infeliz.
        Comeou assim. Por volta de uma da manh, incapaz de
conciliar o sono, levantei-me e caminhei pela noite serena at
encontrar um caf distante, onde nunca estivera antes e onde
naturalmente no encontraria nenhum conhecido, coisa bastante
agradvel, pois queria continuar uma discusso com a Sra.
Malfenti, que comecei ainda na cama e na qual no queria que
ningum interferisse. A Sra. Malfenti me fizera novas reprovaes.
Dissera que eu havia tentado 'manobrar' com suas filhas. Na
verdade, se tentei fazer qualquer coisa dessa natureza fora
exclusivamente com Ada. Suava frio s de pensar que talvez em
casa dos Malfenti levantassem naquele momento contra mim
semelhantes reprovaes. O ausente nunca tem razo, e podiam
aproveitar-se de meu afastamento para se unirem contra mim.
Na luz viva do caf sabia defender-me melhor.  verdade que
alguma vez tentei tocar por baixo da mesa o p de Ada e creio
hav-lo conseguido, com o consentimento dela. Depois descobri
que havia apenas comprimido o p da mesa, o qual certamente
no poderia reclamar.
        Fingia interesse pelo jogo de bilhar. Um senhor, apoiado
numa muleta, aproximou-se e veio sentar-se ao meu lado. Pediu
uma limonada; como o garom esperasse tambm pelo meu
pedido, acabei, por distrao, ordenando outra para mim, embora
eu no suporte o sabor do limo. Nesse nterim, a muleta,
apoiada sobre o sof em que estvamos sentados, resvalou para o
cho e eu me inclinei para apanh-la num movimento quase
instintivo.
        -        Oh, Zeno! - disse o pobre coxo, reconhecendo-me no
momento em que ia agradecer-me.
        -        Tlio! - exclamei surpreso, estendendo-lhe a mo.
Tnhamos sido colegas de escola e j no nos vamos h muitos anos.
Sabia que ele, aps concluir os cursos secundrios, ingressara
num banco onde ocupava boa posio.
        Eu estava de tal forma distrado que de repente lhe perguntei
como ficara com a perna direita mais curta a ponto de ter que
usar muleta.
        De timo humor, contou-me que h seis meses sofria de um
reumatismo que lhe acabara por afetar a perna.
        Apressei-me em sugerir-lhe vrios remdios.  a melhor
maneira de podermos simular uma viva participao sem que nos
custe grande esforo. Ele j provara todos. Mesmo assim sugeri-lhe
ainda:
        - E por que voc no est na cama a uma hora destas? No
acho que lhe possa fazer bem expor-se ao ar da madrugada.
        Ele retrucou com bonomia; achava que tambm a mim o ar
da noite no havia de fazer bem, embora quem no sofre de
reumatismo possa perfeitamente, enquanto tiver vida, dar-se a
esse luxo. O direito de recolher-se ao leito tarde da noite era
admitido at mesmo na constituio austraca. De resto,
contrariamente  opinio geral, o calor e o frio nada tinham a ver com
o reumatismo. Ele havia estudado seu mal e no fazia outra
coisa no mundo seno pesquisar-lhe as causas e as curas. Mais
do que para obter a cura, conseguira do banco uma prolongada
licena a fim de aprofundar-se nesse estudo, Depois, revelou
que estava fazendo um estranho tratamento. Ingeria diariamente
grandes quantidades de limo. Naquele dia j devorara uns trinta,
mas esperava com o treino chegar a consumir ainda mais.
Confidenciou-me que, segundo ele, os limes eram bons tambm para
muitas outras doenas. Desde que os vinha usando, sentia menos

98 99

fastdio pelo excesso de fumo, a que igualmente estava
condenado.
        Senti um arrepio ante a viso de tanto cido; logo em seguida,
porm, ocorreu-me uma viso um pouco mais alegre da vida: os
limes no me agradavam, mas, se eles me dessem a liberdade
de fazer o que eu devia ou queria sem causar-me dano e
libertando-me de qualquer outra constrio, de bom grado haveria
de ingerir tambm eu uma quantidade daquelas- A liberdade
completa consiste em poder fazer aquilo que se quer desde que
se possa fazer tambm alguma coisa de que se goste menoS. A
verdadeira escravido  estar condenado  absteno: Tntalo e
no Hrcules.
        Depois, Tlio tambm fingiu interesse em saber de mim.
Obstinavame em no contar-lhe sobre o meu amor infeliz, mas
carecia de um desabafo. Falei com tal exagero dos meus males
(que assim classifiquei, embora cnscio de serem leves) que
acabei com lgrimas nos olhos, enquanto TliO comeava a
sentir-se um tanto melhor, acreditandome mais enfermo do que ele.
        PerguntOu-me se eu trabalhava. Todos por a diziam que eu
no fazia nada e temi que ele me invejasse num momento em
que eu tinha absoluta necessidade de comiserao. Menti!
Contei-lhe que trabalhava em meu escritrio, no muito, mas pelo
menoS seis horas por dia e que, alm disso, os negcios muito
embrulhados que herdara de meu pai e de minha me davam-me
o que fazer por outras seis horas.
        -        Doze horas por dia! - comentou TliO e, com um sorriso
satisfeito, concedeu-me aquilo que eu ambicionava, a sua
comiserao: - No o invejO, meu caro!
        A conclUSO era exata e fiquei to comovido que tive de lutar
para conter as lgrimas. Senti-me mais infeliz do que nunca, e
num mrbido estado de compaixo por mim mesmo
compreende-se que eu me mostrasse bastante vulnervel.
        Tlio voltara a falar da doena, que era sua principal
distrao. Havia estudado a anatomia da perna e do p. Contou-me a
rir que, quando se anda rpido, o tempo que se gasta para dar
um passo no  mais que meio segundo, mas nesse meio segundo
nada menos que cinqenta e quatro msculos se movem. Fiquei
maravilhado e imediatamente corri com o pensamento para as
minhas pernas em busca da mquina monstruosa. Creio hav-la
encontrado. Naturalmente no esmiucei as cinqenta e quatro
engrenagens; ocorreu, porm, uma complicao enorme que se
desengrenou toda a partir do momento em que nela fixei minha
ateno.
        Sa do caf mancando um pouco e durante alguns dias no
parei de mancar. O caminhar tornou-se para mim um esforo
tremendo, at ligeiramente dolorido. quele emaranhado de
articulaes parecia agora faltar leo, e elas, ao mover-se, iam-se
lesionandO cada qual por sua vez. Dias depois, fui vtima de
outro mal mais grave de que ainda falarei e que amenizou o
primeiro. Mas at hoje, se algum me observa enquanto me
locomovo, os cinqenta e quatro movimentos se embaraam e fico
na iminncia de cair.
        Tambm esta leso devo-a a Ada. Muitos animais tornam-se
presa dos caadores ou de outros animais quando esto
amando. Eu era ento uma presa da doena e estou certo de que se
tivessem falado sobre a mquina monstruosa em qualquer outra
ocasio no lhe teria dado a menor importncia.
        Alguns rabiscos numa folha de papel que conservei recordam-me
de outra estranha aventura desses tempos. Alm das anotaes
sobre um ltimo cigarro acompanhadas da expresso de
certeza de que poderia curar-me da molstia dos cinqenta e
quatro movimentos, h uma tentativa de poesia... sobre uma
mosca. Se no soubesse o contrrio, poderia imaginar que tais
versos proviessem de uma jovem de famlia que tratasse os
insetos por 'vs'; visto que, porm, eram mesmo escritos por
mim, devo admitir que, se passei por aquilo, no h nada que
afinal no nos possa acontecer.
        Eis como nasceram os versos. Voltara para casa tarde da noite
e em vez de deitar-me demorava-me no estdio onde acendera a
luz do gs. Uma mosca atraida pela claridade ps-se a azucrinar-me.
Consegui acertar-lhe um golpe, de leve para no sujar-me.
Esqueci-a e s mais tarde percebi como, em cima da mesa,
lentamente ela comeava a reanimar-se. Estava parada, ereta e parecia
mais alta que a princpio porque uma das patinhas estropiara-se
e no podia flexionar-se. Com as duas patas posteriores alisava
assiduamente as asas. Tentou mover-se, mas virou de costas.
Endireitou-se e voltou ao seu assduo mister.

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        Foi ento que escrevi os versos, espantado por haver
descoberto que aquele pequeno organismo penetrado por tamanha dor
fosse orientado em seu esforo ingente por duas convices
errneas: em primeiro lugar, alisando com tanta obstinao as asas
ilesas, o inseto revelava desconhecer de que rgo derivava a
dor; alm disso, a assiduidade de seu esforo demonstrava que
em sua mente minscula existia a convicO fundamental de que
a sade  um dom comum a todos e que devemos fatalmente
recuper-la se a perdemos. Eram erros perfeitamente
desculpveis num inseto cuja vida dura apenas uma estao, e no lhe
sobra tempo para adquirir experincia.
        Ento veio o domingo- Transcorria o quinto dia de minha
ltima visita aos Malfenti. Eu, que trabalho to pouco, sempre
conservei grande respeito pelo dia festivo que divide a vida em
breves perodoS, tornando-a assim mais suportvel- Aquele dia
festivo encerrava tambm para mim uma semana fatigante e me
dava direito  alegria. Meus planos tinham sofrido qualquer
alterao, mas decidi que, para aquele dia, eles no deviam valer
e que iria ver Ada. No haveria de comprometer aqueles planos
com qualquer palavra, e era bom rev-la porque havia ainda a
possibilidade de que as coisas j tivessem mudado em meu favor
e seria tolice continuar a sofrer sem motivo.
        Assim, ao meio-dia, com a pressa que as minhas pobres pernas
me permitiam, corri  cidade perfazendo o caminho que a Sra.
Malfenti e suas filhas deviam percorrer ao retornarem da missa.
Era um domingo cheio de sol e, caminhando, pensei que talvez
na cidade me esperasse a novidade to ansiada, o amor de Ada!
        Tal no se deu, mas por um instante mantive-me na iluso. A
sorte favoreceu-me de maneira incrvel. Encontrei-me face a face
com Ada, que se achava s. Perdi o passo e o flego. Que fazer?
A minha inteno seria afastar-me para o lado e deix-la passar
apenas com uma saudao comedida. Contudo, na minha mente
estabeleceu-se certa confuso, pois ali havia outras intenes
anteriores, dentre as quais eu me lembrava de uma, segundo a
qual eu devia falar-lhe claramente e saber de sua boca o meu
destino. No me afastei do caminho; quando ela me
cumprimentou como se nos houvssemos separado a no mais que cinco
minutos, segui a seu lado.
        Ela me dissera:
        -        Bom dia, Sr. Cosini! Estou com muita pressa.
        E eu:
        -        Permite-me acompanh-la por um instante?
        Aquiesceu sorrindo. Devia ento falar-lhe? Ela acrescentou
que ia diretamente para casa; compreendi que no dispunha de
mais que cinco minutos para dizer-lhe o que queria, e j perdera
alguns instantes calculando se o tempo seria suficiente para as
coisas importantes que eu tinha a dizer. Era melhor no dizer
nada que ficar tudo pelo meio. Eu j estava perturbado pelo fato
de que em nossa cidade, naquele tempo, era um ato
comprometedor para uma moa de famlia deixar-se acompanhar na rua a
ss por um rapaz. E ela o permitira. No era o suficiente para
me contentar? Enquanto a contemplava, tentava sentir de novo
em sua integridade o meu mor enevoado pela ira e pela dvida.
Reaveria ao menos os meus sonhos? Ela me parecia pequena e
grande ao mesmo tempo, na harmonia de suas linhas. Os sonhos
retornavam em bando mesmo junto dela, uma presena real. Era
o meu modo de desejar, e voltei-me para eles com intensa alegria.
Desaparecera de meu nimo qualquer trao de ira ou de rancor.
        Atrs de ns, porm, ouviu-se um chamado hesitante:
        -        Senhorita, se me d licena?
        Voltei-me indignado. Quem ousaria interromper as
explicaes que eu nem havia comeado? Um jovem imberbe, moreno
e plido, fitava-a com olhos ansiosos. Ao meu lado, encarei Ada
na louca esperana de que ela invocasse a minha proteo. Teria
bastado um simples sinal para que me atirasse sobre o indivduo,
exigindo-lhe satisfaes por sua audcia. E quem dera tivesse
insistido! Estaria livre de meus males, se fora dada a
oportunidade de um ato brutal de fora fsica.
        Ada no fez nenhum sinal. Com um sorriso espontneo que
lhe modificou ligeiramente o desenho da face, e tambm o brilho
do olhar, disse, estendendo-lhe a mo:
        -        Ah! O Sr. Guido!
        O        prenome me fez mal: ela, pouco antes, me chamara pelo
nome de famlia.
        Examinei o Sr. Guido. Vestia-se com rebuscada elegncia e
trazia na mo direita enluvada uma bengala com imenso casto
de marfim, que eu no seria capaz de usar ainda que me
pagassem bom dinheiro por quilmetro percorrido. No me reprovei

102 103

por imaginar em semelhante figura uma ameaa para Ada. H
muitas pessoas equvOcaS que se vestem elegantemente e at usam
bengalas como aquela.
        O sorriso de Ada me reverteu ao mais comum das relaes
mundanaS. Ada fez as apresentaeS. E sorri, tambm eu! O
sorriso de Ada recordava um pouco o ondular de uma gua
lmpida aflorada de leve pela brisa. O meu tambm lembrava um
movimento parecido, s que provocado por uma pedra que se
atira na gua.
        Chamava-se Guido Speier. Meu sorriso tornou-se um pouCO
mais espontneo, pois logo surgiu a ocasio de dizer qualquer
coisa antiptica:
        -        O senhor  alemo?
        Cortesmente reconhecia que, a julgar pelo nome, todos
poderiam pensar assim. Na verdade, os documentos de famlia
provavam que eram italianos h vrios sculos. Falava toscanO com
grande fluncia, enquanto eu e Ada estvamos condenados ao
nosso pobre dialeto.
        Fitava-o para compreender melhor o que dizia. Era um rapaz
de muito boa aparncia: os lbios naturalmente entreabertos
deixavam ver uma boca de dentes brancos e perfeitos. Seus olhos
eram vivazes e expressivos e, quando tirou o chapu, pude ver
que seus cabelos escuros e um pouco anelados cobriam todo o
espao que a me natureza lhes havia destinado, ao passo que
uma boa parte da minha cabea j fora invadida pela fronte.
        Eu o teria odiado mesmo se Ada no estivesse presente, mas
sofria com aquele dio e procurei ameniz-lo. Pensei: " jovem
demais para Ada!" E pensei que a confiana e a gentileza que
ela lhe dispensava fossem devidas a uma ordem do pai. Talvez
se tratasse de pessoa importante para os negcios de Malfenti e
pareceu-me que em semelhante caso toda a famlia fosse
compelida  colaborao. Perguntei:
        - O senhor vai estabelecer-se em Trieste?
        RespondeUme que j estava na cidade h um ms e que abrira
uma casa comercial. Respirei! Bem que eu tinha adivinhado.
        Eu caminhava a manquejar, embora desenvoltO, cuidando para
que ningum percebesse. Olhava Ada e tentava esquecer todo o
resto, inclusive o outro que a acompanhava. No fundo, sou um
homem do presente e no penso no futuro, a menos que ele
ofusque o presente com sombras evidentes. Ada caminhava entre
ns e mostrava no rosto uma expresso estereotipada, um vago
ar de contentamento que chegava quase ao sorriso. Aquela
ventura me parecia nova. Para quem era aquele sorriso? No seria
para mim, a quem ela no via h tanto tempo?
        Prestei ateno ao que diziam. Falavam de espiritismo e
percebi logo que Guido introduzira na casa dos Malfenti a mesa
levitante.
        Ardia de desejo de assegurar-me que o doce sorriso que
vagueava nos lbios de Ada fosse para mim e intrometi-me no
assunto de que falavam, improvisando uma histria esprita.
Nenhum poeta teria conseguido improvisar sobre um tema dado
melhor do que eu. Sem ainda saber a que ponto chegaria,
comecei por declarar que passara a acreditar nos espritos depois de
um caso que me havia acontecido na vspera, naquela mesma
rua... ou melhor... - na rua paralela quela em que estvamos
e que podamos avistar dali. Depois falei do professor Bertini, a
quem Ada tambm havia conhecido, e que morrera havia pouco
em Florena, onde fora viver depois de aposentado. Soubemos
de sua morte atravs de uma breve notcia num jornal da terra,
mas eu me havia esquecido disso de tal forma que, quando
pensava no professor Bertini, via-o passear pelas Cascine em seu
merecido repouso. Ora, no dia anterior, num ponto que indiquei
da rua paralela  que estvamos percorrendo, fui abordado por
um senhor que me conhecia e que eu tinha a certeza de conhecer.
Seu modo de andar era curioso, como o de certas mulheres que
saracoteiam para melhor marcar o passo...
-        Sem dvida que podia ser o Bertini! - disse Ada rindo.
O        riso era para mim; encorajado, continuei:
-        Estava certo de que o conhecia, mas no consegui
lembrar-me de quem se tratava. Falamos de poltica. No resta
dvida de que era o Bertini, pois falou muitas asneiras com aquela
sua voz de ovelha...
        - Tambm a voz! - ria ainda Ada, olhando-me ansiosa
para saber o fim da histria.
                   - Sim! S podia ser o Bertini - disse eu, fingindo pavor
com todo um talento de artista que se perdera em mim. -
Apertou-me a mo para se despedir e l se foi na sua ginga.
                Segui-o por alguns passos forando a lembrana. S atinei que

104 105

havia falado com Bertini quando j o tinha perdido de vista.
Com Bertini, morto havia mais de um ano!
        Logo em seguida, Ada parou diante do porto de sua casa.
Apertando a mo a Guido, disse-lhe que o esperava  noite.
Depois, cumprimentando a mim, disse-me que viesse tambm
 casa para fazer levitar a mesa, caso no me aborrecesse.
        No contestei nem agradeci. Queria analisar o convite antes
de aceit-lo. Pareceu-me haver soado como um ato de cortesia
forada. Era boa! Para mim o domingo acabara com aquele
encontro. No entanto, quis mostrar-me corts para deixar abertas
todas as possibilidades, inclusive a de aceitar o convite.
Perguntei-lhe por Giovanni, com quem queria falar. Ela respondeu que
o encontraria no escritrio, aonde fora premido por um assunto
urgente.
        Guido e eu ficamos por um instante a contemplar a elegante
figurinha que desaparecia na obscuridade do trio da casa. No
sei o que Guido pensava naquele momento. Quanto a mim,
sentia-me infelicssimo; por que no fizera ela o convite primeiro a
mim e depois a Guido?
        Retornando juntos nosso caminho, quase at o ponto em que
havamos encontrado Ada, Guido, corts e desenvolto (desenvoltura
era de fato o que eu mais invejava nos outros), falou
da histria que eu inventara e que ele tomara a srio. Na
verdade, reduzia a minha narrativa ao seguinte: em Trieste, mesmo
depois de Bertini haver morrido, vivia algum que dizia tolices,
caminhava de um modo que parecia mover-se nas pontas dos
ps e tinha at mesmo uma voz estranha. Eu devia t-lo
conhecido naqueles ltimos dias e, por um instante, recordara-me de
Bertini. No me desagradava que Guido desse tratos  bola para
justificar a minha inveno. Eu decidira no odi-lo, j que no
passava de um comerciante importante aos olhos de Malfenti;
mas era antiptico pela sua elegncia rebuscada e pela sua
bengala. E como eu no via a hora de me ver livre dele, tornava-se
mais antiptico ainda. Percebi que conclua:
        -         possvel tambm que a pessoa com quem o senhor
falou fosse bem mais jovem que Bertini, caminhasse como um
militar, tivesse uma voz mscula e que a nica semelhana fosse
limitada ao fato de ambos dizerem tolices. Tanto bastou para
que sua mente se fixasse em Bertini. Embora, para admitir isso,
fosse necessrio crer que o senhor  pessoa muito distrada.
        No consigo ajud-lo em seus esforos:
-        Eu, distrado? Que idia! Sou um homem de negcios.
        Estaria mal se fosse distrado.
        Depois pensei que perdia tempo. Queria encontrar-me com
Giovanni. J que havia visto a filha, poderia ver tambm o pai,
que era muito menos importante. E devia faz-lo
imediatamente se ainda quisesse encontr-lo no escritrio.
        Guido continuava a parafusar sobre que parte do milagre se
poderia atribuir  desateno de quem o pratica ou de quem
o presencia. Quis despedir-me e mostrar-me pelo menos to
desenvolto quanto ele. Da decorreu uma tal precipitao em
interromp-lo e me ver livre que chegava a parecer grosseria:
        -        Para mim os milagres existem ou no existem. No
compete complic-los mais do que j so. Compete crer ou no crer
e em ambos os casos  tudo muito simples.
        No queria demonstrar antipatia por ele, tanto  verdade que
com as minhas palavras acreditava at fazer-lhe uma concesso,
j que sou positivista convicto e no creio em milagres. Mas era
uma concesso feita com grande mau humor.
        Afastei-me claudicando mais que nunca e esperei que Guido
no sentisse necessidade de olhar para trs.
        Era mister que eu falasse a Govanni. Com isso saberia de que
modo comportar-me quela noite. Fora convidado por Ada, e
do comportamento de Giovanni poderia depreender se devia
aceitar o convite ou antes recordar-me de que este contrariava
expressamente os desejos da Sra. Malfenti. Convinha que as
minhas relaes com aquela gente fossem bem claras; se para
consegui-lo no bastasse o domingo, dedicaria a isto igualmente a
segunda-feira. Continuava a contrariar os meus propsitos e nem
me dava conta. At me parecia estar seguindo uma resoluo
tomada aps cinco dias de meditao. Assim designava a minha
atividade daqueles dias.
Giovanni acolheu-me com uma saudao em voz alta, o que
me fez bem, e convidou-me a sentar numa poltrona encostada 
Parede de frente para a sua escrivaninha.
Espere s um instante! Em cinco minutos falarei com
voc! - E logo em seguida: - Est mancando?

106 107

Fiquei rubro! Eu, porm, estava no meu dia de improvisaeS;
disse-lhe que havia escorregado ao sair de um caf e cheguei
a designar o local do acidente. Temendo que pudesse atribuir
a queda ao fato de estar a minha mente enevoada pelo lcool,
ajuntei rindo o detalhe de que quando ca me encontrava na
companhia de uma pessoa atacada de reumatismo que mancava.
Um empregado e dois carregadores se achavam de p junto 
mesa de Giovanni. Devia ter havido um engano qualquer em
alguma entrega de mercadorias, e Giovanni estava no meio de
uma de suas intervenes violentas no funcionamento de seu
armazm, do qual raramente se ocupava a fim de poder ter a
mente livre para s fazer - como dizia - aquilo que ningum
mais podia fazer por ele. Gritava mais que de costume, como se
quisesse gravar no ouvido de seus empregados as suas instrues.
Creio que se tratava de estabelecer a maneira de como se devia
processar o relacionamento entre o escritrio e o armazm dali
para o futuro.
-        Este papel - gritava Giovanni, passando da mo direita
 esquerda uma folha de papel retirada de dentro de um livro
-        ser assinado por voc, e o empregado que o receber h de
lhe dar um idntico, assinado por ele.
        Fixava o olhar em seus interlocutores, ora atravs dos olhos
ora por cima das lentes, e concluiu com um outro berro:
        - Compreendeu bem?
        Queria repetir a explicao desde o princpio, mas com isso
eu estaria perdendo muito tempo. Invadia-me o sentimento
curioso de que, se me apressasse, poderia bater-me melhor por Ada;
em seguida, contudo, ocorreu-me com grande surpresa a idia
de que ningum me esperava e que eu no esperava ningum, e
que no havia soluo para mim. Interrompi Giovanni,
estendendo-lhe a mo:
        - Vou logo mais  sua casa.
        Voltou-se para mim, enquanto os empregados permaneciam
 parte.
        - Por que voc no aparece h tanto tempo? - perguntou
com simplicidade.
        Fui tomado por uma emoo que me confundiu. Esta era a
pergunta que Ada no me fizera e a que eu me julgava com
direito. Se estivssemos a ss, teria dito francamente a Giovanni
que a pergunta me provava sua inocncia naquilo que eu sentia
agora como sendo uma conspirao contra mim. S ele era
inocente e merecedor de minha confiana.
        Talvez naquele instante no pensasse com tamanha clareza,
prova disso  o fato de que no tive pacincia de esperar que
os empregados se retirassem. Ademais, queria estudar se Ada
talvez no fizera a pergunta, impedida pelo inopinado aparecimento de Guido.
        O        prprio Giovanni impediu-me de falar, manifestando
grande pressa em retornar ao seu trabalho.
        - Ento nos vemos logo. Vai ouvir tocar um violinista como
jamais ouviu. Apresenta-se como um diletante ao violino s
porque tem tanto dinheiro que no se digna fazer da msica a
sua profisso. Pretende dedicar-se ao comrcio. - Encolheu os
ombros como num ato de desprezo. - Eu, que tambm amo o
comrcio, no lugar dele s venderia notas. No sei se o conhece?
um certo Guido Speier.
        -        Ah, sim?! - disse simulando complacncia, meneando a
cabea e abrindo a boca, fazendo em suma todos os
movimentos de que ainda era capaz. Ento o belezoca ainda sabia tocar
violino? -  mesmo? To bem assim? - Esperava que
Giovanni estivesse brincando e com o exagero de seus elogios
quisesse significar que Guido no passava de mero arranhador de
cordas. Mas ele meneava a cabea com verdadeira admirao.
Voltei a estender-lhe a mo:
-        At logo!
        Aviei-me mancando para a porta. Deteve-me uma dvida.
Talvez fosse melhor no aceitar o convite e, assim sendo, devia
prevenir Giovann. Dei meia volta para tornar a ele; percebi
ento que me observava com grande ateno, inclinando o corpo
 frente para me ver melhor. Sendo mais do que eu podia
suportar, fui-me embora!
        Um violinista! Se era verdade que tocava to bem, eu,
simplesmente, estava perdido. Se ao menos eu no tocasse violino
ou no me tivesse deixado induzir a toc-lo em casa dos
Malfenti. - Levara meu instrumento quela casa no para
conquistar com a msica o corao daquela gente, mas como um
pretexto para prolongar as minhas visitas. Que imbecil eu fora! Podia
ter usado de tantos outros pretextos menos comprometedores!

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        Ningum poder dizer que eu me entregue a iluses a meu
respeito. Sei que possuo alta sensibilidade musical e no  por
afetao que busco a msica mais erudita; mas esta mesma
desenvolvida sensibilidade me adverte e h anos me tem advertido
de que nunca chegarei a tocar de modo a proporcionar prazer a
quem me ouve. Se, apesar disso, continuo a tocar, fao-o pela
mesma razo por que continuo a me tratar. Poderia tocar bem se
no estivesse doente e corro atrs da sade mesmo quando
pratico o equilbrio nas quatro cordas do violino. H uma leve
paralisia em meu organismo que se revela em sua integridade quando
toco violino e por isso  mais facilmente curvel. At o ser
mais rude, quando sabe o que so as teras, as quartas e as
sextas, passa de umas s outras com exatido rtmica como a
sua vista sabe passar de uma cor a outra. Comigo, ao contrrio,
quando executo uma daquelas figuras, a ela me apego e no
me liberto mais, e assim ela se intromete na figura seguinte e
a deforma. Para manter as notas em seu lugar preciso, tenho que
marcar o tempo com o p e com a cabea, mas adeus
desenvoltura, adeus serenidade, adeus msica. A msica que provm de
um organismo equilibrado , ela prpria, o tempo que ela cria
e exaure. Quando eu a produzir assim, estarei curado.
        Pela primeira vez pensei abandonar o campo de batalha,
deixar Trieste e partir em busca de lenitivo. Nada havia que
pudesse esperar. Ada estava perdida para mim. Tinha certeza
disso! No sabia perfeitamente bem que ela s se casaria com
um homem aps hav-lo avaliado e pesado como se se tratasse
de conceder-lhe uma lurea acadmica? Parecia-me ridculo,
porque na verdade o violino entre seres humanos no devia
pesar tanto na escolha de um marido; isso, porm, no me
salvava. Sentia a importncia daquele som. Era decisiva como para
os pssaros canoros.
Entoquei-me em meu estdio, enquanto os demais ainda
festejavam o domingo! Tirei o violino da caixa, indeciso se o fazia
em pedaos ou se ia toc-lo. Depois, experimentei-o como se lhe
fosse dar o ltimo adeus; por fim, pus-me a estudar a eterna
Kreutzer. Naquele mesmo lugar tinha feito o arco percorrer
tantos e tantos quilmetros que na minha desorientao voltei a
percorrer maquinalmente outros tantos.
        Todos aqueles que se dedicam a essas malditas cordas sabem
como, desde que se viva isolado, se acredita que cada pequeno
esforo traz um correspondente progresso. Se assim no fosse,
quem aceitaria suportar os trabalhos forados sem termo, como
se se tivesse a desgraa de ter matado algum? Depois de algum
tempo, pareceu-me que minha luta com Guido no estava
definitivamente perdida. Quem sabe no me seria dado intervir
entre Guido e Ada com um violino vitorioso?
        No se tratava de uma presuno, mas do meu costumeiro
otimismo, de que nunca soube libertar-me. Qualquer ameaa de
infortnio a princpio me aterroriza; logo, porm, a esqueo
na certeza inabalvel de que saberei evit-lo. Ali, pois, no se
tratava seno de fazer mais benvolo o meu juzo sobre minha
capacidade como violinista, Nas artes em geral sabe-se que o
juzo seguro nasce da comparao, coisa que me faltava. Alm
do mais, o prprio violino ecoa to prximo do ouvido que
encontra fcil o caminho do corao. Quando, exausto, parei de
tocar, disse para mim:
        - Bravo, Zeno, voc ganhou o seu po.
        Sem a menor hesitao, dirigi-me  casa dos Malfenti. Tinha
aceito o convite e agora no podia faltar. Pareceu-me de bom
augrio que a empregada me acolhesse com um sorriso gentil,
perguntando se estivera doente, pois no vinha h tanto tempo.
Dei-lhe uma gorjeta. Por sua boca, toda a famlia, de que ela era
a representante me fazia aquela pergunta.
        Conduziu-me ao salo imerso na obscuridade mais profunda.
Chegando da plena luz da sala de entrada, por um instante
fiquei sem nada ver e no ousei mover-me. Depois, distingui
vrias figuras dispostas em torno de uma pequena mesa, ao fundo
do salo, bastante longe de mim.
        Fui saudado pela voz de Ada que, na obscuridade, pareceu-me
sensual. Sorridente, uma carcia:
        - Sente-se daquele lado e no perturbe os espritos! - Se
Continuava assim, eu certamente no os teria perturbado.
        De Outro ponto da periferia da mesa ecoou outra voz, a de
Alberta ou talvez de Augusta:
        - Se quiser tomar parte na invocao, aqui ainda h um
lugar livre.

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        Eu estava decidido a no permitir que me pusessem de parte
e avancei resoluto para o ponto de onde proviera a saudao de
Ada. Dei uma joelhada contra o pezinho da mesa veneziana que,
alis, era toda ps. Senti uma dor intensa, mas no me deixei
trair e fui despencar sobre uma cadeira que me era trazida no
sei por quem, entre duas das moas, uma das quais, a que estava
 minha direita, pensei que fosse Ada e a outra, Augusta. Logo,
para evitar qualquer contato com esta ltima, cheguei para o
lado da outra. Contudo, na dvida de que talvez me tivesse
enganado, perguntei  vizinha da direita, para escutar-lhe a voz:
        - J conseguiram alguma comunicao com os espritos?
        Guido, que se pareceu sentado bem  minha frente,
interrompeu-me, dizendo imperiosamente:
        - Silncio!
        Em seguida, menos agressivo:
        - Concentrem-se e pensem intensamente no morto que
desejarem invocar.
        No tenho a menor averso pelas tentativas, sejam quais
forem, de estabelecer uma comunicao com o Alm. Estava
inclusive triste por no ter sido eu a introduzir a mesa esprita
na casa dos Malfenti, j que suscitava tamanho xito. Mas, como
no estava disposto a obedecer as ordens de Guido, no me
concentrei coisa nenhuma. Depois, tanto me havia reprovado
por ter permitido que as coisas chegassem quele ponto sem
haver dito uma palavra clara a Ada que, uma vez tendo a pequena
ao lado, naquela obscuridade to propcia, haveria de esclarecer
tudo. Fui obstado apenas pelo encantamento de t-la to
prxima de mim, depois de haver temido perd-la para sempre.
Adivinhava a maciez do vestido tpido que me roava as roupas e
pensei que, estando assim juntos um do outro, pudesse com o
p apalpar-lhe a maciez de seus sapatos de verniz. Isso era mais
que um prmio, aps um martrio que durara tanto.
        Guido falou novamente:
        - Peo a todos que se concentrem. Supliquem agora ao
esprito que invocaram para que se manifeste fazendo girar a
mesa.
        Agradava-me v-lo sempre ocupado com a mesa. Agora, era
evidente que Ada aquiescia suportar quase todo o meu peso!
Se no me amasse, no haveria de suport-lo. Era chegada a
hora das explicaes. Retirei a mo de cima da mesa e
vagarosamente passei-lhe o brao pela cintura:
        -        Eu te amo, Ada! - disse em voz baixa, aproximando meu
rosto do seu para me fazer ouvir melhor.
        A moa no respondeu imediatamente. Depois, um sopro de
voz, a de Augusta, disse-me:
        -        Por que ficou tanto tempo sem vir?
        A surpresa e o desprazer quase me fizeram cair da cadeira.
Sbito senti que era preciso eliminar de uma vez por todas
aquela intromissora do meu destino, embora devesse usar o
resguardo que um bom cavalheiro como eu tem de tributar 
mulher que o ama, por mais feia que seja. E que amor tinha
ela por mim! No meu sofrimento senti o seu amor. S o amor
seria capaz de lev-la a no me dizer que era Augusta e no
Ada, e a me fazer a pergunta que em vo eu esperara de Ada,
e que ela certamente estava pronta a fazer-me to logo me
voltasse a ver.
        Segui meu instinto e no lhe dei resposta imediata; aps uma
breve hesitao, disse-lhe:
        -        Ainda bem que foi a voc que fiz esta confisso,
Augusta, a voc que acho to compreensiva!
        Voltei a minha cadeira ao seu equilbrio natural. No pudera
esclarecer o assunto com Ada, mas em relao a Augusta o
fizera completamente. Entre ns j no podia haver quaisquer
mal-entendidos.
        Guido advertiu novamente:
        - Se no quiserem manter silncio,  intil passarmos nosso
tempo aqui no escuro!
        Ele no sabia, mas eu necessitava ainda de um pouco de
obscuridade para isolar-me e propiciar-me recolhimento.
Descobrira o meu erro, e o nico equilbrio que ento conseguira fora
o de minha cadeira.
        Haveria de falar com Ada, mas em plena luz. Suspeitei que
 minha esquerda estivesse Alberta, e no ela. Como certificar-me?
A dvida quase me fez tombar  esquerda e, para
readquirir equilbrio, apoiei-me sobre a mesa. Todos puseram-se a
gritar: - A mesa mexeu! - Esse ato involuntrio podia
conduzir-me ao esclarecimento. De onde vinha a voz de Ada? Mas
Guido, cobrindo com sua voz a dos demais, imps aquele si-

112 113

lncio que eu, de bom grado, lhe teria tambm imposto. Depois,
com voz mudada, splice (imbecil!), falou ao esprito que
supunha presente:
        - Eu vos suplico, dizei vosso nome indicando-o pelas letras
de nosso alfabeto!
        Ele previa tudo: tinha receio de que o esprito se valesse do
alfabeto grego.
        Continuei a representar a comdia, sempre espreitando na
obscuridade  procura de Ada. Aps breve hesitao, levantei a
mesinha sete vezes seguidas de modo a produzir a letra G. A
idia pareceu-me boa e embora o U que se seguia custasse
inmeros movimentos acabei por ditar todo o nome de Guido.
Estou quase certo de que, ao lhe ditar o nome, era comandado
pelo desejo de releg-lo entre os espritos.
        Quando o nome de Guido se formou, Ada falou finalmente:
        - Algum antepassado seu? - sugeriu. Estava sentada ao
lado dele. Tive vontade de empurrar a mesa de modo a met-la
entre ambos, separando-os.
        -         possvel disse Guido. Ele se acreditava possuidor de
antepassados, mas isso no me inquietava. Sua voz se mostrava
alterada por uma emoo verdadeira, dando-me a alegria que
invade o esgrimista, ao perceber que seu adversrio  menos
temvel do que supunha. No estava fazendo aquelas experincias
por zombaria. O imbecil acreditava nelas! Todas as debilidades
encontram facilmente em mim condescendncia, mas no a dele.
        Voltou a dirigir-se ao esprito:
        -        Se seu nome  Speier, faa um movimento apenas. Se no,
mova a mesa duas vezes seguidas. - J que ele desejava
antepassados, satisfi-lo movendo a mesinha duas vezes.
        -        Meu av! - murmurou Guido.
        Depois a conversa com o esprito caminhou mais rpida. Foi-lhe
perguntando se queria dar notcias. Respondeu que sim. De
negcios ou de outra natureza? De negcios! Essa resposta foi
preferida porque, para d-la, bastava-me mover a mesa uma s
vez. Guido perguntou ento se se tratava de boas ou de ms
notcias. As ms deviam ser assinaladas por dois movimentos e
eu - desta vez sem a menor hesitao - quis mover a mesa
duas vezes. Contudo, o segundo movimento me foi obstado, de
modo que algum em torno da mesa desejava que as notcias
fossem boas. Ada, quem sabe? Para conseguir o segundo
movimento, apoiei-me com fora sobre o mvel e venci facilmente.
As notcias eram ms!
        Por causa da luta, o segundo movimento tornou-se excessivo e
ps todos os participantes de sobreaviso.
        -        Estranho! - murmurou Guido. Logo, decidido, gritou:
        -        Basta! Basta! H algum aqui que quer divertir-se  nossa
custa!
        Foi uma ordem a que muitos obedeceram ao mesmo tempo, e
imediatamente o salo ficou inundado pelas luzes acesas em
mais de um ponto. Guido parecia plido! Ada enganava-se a
respeito daquele indivduo e eu lhe havia aberto os olhos.
        No salo, alm das trs moas, estavam a Sra. Malfenti e uma
outra mulher, cuja vista me inspirou embarao e mal-estar, pois
julguei fosse tia Rosina. Por motivos distintos, as duas senhoras
receberam de minha parte uma saudao comedida.
        O engraado  que eu ficara s  mesa, ao lado de Augusta.
Estava de novo a comprometer-me, mas no podia
conformar-me em ficar, como todos os demais,  volta de Guido, que com
certa veemncia explicava como havia percebido que a mesa
fora movida no por um esprito mas por algum brincalho de
carne e osso. No fora Ada, mas ele mesmo, quem tentara
impedir que a mesa falasse demais. Dizia:
        Retive a mesa com todas as minhas foras para impedir
que se movesse pela segunda vez. Algum deve ter-se apoiado
inteiramente sobre ela para vencer a minha resistncia.
        Que belo espiritismo aquele: um esforo potente no podia
provir de um esprito!
        Observei a pobre Augusta para ver que aspecto mostrava
aps minha declarao de amor  irm. Estava muito vermelha,
embora me olhasse com um sorriso benvolo. S ento se
decidiu a confirmar ter ouvido a minha declarao:
        No direi a ningum! disse-me em voz baixa, o que
me agradou bastante.
        -        Obrigado - murmurei, apertando-lhe a mo, que, apesar
de no delicada, tinha linhas perfeitas. Estava disposto a tornar-me
um bom amigo de Augusta; at ento isso no fora possvel,
j que no consigo fazer amizade com pessoas feias. Mas sentia
uma certa simpatia por aquela cintura que eu havia estreitado e

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que achei mais delicada do que a princpio imaginei. Sua
fisionomia era tambm discreta, enleada apenas por um olhar
estrbico que lhe quebrava a harmonia. Decerto eu exagerara essa
fealdade a ponto de estend-la a todo o corpo.
        Tinham mandado trazer limonada para Guido. Aproximei-me
do grupo que ainda continuava em torno dele e esbarrei na Sra.
Malfenti, que de l saa. Rindo, perguntei-lhe:
        -        No precisar ele de um cordial? - E ela teve um leve
movimento de desprezo com os lbios:
        -        Ele nem parece um homem! - disse abertamente.
Iludi-me na esperana de que minha vitria fora de
importncia decisiva. Ada no podia pensar de modo diverso da me.
A vitria teve, de repente, o efeito que no podia deixar de ter
num homem como eu. Esvaiu-se-me todo o rancor e no quis
permitir que Guido continuasse a sofrer. Sem dvida, o mundo
haveria de ser menos rude se houvesse mais gente como eu.
        Sentei-me ao lado dele e, sem prestar ateno aos outros, disse:
        -        Peo-lhe desculpas, Sr. Guido. Fui tentado por uma
brincadeira de mau gosto. Fui eu que manobrei a mesa de modo a
pensarem que estava sendo guiada por um esprito- No o teria
feito se soubesse que seu av tinha o mesmo nome seu.
        A face do jovem, que empalideceu ainda mais, deixou trair
o quanto a minha declarao lhe era importante. No quis, no
entanto, admiti-lo e disse:
        -        Estas senhoras so muitos amveis! No tenho nenhuma
necessidade de conforto. O assunto no tem a menor
importncia. Agradeo-lhe por sua sinceridade, mas j havia
adivinhado que algum havia tentado se passar por meu av.
        Riu, satisfeito, e continuou:
        -        O senhor  muito forte! Eu devia ter percebido que a
mesa.
s podia ter sido movida pelo outro nico homem que estava
em nossa companhia.
        Na verdade, eu havia demonstrado ser mais forte, mas logo
deveria sentir-me mais fraco do que ele. Ada olhava-me com
uma expresso pouco amvel e me agrediu, as faces esfogueadas:
-        Lastimo que se permitisse fazer uma brincadeira destas!
        O        ar faltou-me e respondi, balbuciando:
        -        S queria brincar! No imaginei que algum levasse a
srio essa histria da mesa.
        Era um pouco tarde para atacar Guido e, se eu tivesse um
ouvido sensvel, teria percebido que jamais, numa luta contra
ele, a vitria seria minha. A ira que Ada me demonstrava era
bastante significativa. Como no percebi que estava toda do
lado dele? Obstinei-me, porm, na idia de que ele no a
merecia por no ser o homem a quem o seu olhar srio buscava.
J a Sra. Malfenti no o havia percebido?
        Todos me apoiaram, agravando com isso minha situao. A
Sra. Malfenti disse a rir:
        - Foi uma brincadeira que deu bastante certo. - Tia
Rosina ainda mantinha o corpanzil vibrante de tanto rir e dizia com
admirao:
        - Certssimo!
        Desagradou-me a excessiva amabilidade de Guido. Para ele,
j agora, o mais importante era ter certeza de que as ms
notcias que a mesa trazia no provinham de um esprito. Disse-me:
        - Aposto que o senhor no moveu a mesa de propsito
desde o incio. F-lo sem querer, e s depois  que resolveu mov-la
por malicia. De modo que a experincia conserva uma certa
Importncia at o ponto em que o senhor resolveu sabot-la
com a sua inspirao.
        Ada voltou-se para mim, observando-me com curiosidade.
Estava a ponto de manifestar a Guido uma devoo excessiva,
perdoando-me s por ele me haver concedido o seu perdo. Eu
a impedi:
        - Mas no! - disse resoluto. - J estava cansado de
esperar que os espritos se manifestassem e resolvi ajud-los para
me divertir.
        Ada voltou-me as costas com um tal movimento de ombros
que tive a sensao de levar uma bofetada. At mesmo os
caracis de sua nuca me pareceram significar desdm.
        Como sempre, em vez de olhar e ouvir, estava totalmente
ocupado com meus pensamentos. Oprimia-me o fato de que Ada
comprometia-se horrvelmente. Eu experimentava uma forte dor,
como diante da revelao de que minha mulher me traa. Apesar
de sua demonstrao de afeto por Guido, ainda podia ser
minha, embora sentisse que jamais haveria de perdoar sua conduta.
Ser o meu pensamento lento demais para saber seguir os
acontecimentos que se desenvolvem, sem esperar que no meu crebro

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se apaguem as impresses deixadas pelos acontecimentos
precedentes? Devo, contudo, seguir pela via que me impus. Uma
cega, verdadeira obstinao. Quis inclusive tornar meu
propsito mais forte, registrando-o novamente. Aproximei-me de
Augusta, que me olhava ansiosa, com um sorriso sincero e encorajador
nos lbios; disse-lhe srio e enrubescido:
        -        Creio que esta h de ser a ltima vez que venho  sua
casa, porque hoje mesmo vou declarar o meu amor a Ada.
        - No faa isto - disse-me splice. - No se d conta do
que ocorre? Eu ficaria muito triste se o visse sofrer.
        Ela continuava a interpor-se entre mim e Ada. Com o
propsito de causar-lhe despeito, retruquei:
        - Falarei com Ada por ser de meu dever. Mas para mim 
de todo indiferente o que ela possa responder.
        Arrastei-me de novo em direo a Guido. Junto dele,
olhando-me num espelho, acendi um cigarro. No reflexo vi-me muito
plido, coisa que para mim  razo para empalidecer ainda mais.
Lutei para reconstituir-me e mostrar-me desenvolto. No duplo
esforo, com a mo distrada agarrei o copo de Guido. Depois
de t-lo agarrado, no me ocorreu nada melhor seno beb-lo.
        Guido ps-se a rir:
        - O senhor vai ficar sabendo todos os meus segredos, pois
eu j tinha bebido deste copo.
        O sabor do limo sempre me desagradou. Aquele deve ter-me
parecido de fato venenoso, porque, antes de mais nada, beber
no mesmo copo equivaleu para mim a um contato odioso com
Guido; e depois, porque fui atingido ao mesmo tempo pela
expresso de impacincia irada que se estampou na fisionomia de
Ada. Esta chamou imediatamente a empregada e mandou
providenciar outro copo de limonada, insistindo em suas ordens,
apesar de Guido afirmar que j no tinha sede.
        Dessa vez fui verdadeiramente compassivo. Ela
comprometia-se cada vez mais.
        -        Desculpe-me, Ada - disse-lhe humildemente, fitando-a
como se ela esperasse de mim uma explicao qualquer. - Eu
no queria desagrad-la.
        Depois, invadiu-me o temor de que meus olhos se banhassem
de lgrimas. Quis salvar-me do ridculo. Gritei:
        -        Entrou um pouco de limo no meu olho!
        Cobri os olhos com o leno; assim, no tive mais
necessidade de vigiar as minhas lgrimas, e tanto bastou para impedir-me
de soluar.
        Jamais me esquecerei daquela Obscuridade por trs do leno.
No s encobria as minhas lgrimas, mas tambm um momento
de loucura. Imaginava que lhe dissera tudo, que ela me
compreendia e me amava, mas que eu jamais poderia perdo-la.
        Afastei o leno do rosto, deixei que todos vissem meus olhos
lacrimosos, fiz um esforo para rir e para que todos tambm
rissem:
        - Aposto que o Sr. Giovanni faz limonada com cido ctrico.
        Nesse instante chegou Giovanni, que me cumprimentou com
a cordialidade de costume. Senti com isso um pequeno conforto,
que pouco durou, pois ele acrescentou em seguida que viera
mais cedo s para ouvir Guido tocar. Parou um instante para
perguntar a razo das lgrimas que me banhavam os olhos.
Contaram-lhe sobre a minha Suspeita quanto  qualidade da sua
limonada e ele riu.
        Tive o mau carter de associar-me com entusiasmo ao pedido
de Giovanni para que Guido tocasse. Insistia: no viera eu
aquela noite especialmente para ouvir o violino de Guido? E o
curioso  que esperava alegrar Ada com minhas solicitaes
aGuido. Olhei-a  espera de sua aprovao pela primeira vez
naquela noite. Que coisa estranha! o certo no seria falar-lhe
e perdo-la? Em vez disso, vi apenas suas Costas e os caracis
desdenhosos de sua nuca. Ela correra a tirar o violino da caixa.
        Guido pediu que o deixassem concentrarse por uns quinze
minutos. Parecia hesitante. Depois, ao longo do tempo em que
o conheci, tive a experincia de que ele sempre hesitava antes
de fazer qualquer Coisa que lhe pedissem, mesmo as mais
simples. Ele s fazia o que lhe agradava e, antes de atender
qualquer pedido, procedia a uma indagao no seu ntimo, a fim
de saber o que no seu interior se desejava.
        Contudo, naquele memorvel sero, esse foi o quarto de hora
mais feliz. Minha conversa caprichosa divertiu a todos, Ada
inclusive. Era certamente por causa de minha excitao, mas
tambm de meu supremo esforo por vencer o violino
ameaador, que cada vez mais se avizinhava... E o breve espao de

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tempo que os outros, por minha causa, acharam to divertido,
eu o recordo como dedicado a uma luta fatigante.
        Giovanni havia contado que presenciara uma cena dolorosa
no bonde em que se metera para voltar  casa. Uma mulher
tentou descer quando o veculo ainda estava em movimentO, e
de forma to desastrada que acabou por escorregar e ferir-se.
Giovanni descrevia com um pouco de exagero a sua nsia, ao
perceber que a mulher se preparava para o salto, tornando bvio
que cairia e rolaria talvez pelo cho. Era doloroso prever
aquilo e no ter tempo de salv-la.
        Sa-me com uma tirada. Contei que havia descoberto um
remdio para as vertigens que no passado me fizeram sofrer.
Quando via um acrobata exercitando-se nas alturas, ou quando
via pular do bonde andando uma pessoa idosa ou pouco gil,
libertara-me das minhas nsias augurando a estes todo o mal.
Cheguei a modular as palavras com que augurava s pessoas- que
cassem e se esborrachassem, isso me tranqilizava
enormemente, porquanto podia assistir, absolutamente imvel,  ameaa da
desgraa. Se os meus augrios em seguida no se concentravam,
sentia-me ainda mais contente.
        Guido ficou encantado com a idia, que lhe parecia uma
descoberta psicolgica. Analisava-a, tal como apreciava fazer com
todas as ninharias, e no via a hora de provar o remdio. Fazia,
porm, uma ressalva: que os maus agouros no acarretassem
mais desgraas. Ada associou-se ao seu riso e dirigiu-me
tambm um olhar de admirao. Eu, pacvio, senti grande
satisfao. E descobri no ser verdade que nunca haveria de perdo-la:
tambm isso era uma grande vantagem.
        Rimos juntos muito tempo, como dois bons camaradas que
se querem bem. Em certo momento eu ficara numa parte do
salo onde tia Rosina ainda falava sobre o caso da mesa.
Bastante gorda, imvel em sua poltrona, falava comigo sem fitar-me.
Encontrei um modo de fazer ver os demais que a conversa
me enfadava e todos passaram a observar-me, sem que a tia os
visse rindo discretamente.
        Para aumentar a hilaridade, resolvi dizer-lhe sem qualquer
prembulo:
        -        Mas a senhora est bem melhor, at mais jovem.
        A coisa seria engraada se ela se tivesse aborrecido Mas, em
vez de se zangar, mostrouse gratssima e contou que de fato
havia melhorado muito aps uma enfermidade recente. Fiquei
to surpreso com a resposta que meu rosto deve ter assumido
um aspecto muito cmico, de modo que a esperada hilaridade
no falhou. Pouco depois, esclareceu-se o enigma. A senhora
no era tia Rosina, e sim tia Maria, irm da Sra. Malfenti. Tinha
eu assim eliminado daquele salo uma fonte de mal-estar para
mim, mas no a maior.
        Em dado momento, Guido pediu o violino. Dispensava pelo
menos aquela noite o acompanhamento do piano para executar
a Chaconne. Ada entregou-lhe o violino com um sorriso de
encorajamento. Ele no a viu, pois tinha os olhos no instrumento
como se quisesse segregarse com este e sua inspirao. Depois
foi colocar-se no meio do salo e, voltando as costas para uma
boa parte do pequeno auditrio, aflorou levemente as cordas
com o arco para afin-lo e executou alguns arpejos.
Interrompeu-se e disse com um sorriso:
        - Que coragem a minha! No pego no violino desde a
ltima vez que toquei aqui!
        Charlato! Voltava as costas tambm a Ada. Eu a observava
ansiosamente para ver se isso a aborrecia. No parecia! Estava
com o cotovelo apoiado sobre a mesa e o queixo posto na mo,
em recolhimento para ouvir.
        Depois,  minha frente, o grande Bach surgiu em pessoa.
Jamais, nem antes nem depois, voltei a ouvir daquela maneira a
beleza de uma msica nascida de quatro cordas como uma
esttua de Miguel ngelo de um bloco de mrmore. S o meu estado
de esprito era novo para mim e foi isso que me induziu a olhar
para o alto, esttico, como a uma coisa novssima. Em vo lutava
para manter a msica longe de mim. Em vo pensava: "Bobagem!
O violino  uma sereia e no  preciso que se tenha um
corao de heri para fazer os outros chorarem com ele!" Fui
assaltado pela msica que me prendia. Parecia exprimir todo
o meu pensamento e dor com indulgncia, mitigando-os com
sorrisos e carcias. Mas era Guido quem falava! E eu buscava
subtrair-me ao seu fascnio, dizendo: "Para saber fazer isso
basta dispor de um organismo rtmico, mo segura e capacidade

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de imitao; tudo o que no tenho, coisa que no constitui
inferioridade, mas desventura."
        Eu protestava, e Bach seguia seguro como o destino. A
apaixonante melodia das cordas altas mergulhava  procura de um
basso ostinato que nos surpreendia, no obstante o ouvido e o
corao j o pressentirem, dada a sua preciso! Um timo mais
tarde, e o canto se teria dissolvido antes de ser alcanado pela
ressonncia; um timo antes, e ela se teria sobreposto ao canto,
destroando-o. Tal no ocorria com Guido: no lhe tremia a mo
nem mesmo executando Bach, o que me deixava em verdadeira
inferioridade.
        Hoje que escrevo, disponho de todas as provas disto. No
me gabo de ter ento percebido o fato com tanta clareza. Na
ocasio, estava repleto de dio e nem aquela msica, que eu
aceitava como a minha prpria alma, conseguiria aplac-lo. Em
seguida, o transcurso da vida comum de todos os dias acabou
por anul-lo sem que eu a isso opusesse qualquer resistncia.
Compreende-se! A vida vulgar sabe operar tais milagres. Seria
horrvel se os gnios no se percebessem disso!
        Guido encerrou a execuo magistralmente. Ningum
aplaudiu, exceto Giovanni, e por alguns instantes ningum quebrou o
silncio. Depois, contudo, senti desejo de dizer algo. Como ousei
faz-lo diante de pessoas que j me haviam ouvido tocar? Era
como se meu vilino, que em vo anelava produzir uma msica
assim, se pusesse a criticar o outro, em que - no se podia
neg-lo - a msica se transformava em vida, luz e ar.
        Magnfico! - disse, num tom mais de concesso que de
aplauso. - Contudo, no entendo por que no final separou
aquelas notas que Bach indicou como legato.
        Eu conhecia a Chaconne nota por nota. Foi numa poca em
que supunha que, para progredir, devia enfrentar empresas
semelhantes, e durante muitos meses passei o tempo a analisar
compasso por compasso de algumas composies de Bach.
        Senti que os presentes no tinham para mim seno objeo e
desprezo. No entanto, continuei, contra toda hostilidade:
        -        Bach - acrescentei -  to discreto na escolha de seus
meios que no admite adulteraes desse tipo.
        Eu provavelmente tinha razo, mas era igualmente certo que
no teria sabido usar o arco sequer para obter aquelas mesmas
adulteraes.
        Sbito, Guido se mostrou to despropositado quanto eu.
        Declarou:
        -        Talvez Bach desconhecesse a Possibilidade dessa
expresso.  um presente que fao a ele.
        Passava por cima de Bach, mas naquele ambiente ningum
protestou, enquanto que haviam escarnecido de mim s por
haver tentado passar por cima dele.
        Aconteceu ento algo de somenos importncia, mas que para
mim foi decisivo. De um quarto bastante longe ecoaram os
gritos de Anninha Como soubemos depois, ela havia cado e machucado
o lbio. Assim, por alguns minutos, fiquei Sozinho com
Ada, pois todos saram a correr do salo. Guido, antes de seguir
os demais, deps o seu precioso violino nas mos de Ada.
        - Quer que eu segure O Violino? - perguntei a ela, vendo-a
hesitante em seguir os outros. Na verdade, ainda no tinha
percebido que a ocasio to ansiada por mim se havia finalmente
apresentado.
        Ela hesitou e, assaltada por estranha desconfiana, apertou
mais o violino contra si:
        -        No - respondeu -, no preciso ir com os outros. No
deve ter sido nada grave. Anna grita por tudo.
        Sentou-se com o violino e pareceume que com esse ato
convidava-me a falar. De resto, como Poderia ir embora sem
falar-lhe? Que haveria de fazer depois na minha insnia? Via-me a
revirar da esquerda  direita em minha cama, ou a correr pelas
ruas e tascas  procura de distrao. No! No devia abandonar
aquela casa sem antes procurar esclarecimento e tranqilidade.
        Procurei ser breve e simples. Ou a isso fui levado porque j
me faltava o flego. Disse-lhe:
        Ada, eu te amo. Por que no permite que eu fale com
seu pai?
        Olhou-me surpresa e apavorada. Temi que se pusesse a gritar
como a irmzinha l dentro. Sabia que seu olhar sereno e sua
face de linhas to precisas no conheciam o amor, mas nunca a
vira to longe do amor como naquele instante. Comeou a falar
e pronunciou algo que devia ser uma espcie de exrdio. Eu,

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porm, queria a definio precisa: sim ou no! Sua hesitao
me ofendia. Para abreviar a coisa e induzi-la  deciso,
questionei seu direito de refletir:
        -        Mas como ainda no percebeu tudo? Voc no pode
imaginar que eu esteja interessado por Augusta!
        Quis dar nfase s minhas palavras, mas, na precipitao
acabei por calcular mal, e o pobre nome de Augusta foi
acompanhado de um acento e de um gesto de desprezo.
        Foi assim que tirei Ada do embarao. Ela no se ateve seno 
ofensa que eu fazia  irm:
        -        Por que me acha superior a Augusta? Duvido muito que
ela consinta em ser sua esposa!
        Depois recordou-se de que me devia ainda uma resposta:
        -        Quanto a mim.., espanta-me que lhe tenha passado tal
coisa pela cabea.
        A frase cruel era para vingar Augusta. Em minha grande
confuso, fiquei imaginando que tais palavras podiam ter outro
sentido; se tivesse levado uma bofetada, creio que hesitaria em
estudar a razo. Por isso, insisti:
        - Pense bem, Ada. No sou mau partido. Sou rico... Um
pouco estranho talvez, mas ser fcil corrigir-me.
        Ela foi mais tolerante, embora voltasse a falar da irm:
        - Pense voc tambm, Zeno. Augusta  boa pessoa e daria
excelente esposa. No estou querendo falar por ela, mas creio.
        Grande era a minha satisfao por ter sido chamado por Ada
pela primeira vez por meu prenome. No seria um convite para
falar ainda mais claro? Talvez eu a tivesse perdido, ou pelo
menos no quisesse de imediato casar-se comigo; no obstante,
era necessrio evitar que se comprometesse ainda mais com
Guido, sobre quem eu lhe devia abrir os olhos. Fui previdente
e antes de tudo disse-lhe que estimava e respeitava Augusta, mas
de maneira alguma desejava despos-la. Repeti-o para fazer-me
entender mais claramente: "no queria despos-la". Pretendia
assim acalmar Ada, que podia pensar que eu quisesse ofender
Augusta.
        - tima, excelente, amvel pessoa, a Augusta; s que no
foi feita para mim.
        Em seguida, precipitei-me a falar, pois do corredor chegavam
rumores e a palavra podia ser-me cortada de um momento para
outro.
        - Ada! Esse homem tambm no  para voc.  um imbecil!
No viu como sofria com as respostas da mesa? No reparou
na bengala dele? Sabe tocar violino,  verdade, mas at os
idiotas podem faz-lo. Todas as suas palavras revelam um
estpido...
        Ada, aps ouvir-me com aspecto de quem no se resolve a
admitir no sentido prprio as palavras que lhe so dirigidas,
interrompeu-me. Ergueu-se, sempre com o violino e o arco nas
mos, e voltou a dirigir-me palavras ofensivas. Fiz o que pude
para esquec-las e consegui. Recordo apenas que me perguntou
em voz alta como ousava falar assim dele e dela! Arregalei os
olhos de surpresa, pois achava que falava exclusivamente dele.
Esqueci as muitas palavras de desdm que ela me dirigiu, mas
no a sua face, bela, nobre e sadia, enrubescida pelo desdm
e cujas linhas com a indignao se tornavam mais precisas,
quase marmreas. Jamais esquecerei; e quando penso em meu
amor da juventude, revejo a bela, nobre e sadia face de Ada no
momento em que me eliminou definitivamente de seu destino.
        Retornaram todos em grupo em volta da Sra. Malfenti, que
trazia Anninha pelo brao ainda em prantos. Ningum se ocupou
de mim nem de Ada, e eu, sem me despedir de ningum, deixei
o salo; no corredor apanhei meu chapu. Curioso! Ningum
veio reter-me. Ento, eu prprio me retive, lembrando-me de que
no convinha faltar com as regras da boa educao, devendo,
antes de ir embora, cumprimentar a todos. A verdade  que,
sem dvida, a convico de que em breve comearia para mim
uma noite pior do que as cinco precedentes foi o que me
impediu de abandonar aquela casa. Eu, que tivera afinal o desejado
esclarecimento, ansiava agora por outra necessidade: a de paz,
paz com todos. Se conseguisse eliminar toda animosidade em
                meu relacionamento com Ada e os demais, ser-me-ia mais fcil
                o sono. Por que haveria de subsistir tal aspereza? No me cabia
                te-la nem mesmo com relao a Guido, pois, se este no tinha
                para mim nenhum mrito, no lhe cabia igualmente a culpa de
                ter sido preferido por Ada!

124 125

        Pareceu que ela foi a nica pessoa a se dar conta de minha
escapadela at o corredor; quando me viu retornar, olhou-me com
expresso ansiosa. Temia um escndalo? Quis logo
tranqiliz-la. Passei ao seu lado e murmurei:
        -        Desculpe se ofendi voc!
        Tomou-me a mo e, tranqilizada, apertou-a. Senti grande
conforto. Cerrei por um instante os olhos para isolar-me com
minha alma e ver quanta paz lhe acarretara aquele gesto.
        Quis o destino que, enquanto ainda se ocupavam da menina,
eu sentasse ao lado de Alberta. No dera por isso; s notei sua
presena quando me disse:
        -        No aconteceu nada. O perigo  a presena de papai que,
se a v chorando, lhe d uma bela surra.
        Cessei de analisar-me porque me vi inteiro! Para obter a paz,
devia proceder de modo a que minha presena jamais fosse
interdita naquele salo. Contemplei Alberta! Parecia-se com Ada!
Era um pouco mais nova e trazia no semblante sinais ainda no
desvanecidos da infncia. Erguia com facilidade a voz, e seu
riso amide excessivo provocava-lhe contraes da face que
enrubescia. Curioso! Nesse instante recordei-me de uma
recomendao de meu pai: "Escolha uma mulher jovem, pois ser mais
fcil educ-la a seu modo." A recordao foi decisiva. Olhei de
novo Alberta. No pensamento, apliquei-me em despi-la e
pareceu-me to suave e tenra quanto a podia imaginar.
        Disse-lhe:
        - Escute, Alberta! Tive uma idia: j pensou que est na
idade de casar?
        - No pretendo casar! - respondeu, sorrindo e olhando-me
com brandura, sem embarao nem rubor. - Quero continuar
os meus estudos. Mame  da mesma opinio.
        -        Por que no continuar os estudos depois de casada?
Veio-me uma idia, que me pareceu espirituosa, e logo
exprimi-a:
        -        Eu inclusive penso iniciar os meus depois de casado.
Riu satisfeita; percebi, porm, que perdia tempo, pois no
seria com tais inpcias que conquistaria uma mulher e a paz.
Precisava ser srio. E no caso era fcil, j que o acolhimento
fora bem diverso do de Ada.
        Mostrei-me realmente srio. Minha futura mulher tinha que
saber de tudo. Com voz comovida confessei:
        - Ainda h pouco, dirigi a Ada a mesma proposta que agora
lhe fao. Ela recusou com desdm. Voc pode imaginar o estado
em que me encontro.
        Essas palavras, acompanhadas de um gesto de tristeza, no
passavam de minha ltima declarao de amor a Ada. Tornava-me
demasiadamente srio; por isso, acrescentei sorrindo:
        - Mas acho que, se voc aceitar minha proposta, ficarei
felicssimo e esquecerei tudo e todos por sua causa.
        Ela, por sua vez, se ps sria e disse:
        - Voc no deve ofender-se, Zeno, porque me entristeceria.
Tenho muita estima por voc. Sei que voc  uma boa alma e,
sem se dar conta, sabe de fato muitas coisas, ao passo que os
meus professores sabem exatamente s aquilo que sabem. No
pretendo casar. Posso mudar de opinio, mas por ora tenho
apenas uma meta: quero ser escritora. Veja a confiana que deposito
em voc. Nunca falei disso a ningum e espero que no me traia.
De minha parte, prometo-lhe que no revelarei a ningum sua
proposta.
        - Pelo contrrio, pode diz-la a todos! - interrompi-a com
despeito. Sentia-me novamente sob a ameaa de ser expulso
daquele salo e tratei de amparar-me. S havia uma forma de
atenuar em Alberta o orgulho de me ter rejeitado; aferrei-me
a ela to logo a descobri. Disse-lhe:
        - Agora vou fazer a mesma proposta a Augusta e direi a
todos que me caso com ela porque as duas outras irms me
recusaram!
        Ria-me com o exagerado bom humor que se havia apossado
de mim em seguida  estranheza de meu procedimento. No era
na palavra que eu aplicava o esprito de que tanto me
orgulhava, mas na ao.
        Olhei em torno  procura de Augusta. Ela ia em direo ao
corredor, levando uma bandeja com um copo pelo meio
contendo um calmante para Anninha. Seguia-a apressado e chamei-a
pelo nome; ela encostou-se  parede e esperou-me. Cheguei
diante dela e perguntei de chofre:
        -        Augusta, voc gostaria que nos casssemos?

126 127

        A proposta era sem dvida rude. Ia casar com ela e ela comigo,
e no lhe perguntava o que pensava disso, nem imaginava que
eu pudesse ser levado a dar explicaes. Fazia apenas aquilo
que todos esperavam de mim!
        Augusta ergueu os olhos arregalados de surpresa, fazendo
com que o olho estrbico parecesse ainda mais diferente do
outro. Sua face aveludada e branca, a princpio, empalideceu e
logo depois congestionou-se. Agarrou com a mo direita o copo
que tremia sobre a bandeja. Com um fio de voz disse-me:
        - Voc est brincando e isso no se faz.
        Temi que se pusesse a chorar e tive a curiosa idia de
consol-la falando-lhe da minha tristeza.
        - No estou brincando - disse srio e triste. - Primeiro
pedi a mo de Ada, que me recusou com ira; depois pedi a de
Alberta, e ela recusou-me tambm, com belas palavras. No
guardo rancor nem de uma nem de outra. Apenas me sinto
muito, muito infeliz.
        Diante de minha dor, Augusta recomps-se e olhou-me
comovida, refletindo intimamente. Seu olhar semelhava uma carcia
que no me causava prazer.
        - Devo ento saber e recordar sempre que voc no tem
amor por mim? - perguntou.
        Que significava essa frase sibilina? O preldio de um
consentimento? Queria dizer que se lembraria daquilo por todo o
tempo que estivesse a meu lado? Invadiu-me a sensao da pessoa
que, para matar-se, se coloca numa posio perigosa e depois
se v obrigada a grandes esforos para salvar-se. No teria sido
melhor que Augusta tambm me repelisse e que me fosse dado
voltar so e salvo para o meu estdio, onde, no entanto, naquele
mesmo dia me havia sentido to mal? Respondi:
        -  certo. Amo apenas Ada, mas me casarei com .......
Estava para dizer-lhe que no admitia a idia de ser um
estranho para Ada; por isso me contentava em ser cunhado dela.
Seria demasiado, e Augusta novamente poderia acreditar que eu
queria menosprez-la. Assim, retruquei apenas:
        - No consigo mais viver sozinho.
        A jovem permanecia encostada  parede de cujo apoio talvez
necessitasse, embora j parecesse mais calma e conseguisse
segurar a bandeja s com uma das mos. Eu estava salvo; devia,
portanto, abandonar aquela casa ou permanecer ali e casar-me?
Dirigi-lhe outras palavras, mais por impacincia de esperar as
dela, que custavam a vir:
        -        Sei que sou bom sujeito e acho que  possvel viver
facilmente em minha companhia, ainda que no haja um grande
amor.
        Esta era uma frase que nos longos dias precedentes eu havia
preparado para Ada, a fim de induzi-la a conceder-me o sim,
mesmo sem sentir por mim um grande amor.
        Augusta ofegava levemente e permanecia muda. O silncio
podia inclusive significar uma recusa, a mais delicada recusa
que se pudesse imaginar: quase corri em busca de meu chapu,
em tempo ainda de p-lo sobre a cabea s e salva.
        Em vez disso, Augusta, decidindo-se, com um movimento
digno do qual jamais me esquecerei, endireitou-se e abandonou
o apoio da parede. No corredor, j por si estreito, aproximou-se
mais de mim, que estava bem em frente dela, e disse:
        -        Zeno, voc precisa de uma mulher que queira viver a seu
lado e tome conta de voc. Hei-de ser essa mulher.
        Estendeu-me a mo gorducha que eu quase instintivamente
beijei. Evidentemente j no havia possibilidade de agir de outra
forma. Devo, no entanto, confessar que nesse momento fui
invadido por uma satisfao que me inundou o peito. No havia
mais o que resolver. Tudo estava resolvido. Ocorrera o
esclarecimento total.
        Foi assim que noivei. Fomos logo cumprimentadssimos. Meu
sucesso era um pouco semelhante ao grande xito do violino de
Guido, a julgar pelos aplausos de todos. Giovanni beijou-me a
face e passou a tratar-me por filho. Com excessiva expresso de
afeto, asseverou-me:
        -        H muito que me sentia seu pai, desde que comecei a lhe
dar conselhos sobre negcios.
        Minha futura sogra tambm me ofereceu a face, que aflorei
levemente. quele beijo no teria escapado nem se fosse casar-me
com Ada.
        -        Veja que eu adivinhava tudo - disse-me com incrvel
desenvoltura, a que eu no soube nem quis protestar.
Em seguida, abraou a filha e a dimenso de seu afeto
revelou-se no soluo que se lhe escapou, interrompendo suas mani-

128 129

festaes de alegria. Eu no conseguia suportar a Sra. Malfenti;
devo porm dizer que esse soluo, pelo menos por toda essa
noite, coloriu de uma luz simptica e imponente o meu noivado.
        Alberta, radiante, apertou-me a mo:
        - Quero ser uma irmzinha para voc.
        E Ada:
        - Parabns, Zeno! - Depois, em voz baixa: - No se
esquea: jamais um homem que supe ter agido com
precipitao procedeu to acertadamente quanto voc.
        Guido reservou-me uma grande surpresa:
        - Desde de manh desconfiei que voc estava interessado
numa destas jovens, mas no cheguei a perceber qual delas.
        Quer dizer que no deviam ser l muito ntimos, do contrrio
Ada certamente lhe teria falado a meu respeito! Ser que eu
agira de fato precipitadamente?
        Logo em seguida, no entanto, Ada falou:
        - Quero que goste de mim como irmo. O que passou fica
esquecido. Nada direi a Guido.
        Afinal significava algo belo ter provocado tanta alegria numa
famlia. S ento podia comprazer-me mais porque me sentia
cansado e com sono. O que provava ter eu agido com grande
previso. Enfim, passaria uma noite calma.
        Durante a ceia, Augusta e eu recebemos em silncio as
manifestaes que nos foram feitas. Ela sentiu necessidade de
desculpar-se por sua incapacidade de participar da conversa:
        - No sei o que dizer. No se esqueam de que, h meia hora
apenas, no sabia o que estava para acontecer.
        Ela sempre dizia a verdade exata. Pairava entre o riso e o
pranto e me olhava embaraada. Quis acarici-la tambm com o
olhar, mas no sei se consegui.
        Nessa mesma noite  mesa recebi outra lio. E foi o prprio
Guido quem ma deu.
        Parece que, pouco antes de eu chegar e tomar parte na sesso
esprita, Guido se havia referido ao fato de que eu lhe afirmara
naquela manh no ser uma pessoa distrada. Deram-lhe em
seguida tantas provas de que eu mentira que, para vingar-se (ou
talvez para mostrar que sabia desenhar), fez duas caricaturaS
minhas. Na primeira, representava-me com o nariz para o ar,
apoiado no cabo de um guarda-chuva espetado  terra. Na
segunda, o guarda-chuva se havia partido e o cabo me penetrara
pela espinha. As duas caricaturas atingiam o escapo de causar
hilaridade mediante o artifcio banal de manter o indivduo que
me devia representar - na verdade, bastante semelhante a
mim, embora caracterizado por uma extensa calva -
absolutamente imperturbvel em ambos os desenhos, decorrendo da que
minha distrao era tanta a ponto de no mudar de aspecto,
no obstante trspassado pelo guarda-chuva.
        Todos riram muito, e at demais. Compungiu-me
intensamente a tentativa bem-sucedida de lanar-me no ridculo. E foi ento
que pela primeira vez me senti atingido por uma dor lancinante.
Naquela noite senti doer-me o antebrao esquerdo e a bacia.
Uma queimadura incisiva, uma formgao dos nervos como
se ameaasse contrair-se. Aturdido, levei a mo direita ao
quadril e com a esquerda agarrei o antebrao dolorido. Augusta
perguntou:
        -        Que foi?
        Respondi que sentia dor no local contundido pela queda que
tive no caf e da qual tambm se havia falado naquela tarde.
        Fiz em seguida uma enrgica tentativa de libertar-me da dor.
Pareceu-me que s me curaria se conseguisse vingar-me da
injria que me fora feita. Pedi um pedao de papel e lpis e tentei
desenhar um indivduo esmagado por uma mesa que lhe caa em
cima. Pus ao lado uma bengala que lhe escapara da mo em
conseqncia do tombo. Ningum reconheceu a bengala; por
isso, a ofensa no se concretizou da forma que eu previra.
Ento, para que reconhecessem o indivduo e a razo de se
encontrar naquela posio, escrevi embaixo: "Guido Speier s voltas
com a mesa." De resto, tudo quanto se via do pobre infeliz sob
a mesa eram as pernas, que podiam parecer as de Guido, no
as tivesse eu estropiado de propsito e o esprito de vingana
no interviesse para piorar o meu desenho j de si bastante
infantil.
        A dor insistente fez-me trabalhar com grande pressa.  ver-
dade que nunca o meu organismo fora invadido por tamanho
desejo de ferir e, se tivesse  mo um sabre em vez daquele
lpis que eu no sabia manejar, talvez tivesse alcanado a
minha cura.

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        Guido riu sinceramente de meu desenho e observou com
brandura:
        -        No acho que a mesa me tenha maltratado assim!
        No o havia de fato maltratado e era essa injustia o que
mais me compungia.
        Ada recolheu os desenhos de Guido e disse que queria
conserv-los. Fitei-a como a querer exprimir-lhe minha reprovao
e ela teve que desviar os olhos dos meus. Tinha o direito de
reprov-la porque ela contribua para aumentar o meu
sofrimento.
        Encontrei uma aliada em Augusta. Pediu-me que pusesse 
margem de meu desenho a data de nosso noivado porque
tambm ela queria guardar a garatuja. Uma clida onda de sangue
inundou as minhas veias graas a essa demonstrao de afeto;
pela primeira vez reconheci o quanto era importante para mim.
A dor, contudo, no cessou e pensei que, se aquele ato de
afeio tivesse vindo de Ada, decerto teria provocado em minhas
veias tamanha vaga de sangue que todos os detritos acumulados
em meus nervos teriam sido varridos para sempre.
        Essa dor nunca mais me abandonou. Agora, na velhice, sofro
menos com ela, porque, quando me ataca, sei suport-la com
indulgncia: "Ah! Voc est a, prova evidente de que j fui
jovem?!" Mas na mocidade foi o contrrio. No digo que a dor
tenha sido grande, embora, vez por outra, me impedisse o livre
movimento ou me mantivesse desperto por noites inteiras. Isso
ocupou boa parte de minha vida. Queria curar-me! Por que
haveria de carregar por toda a vida em meu corpo o estigma
do vencido? Tornar-me, sem mais, o monumento ambulante da
vitria de Guido? Era necessrio apagar de meu corpo essa dor.
        Assim, tiveram incio os tratamentos. Logo, porm, a origem
odiosa da doena se perdeu, e agora foi inclusive difcil
reencontr-la. No podia ser de outra forma: eu confiava nos
mdicos que me curaram e acreditava neles sinceramente quando
atribuam a dor ora ao metabolismo ora  circulao deficiente,
depois  tuberculose ou a vrias infeces, das quais uma at
vergonhosa. Devo, portanto, confessar que todos os tratamentos
me propiciaram alguma forma de alvio temporrio que, a cada
vez, parecia confirmar o eventual diagnstico. Mais cedo ou mais
tarde, revelava-se este menos preciso, mas no de todo errneo,
j que em mim nenhuma funo  idealmente perfeita.
        S uma vez ocorreu um verdadeiro erro: uma espcie de
charlato em cujas mos ca obstinou-se por muito tempo em
atacar o meu nervo citico com seus vesicatrios e acabou
sendo escarnecido por minha dor que, sem mais nem menos,
durante o tratamento, saltou da anca para a nuca, longe, portanto, de
qualquer relao com o nervo citico. O terapeuta irritou-se,
ps-me dali para fora e l fui eu - recordo-me perfeitamente -
sem me sentir ofendido, pelo contrrio, surpreso de que a dor,
embora tivesse mudado de lugar, permanecesse a mesma.
Mantinha-se irritante e inatingvel, tal como ao torturar-me a anca.
 estranho como todas as partes de nosso corpo sabem doer da
mesma forma.
        Todos os outros diagnsticos continuam a viver sem
alteraoes em meu corpo, disputando entre si a primazia. H dias em
que estou com ditese rica e outros em que a ditese
desaparece, ou melhor,  substituda por uma inflamao das veias.
Tenho gavetas e mais gavetas cheias de medicamentos e so,
dentre todas as minhas gavetas, as nicas que mantenho
arrumadas. Amo os meus remdios e sei que, quando abandono um
deles, mais cedo ou mais tarde a ele hei-de retornar. De resto,
no creio haver perdido meu tempo. Quem sabe desde quando
e de que molstia j teria morrido, se a minha dor, na ocasio
oportuna, no tivesse simulado todas as doenas para induzir-me
a cur-las antes que elas de fato me abatessem.
        Contudo, embora sem saber explicar a natureza ntima dessa
dor, sei o momento exato em que ela surgiu. Exatamente por
causa daquele desenho melhor que o meu. A gota dgua que fez
transbordar o copo! Estou seguro de que antes no sentia essa
dor. Quis explicar a origem dela a um mdico, mas no fui
compreendido. Quem sabe? Talvez a psicanlise possa trazer  luz
toda a perturbao por que passou meu organismo naqueles
dias, especialmente nas poucas horas que se seguiram ao meu
pedido de casamento.
        Tambm no foram poucas aquelas horas!
        Quando, j tarde, a reunio foi desfeita, Augusta despediu-se
de mim com ternura:
        -        At amanh!

132 133

        O convite agradou-me porque provava que eu havia atingido
o meu escopo, nada havia acabado, tudo continuaria no dia
seguinte. Ela fixou-me os olhos e encontrou nos meus uma viva
anuncia capaz de confort-la. Desci os degraus, sem mais
cont-los, perguntando-me:
        -        Ser que a amo?
        Trata-se de uma dvida que me acompanhou por toda a vida,
at hoje posso pensar que o amor eivado de tanta dvida  o
verdadeiro amor.
        Contudo, nem ao haver sado daquela casa, foi-me possvel
deitar-me, aps a longa noitada, e recolher o fruto da minha
atividade sob a forma de um sono prolongado e restaurador. Fazia
calor. Guido sentiu vontade de tomar um sorvete e convidou-me
a ir com ele  confeitaria. Segurou-me o brao amigavelmente,
e eu, igualmente amigvel, apoiei-me no dele. Era uma pessoa
muito importante para mim e no saberia recusar-lhe nada. O
grande cansao que deveria ter-me conduzido ao leito tornava-me
ainda mais condescendente.
        Entramos no mesmo caf em que Tlio me transmitira a sua
molstia e nos sentamos a uma mesa do canto. Na rua, sofri
muito com a dor, que eu ainda no imaginava como a
companheira fiel que haveria de ser, e pareceu-me por alguns
instantes que ia passar, agora que eu estava sentado.
        A companhia de Guido foi definitivamente terrvel.
Procurava informar-se com grande curiosidade sobre os meus amores
com Augusta. Suspeitaria que eu o enganasse? Disse-lhe
descaradamente que me havia apaixonado por Augusta desde a
primeira visita  casa dos Malfenti. Minha dor me tornava loquaz,
at com vontade de gritar. Por isso, falei demais e, se Guido
se mostrasse um pouco mais atento, teria percebido que eu no
estava assim to enamorado de Augusta. Falei do que achava
mais interessante na figura dela, ou seja, de seu olho estrbico,
que de to torto fazia pensar que o resto do corpo estava fora de
esquadro. Depois, quis explicar por que no me havia declarado
antes. Talvez Guido estivesse surpreso por me ter visto chegar
quela casa no ltimo instante para ficar noivo. Rugi:
        - Saiba que essas moas esto habituadas a grande luxo, e
andei em dvida se tinha condies para sustentar situao
semelhante.
        Desagradou-me ter de falar assim tambm de Ada, mas no
havia remdio; era to difcil isolar Augusta de Ada! Continuei
baixando a voz para melhor vigiar-me:
        - Tive que fazer meus clculos. Achei que meu dinheiro
no bastava. Ento comecei a imaginar uma maneira de ampliar
meus negcios...
        Disse mais que, para fazer tais avaliaes, tive de despender
largo tempo e por isso me abstive de visitar os Malfenti por cinco
dias. Por fim, entregue a si mesma, a lngua chegou a um pouco
de sinceridade. Estava a ponto de chorar de dor e, amparando
a anca, murmurei:
        - Cinco dias  muito tempo!
        Guido mostrou-se satisfeito por descobrir em mim pessoa to
previdente.
        Observei com secura:
        - Um homem previdente no agrada mais que um leviano!
        Guido riu:
        - Curioso que os previdentes sintam necessidade de
defender os levianos!
        Depois, sem transio, contou-me secamente que estava a
ponto de pedir a mo de Ada. Havia-me arrastado ao caf para fazer
aquela confisso, ou quem sabe estava aborrecido por ter ficado
a me ouvir falar de mim mesmo por tanto tempo e agora
procurava desforrar-se?
        Estou quase seguro de que no momento consegui demonstrar
a maior surpresa e a maior condescendncia. Contudo, no
tardei a encontrar uma forma de agredi-lo energicamente:
        - Agora compreendo por que Ada gostou tanto do seu Bach
adulterado! Voc tocou bem, mas h certas coisas que no
podemos profanar.
        O bote era forte e Guido enrubesceu de dor. Foi delicado na
resposta, pois lhe faltava ali o apoio de todo o seu pequeno
pblico entusiasta.
        - Meu Deus! - comeou para ganhar tempo. - Quando se
toca, s vezes somos levados por um capricho. Naquela sala
poucos conheciam Bach e eu lhes apresentei uma verso um
Pouco modernizada.
        Parecia satisfeito com o achado; eu, por minha vez, estava
igualmente satisfeito, pois aquilo me pareceu um pedido de des134 135

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culpa, um ato de submisso. Tanto bastou para apaziguar-me;
ademais, por coisa alguma deste mundo haveria de litigar com o
futuro marido de Ada. Proclamei que raramente me fora dado
ouvir um diletante que tocasse to bem.
        A ele no bastou: observou que s poderia ser considerado
um diletante pelo fato de no se apresentar como profissional.
        Era isso o que queria? Dei-lhe razo. Era evidente que no
podia ser considerado um diletante.
        Assim, voltamos s boas.
        Depois, ao acaso, ps-se a falar mal das mulheres. Fiquei de
boca aberta! Agora que o conheo melhor, sei que se lana a
discorrer desenfreadamente em qualquer direo, quando ve
estar agradando o interlocutor. Eu falara pouco antes do luxo
das senhoritas Malfenti, e ele voltou a citar o fato para
enumerar todas as outras qualidades negativas das mulheres. Meu
cansao impedia-me interromp-lo; limitava-me a fazer contnuos
sinais de assentimento, j bastante fatigantes para mim. No
fora isso,  claro que teria protestado. Achava-me no direito de
dizer mal de mulheres da espcie de Ada, Augusta e de minha
futura sogra; ele, porm, no tinha razo alguma para investir
contra o sexo representado por Ada, a quem amava.
        Era instrudo, e apesar do cansao fiquei a ouvi-lo com
admirao. Muito tempo depois, descobri que se havia apropriado
das geniais teorias do jovem suicida Weininger. Na ocasio,
contudo, senti o peso de uma segunda derrota, aps a de Bach.
Veio-me a suspeita de que ele pretendia curar-me. Se no, para
que insistiria em convencer-me de que as mulheres no so boas
nem geniais? Acho que a cura no se efetivou porque foi
administrada por ele. Ainda assim, retive aquelas teorias e mais tarde
aperfeioei-as com a leitura de Weininger. No chegam a curar,
 verdade, mas constituem uma cmoda companhia quando se
corre atrs das mulheres.
        Depois de tomar o sorvete, Guido sentiu necessidade de uma
lufada de ar puro e convenceu-me a acompanh-lo num passeio
at a periferia da cidade.
        Recordo: h dias que se ansiava, na cidade, por um pouco
de chuva para aplacar os rigores de um vero antecipado. Nem
sequer me dera conta do calor. Naquela noite, o cu comeara
a cobrir-se de leves nuvens brancas, dessas que pressagiam
chuva abundante; no entanto, uma lua enorme avanava pelo cu
intensamente azul nos pontos ainda lmpidos, uma daquelas luas
de face rechonchuda que o povo acredita capaz de comer as
nuvens. Era evidente que por onde ela passava o cu ficava
limpo.
        Quis interromper o tagarelar de Guido, que me constrangia a
anuir continuamente com a cabea - uma tortura - e descrevi
para ele o beijo da lua descoberto pelo poeta Zamboni: como
era doce aquele beijo no centro de nossa noite em confronto
com a injustia que Guido ao meu lado comentava! Falando e
saindo do torpor em que havia cado  fora de assentir, pareceu-me
que a dor se atenuava. Era o prmio de minha rebelio, e
insisti nele.
        Guido teve que deixar por um momento em paz as mulheres
e olhar para cima. Mas por pouco! Localizando, segundo as
minhas indicaes, a plida imagem da mulher na face da lua,
retornou ao seu argumento com uma piada, de que muito riu,
apenas ele, na rua deserta:
        - Aquela mulher v tantas coisas! Pena que, sendo mulher,
no consiga recordar-se de nada.
        Fazia parte de sua teoria (ou da de Weininger) que a mulher
no pode ser genial dada a sua incapacidade de recordar-se.
        Chegamos  altura da rua Belvedere. Guido disse que
caminhar por uma pequena subida lhe faria bem. Ainda dessa vez
o acompanhei. No alto, com um desses movimentos que assentam
melhor a rapazes mais jovens, ele estirou-se sobre a mureta de
sustentao que havia no local. Pareceu-lhe realizar um ato de
bravura expor-se assim a uma queda de uma dezena de metros.
De incio, senti o arrepio habitual ao v-lo exposto a tal perigo;
em seguida, lembrei-me do princpio sobre que havia excogitado
na mesma noite, num rasgo de improvisao, para libertar-me
daquele af, e pus-me a augurar fervorosamente que ele casse.
        Nessa posio continuava a invectivar contra as mulheres.
Dizia agora que precisavam de brinquedos como as crianas,
embora de alto preo. Recordei que Ada dissera gostar muito de
jias. Seria dela que Guido falava? Tive ento uma idia
incrvel! Por que no empurrar Guido naquela queda iminente? No
seria justo suprimir aquele que me arrebatava Ada sem am-la?
No momento, pareceu-me que, mal o houvesse morto, poderia

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correr ao encontro de Ada para reclamar meu prmio. Na noite
estranha e enluarada, parecia-me que ela ouvia como Guido a
infamava.
        Devo confessar que eu me preparava verdadeiramente para
matar Guido! De p, ao lado dele, que estava estendido sobre o
baixo parapeito, examinei friamente como deveria agarr-lo
para concretizar devidamente o meu intento. Depois, descobri
que no tinha necessidade nem mesmo de agarr-lo. Ele estava
deitado com os braos cruzados sob a cabea; bastaria um
empurro de chofre para coloc-lo irremediavelmente fora de
equilbrio.
        Veio-me outra idia que me pareceu to importante quanto a
grande lua que avanava no cu limpando-o das nuvens: tinha
concordado em casar-me com Augusta para ficar seguro de
dormir bem aquela noite. Como dormiria em paz se viesse a
assassinar Guido? Esta reflexo salvou-me a mim e a ele. Quis
abandonar imediatamente aquela posio em que me achava acima de
Guido e que me induzia  ao. Dobrei os joelhos, inclinei-me
sobre mim mesmo, quase chegando a ponto de tocar a terra com
a cabea:
-        Ai! Que dor, que dor! - gritei.
        Apavorado, Guido ergueu-se a perguntar-me o que era.
Continuei a me lamuriar com menos intensidade, mas sem responder.
Sabia a razo por que me lamentava: porque tivera a inteno
de matar e talvez porque no tivesse conseguido faz-lo. A dor
e o lamento tudo perdoavam. Desejei gritar que no tivera a
inteno de matar e queria gritar tambm que no era minha
culpa se no conseguira faz-lo. Tudo era culpa da minha doena
e da minha dor. Em vez disso - recordo perfeitamente -
minha dor desapareceu completamente naquele instante e meu
lamento permaneceu como pura comdia,  qual em vo tratei
de dar contedo, evocando a dor e restaurando-a para senti-la
e sofrer com ela. Mas foi um esforo vo, porque ela s retornou
quando quis.
        Como de hbito, Guido procedia por hipteses. Entre outras
coisas, perguntou-me se no se tratava da mesma dor provocada
pela queda no caf. A idia pareceu-me boa e concordei.
        Tomou-me pelo brao e cordialmente ajudou-me a levantar.
Depois, com todo cuidado, sempre segurando-me, fez-me descer
a pequena ladeira. Quando chegamos embaixo, declarei que me
sentia um pouco melhor e achava que podia caminhar mais
depressa, embora sempre apoiado nele. Assim, finalmente podia
ir dormir! Era a primeira satisfao verdadeira que
experimentava naquele dia. Guido era ali meu empregado, pois quase me
carregava s costas. Era eu, enfim, quem lhe impunha a minha
vontade.
        Achamos uma farmcia ainda aberta e ele teve a idia de que
fosse deitar-me acompanhado de um calmante. Construiu toda
uma teoria sobre a dor real e sobre seu sentimento exagerado:
uma dor que se multiplicava pela exasperao que ela prpria
havia produzido. Com aquele frasco teve incio minha coleo
de medicamentos, e foi bem feito que tivesse sido indicado por
Guido.
        Para dar base mais slida  sua teoria, admitiu que eu j
viesse sofrendo daquela dor h muitos dias. Senti no concordar
com ele. Afirmei que naquela noite, em casa dos Malfenti, eu
no sentira dor alguma. No momento em que me era concedida
a realizao de meu grande sonho,  evidente que no poderia
sofrer.
        Eu estava sinceramente ansioso para ser como me imaginava
e repetia vrias vezes a mim mesmo: "Amo Augusta, no amo
Ada. Amo Augusta e hoje realizei o meu grande sonho."
        Assim fomos caminhando pela noite de lua. Suponho que
Guido se cansasse com o meu peso, porque finalmente
emudeceu. Props-me, contudo, acompanhar-me at a casa. Recusei e,
quando me foi permitido cerrar a porta de casa s suas costas,
suspirei de alvio. Certamente Guido deve ter emitido o mesmo
suspiro.
        Subi as escadas de minha casa de quatro em quatro degraus
e em dez minutos estava no leito. Dormi de imediato e, no
breve perodo que precede o sono, no me lembrei de Ada nem
de Augusta, apenas de Guido, to terno, bom e paciente. Claro
que no me esquecia de que pouco antes sentira vontade de
mat-lo; isso, porm, no tinha nenhuma importncia, j que
as coisas que ningum sabe e que no deixam trao so como
se nunca existissem.
        No dia seguinte cheguei  casa de minha futura esposa um
pouco titubeante. No estava seguro se os votos feitos na noite

138 139

anterior tinham o valor que eu supunha dever atribuir-lhes.
Descobri que de fato tinham, e para todos. At mesmo Augusta
estava certa de que noivara, mais certeza inclusive do que eu
podia imaginar.
        Foi um noivado trabalhoso. Tenho a impresso de hav-lo
anulado vrias vezes e refeito com grande fadiga outras tantas, e
surpreende-me que ningum se tivesse dado conta disso. Nunca
tomei por inteiro as iniciativas do casamento; parece, contudo,
que me comportei como noivo bastante amoroso. De fato, beijava
e estreitava ao peito a irm de Ada todas as vezes que tinha
essa oportunidade. Augusta sofria as minhas agresses como
supunha que uma noiva devesse aceit-las, e eu me comportava
relativamente bem, mais porque a Sra. Malfenti s nos deixava
a ss por breves instantes. Minha noiva era muito menos feia
do que eu imaginava, e descobri sua maior beleza quando a
beijava: o rubor! No lugar em que eu beijava surgia uma flama
em minha honra e eu beijava, mais com a curiosidade da
experimentao do que com o fervor do amante.
        No faltava, porm, o desejo, tornando um pouco mais leve
esse perodo penoso. Ai de mim se Augusta e a me no me
impedissem de queimar aquela chama de uma vez, como eu
freqentemente desejava! Como teria continuado a viver agora?
Ao menos assim o meu desejo continuou a dar-me, nas
escadarias daquela casa, a mesma nsia de quando as subia em
conquista de Ada. Os degraus irregulares prometiam-me que naquele
dia mostraria a Augusta o que era o noivado que ela queria.
Sonhava com uma ao violenta que me devolvesse todo o
sentimento de liberdade. No era outra coisa o que eu queria e
acho estranho que, quando Augusta percebeu o que eu queria,
tenha interpretado a coisa como uma expresso de febre amorosa.
        Em minha recordao, esse perodo se divide em duas fases.
Na primeira, a Sra. Malfenti nos mantinha vigiados por Alberta
ou mandava para a sala a pequena Anna acompanhada da
professora. Ada, portanto, no entretinha qualquer relacionamento
conosco, e eu dizia a mim mesmo que era prefervel assim,
embora, por outro lado, me lembro obscuramente de haver
pensado que me teria sido grande satisfao beijar Augusta na
presena de Ada. Com que violncia haveria de faz-lo!
        A segunda fase comeou quando Guido oficializou seu
noivado com Ada e a Sra. Malfenti, como pessoa prtica que era,
uniu os dois casais no mesmo salo para que se vigiassem
reciprocamente.
        Lembro-me, na primeira fase, que Augusta se mostrava
plenamente satisfeita comigo. Quando no a agarrava, tornava-me de
uma loquacidade extraordinria. Era uma necessidade. Para

justific-la, meti na cabea a idia de que, tendo de esposar
Augusta, devia igualmente empreender a sua educao. Educava-a
para a doura, o afeto e sobretudo para a fidelidade. No me
recordo exatamente da forma que dava s minhas prdicas, das
quais uma delas me foi evocada por Augusta, que nunca as
esqueceu. Ouvia-me atenta e submissa. Eu, uma vez, no ardor
da eloqncia, proclamei que, se um dia ela descobrisse uma
traio minha, isto lhe daria o direito de pagar-me na mesma
moeda. Ela, indignada, protestou que seria incapaz de trair-me
nem mesmo com minha permisso e que, diante da minha
infidelidade, s lhe caberia o direito de chorar.
        Creio que tais prdicas, feitas apenas com o escopo de dizer
alguma coisa, acabaram por exercer benfica influncia sobre
o meu casamento. Surtiram o efeito de despertar no esprito de
Augusta sentimentos que eram sinceros. Sua fidelidade jamais
foi posta  prova porque jamais soube das minhas traies; o
seu afeto e sua doura permaneceram inalterados durante os
longos anos que passamos juntos, como a induzi a promet-lo.
        Quando Guido pediu a mo de Ada, teve incio a segunda
fase de meu noivado, com uma inteno que formulei assim:
"Sinto-me perfeitamente curado do amor a Ada!" At ento
acreditava que o rubor de Augusta era suficiente para curar-me;
v-se, no entanto, que nunca conseguimos curar-nos
devidamente! A lembrana daquele rubor levou-me a pensar que ele agora
tambm havia de existir entre Guido e Ada. Isto, mais que
tudo, acabaria com todo o meu desejo.
         da primeira fase o desejo de violentar Augusta. Na segunda
mostrei-me muito menos excitado. A Sra. Malfenti decerto no
se enganara quando organizou a nossa vigilncia com to pouco
incmodo para si.
        Recordo-me que uma vez, por brincadeira, comecei a beijar
Augusta. Em vez de caoar comigo, Guido ps-se por sua vez a

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beijar Ada. Pareceu-me pouco delicado da sua parte, porque ele
no o fazia castamente como eu, por respeito a eles; beijava
Ada bem na boca, chegando at a sug-la. Estou certo de que
naquela poca eu j me acostumara a considerar Ada como irm,
mas no me achava preparado para v-la usada daquela maneira.
Duvido que um irmo de verdade gostasse de ver a irm
manipulada assim.
        Por isso, em presena de Guido, nunca mais beijei Augusta.
Guido, pelo contrrio, tentou uma vez, em minha presena, puxar
Ada de encontro a si, mas ela o repeliu e ele no voltou a repetir
a tentativa.
        Confusamente recordo-me dos muitos seres que passamos
juntos. A cena, que se repetiu ao infinito, imprimiu-se em minha
memria: estvamos sentados os quatro em torno de uma fina
mesa veneziana sobre a qual ardia uma grande lmpada de
petrleo, coberta por uma cpula de tecido verde que
ensombrecia tudo, exceto os trabalhos de agulha a que as duas moas
se dedicavam: Ada, um leno de seda que tinha livre na mo;
Augusta, uma pequena tela redonda. Vejo Guido perorar e deve
ter acontecido com freqncia que fosse eu o nico a lhe dar
razo. Recordo-me ainda da cabea de Ada, com os cabelos
negros levemente ondulados, sobre os quais a luz amarelada e
verde compunha um estranho efeito.
        Discutia-se sobre essa luz e a verdadeira cor dos cabelos.
Guido, que tambm sabia pintar, explicou-nos como se analisava
uma cor. Tambm desse seu ensinamento nunca mais me esqueci,
e ainda hoje, quando quero perceber melhor a cor de uma
paisagem, cerro os olhos at que a viso se limite a uma estreita
linha e no se veja seno a pouca luz que se condensa na
verdadeira cor. Contudo, quando me dedico a semelhante anlise,
em minhas retinas, logo aps as imagens reais, quase como reao
fsica de minha parte, reaparece a luz amarelada e verde e os
cabelos escuros sobre os quais pela primeira vez eduquei meus
olhos.
        No posso esquecer uma noite, especialmente marcada por
uma expresso de cime de Augusta e seguida por reprovavel
indiscrio de minha parte. De brincadeira, Guido e Ada se
sentaram longe de ns, do outro lado do salo, junto  mesa Lus
XIV. Quase peguei um torcicolo, voltando-me para falar com
eles. Augusta repreendeu-me:
-        Deixe-os! Eles sim  que sabem tratar do amor.
        Eu ento, com grande inabilidade, contei-lhe em voz baixa
que no devia acreditar naquilo, pois Guido no gostava de
mulher. Com isso pensava desculpar-me da minha intromisso
no assunto dos dois pombinhos. Ao contrrio, uma indiscrio
malvola fez-me relatar a Augusta os conceitos que Guido
expressara, sobre as mulheres, tal como fizera em minha
companhia, mas nunca em presena de qualquer outro membro da
famlia. A lembrana dessas palavras amargurou-me por vrios
dias, ao passo que a lembrana de ter querido assassinar Guido
no me perturbou por mais que uma hora. Assassinar, ainda que
 traio,  ato de mais hombridade que prejudicar um amigo,
revelando uma confidncia sua.
        A essa poca, Augusta j no tinha motivos para cimes de
Ada. No foi para v-la que torci o pescoo daquela maneira.
Guido, com sua loquacidade, ajudava-me a preencher o longo
tempo. Eu j lhe queria bem e passava boa parte de meus dias
com ele. Queria-lhe igualmente bem pela considerao em que
me tinha e que transmitia aos outros. At mesmo Ada agora me
ouvia atentamente quando eu falava.
        Todas as noites esperava com impacincia o som do gongo
que nos chamav  mesa, e desses jantares recordo
principalmente a minha perene indigesto. Comia demais pela
necessidade de me manter ativo. Durante o jantar, esfuziava de
palavras afetuosas para Augusta, tanto quanto me permitisse a boca
cheia; seus pais podiam ter apenas a desagradvel impresso de
que meu grande afeto diminua com minha brutal voracidade.
Surpreenderam-se que, no retorno da lua-de-mel, eu no voltasse
com tanto apetite. Desapareceu este quando no se exigiu mais
de mim que demonstrasse uma paixo que eu no sentia. No 
permitido mostrar frieza com a futura esposa diante de seus pais
quando estamos prestes a ir para a cama com ela! Augusta
recorda especialmente as palavras afetuosas que eu lhe
murmurava  mesa. Entre uma garfada e outra devo ter inventado frases
magnficas e fico surpreso quando Augusta me repete algumas.
porquanto no as reconheo minhas.

142 143

        At mesmo meu sogro, o esperto Giovanni, se deixou
enganar e, enquanto viveu, sempre que queria dar um exemplo de
grande paixo amorosa, citava meu amor por sua filha, ou seja,
por Augusta. Sorria, como bom pai que era, mas esse fato s
aumentava seu desprezo por mim, pois, segundo ele, um
verdadeiro homem no depe todo o seu destino nas mos de uma
mulher e, sobretudo, no pode esquecer que, alm da sua, h
outras mulheres neste mundo. Donde se v que nem sempre
fui julgado com justia.
        Minha sogra, ao contrrio, no acreditava no meu amor, nem
mesmo depois que a prpria Augusta depositou nele a mais
plena confiana.
        Durante muitos anos ela me observou com olhar desconfiado,
receosa do destino da sua filha predileta. Tambm por esta razo
estou convicto de que ela me guiou nos dias que me conduziram
ao noivado. Era impossvel enganar aquela mulher que deve
ter conhecido meu esprito melhor do que eu.
        Chegou finalmente o casamento e at nesse dia passei por uma
ltima hesitao. Devia estar em casa da noiva s oito da manh;
em vez disso, s sete e quarenta e cinco ainda me encontrava
na cama, fumando desesperadamente e olhando para a janela em
que brilhava, iridescente, o primeiro raio de sol daquele inverno.
Pensava em abandonar Augusta! Tornava-se evidente o absurdo
de meu casamento, agora que j no me importava a proximidade
de Ada. No resultaria nenhuma tragdia se no me
apresentasse para a cerimnia! E mais: Augusta revelara-se noiva
amvel, mas no se podia saber de fato como se comportaria no dia
seguinte s bodas. E se me tratasse de idiota por ter-me deixado
prender daquele modo?
        Por sorte chegou Guido, e eu, em vez de resistir, desculpei-me
por meu atraso, alegando imaginar que fosse outra a hora
estabelecida para as npcias. Em vez de reprovar-me, Guido ps-se
a contar como ele tantas vezes por distrao faltara a
compromissos. At em matria de distrao queria ser superior a mim,
e vi-me obrigado a no lhe dar ouvidos para poder deixar a casa.
Foi assim que acabei saindo s carreiras para casar-me.
        Cheguei bastante tarde. Ningum me reprovou; todos, menos
a noiva, se contentaram com certas explicaes que Guido dava
em meu lugar. Augusta estava to plida que seus lbios ficaram
lvidos. Se no posso dizer que a amava, tambm  certo que
no queria causar-lhe mal. Tentei reparar o atraso e cometi a
estupidez de atribu-lo a trs causas distintas. Era demais, e
contava com tamanha preciso o que eu havia meditado em meu
leito, contemplando o sol hibernal, que chegamos a retardar a
partida para a igreja a fim de dar a Augusta tempo suficiente
para recompor-se.
        No altar pronunciei o sim distraidamente, porque, na minha
viva compaixo por Augusta, cogitava de uma quarta explicao
para justificar o meu atraso, que me parecia a melhor de todas.
        Contudo, ao sairmos da igreja, notei que Augusta recuperara
a cor. Senti um certo despeito, pois o meu sim no me pareceu
nada suficiente para assegurar-lhe o meu amor. E preparava-me
para trat-la com toda a rudeza, se ela se refizesse a ponto de
chamar-me idiota por me ter deixado prender daquela maneira.
Em vez disso, em casa, aproveitando um momento em que
ficamos a ss, disse-me:
        - Jamais me esquecerei que, mesmo sem me amar, voc casou
comigo.
        No protestei; aquilo era to evidente que se fazia intil
protestar. Abracei-a cheio de compaixo.
        Depois, nunca mais se falou deste assunto entre mim e
Augusta porque o casamento  coisa bem mais simples que o
noivado. Uma vez casados no se discute mais sobre o amor e,
quando se sente a necessidade de falar disso, a animalidade logo
intervm para refazer o silncio. s vezes essa animalidade
torna-se to humana que complica e falsifica as coisas, ocorrendo
que, ao se inclinar sobre uma cabeleira feminina, se faa o
esforo por evocar uma luz que no existe nela. Fecham-se os
olhos e a mulher se transforma em outra, para, passado o amor,
voltar de novo a ser ela. A ela dedicamos toda nossa gratido,
que  ainda maior se o esforo resultou bem-sucedido.  por
isso que, se eu tivesse de nascer de novo (a me natureza  capaz
de tudo!), de bom grado me casaria com Augusta; jamais, porm,
seria noivo dela.
        Na estao Ada apresentou a face ao meu beijo fraterno. S
ento a vi, atarantado em meio a toda aquela gente que viera
despedir-se de ns; sbito pensei: "Foi voc mesma que me
meteu nestes lenis!" Aproximei meus lbios de seu rosto avelu-

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dado, cuidando para nem de leve toc-lo. Foi a primeira
satisfao do dia, pois nesse instante senti a vantagem que provinha
de meu casamento: tinha-me vingado, recusando aproveitar-me
da nica ocasio que surgia de beijar Ada! Depois, enquanto o
trem corria, sentado ao lado de Augusta, pensei se procedera
bem. No comprometera minha amizade com Guido. Sofria
mais, no entanto, quando pensava que talvez Ada sequer
percebesse que eu no lhe havia beijado a face que me oferecera.
        Ela percebera, mas s vim a sabe-lo quando, por seu turno,
partiu com Guido muitos meses depois, naquela mesma estao.
Ela beijou a todos. A mim apenas ofereceu a mo com grande
cordialidade. Apertei-a com frieza. Sua vingana chegava um
pouco tarde, pois as circunstncias eram completamente
diferentes. Aps meu retorno da viagem de npcias, mantivemos
um relacionamento fraternal, no havendo explicaes para o
fato de me ter excludo de seu beijo.



6

A MULHER E A AMANTE


Em minha vida houve vrios perodos em que me acreditei no
caminho da sade e da felicidade. Contudo, tal crena nunca foi
to forte quanto por ocasio da viagem de npcias e das semanas
que se seguiram ao nosso retorno. Comeou com uma descoberta
que me surpreendeu: eu amava Augusta como ela a mim.
Desconfiado a princpio, desfrutava a felicidade de um dia, sempre
na suposio de que tudo mudaria no seguinte. Contudo, uns
se seguiam aos outros, semelhantes todos, luminosos, em que
perdurava a amabilidade de Augusta e - eis a surpresa - a minha!
A cada manh encontrava nela o mesmo afeto comovido e em
mim o mesmo reconhecimento que, se no era amor, se lhe
assemelhava muito. Quem haveria de prev-lo, quando andei
saltitando de Ada para Alberta e desta para Augusta? Descobri que
no fora um paspalho cego, guiado pelos outros, mas pessoa
habilssima. Vendo-me surpreso, Augusta dizia:
        - Mas por que se surpreende? No sabia que o casamento
 assim? At eu, mais ignorante do que voc, sabia!
        No sei se depois ou antes do afeto, formou-se em meu
esprito uma esperana, a grande esperana de poder vir a parecer-me
com Augusta, que era a sade personificada. Durante o
noivado, sequer entrevira essa sade, ocupado em estudar
primeiro a mim mesmo, depois a Ada e Guido. A lmpada de
petrleo que ardia naquele salo jamais chegou a iluminar os
escassos cabelos de Augusta.
        J no me refiro ao seu rubor! Quando este desapareceu com
a simplicidade com que as cores da aurora desaparecem  luz
direta do sol, Augusta seguiu o mesmo caminho que as mulheres
de sua estirpe sabem trilhar nesta terra, essas mulheres que tudo
conseguem alcanar dentro da lei e da ordem ou que ento a tudo
renunciam. Conquanto a soubesse malfundada, por ter seu
embasamento em mim, eu amava, adorava aquela segurana. Diante

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dela devia ao menos comportar-me com a modstia que adotava
em relao ao espiritismo. Tal segurana podia bem existir; por
isso podamos tambm ter f na vida.
        Ela, contudo, me espantava; todas as suas palavras, todos os
seus atos eram pautados como se no fundo imaginasse a vida
eterna. No que afirmasse isto; surpreendeu-me inclusive uma
vez, quando senti necessidade de lhe recordar a brevidade das
coisas. Mas como!? Ela estava certa de que tudo iria perecer, o
que no obstava a que, agora que nos havamos casado,
permanecssemos juntos, para sempre juntos. Ignorava, portanto, que
quando a gente se une neste mundo  s por um perodo
demasiado breve, e no chegamos a compreender como  possvel que
se atinja uma intimidade aps decorrer um tempo infinito e
nunca mais se volte a rever por outra infinidade. Compreendi
definitivamente o que era a perfeita sade humana quando
percebi que o presente para ela era uma verdade tangvel na qual
ela podia segregar-se e encontrar conforto. Procurei ser
admitido nesse ambiente e nele tentei permanecer, decidido a no
zombar nem de mim, pois esse esforo no podia ser superior 
minha doena e eu devia pelo menos evitar conspurcar aquela
que se havia confiado a mim. Assim  que, no esforo de
proteg-la, soube por algum tempo comportar-me como um homem
so.
        Ela conhecia tudo o que era capaz de aborrecer-me; em se
tratando dela, porm, essas coisas mudavam de aspecto. Se at
a Terra girava, no era cabvel que tivssemos tonteiras! Pelo
contrrio! A Terra girava, e tudo o mais permanecia nos
respectivos lugares. Essas coisas imveis tinham importncia imensa: o
anel de casamento, todas as jias e vestidos, o verde, o preto, o
de passeio, que ia logo para o armrio quando chegava em casa,
e o de noite, que de maneira alguma podia ser usado durante
o dia, mesmo que no me conformasse em meter-me numa casaca.
As horas de refeio eram mantidas com rigor, bem como as de
sono. Aquelas horas existiam; por isso deviam estar sempre no
devido lugar.
        Aos domingos ela ia  missa e eu a acompanhava de vez em
quando para ver como suportava a imagem da dor e da morte.
Ela, porm, no encarava assim, e aquela visita infundia-lhe paz
por toda uma semana. L ia tambm nos dias santos, que sabia
de cor, ao passo que eu, se fosse religioso, haveria de permanecer
na igreja o dia inteiro, para assegurar minha beatitude.
        Havia, pois, tambm aqui embaixo, um mundo de autoridade
que lhe dava segurana. Havia a administrao austraca ou
italiana, que velavam pela segurana nas ruas e nos lares, e em
relao  qual eu me empenhava em partilhar de seu respeito.
Depois, havia os mdicos, que tinham feito todos os estudos
regulares para nos salvarem quando - livrai-nos Deus! - alguma
doena nos era destinada. Eu lanava mo todos os dias dessa
autoridade: ela, ao contrrio, nunca. Por esse motivo, eu sabia
o destino atroz que me esperava quando a doena me atingisse,
enquanto ela, nas mesmas condies, apoiada solidamente aqui
e alm, achava sempre que havia lugar para a salvao.
        Estou analisando a sua sade, mas no consigo faz-lo, pois
me acode que, ao analis-la, converto-a em doena. E ao escrever
sobre ela, comeo a duvidar sobre se aquela sade no careceria
de cura ou tratamento. Vivendo ao seu lado durante tantos anos,
jamais me ocorreu essa dvida.
        Que importncia atribua ela a mim em seu pequeno mundo!
Devia manifestar meu desejo a propsito de tudo, na escolha dos
alimentos ou das roupas, das companhias ou das leituras. Era
obrigado a uma grande atividade que no me aborrecia.
Colaborava para a constituio de uma famlia patriarcal e eu prprio
me tornava o patriarca que no passado odiei e que agora me
surgia como o smbolo da sade. Uma coisa  sermos o patriarca;
outra bem diferente  venerar algum que se arroga tal
dignidade. Queria a sade para mim  custa de atribuir a doena aos
no-patriarcas, e especialmente durante a viagem aconteceu-me
assumir por vezes de bom grado uma atitude de esttua eqestre.
Contudo, mesmo durante a viagem, nem sempre foi fcil a
imitao a que me propusera. Augusta queria ver tudo, como se
estivssemos numa excurso de estudos. No lhe bastava visitar
o Palcio Pitti; queria percorrer as inumerveis salas, detendo-se
pelo menos por alguns instantes diante de cada objeto de arte.
Recusei-me a ir alm da primeira sala, vendo apenas esta, e meu
nico trabalho foi o de arranjar um pretexto para a minha
negligncia. Passei cerca de metade do dia em frente dos retratos dos
fundadores da casa dos Mdici e descobri que se pareciam com
Carnegie e Vanderbilt. Maravilhoso! No obstante, eram da mi-

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nha raa! Augusta no partilhava da minha admirao. Sabia o
que eram os ianques, mas ainda no sabia bem quem era eu.
        Sua prpria sade fraquejou afinal; Augusta teve de
renunciar aos museus. Contei-lhe que uma vez no Louvre embirrei de
tal maneira com tantas obras de arte que estive a ponto de fazer
a Vnus de Milo em pedaos. Resignada, Augusta replicou:
        - Ainda bem que a gente s visita os museus na lua-de-mel.
Depois, nunca mais!
        Na verdade, falta  vida a monotonia dos museus. H dias
que so dignos de moldura, embora ao mesmo tempo se mostrem
to ricos de sons conflitantes, linhas, cores e luzes que ardem,
e por isso no entediam.
        A sade impele  atividade e  aceitao de um mundo de
enfados. Aps os museus, comeavam as compras. Augusta, antes
de nela morar, conhecia a nossa casa melhor que eu e sabia que
num quarto faltava um espelho, que outro precisava de um
tapete, que num terceiro havia um lugar ideal para um bibel.
Comprei mveis para um salo inteiro e, de todas as cidades
em que pernoitamos, sempre expedamos alguma coisa para casa.
Eu era de opinio que teria sido mais oportuno e menos
dispendioso adquirir todas aquelas coisas em Trieste. Agora tnhamos
que cuidar da remessa, do seguro e da liberao alfandegria.
        - Voc no sabe que o destino das mercadorias  viajar?
Afinal, no  negociante? - E ria.
        Tinha quase razo. Objetei:
        - As mercadorias viajam para ser vendidas e para
ganharmos dinheiro com isso. Caso contrrio, o melhor  deix-las
tranqilas para que tambm fiquemos tranqilos!
        Contudo, seu esprito empreendedor era uma das coisas que
nela eu mais apreciava. Que delcia aquele empreendimento to
ingnuo! Ingnuo porque era preciso ignorar a histria do mundo
para imaginar que se fez um bom negcio com a simples
aquisio de um objeto;  por ocasio da venda que se conhece a
convenincia da aquisio.
        Eu me acreditava em plena convalescena. As minhas leses
se mostravam menos venenosas. Meu aspecto geral era agora,
permanentemente, o de um homem feliz. Pareceu-me algo como
um dever que naqueles dias memorveis eu tivesse assumido
perante Augusta, e foi o nico voto que no quebrei seno por
breves instantes, quando a vida riu mais forte do que eu. Nossa
relao foi e permaneceu sempre sorridente, porque eu me ria
dela, pensando que no soubesse, e ela, que me achava to
inteligente, sorria de mim, de meus erros, que se gabava de ter
conseguido corrigir. Eu me mantive aparentemente feliz, ainda
quando a doena voltou com toda a sua fora. Feliz como
se a dor fosse sentida por mim como uma excitao.
        Nosso longo caminho atravs da Itlia, apesar da minha nova
disposio, no foi isento de infortnios. Tnhamos viajado sem
cartas de recomendao e, no raro, pareceu-me que os estranhos
ao redor fossem nossos inimigos. Embora ridculo, no consegui
superar esse temor. Podia ser assaltado, insultado ou -
principalmente caluniado - quem iria proteger-me?
        Houve mesmo um momento em que senti uma verdadeira crise
de medo, da qual por sorte ningum se apercebeu, nem mesmo
Augusta. Costumava pegar todos os jornais que me ofereciam
na rua. Parando um dia diante de uma banca, veio-me o temor
de que o jornaleiro, por dio, me acusasse de roubo, j que eu
comprara dele apenas um jornal, tendo vrios outros embaixo do
brao, adquiridos pelo caminho e nem sequer abertos. Corri
clere dali, seguido por Augusta, a quem no revelei a razo de
minha pressa.
        Travei conhecimento com um cocheiro e um guia junto dos
quais pelo menos me sentia seguro de no ser acusado de furtos
ridculos.
        Entre o cocheiro e eu havia alguns evidentes pontos de
contato. Ele apreciava os vinhos dos Castelli e contou-me que a
bebida inchava os seus ps. Ia para o hospital e, uma vez curado,
voltava com recomendaes de renunciar ao vinho. Fizera ento
um propsito que considerava to frreo que, para materializ-lo,
dera um n na corrente do relgio. Quando o conheci, a
corrente pendia-lhe sobre a pana, mas sem n. Convidei-o a
vir visitar-me em Trieste. Descrevi o sabor de nosso vinho, to
diverso do seu, a fim de assegurar-lhe o xito da cura drstica.
No me quis ouvir; recusou o convite com uma expresso facial
em que se estampava a nostalgia.
        Quanto ao guia, afeioei-me a ele por me parecer superior aos
seus colegas. No  difcil saber muito mais de histria do que
eu, mas at Augusta, com seu senso de exatido e seu Baedeker,

        150        151

verificou a correo de muitas de suas indicaes. Alm disso,
era jovem e nos levava quase a correr pelas ruas semeadas de
esttuas.
        Quando perdi esses dois amigos, fui-me embora de Roma.
O cocheiro, depois que recebeu de mim uma boa quantia, fez-me
ver como o vinho s vezes lhe atacava inclusive a cabea e
atirou-se contra uma solidssima construo romana. O guia
resolveu um dia afirmar que os antigos romanos conheciam
perfeitamente a eletricidade e faziam largo uso dela, chegando a
declamar alguns versos latinos em abono de sua afirmao.
        Fui ento atacado por outra pequena enfermidade, da qual
nunca me curaria. Uma coisa de nada: o medo de envelhecer e
sobretudo o medo de morrer. Creio que tudo se originou de uma
forma especial de cime. A velhice causava-me temor pelo fato
de me aproximar da morte. Enquanto estivesse vivo, Augusta
certamente no haveria de me trair; admitia, porm, que, mal
viesse a morrer e fosse sepultado, aps providenciar para que
meu tmulo fosse mantido em ordem e se rezassem em minha
inteno as missas necessrias, ela imediatamente procuraria um
sucessor, a fim de introduzi-lo neste mesmo mundo de sade e
regularidade que eu agora desfrutava. Sua bela sade no
poderia morrer apenas porque eu estivesse morto. Eu tinha tal f
naquela sade que s podia v-la perecer se esmagada por um
trem a toda velocidade.
        Recordo-me de que uma noite, em Veneza, passvamos de
gndola por um desses canais cujo silncio profundo era a todo
instante interrompido pelas luzes e rumores das ruas que sobre
ele de imprevisto passavam. Augusta, como sempre, observava
e cuidadosamente registrava as coisas: um jardim verde e fresco,
surgido de uma base de lodo deixada  tona pelo refluxo das
guas; um campanrio refletido na superfcie turva; uma viela
comprida e escura tendo ao fundo um rio de luzes e de gente. Eu,
ao contrrio, na obscuridade, sentia apenas o pleno desconforto
de mim mesmo. Pus-me ento a falar do tempo que passava
rpido e de que em breve ela estaria fazendo de novo esta
viagem de npcias em companhia de outro. Estava to convicto do
que lhe dizia que me pareceu contar-lhe uma histria j acontecida.
E achei descabido que chorasse para negar a verdade
daquela histria. Talvez me houvesse compreendido mal e pensasse
que lhe atribua a inteno de assassinar-me. Nada disso! Para
melhor explicar-me, descrevi as circunstncias eventuais de
minha morte: minhas pernas, que j sofriam de uma circulao
deficiente, acabariam por gangrenar, e a gangrena, dilatando
cada vez mais, atingiria um rgo qualquer indispensvel para
eu manter os olhos abertos. Ento os meus se fechariam e -
adeus patriarca! Seria necessrio fabricar outro.
        Ela continuou a soluar; seu pranto, na imensa tristeza daquele
canal, significou algo muito importante para mim. Seria
provocado pela conscincia de sua tremenda sade, coisa que a levava
ao desespero? Ento a humanidade inteira haveria de soluar
nesse pranto. Contudo, mais tarde descobri que ela sequer tinha
conscincia do que era de fato a sade. Os saudveis no se
analisam a si prprios, sequer se contemplam no espelho. S os
doentes sabemos algo sobre ns mesmos.
        Foi ento que contou como me havia amado ainda antes de
conhecer-me. Amara-me desde o momento em que seu pai
pronunciara meu nome e se referira a mim nos seguintes termos:
Zeno Cosini, um ingnuo, que arregala os olhos quando ouve
falar de qualquer sagacidade comercial e corre a anot-la num
livro de preceitos, que perde logo em seguida. E se no me dera
conta de seu embarao em nosso primeiro encontro, isso levava
a crer que tambm eu devia estar confuso.
        Recordei que, ao ver Augusta pela primeira vez, fiquei
surpreendido pela sua feira, visto que estava na expectativa de que as
quatro moas de inicial 'A' daquela casa fossem todas belssimas.
Sabia agora que me amava desde h muito, mas o que provava
isto? No lhe dei a satisfao de desmentir-me: quando eu
morresse, ela se casaria com outro. Mitigado o pranto, apoiou-se mais
em mim, de sbito, sorrindo, perguntou:
        -        Onde encontraria o seu sucessor? No v como sou feia?
Na verdade, provavelmente me seria concedido algum tempo
de putrefao tranqila.
        O medo de envelhecer no me abandonou mais, e sempre pelo
receio de passar a outrem minha mulher. Esse medo no se
atenuou nem quando a tra, mas tambm no aumentou  idia
de que podia igualmente perder a amante. Uma coisa nada tinha
a ver com a outra. Quando o medo de morrer me atormentava,
corria para Augusta como as crianas que estendem ao beijo da

        152        153

me a mozinha ferida. Encontrava sempre palavras novas para
confortar-me. Na viagem de npcias atribua-me mais trinta anos
de juventude, e ainda hoje o faz. Eu, ao contrrio, j sabia que
as semanas de alegria da lua-de-mel me haviam sensivelmente
aproximado dos horrveis esgares da agonia. Augusta podia dizer
o que quisesse, minhas contas estavam feitas: cada semana a
mais era uma semana a menos.
        Quando percebi que as crises se tornavam mais freqentes,
evitei cans-la com a mesma histria de sempre; para alert-la
de minha necessidade de conforto, bastava murmurar: "Pobre
Cosini!" Ela sabia ento exatamente o mal que me aturdia e
apressava em cobrir-me com seu grande afeto. Assim, consegui
obter dela todo o conforto, mesmo quando a causa da dor era
totalmente diversa. Uma vez, amargurado pela dor de t-la trado,
murmurei por engano: "Pobre Cosini!" Foi bom que o fizesse,
pois at nessa ocasio ela me propiciou um conforto precioso.
        De regresso da viagem de npcias, tive a surpresa de morar
numa casa que nunca fora to cmoda e acolhedora. Augusta
introduziu nela todos os confortos que havia na sua prpria,
alm de muitos outros que ela mesma inventou. O quarto de
banho, que na minha memria de homem sempre esteve ao fundo
do corredor, a meio quilmetro do quarto de dormir, transferiu-se
para o lado do quarto do casal e foi provido de um nmero
maior de torneiras e pias. Um quartinho junto  sala de jantar
foi convertido numa pequena sala ntima, para o caf. Coberta
de tapetes e dotada de grandes poltronas forradas de couro, ali
ficvamos a conversar todos os dias por uma boa hora aps as
refeies. Contra o meu desejo, havia ali todo o necessrio para
fumar. At o meu pequeno estdio, embora eu proibisse, sofreu
algumas modificaes. Temia que as alteraes o tornassem
odioso; logo, porm, percebi que s ento se fizera habitvel.
Augusta disps a iluminao de modo a que eu pudesse ler
sentado  mesa, refestelado na poltrona ou reclinado sobre o
sof. Para o violino foi providenciada uma estante com uma
pequena lmpada, que iluminava a partitura sem ferir os olhos
do executante. Tambm ali, e contra a minha vontade, havia
todos os apetrechos necessrios para fumar tranqilamente.
        Com isso houve muitas obras em casa, acarretando certa
desordem que transtornava a nossa paz. Para ela, que obrava para
a eternidade, o breve incmodo podia no ter importncia; para
mim, no entanto, a coisa era bastante diversa. Opus-me
energicamente quando manifestou desejo de implantar em nosso jardim
uma pequena lavanderia acarretando obrigatoriamente a
construo de mais um cmodo. Augusta asseverava que ter uma
lavanderia em casa era uma garantia para a sade dos bebs.
Como os bebs ainda no tinham vindo, no via a menor
necessidade de me deixar incomodar antecipadamente por eles. Em
todo caso ela trouxe para a minha velha casa um instinto oriundo
do ar livre e, nos seus pruridos de amor, semelhava a andorinha
que pensa logo no ninho.
        Eu tambm tinha meus pruridos de amor e trazia para casa
flores e jias. Minha vida modificou-se completamente com o
casamento. Renunciei, aps uma frouxa tentativa de resistncia,
a dispor do tempo a meu gosto e submeti-me ao mais rgido
horrio. No que respeita a isto, minha educao surtiu
esplndido xito. Um dia, logo aps essa viagem de npcias, deixei-me
inocentemente persuadir de no ir almoar em casa; aps ter
comido qualquer coisa num bar, fiquei na rua at a noite.
Quando regressei, j  hora do jantar, encontrei Augusta  minha
espera, quase morta de fome, pois no havia almoado. No me
dirigiu qualquer censura, mas no se deixou convencer de que
agira mal por me esperar. Suavemente, embora com firmeza,
declarou que, como no a havia prevenido, teria esperado por
mim para o almoo at a hora do jantar. E no foi por
brincadeira! Outra vez, ao me deixar conduzir por um amigo e ficar
fora de casa at as duas da manh, deparei-me com Augusta 
minha espera, batendo os dentes de frio, pois a estufa se apagara.
Da resultou uma leve indisposio, que tornou inesquecvel a
lio que me fora infligida.
        Um dia quis dar-lhe uma grande satisfao: iria trabalhar! No
ntimo ela assim o desejava, e eu prprio achei que seria til
 minha sade.  natural sentirmo-nos menos doentes quando
temos pouco tempo para isso. Entreguei-me ao trabalho e, se nele
no persisti, no foi de fato culpa minha. Entreguei-me a ele
com os melhores propsitos e com verdadeira humildade. No
reclamei a deciso dos negcios, queria apenas controlar os livros.
Diante do calhamao em que a escrita era disposta com a regu-

        154        155

laridade das casas numa rua, sentia-me to cheio de respeito que
chegava a escrever com a mo trmula.
        O        filho de Olivi, rapazinho sobriamente elegante, com imensos
culos, dotado de todas as cincias comerciais, foi encarregado
de minha instruo, e dele na verdade nada tenho a queixar-me.
Provocou-me alguns enfados com sua cincia econmica e a
teoria da oferta e da procura, que me parecia mais evidente do
que ele queria admitir. Via-se nele, porm, certo respeito pelo
patro, que admirei mais por ser evidente que no o havia
aprendido do pai. O respeito pela propriedade devia fazer parte da
cincia econmica. Jamais me censurou pelos erros de escrita
que eu amide cometia; inclinava-se a atribu-los  minha
inexperincia e ministrava-me explicaes absolutamente suprfluas.
        O        pior foi que,  fora de ver como se faziam negcios, veio-me
a vontade de tambm faz-los. Cheguei a simbolizar
claramente nos livros de registro a minha prpria bolsa, e quando
registrava um importe no dbito de um cliente parecia-me ter 
mo, em vez da pena, a pazinha do crupi que recolhe as fichas
esparsas sobre a mesa de jogo.
        O        jovem Olivi mostrava-me tambm a correspondncia; eu
lia todas as cartas com cuidado e - devo diz-lo - a princpio
com a esperana de compreend-las melhor do que os outros.
Uma oferta vulgarssima conquistou um dia a minha mais
apaixonada ateno. Ainda antes de l-la, senti no peito algo que
logo reconheci como o obscuro pressentimento que vez por outra
me ocorria junto s mesas de jogo.  difcil descrever tal
pressentimento. Consiste em certa dilatao dos pulmes que nos
leva a respirar com volpia o ar, mesmo enfumaado. Contudo,
h algo mais: sabemos que se dobrarmos a aposta nos sentiremos
melhor ainda. S que se precisa de prtica para entender tudo
isso.  preciso que se tenha deixado a mesa de jogo com os
bolsos vazios e a dor de haver perdido uma inspirao; ento,
nunca mais se deixar outra passar. Quando se deixa passar a
oportunidade, no h mais esperana para esse dia, pois as cartas
sempre se vingam. Diante, porm, do pano verde  bastante
mais perdovel no ter sentido a inspirao do que diante de um
tranqilo livro de contabilidade; na verdade, percebi isto
claramente ao gritar para mim: "Compre logo essa fruta seca!"
        Falei com toda a delicadeza a Olivi, naturalmente sem revelar
minha inspirao. Respondeu-me que negcio de tal natureza s
os fazia por conta de terceiros, quando podia realizar algum
pequeno lucro. Com isso eliminava de meus negcios a
possibilidade da inspirao e a reservava apenas aos terceiros.
        A noite reforou minha convico: o pressentimento estava,
portanto, em mim. Respirava to bem que no podia dormir.
Augusta percebeu minha inquietao e tive que revelar o motivo.
Ela, de repente, teve a mesma inspirao que eu e no sono
chegou a murmurar:
        -        Voc no  o patro?
         verdade que de manh, antes que eu sasse, disse pensativa:
        -        No convm melindrar o Olivi. Quer que eu fale com
papai sobre isso?
        No quis, pois sabia que tambm Giovanni dava pouco peso
s inSpiraes.
        Cheguei ao escritrio decidido a lutar pela minha idia,
inclusive para me vingar da insnia sofrida. A batalha durou at o
meio-dia, quando expirava o prazo da aceitao da oferta. Olivi
permaneceu irredutvel e encerrou o caso com a observao de
costume:
        - O senhor est querendo restringir as atribuies que me
foram dadas pelo falecido senhor seu pai?
        Ressentido, retornei por um momento aos livros, no firme
propsito de no mais me ingerir nos negcios. O sabor das
passas, no entanto, ficara em minha boca e todos os dias no
Tergesteo eu me informava sobre o preo delas. Nada mais me
Importava. O preo subia lentamente, como se tivesse
necessidade de contrair-se para dar um salto. De repente, de um dia
para outro, deu um pulo formidvel. A colheita fora pssima, e
s agora se sabia. Estranha coisa a inspirao! No havia
previsto a colheita escassa, apenas o aumento de preo.
        As cartas se vingaram. J no conseguia restringir-me aos
livros e perdi todo o respeito pelos meus mestrs, tanto que
Olivi agora no mais me parecia to seguro de ter agido bem.
Ri-me, e troar dele passou a ser minha principal ocupao.
        Apareceu uma segunda oferta a um preo quase dobrado.
Olivi, para me sossegar, veio pedir minha Opinio; triunfante,

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declarei que no comeria uva por aquele preo. Olivi, ofendido,
murmurou:
        -        Vou manter-me dentro do sistema que segui durante toda
a vida.
        E ps-se a procurar compradores. Encontrou um para uma
quantidade bastante reduzida; sempre com as melhores
intenes, voltou a mim e perguntou hesitante:
        -        Compro, para satisfazer este pequeno pedido?
        Respondi, carrancudo:
        -        Eu j teria comprado antes de aceitar a encomenda.
        Olivi acabou perdendo a fora de sua prpria convico e
deixou a venda a descoberto. O preo da passa continuou a
subir e perdemos tudo quanto se podia perder com to pequena
quantidade.
        Olivi agastou-se comigo e declarou que havia arriscado s
para me ser agradvel. O patife esquecera que eu lhe havia
aconselhado a jogar no vermelho e ele, em vez disso, jogara no
preto. Nossa disputa tornou-se irreconcilivel. Olivi apelou para
o meu sogro, dizendo que administrada por ns dois a firma
estaria sempre em perigo e que, se a minha famlia assim o
desejava, ele e o filho se retirariam da empresa para deixar-me o
campo livre. Meu sogro decidiu imediatamente em favor de
Olivi. Disse-me:
        -        O caso das passas  bastante elucidativo. Vocs so duas
pessoas que no podem trabalhar juntas. Quem deve afastar-se?
Voc, que sem ele teria feito um nico bom negcio, ou quem
h meio sculo vem administrando a firma sozinho?
        At Augusta foi induzida pelo pai a convencer-me de no me
intrometer em meus prprios negcios.
        -        Parece que a bondade e a ingenuidade - me disse -
fazem voc inapto para os negcios. Fique em casa comigo.
        Irado, retirei-me para a minha tenda, ou seja, para o meu
estdio. Por algum tempo ao acaso arranhei o violino; depois,
senti desejo de uma atividade mais sria; pouco faltou para que
retornasse  qumica e em seguida ao direito. Por fim, e no sei
verdadeiramente por qu, dediquei-me por algum tempo aos
estudos religiosos. Pareceu-me voltar queles iniciados quando da
morte de meu pai. Talvez a volta fosse uma enrgica tentativa de
aproximar-me de Augusta e de sua sade. No me bastava ir 
missa com ela; queria percorrer outros caminhos, fosse lendo
Renan ou Strauss, o primeiro com prazer, o segundo suportado
como uma punio. S me refiro a isto para mostrar o desejo
de ligar-me a Augusta. Ela no percebeu esse desejo quando me
viu com uma edio crtica do Evangelho nas mos. Preferia a
indiferena  cincia; assim, no soube apreciar o mximo
indcio de afeto que lhe dava. Quando, como de hbito,
interrompendo sua toalete ou suas ocupaes caseiras, chegava  porta de
meu quarto para dizer-me uma palavra qualquer, vendo-me
inclinado sobre aqueles textos, torcia a boca:
        -        Ainda metido nisto?
        A religio de que Augusta tinha necessidade no exigia
tempo para ser adquirida ou praticada. Uma genuflexo e o
imediato retorno  vida! Nada mais. Comigo a religio assumia
feio totalmente diversa. Se tivesse tido uma verdadeira f,
nada mais no mundo teria significado para mim.
        Meu refgio magnificamente organizado era vez por outra
visitado pelo tdio. Tratava-se mais de uma nsia, pois, embora
me sentisse com foras para trabalhar, estava sempre  espera
de que a vida me impusesse alguma tarefa. Nessa expectativa
saa muitas vezes e passava horas seguidas no Tergesteo ou num
caf.
        Vivia numa simulao de atividade. Uma atividade
aborrecidssima.
        A visita de um amigo da Universidade, obrigado a retornar
de algum pequeno pas da Estria para tratar-se de uma grave
enfermidade, foi a minha Nmesis, apesar de no mostrar
qualquer aspecto desta. Chegou a mim aps ter passado um ms de
cama em Trieste, coisa que tornara sua doena, uma nefrite, de
aguda em crnica, provavelmente incurvel. Ele, porm, achava
estar melhor e preparava-se alegremente para se transferir logo,
durante a primavera, a algum lugar de clima mais ameno que o
nosso, onde contava readquirir plenamente a sade. Talvez
o ter-se demorado demasiadamente na terra natal fora fatdico
para a sua sade.
        Considerava a visita desse homem to enfermo, conquanto
alegre e sorridente, como nefasta para mim; talvez estivesse
errado: essa visita assinala apenas um estgio em minha vida,
pelo qual necessariamente eu precisava passar.

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        Meu amigo, Enrico Copler, surpreendeu-se de que nada
sousesse a seu respeito e de sua doena, da qual Giovanni devia ter
sido informado. Mas Giovanni, tambm doente, no tinha
tempo para mais ningum e no me dissera nada, embora todos os
dias de sol viesse dormir algumas horas ao ar livre em minha
casa.
        Entre os dois enfermos passou-se uma tarde agradabilssima.
Falou-se dos respectivos males, coisa que constitui a melhor
distrao para um doente e que no  demasiado triste para os sos
que esto a ouvir. S houve uma discrepncia: por que Giovanni
tinha necessidade do ar livre que era interdito ao outro? A
dissenso foi superada quando se levantou um pouco de vento,
induzindo o prprio Giovanni a buscar a nossa companhia no
pequeno quarto aquecido.
        Copler contou acerca da sua doena, que no lhe provocava
dores, mas lhe tolhia os movimentos. S agora, sentindo-se
melhor, tinha conscincia do quanto estivera doente. Como falasse
dos remdios ministrados, o meu interesse mostrou-se mais vivo.
O mdico lhe aconselhara entre outros um eficaz sistema para
obter sono profundo sem envenen-lo com verdadeiros sonferos.
Era exatamente daquilo que eu mais necessitava!
        Meu pobre amigo, sentindo minha necessidade de remdios,
imaginou por um instante que eu padecesse da sua mesma
doena; aconselhou-me a fazer examinar-me, auscultar-me e
analisar-me.
        Augusta ps-se a rir gostosamente, declarando que eu no
passava de um doente imaginrio. Sobre a face emaciada de
Copler passou algo como um ressentimento. Sbito, virilmente,
libertou-se do estado de inferioridade a que parecia condenado,
acrescentando com grande nfase:
- Doente imaginrio? Pois bem, prefiro ser um doente de
verdade. Antes de mais nada, um doente imaginrio  uma
monstruosidade ridcula; alm disso, para ele no existem
remdios, ao passo que a farmcia, como se v por mim, dispe
sempre de alguma coisa eficaz para os verdadeiros doentes!
        Suas palavras pareciam as de um homem so e eu - quero
ser sincero - sofri com elas.
        Meu sogro associou-se a ele com grande energia; suas
palavras, porm, no chegaram a lanar desprezo pelo doente
imaginrio, pois traam de modo demasiado claro sua inveja pelo
so. Disse que, se estivesse bom como eu, em vez de aborrecer
o prximo com suas lamentaes, haveria de correr a seus bons
e caros negcios, principalmente agora que havia conseguido
reduzir o volume da barriga. Estava longe de saber que seu
emagrecimento no seria considerado um sintoma favorvel.
        Por causa da invectiva de Copler, eu mostrava um aspecto
verdadeiramente doentio, de doente maltratado. Augusta sentiu
necessidade de intervir a meu favor. Acariciando a mo que eu
abandonara sobre a mesa, disse que a minha doena no
perturbava ningum e que ela no estava nem mesmo convicta de
que me achava enfermo, pois, caso contrrio, eu no poderia
demonstrar tanta alegria de viver. Com isso, Copler voltou ao
estado de inferioridade a que estava condenado. Era
inteiramente s no mundo e, se podia lutar contra mim em matria de
sade, no conseguia contrapor a mim um afeto semelhante ao
que Augusta me ofertava. Sentindo a viva necessidade de uma
enfermidade, resignou-se a confessar-me mais tarde o quanto
me invejava por isso.
        A discusso continuou nos dias seguintes em tom mais calmo,
enquanto Giovanni dormia no jardim. Copler, depois de pensar
melhor, afirmava agora que o doente imaginrio era um doente
real, mais intimamente e at mais radicalmente que os demais.
Isso porque seus nervos eram propensos a acusar uma doena
quando esta no existia, ao passo que sua funo normal seria
a de dar um alarme por meio da dor para provocar a busca de
alvio.
        -        Isto! - concordava eu. - Como, por exemplo, nos
dentes, cuja dor s se manifesta quando o nervo est exposto e,
para cur-la,  preciso destruir o nervo.
        Acabamos concordando que o real valia bem o doente
imaginrio. Em sua prpria nefrite faltara, e faltava ainda, um aviso
dos nervos, enquanto os meus, ao contrrio, eram talvez to
sensveis que me avisariam da doena de que eu morreria com
vinte anos de antecedncia. Eram, portanto, nervos perfeitos;
sua nica desvantagem era conceder-me poucos dias alegres
neste mundo. Tendo conseguido incluir-me entre os doentes, Copler
ficou satisfeitssimo.

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        No sei por que o pobre enfermo tinha a mania de falar de
mulheres e, quando a minha no estava presente, no se falava
de outra coisa. Ele pretendia afirmar que as doenas reais, pelo
menos aquelas que ele conhecia, causavam o enfraquecimento
do sexo, o que era uma boa defesa do organismo, ao passo que
na doena imaginria, devida apenas  superexcitao dos
nervos laboriosos (segundo o seu diagnstico), o sexo era
patologicamente ativo. Corroborei sua teoria com minha experincia e
nos compadecemos mutuamente. Ignoro por que no lhe quis
dizer que me achava longe de qualquer deslize, e j de h muito
tempo. Teria pelo menos podido confessar-lhe que me
considerava convalescente, para no dizer so, pois isso o ofenderia
demasiado, mesmo porque isto de considerar-se so quando se
conhece todas as mazelas de nosso organismo  coisa bastante
difcil.
        - Ento voc deseja todas as mulheres belas que encontra?
- inquiriu Copler mais uma vez.
        -        Nem todas! - murmurei, para mostrar-lhe que no estava
to doente assim. Eu j no desejava Ada, a quem via todas as
noites. Ela era para mim a prpria mulher proibida. O
farfalhar de suas saias no me dizia nada, e se me fosse permitido
levant-las com minhas prprias mos, haveria de ser a mesma
coisa. Por sorte no me havia casado com ela. Essa indiferena
era, ou me parecia ser, uma genuna manifestao de sade.
Talvez o meu desejo por ela tivesse sido to violento que se
exauriu por si prprio. A minha indiferena se estendia ainda
a Alberta que, no entanto, era to bonita em seu vestidinho
bem composto e srio da escola. A posse de Augusta teria sido
suficiente para acalmar meu desejo por toda a famlia Malfenti?
Teria sido de fato algo bastante moral!
        Talvez no lhe falasse de minhas virtudes porque no
pensamento traa sempre Augusta, e mesmo agora, falando com
Copler, com um frmito de desejo, pensava em todas as mulheres
a que havia renunciado por ela. Pensei nas mulheres que
andavam pelas ruas, todas cobertas, e das quais, no entanto, os
rgos sexuais secundrios se tornavam to importantes, ao
passo que os da mulher possuda perdiam a importncia como
se a posse os houvesse atrofiado. Sempre me perseguia o desejo
de aventura; a aventura que comeava pela admirao de umas
botas, de uma luva, de uma saia, de tudo aquilo que cobre e
altera a forma. Mas esse desejo no era ainda uma culpa. Copler,
contudo, no agia bem em analisar-me. Explicar a algum a
natureza de que  feito  um modo de autoriz-lo a proceder do
modo como deseja. Copler fez ainda pior, embora no pudesse
prever aonde suas palavras e aes me haveriam de conduzir.
        As palavras de Copler esto fixas de tal forma em minha
mente que, quando as recordo, reevocam todas as sensaes que
a elas se associam, as coisas e as pessoas. Eu acompanhara meu
amigo ao jardim, pois ele devia tornar a casa antes do anoitecer.
De minha vivenda, que jaz sobre uma colina, descortinava-se a
vista do porto e do mar, hoje interceptada por novas
construes. Ali ficamos a olhar longamente o mar encrespado por uma
leve brisa que refletia, em mirades de pontos luminosos e
rseos, a luz tranqila do cu. A pennsula istriana propiciava
repouso aos olhos com sua suavidade verde a avanar em arco
enorme no mar como slida penumbra. Os moles e os diques
pareciam pequenos e insignificantes na sua forma rigidamente
linear, e a gua nas pequenas bacias era obscurecida pela sua
imobilidade ou pela sua turbidez. No vasto panorama a paz era
minscula em comparao com todo aquele rubor espelhado
nas guas, e ns, deslumbrados, logo em seguida voltamos as
costas ao mar. Sobre a pequena esplanada diante da casa, j
pairava, em confronto, a noite.
        Diante do prtico, numa grande poltrona, a cabea coberta
por um bon e protegida ainda pela gola erguida do sobretudo,
as pernas envoltas por uma coberta, meu sogro dormia.
Paramos para v-lo. Tinha a boca arreganhada, o maxilar inferior
pendente como uma coisa morta e a respirao rumorosa e
ofegante. A cada instante a cabea pendia sobre o peito e ele, sem
despertar, a reerguia. Havia ainda um movimento de suas
plpebras como se tivesse querido abrir os olhos para readquirir
mais facilmente o equilbrio, e sua respirao mudava de ritmo.
Uma verdadeira interrupo do sono.
        Foi esta a primeira vez que a doena de meu sogro se me
apresentou com tal evidncia que me deixou compungido.
        Copler falou, em voz baixa:

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        - Precisamos cur-lO. provavelmente sofre tambm de
nefrite. Isto no  sono: sei o que significa esse estado. Pobre
diabo!
        Acabou por aconselhar que chamssemos um mdico.
        Giovanni deu pela nossa presena e abriu os olhos. Pareceu
de repente menos abatido e troou com Copler:
        - Voc no se arrisca por estar a fora? O ar livre no
lhe far mal?
        parecia-lhe haver dormido gostosamente e no sabia que lhe
faltara ar diante do vasto mar que lho mandava tanto! A sua
voz era rouca e a palavra interrompida pelo respirar ofegante;
tinha a tez cor de terra e, erguendo-se da poltrona, sentiu-se
gelado. Correu a abrigar-se em casa. Vejo-o ainda a mover-se pela
esplanada, o cobertor sob o brao, arquejante mas sorrindo,
enquanto nos acenava de dentro.
        - V como procede o doente real? - perguntou-me Copler,
que no conseguia livrar-se de sua idia fixa. - Est moribundo
e no v que est doente.
        Pareceu-me tambm a mim que o doente real sofria pouco.
Meu sogro e bem assim Copler j h muitos anos que repousam
no cemitrio de Sant'Ana, mas houve um dia em que passei
diante de seus tmulos e no pude deixar de pensar que, pelo
fato de estarem h tantos anos sob suas lpides, no se
invaldava a tese sustentada por um deles.
        Antes de deixar seu antigo domiclio, Copler liquidara seus
negcios, de modo que, como eu, nada tinha que fazer. Contudo,
mal deixara o leito, no sabendo ficar parado e,  falta de
atividade prpria, comeou a ocupar-se dos assuntos alheios, que
lhe pareciam muito mais interessantes.  poca ri disso; mais
tarde, porm, eu tambm deveria degustar o agradvel sabor
dos negcios alheios. Dedicava-se  beneficncia e, estando
disposto a viver apenas dos juros de seu capital, no se podia dar
ao luxo de fazer filantropia a expensas prpriaS. Por isso
organizava coletas e angariava dinheiro dos amigos e conhecidos.
Registrava tudo como bom homem de negcios que era, e
pensei que aquele livro era o seu vitico e que eu, no caso dele,
condenado a uma existncia curta e privado de famlia como ele,
teria aumentado seu saldo com prejuzo de meu capital.
Contudo, ele era o saudvel imaginriO e no tocava seno nos juros
que lhe cabiam, no sabendo resignar-se a admitir que o futuro
seria breve.
        Um dia assaltou-me com o pedido de algumas centenas de
coroas a fim de adquirir um piano para uma pobre moa que j
vinha sendo subvencionada por mim juntamente com outros, por
seu intermdio, com uma pequena mesada. Era necessrio agir
com presteza para aproveitar uma boa ocasio. No soube
eximir-me, mas, um pouco por malcia, observei-lhe que eu teria
feito melhor negcio se no tivesse sado aquele dia de casa.
Sou de tempos em tempos sujeito a ataques de avareza.
        Copler apanhou o dinheiro e l se foi com uma breve palavra
de agradecimento; o efeito de minhas palavras se fez sentir
poucos dias depois, e de modo bastante importante. Veio
informar-me que o piano j fora entregue em casa da Srta. Carla
Gerco e que esta e a sua mame me pediam a honra de uma
visita para os devidos agradecimentos. Copler tinha medo de
perder o cliente e queria prender-me, fazendo-me saborear o
reconhecimento dos beneficiados. A princpio, quis furtar-me
quela maada, dizendo-lhe que estava absolutamente convicto
de que ele sabia fazer a beneficncia mais acertada; insistiu
tanto, porm, que acabei por condescender:
        - A moa  bonita? - perguntei de troa.
        - Lindssima - respondeu ele -, mas no  carne para os
nossos dentes.
        Bastante curioso que pusesse os meus dentes junto com os
seus, com perigo de comunicar-me as suas caries. Contou-me
sobre a honestidade daquela desgraada famlia que havia
perdido h alguns anos o cabea do casal e que, embora na mais
negra misria, havia vivido em perfeita honestidade.
O        dia estava insuportvel. Soprava um vento gelado e eu
invejava Copler metido em seu sobretudo. Eu tinha que segurar
os cabelos com a mo para no sair voando. Contudo, estava de
bom humor, pois ia recolher a gratido devida  minha
filantropia. Percorremos a p a Corsia Stadion, atravessamos o
Jardim pblico. Era uma parte por onde eu raramente passava.
Entramos numa dessas casas que os nossos avs
costumavam construir h quarenta anos para especulao
imobiliria, em zonas distantes da cidade que com o tempo a ela se
vo ligando; tinha um aspecto modesto, apesar de mais consp-

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cuo do que as casas que se constroem hoje em dia com as
mesmas intenes. A escada ocupava uma rea muito estreita,
sendo por isso bastante ngreme.
        Paramos no primeiro andar, onde cheguei muito antes que
meu amigo, bem mais lento que eu. Surpreendeu-me ver que das
trs portas que davam para o corredor as duas laterais
trouxessem afixado o carto de visitas de Cana Gerco, presos com
percevejos, ao passo que a porta do fundo tambm trazia um
carto, mas com outro nome. Copler explicou-me que as senhoras
tinham  direita a cozinha e o quarto de dormir;  esquerda, s
havia um quarto, o estdio da Srta. Carla. Tinham conseguido
sublocar uma parte do andar ao fundo para diminuir as despesas
do aluguel, apesar do incmodo de terem que atravessar o
corredor para passar de um aposento ao outro.
        Batemos  esquerda, na porta do estdio onde me e filha,
avisadas de nossa visita, nos esperavam. Copler fez as
apresentaes. A me, senhora muito tmida, trajando um pobre vestido
preto, cabea inteiramente branca, recebeu-me com um pequeno
discurso certamente preparado: sentiam-se honradas com a
minha visita e me agradeciam o valioso regalo que lhes fizera.
Depois disso no abriu mais a boca.
        Copler assistia a tudo como um mestre que num exame oficial
estivesse a ouvir as lies que com grande sacrifcio ensinara
aos alunos. Corrigiu a senhora, dizendo-lhe que eu no apenas
prodigara o dinheiro para o piano, mas igualmente contribua
para o auxlio mensal que ele lhes coletava. Um amigo da
preciso, ele.
        A Srta. Carla ergueu-se da cadeira em que estava sentada
junto ao piano, estendeu-me a mo e disse uma simples palavra:
-        Obrigada!
        Era pelo menos mais sucinto. Minha carga filantrpica
comeava a pesar-me. Tambm eu estava ali ocupando-me de
negcios alheios como um doente real qualquer! Que haveria de
ver em mim aquela graciosa senhorita? Uma pessoa de grande
respeito, mas no um homem! E era de fato graciosa! Creio que
se esforava por parecer mais jovem do que era, com a saia
curta demais para a moda da poca, a menos que usasse em casa
uma roupa dos tempos em que ainda no havia terminado de
crescer. Sua cabea, no entanto, era a de uma mulher feita e,
a julgar pelo penteado bastante rebuscado, de mulher que quer
agradar. As grossas tranas castanhas estavam dispostas de
modo a cobrir as orelhas e em parte tambm o pescoo. Sentia-me
to compenetrado de minha dignidade e temia tanto o olhar
inquisidor de Copler que a princpio mal fitei a jovem; agora,
porm, apreciava-a inteira. Sua voz tinha uma suavidade
especial quando falava e, com uma afetao que acabou por se
tornar natural, comprazia-se em estender as slabas como se
quisesse acariciar os sons que conseguia produzir. Por esse detalhe e
ainda pelo fato de que certas vogais suas eram excessivamente
longas, mesmo para uma triestina, achei que sua linguagem
tinha qualquer coisa de estrangeiro. Soube depois que certos
professores, para ensinar a emisso da voz, alteram o valor das
vogais. Era, de fato, uma pronncia inteiramente diversa da de
Ada. Nela tudo soava como palavra de amor.
        Durante a visita, a Srta. Carla sorriu sem parar, talvez
imaginando ter assim conseguido esteriotipar na face o sinal da
gratido. Era um sorriso um tanto forado, o verdadeiro
aspecto da gratido. Mais tarde, quando poucas horas depois
comecei a idealizar Carla, imaginei que havia naquela face uma luta
entre a alegria e a dor. Contudo, nada disso encontrei
posteriormente nela, e uma vez mais aprendi que a beleza feminina
simula sentimentos com os quais nada tem a ver. Da mesma forma
por que a tela em que est pintada uma batalha no possui
qualquer sentimento herico.
        Copler parecia satisfeito com as apresentaes, como se as
duas senhoras fossem obras suas. Descreveu-as: estavam
sempre satisfeitas com seu destino e trabalhavam. Disse palavras
que pareciam extradas de um livro escolar e, anuindo
maquinalmente, eu parecia querer afirmar que havia aprendido a
lio e por isso sabia como devem ser as mulheres virtuosas que
vivem sem dinheiro.
        Depois pediu a Carla que nos cantasse uma coisa qualquer.
Ela recusou, dizendo-se resfriada. Propunha faz-lo em outra
ocasio. Percebi com simpatia que ela receava a nossa crtica;
como sentisse o desejo de prolongar a visita, associei-me aos
pedidos de Copler. Cheguei a dizer que ela talvez no me visse
nunca mais, j que era muito ocupado. Copler, embora sabedor
da minha absoluta inatividade, confirmou com grande respeito

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o        que eu dizia. foi-me, portantO, fcil compreender seu desejo
de que eu no mais voltasse a ver Carla.
        Esta tentou ainda uma vez eximir-Se; Copler, pOrem, insistiu
com uma palavra que parecia um comando e ela obedeceu:
como era fcil convencela!
        Cantou "A Minha Bandeira". De meu macio sof
acompanhava o seu canto. Tinha um ardente desejo de admir-la. Como
seria bom descobri-la dotada de talentO! Ao contrrio, tive a
surpresa de ouvir que sua voz, quando cantava, perdia toda a
musicalidade. O esforo adulteraVaa. Carla tambm no sabia
tocar e seu acompanhamento estropiado tornava mais pobre
ainda a pobre msica. julguei que estivesse diante de uma
escolar e analisei se pelo menos o volume de voz era razovel. Era
at abundante! Na estreiteza do ambiente meus tmpanos
sofriam. Pensei, para poder continuar a encorajla, que era
apenas uma questo de escola errada.
        Quando terminou de cantar, associei o meu ao abundante e
espalhafatoso aplauso de Coplet. Dizia ele:
        - Imagine o efeito que far esta voz quando acompanhada
por uma grande orquestra.
        Isto era de fato verdadeiro. Aquela voz necessitava de uma
orquestra poderosa e completa. Eu disse com grande sinceridade
que me reservava o prazer de voltar a ouvi-la dali a alguns
meses e que s ento me pronunciaria sobre o valor de sua
escola. Acrescentei, menos sinceramente, que sem dvida aquela
voz merecia uma escola de primeira ordem. Depois, para
atenuar o que pudesse ter passado de desagradvel nas minhas
primeiras palavraS, filosofei sobre a necessidade que as vozes
excelsas tinham de encontrar uma escola  altura. O
superlativo justificava tudo. Porm, depois, quando estava s, fiquei
maravilhado com aquela necessidade de ser sincero com Carla.
Ser que j a amava? Mas se nem sequer a vira direito!
        Enquanto descamos as escadas de onde emanava um odor
dbio, Coplet ainda insistia:
        -        Ela tem voz muito forte. Voz de teatro.
        Ele nO sabia que quela altura eu j sabia algo mais: aquela
voz era prpria para um ambiente pequenssimo onde se pudesse
admirar a expresso de ingenuidade de sua arte e onde se
pudesse sonhar infundir-lhe vida e sofrimento.
        Ao deixarme, Copler disse que me avisaria quando o
professor de Carla organizasse um concerto pblico. Tratava-se de
um maestro ainda pouco conhecido na cidade, mas que
certamente se tornaria celebridade. Copler estava certo disto, embora
o maestro j fosse bastante velho. Ao que parece, a celebridade
deveria chegar-lhe agora, depois que Copler o conhecera. Duas
fraquezas de moribundos, a do maestro e a de Copler.
        O curioso  que senti necessidade de relatar essa visita a
Augusta. Talvez possa admitir que o tenha feito por prudncia,
visto que Copler participara dela e eu no me sentia inclinado
a pedir-lhe segredo. Na verdade, contudo, narrei-lhe tudo com
grande satisfao. Foi para mim um grande alvio. At ento
a nica coisa de que me reprovava no caso era t-lo ocultado a
Augusta. Depois de cont-lo, senti-me totalmente inocente.
        Fez-me algumas perguntas sobre a moa, e se era bonita.
Achei difcil responder: disse que a pobre coitada me parecia
muito anmica. Depois ocorreu-me uma boa idia:
        - Que tal se voc se ocupasse dela?
        Augusta tinha tanto o que fazer na sua nova casa e na velha
casa da famlia, onde a convocavam para ajudar na assistncia
ao pai enfermo, que nem pensoU mais nisto. No fundo, porm,
a idia era de fato boa.
        Copler veio a saber por Augusta que eu lhe relatara nossa
visita e, esquecendo-se das qualidades que ele mesmo havia
atribudo ao doente imaginrio, disse em presena de Augusta que
em breve deveramos fazer nova visita a Carla. Confiava
plenamente em mim.
        Na minha ociosidade, fui tomado da vontade de rever a moa.
No ousei correr  sua casa, temendo que Coplet viesse a saber.
Os pretextOs, contudo, no me teriam faltado. Poderia
procur-la para oferecer-lhe uma ajuda maior, s escondidas de Copler;
s que antes precisei certificar-me de que ela, por conveniencia
pessOal, estaria propensa a calar-se. E se aquele doente de
verdade j fosse amante dela? Eu nada sabia de fato sobre os doentes
reais e podia acontecer perfeitamente que ele tivesse o costume
de sustentar suas amantes com o dinheiro dos outros. Nesse
caso, bastaria uma nica visita minha a Carla para
comprometer-me. No podia pr em perigo a paz de minha reduzida

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famlia, ou seja: no a poria em perigo enquanto meu desejo
por Carta no aumentasse.
        Mas este aumentava constantemente. J conhecia aquela moa
muito melhor do que quando lhe estendi a mo para me
despedir dela. Recordo especialmente aquela trana negra que
cobria seu pescoo nveo e que seria necessrio afastar-se com o
nariz para se conseguir beijar a pele que ocultava. Para
estimular meu desejo, bastava-me pensar que num determinado
andar desta mesma pequena cidade em que eu vivia habitava
uma bela rapariga que poderia ser minha se me dispusesse a
ir l! A luta contra o pecado torna-se dificlima em tais
circunstncias porque  necessrio que a renovemos a cada hora
e cada dia, desde que a moa continue morando l no seu andar.
As longas vogais de Carla me chamavam, e talvez fosse o
prprio som delas que me pusesse na alma a convico de que,
quando a minha resistncia desaparecesse, outras resistncias
no haveriam de existir. Porm, para mim era claro que eu me
podia enganar e que talvez Copler visse as coisas com maior
exatido; at esta dvida servia para diminuir minha resistncia,
visto que a pobre Augusta podia ser salva de uma traio minha
pela prpria Carta que, como mulher, tinha a misso da
resistncia.
        Por que o meu desejo haveria de infundir-me remorsos
quando parecia destinado a salvar-me do tdio que quela poca me
assaltava? Na verdade, no prejudicava minhas relaes com
Augusta; pelo contrrio. Eu lhe dizia agora no apenas as
palavras de afeto que sempre tinha para com ela, mas ainda
aquelas que em meu esprito se iam formando para a outra. Nunca
houvera tamanha doura em minha casa, e Augusta mostrava-se
encantada com isto. Eu era sempre preciso naquilo que
chamava de o horrio da famlia. Minha conscincia  de tal forma
delicada que,  minha maneira, j ento me preparava para
atenuar meu futuro remorso.
        A prova de que a minha resistncia no falhou de todo est
no fato de que cheguei a Carla no de um salto, seno que por
etapas. A princpio, durante vrios dias, cheguei apenas at o
jardim pblico, alis com a sincera inteno de gozar aquele
verde que parecia ainda mais puro em meio ao cinzento das
casas e ruas que o circundam. Depois, no tendo tido a sorte
de encontr-la por acaso, como sempre esperava, passei do
jardim a passear bem embaixo das janelas. Fi-lo com grande
emoo que me lembrava inclusive a deliciosa sensao do jovem
que vislumbra o amor pela primeira vez. H tanto tempo que
eu estava afastado no do amor, mas dos caminhos que a ele
conduzem.
        Mal saa do jardim quando dei cara a cara com minha sogra.
A princpio, tive uma suspeita curiosa: assim to cedo, de
manh, naquele lugar to afastado de onde morvamos? Quem
sabe tambm ela traa o marido doente. Soube logo em seguida
que estava sendo injusto, pois viera  procura do mdico, aps
um noite insone passada  cabeceira do marido. O mdico lhe
dissera palavras de conforto, mas ela estava to agitada que logo
me deixou sem ao menos surpreender-se de me encontrar
naquele lugar distante, visitado apenas por velhos, crianas e
babs.
        Bastou-me, contudo, v-la para sentir-me aferrado  minha
famlia. Caminhei de volta para casa em passo resoluto, a cujos
tempos marcados murmurava: "Nunca mais! Nunca mais!"
Naquele instante, a me de Augusta na sua aflio me dera o
sentimento de todos os meus deveres. Foi uma boa lio e bastou
por todo aquele dia.
        Augusta no estava em casa; fora ver o pai em companhia do
qual permaneceu durante a manh inteira.  mesa do jantar,
disse-me que haviam discutido, em face do estado de Giovanni,
se deviam transferir a data do casamento de Ada, marcado para
dali a uma semana. Giovanni j se sentia melhor. Ao que parece,
teria sido levado a comer demais ao jantar e a indigesto
assumira o aspecto de um agravamento do mal.
        Comentei que j sabia daquelas notcias pela me, com quem
me encontrara por acaso no jardim pblico. Embora Augusta
igualmente no se admirasse daquele meu passeio, senti
necessidade de dar-lhe explicaes. Contei que ultimamente me dera a
vontade de passear pelo jardim pblico. L, sentava-me a um
banco e lia o meu jornal. Depois acrescentei:
        - Aquele Olivi! No sabe o mal que me faz, condenando-me
a tamanha ociosidade.
Augusta, que se sentia um tanto culpada em relao a isso,
teve uma chorosa expresso de dor. Senti-me ento satisfeitssi-

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mo. Achava-me realmente em estado de graa, pois havia passado
a tarde inteira em meu estdio e podia certamente acreditar que
estivesse definitivamente curado de qualquer desejo perverso.
Voltei a ler o Apocalipse.
        E ainda que ficasse admitido que eu tinha livre trnsito para
caminhar todas as manhs at o jardim pblico, tamanha se
fizera minha resistncia  tentao que, ao sair no dia seguinte,
tomei propositadamente a direo oposta. Estava  procura de
uma casa de msica para adquirir um novo mtodo de violino
que me fora aconselhado. Antes de sair, soube que meu sogro
havia passado uma tima noite e que viria  nossa casa de carro
ao anoitecer. Senti-me satisfeito no s em relao a meu sogro,
mas ainda a Guido, que finalmente iria poder casar. Tudo corria
bem: eu estava salvo e meu sogro tambm.
        Mas foi exatamente a msica que me reconduziu a Carla!
Entre os mtodos que o vendedor me oferecia estava por engano
um que no era de violino, mas de canto. Li atentamente o ttulo:
Tratado Completo da Arte do Canto (Escola de Garcta)
Contendo uma Relao sobre a Memria no que se Refere  Voz
Humana Apresentada  Academia das Cincias de Paris.
        Deixei que o vendedor se ocupasse de outros clientes e pus-me
a ler o opsculo. Devo dizer que lia com uma sofreguido
provavelmente semelhante  do rapazinho depravado que folheia
uma revista pornogrfica. Ali estava o caminho para chegar a
Carla: ela precisava daquela obra e seria indignidade de minha
parte se no lha desse a conhecer. Comprei-a e retornei a casa.
        A obra de Garcia constava de duas partes, uma prtica e outra
terica. Continuei a leitura com a inteno de chegar a entend-la
to bem que pudesse dar meus conselhos a Carla, quando fosse
visit-la em companhia de Copler. At l podia aproveitar meu
tempo e ainda continuaria a dormir meu sono tranqilO, embora
sobressaltado sempre pelo pensamento da aventura que me
esperava.
        Foi a prpria Augusta que fez com que os acontecimentos se
precipitassem. Interrompeu minha leitura para vir falar-me,
inclinou-se sobre mim e roou-me a face com os lbios. PerguntOu-me
o que eu fazia e, ao saber que se tratava de um novo mtodo,
pensou que fosse para violino e no se preocupou em observar
melhor. Eu, quando me deixou, exagerei o perigo que havia
corrido e pensei que para minha segurana faria bem em no
conservar o livro em meu estdio. Era necessrio lev-lo logo ao
seu destino; assim, vi-me constrangido a me precipitar na
direo da aventura. Havia encontrado algo mais que um pretexto
para proceder conforme o meu desejo.
        No tive mais qualquer hesitao. Chegando ao patamar,
decidi-me logo pela porta da esquerda. Porm, diante dela parei
um instante para ouvir os sons da balada "A Minha Bandeira",
que ressoavam triunfantes pela escada. Pareceu-me que, durante
todo aquele tempo, Carla no havia parado de cantar a mesma
coisa. quela infantilidade, sorri cheio de afeto e de desejo. Abri
depois cuidadosamente a porta sem bater e entrei na ponta dos
ps. Queria v-la sem mais tardana. No pequeno ambiente a
voz era de fato agradvel. Cantava com grande entusiasmo e
mais calor do que por ocasio de nossa primeira visita. Estava
reclinada para trs do espaldar da poltrona para poder emitir
melhor todo o flego de seus pulmes. S vi a cabea
emoldurada pelas grossas tranas e recuei tomado de uma emoo
profunda por haver ousado tanto. Ela, contudo, havia chegado 
nota final, que no queria acabar mais, e regressei ao patamar,
fechando atrs de mim a porta sem que ela me percebesse.
Tambm aquela ltima nota havia oscilado para cima e para
baixo antes de atingir o tom exato. Carla sabia, portanto,
alcanar a nota exata e impunha-se agora a interveno de Garcia para
ensinar-lhe a consegui-lo mais rpido.
        Bati  porta quando me senti mais calmo. Logo ela correu a
abrir; no esquecerei jamais a sua figura gentil, apoiada ao
umbral enquanto me fixava com os grandes olhos escuros antes
de conseguir reconhecer-me na obscuridade.
        Eu me havia acalmado tanto que chegara a readquirir todas
as minhas hesitaes. Correra a trair Augusta, mas pensava que,
se nos dias precedentes me havia contentado em chegar somente
ao jardim pblico, mais facilmente agora poderia parar diante
daquela porta, entregar aquele livro comprometedor e vir-me
embora plenamente satisfeito. Foi um breve instante cheio de
bons propsitos. Recordei-me at mesmo de um estranho
conselho que me fora dado para libertar-me do fumo e que me podia
valer tambm naquela ocasio: vez por outra, para satisfazer a

172 173

vontade de fumar, bastava acender o fsforo e em seguida jogar
fora com ele o cigarro.
        Poderia facilmente ter agido assim, pois Carla, ao me
reconhecer, ficou vermelha e ameaou fugir envergonhada - como
soube depois - por estar trajada simplesmente com um pobre
e gasto vestidinho de casa.
        Uma vez reconhecido, senti necessidade de desculpar-me:
        - Trouxe-lhe este livro que creio ser de seu interesse. Se
quiser, posso deix-lo aqui e ir-me embora.
        O som das palavras - ou assim me pareceu - era bastante
brusco, mas no o seu significado, porque ao fim deixara a seu
arbtrio decidir se eu devia ir-me embora ou esperar e trair
Augusta.
        Ela decidiu imediatamente; agarrou-me a mo para forar-me
a entrar. A emoo obscureceu-me a vista e admito que tenha
sido provocada no pelo doce contato da mo, mas por aquela
familiaridade que me pareceu decisiva do meu destino e do de
Augusta. Ainda assim, creio ter entrado com certa relutncia e,
quando reevoco a histria de minha primeira traio, tenho o
sentimento de que s procedi desse modo porque a isso fui
induzido.
        A face de Carla era de fato bela to enrubescida. Fiquei
agradavelmente surpreso ao perceber que, se no era esperado, pelo
menos ela sonhava com a minha visita. Disse-me com grande
satisfao:
        - O senhor ento sentiu vontade de voltar a ver-me? De
rever a pobrezinha que tanto lhe deve?
        Decerto, se quisesse, poderia t-la agarrado logo entre os
braos, mas no pensava nisso. Pensava to pouco que nem sequer
respondi s suas palavras, que me pareceram comprometedoras,
e me pus a falar sobre o mtodo Garcia e a utilidade que para
ela havia de ter o livro. Falei com uma precipitao que me
levou a profenir alguma palavra menos considerada. Aquele
mtodo seria capaz de ensinar-lhe a maneira de tornar as notas
firmes como o metal e doces como o ar. Ter-lhe-ia ensinado
como uma nota s pode representar uma linha reta ou um plano,
mas um plano verdadeiramente liso.
        Meu fervor desapareceu quando me interrompeu para
manifestar sua dvida dolorosa:
        - Mas o senhor no gosta da minha maneira de cantar?
        Fiquei aturdido com a pergunta. Eu fizera uma crtica rude,
mas sem conscincia disso, e protestei a minha boa f. Protestei
com tal xito que, embora sem deixar de falar do canto, pareceu-me
estar falando do amor que de maneira to imperiosa me
havia arrastado at aquela casa. E minhas palavras foram to
amorosas que deixaram, apesar de tudo, transparecer uma parte
de sinceridade:
        - Como pode pensar em semelhante coisa? Estaria aqui se
assim fosse? Fiquei ali no corredor durante longo tempo a
deliciar-me com seu canto, admirvel e excelso canto em sua
ingenuidade. S acho que para ser perfeito necessita de algo que me
foi dado aqui trazer-lhe.
        Que fora, no entanto, representava em meu esprito o
pensamento de Augusta para que eu continuasse afirmando
obstinadamente que no viera arrastado pelo desejo!
        Carla ouviu minhas palavras de elogio, que no estava sequer
em condies de analisar. No era muito culta, mas, para minha
grande surpresa, percebi que no era destituda de bom senso.
Contou-me que ela prpria tinha grandes dvidas sobre seu
talento e sobre a sua voz: sentia que no estava fazendo
progressos. No raro, aps certa quantidade de horas de estudo,
permitia-se a distrao e o prmio de cantar "A Minha
Bandeira", esperando descobrir na prpria voz alguma qualidade
nova. Mas era sempre a mesma coisa: fora bem e at sempre
bastante bem como lhe asseguravam quantos a ouviam e at eu
mesmo (aqui seus belos olhos negros enviaram-me um terno
lampejo interrogativo que demonstrava a necessidade de ser
assegurada no sentido de minhas palavras que ainda lhe pareciam
um tanto dbias), mas no fizera nenhum verdadeiro
progresso. O maestro disse que em arte no havia progressos lentos,
s grandes saltos que conduziam ao objetivo e que um belo dia
ela haveria de despertar artista feita.
        -  algo muito demorado, contudo - acrescentou, olhando
o vazio e revendo talvez todas as suas horas de tdio e de dor.
        Ser honesto  antes de tudo ser sincero, e de minha parte
teria sido honestssimo, aconselhando a pobre moa a abandonar
o canto e tornar-se minha amante. Mas eu ainda no tinha
chegado to longe do jardim pblico e, alm disso, no estava muito

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seguro de meu juzo crtico na arte do canto. Por alguns instantes
fiquei fortemente preocupado com uma nica pessoa: o insuportvel
Copler que passava os fins de semana em minha vila em
companhia de mim e de minha mulher. Seria aquele o momento
adequado para pedir  moa que no mencionasse a Copler a
minha visita? No o fiz por no saber como disfarar a
pergunta, no que procedi bem, porque dias depois meu amigo piorou
e logo aps morreu.
        No obstante, disse-lhe que o mtodo Garcia estava em
condies de dar-lhe tudo aquilo que ela buscava, e por um
instante, mas s por um instante, ela duvidou da eficcia daquela
magia. Eu lia os ensinamentos de Garcia e explicava-os em
italiano e, quando no bastava, repetia-os em triestino, mas ela
no sentia nada de novo na garganta e o livro s teria eficcia
para ela se pudessem manifestar-se naquele ponto. O mal  que,
eu tambm, pouco depois, tive a convico de que o livro no
valia grande coisa em minhas mos. Relendo umas trs vezes
aquelas frases e no sabendo o que fazer delas, vinguei-me de
minha incapacidade, criticando-o abertamente. Eis que o autor
perdia seu tempo e o meu para provar que, embora a voz
humana fosse capaz de produzir vrios sons, no era justo
consider-la um instrumento apenas. At o prprio violino devia ser
considerado uma reunio de instrumentos. Talvez procedesse mal
em manifestar a Carla minhas crticas, mas junto de uma mulher
que queremos conquistar  difcil abstermo-nos de aproveitar a
ocasio que se apresenta para demonstrarmos nossa prpria
superioridade. Ela de fato admirou-me por isso e a bem dizer
fisicamente afastou de si o livro, que era o nosso Galeotto, mas
que no nos acompanhou at a culpa. No me decidira ainda a
abandon-lo e trouxe-o comigo em outra visita. Quando Copler
morreu, j no tive necessidade dele. Haviam-se rompido
quaisquer possveis laos entre aquela casa e a minha, e assim o meu
procedimento no podia ser freado seno por minha conscincia.
        A essa altura j nos havamos tornado bastante ntimos, de
uma intimidade superior a quanto se poderia esperar daquela
meia hora de conversao. Creio que a concordncia sobre um
juzo crtico propicia a intimidade. A pobre Carla aproveitou-se
dessa intimidade para pr-me a par de suas tristezas. Aps a
interveno de Copler, vivia-se modestamente naquela casa, mas
sem grandes privaes. A maior preocupao das duas senhoras
era pensar no futuro. Copler,  verdade, trazia-lhes o subsdio
com regularidade, mas no permitia que contassem com ele; no
queria comprometer-se para o futuro e preferia que fossem elas
a tratar disso. Alm do mais, no dava o dinheiro abertamente:
era o verdadeiro patro daquela casa e queria ser informado das
mnimas despesas. Ai se permitissem despesa no previamente
aprovada por ele! A me de Carla, havia pouco, se sentira
indisposta, e Carla, para atender aos afazeres domsticos, descurara
por alguns dias de cantar. Tendo sido informado pelo maestro,
Copler fez uma bruta cena e foi-se embora, dizendo que no
valia a pena convencer pessoas caritativas a ampar-la. Por
alguns dias viveram aterrorizadas, temendo que ele as tivesse
abandonado ao destino. Depois, quando veio outra vez, renovou
as condies do pacto e estabeleceu exatamente quantas horas
por dia Carla devia sentar-se ao piano e quantas podia dedicar
aos afazeres de casa. Ameaou inclusive vir surpreend-las a
qualquer hora do dia.
        - Certamente - conclua a moa - ele s quer o nosso bem,
mas enfurece-se tanto por coisas de nenhuma importncia, que
um dia, na ira, acabar por nos colocar no olho da rua. Mas
agora que tambm o senhor se ocupa de ns, j no h este
perigo, no  verdade?
        E novamente apertou-me a mo. Como no respondesse de
imediato, ela, temendo que me sentisse solidrio com Copler,
acrescentou:
        - At o Sr. Copler o considera uma pessoa caridosa!
        Esta frase queria ser um elogio dirigido a mim, mas tambm
a Copler.
        Sua figura, apresentada com tanta antipatia por Carla, era nova
para mim e despertava minha simpatia. Queria parecer-me com
ele; contudo, o desejo que me havia levado quela casa me
tornava to diverso! ii bem verdade que ele subsidiava as duas
mulheres com dinheiro de outrem, mas dava a esse trabalho uma
parte de sua prpria vida. Aquele poder que exercia sobre elas
era realmente paterno. Tive porm uma dvida: e se ele fosse
levado quele trabalho unicamente por volpia? Sem hesitar,
perguntei a Carla:
        - Copler nunca lhe pediu um beijo?

        176        177

        - Nunca! - respondeu ela com vivacidade. - Quando est
contente com meu trabalho, manifesta secamente a sua
aprovao, aperta-me a mo e l se vai. Outras vezes, quando est
aborrecido, recusa at mesmo o aperto de mo e nem percebe que
fico a chorar temerosa. Um beijo para mim seria, naquele
momento, uma liberao.
        Como me pusesse a rir, Carla explicou-se melhor:
        - Aceitaria reconhecida o beijo desse velho senhor a quem
tanto devo!
        Eis a vantagem dos doentes reais; parecem mais velhos do
que na verdade o so.
        Fiz uma fraca tentativa de semelhar-me a ele. Sorrindo para
no assustar muito a pobre moa, disse-lhe que tambm eu,
quando me ocupava de algum, acabava por tornar-me muito
imperioso. Inclusive eu concordava que, quando se estuda uma
arte, deve-se faz-lo seriamente. Depois compenetrei-me to bem
de meu papel que at deixei de sorrir. Copler tinha razo em
mostrar-se severo com uma jovem incapaz de compreender o
valor do tempo: precisava lembrar-se sempre de quantas pessoas
faziam sacrifcios para ajud-la. Eu estava realmente srio e
rspido.
        Chegou, contudo, a hora do almoo, e especialmente naquele
dia no quis deixar Augusta  espera. Estendendo a mo a Carla,
percebi o quanto estava plida. Desejei confort-la:
        - Esteja segura de que sempre farei o possvel para apoi-la
junto a Copler e os demais.
        Ela agradeceu, mas parecia abatida. Depois, soube que, vendo-me
chegar, ela dera logo pelas minhas verdadeiras intenes e,
pensando que j estivesse enamorado, julgou-se salva. Depois,
ainda - principalmente quando me preparei para ir-me embora
- pensou que talvez estivesse enamorado apenas de sua arte e,
se no cantasse ou se no fizesse progressos, eu tambm haveria
de abandon-la.
        Pareceu-me abatidssima. Fui tomado de compaixo e, visto
que no havia tempo a perder, tranqilizei-a com os meios que
ela prpria indicara como os mais eficazes. J estava  porta
quando a puxei para mim, afastei cuidadosamente com o nariz
a grossa trana que caa sobre o colo, atingi-o com os lbios
e at mesmo rocei-o com os dentes. Tinha a aparncia de uma
brincadeira, e ela prpria acabou por rir quando a larguei. At
aquele momento permanecera surpresa e inerte em meus braos.
        Seguiu-me at o patamar e, ao comear eu a descer as escadas,
perguntou sorrindo:
        - Quando volta?
        - Amanh ou talvez depois! - respondi, j agora incerto.
Em seguida, mais resoluto: - Virei amanh com certeza! -
Ao que, no propsito concebido para no me comprometer
demais, acrescentei: - Continuaremos com as lies de Garcia.
        Ela no mudou de expresso nesse breve tempo: concordei
com a primeira promessa mal segura, concordei reconhecido
com a segunda e concordei tambm com meu terceiro propsito,
sempre sorrindo. As mulheres sempre sabem o que querem. No
houve hesitaes nem por parte de Ada, que me repeliu, nem
de Augusta, que me agarrou, nem muito menos Carla, que me
deixou  vontade.
        Na rua, senti-me logo muito mais prximo de Augusta que
de Carla. Respirei o ar fresco, livre, e tive o pleno sentimento de
minha liberdade. No praticara mais que uma brincadeira, e esta
no podia perder esse carter, de vez que terminara naquele
pescoo e sob aquela trana. Enfim, Carla aceitara aquele beijo
como uma promessa de afeto e sobretudo de assistncia.
        Nesse dia  mesa, porm, comecei verdadeiramente a sofrer.
Entre mim e Augusta pairava minha aventura, como uma
grande sombra fosca que me parecia impossvel minha mulher
tambm no a visse. Sentia-me diminudo, culpado e doente, e
sentia uma dor ao lado como um reflexo, que revelasse a grande
ferida que me ia na conscincia. Enquanto fingia comer
distraidamente, procurei alvio num frreo propsito: "No volto mais
l", pensei, "ou, se por precauo, tiver que rev-la, ser pela
ltima vez." No era muito o que se exigia de mim afinal:
apenas um esforo, o de no voltar a ver Carla.
Augusta sorrindo perguntou-me:
        - Esteve com Olivi? Voc parece to preocupado...
        Pus-me a rir tambm eu. Era um grande alvio poder falar. As
palavras no eram aquelas passveis de trazer a paz definitiva
porque, para diz-las, seria preciso confessar e depois prometer,
mas, no podendo ser de outra forma, era j um belo alvio poder
pronunciar aquelas. Falei profusamente, sempre alegre e bon-

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doso. Depois, achei algo ainda melhor: falei sobre a pequena
lavanderia que ela tanto desejava e que eu at ento havia
recusado fazer, dando-lhe imediata permisso para constru-la.
Ficou to comovida com a permisso no solicitada que se
ergueu e veio dar-me um beijo. Era evidentemente um beijo que
apagava aquele outro, e com isso logo me senti melhor.
        Foi assim que ficamos com uma lavanderia, e at hoje, quando
passo diante da minscula construo, recordo que Augusta
sonhou com ela, mas foi Carla quem a conseguiu.
        Passamos uma tarde encantadora, ressumada de afeto. Na
solido, a minha conscincia era mais importuna. A palavra e o
afeto de Augusta serviam-me para acalm-la. Samos juntos.
Acompanhei-a at a casa da me e passei mesmo todo o sero em
companhia dela.
        Antes de cair no sono, como me ocorre amide, observei
demoradamente minha mulher, que j dormia entregue  sua
respirao suave. Mesmo dormindo era toda organizada, as cobertas
vindo at o queixo e os cabelos pouco abundantes reunidos
numa fina trana enrolada na nuca. Pensei: "No quero causar-lhe
sofrimentos. Nunca!" Adormeci tranqilo. No dia seguinte,
definiria minhas relaes com Carla e arranjaria uma forma de
assegurar  pobre moa meios de subsistncia para o futuro, sem
que por isso fosse obrigado a dar-lhe beijos.
        Tive um sonho curioso: no s beijava o pescoo de Carla,
mas ainda o comia. Contudo, era um tal pescoo que no
sangravam as feridas que eu lhe infligia com selvagem volpia, e
por isso permanecia sempre coberto por sua pele branca e
inalterado na sua forma levemente recurva. Carla, abandonada entre
meus braos, no parecia sofrer com as mordidas. Em vez dela,
sofreu-as Augusta, que surgiu de improviso. Para tranqiliz-la,
eu lhe dizia: "No comerei tudo; deixarei um pedao para
voc.
        O        sonho s teve a configurao de pesadelo quando acordei
em meio  noite e a mente enevoada pde record-lo; antes
no, porque, enquanto durou, nem mesmo a presena de Augusta
conseguiu empanar o sentimento de satisfao que ele me dava.
        Mal despertei, tive plena conscincia da fora de meu desejo
e do perigo que este representava para Augusta, e mesmo para
mim. Talvez no regao da mulher que dormia ao meu lado j
se iniciasse uma outra vida de que seria eu o responsvel. Quem
sabe o que haveria de pretender Carla, quando fosse minha
amante? Ela parecia ansiosa por usufruir o que at ento lhe havia
sido negado, e como iria eu fazer para sustentar duas famlias?
Augusta solicitava a til lavanderia, a outra haveria de querer
uma coisa qualquer, igualmente custosa. Revi as feies de Carla
a acenar-me sorridente do patamar depois do beijo. Ela j sabia
que eu estava em suas garras. Fiquei aterrado e, ali, sozinho na
obscuridade, no consegui reprimir um gemido.
        Minha mulher, logo desperta, perguntou-me o que eu tinha, e
respondi com uma breve palavra, a primeira que me ocorreu 
mente ao recuperar-me do pavor de me ver interrogado num
momento em que me pareceu gritar uma confisso:
        - Pensava na velhice prxima!
        Riu e procurou consolar-me sem, contudo, interromper o sono
a que se agarrava. Dirigiu-me a frase habitual, sempre que me
via preocupado com o tempo a correr clere:
        - No pense nisto, que ainda somos novos... O sono est
to bom!
        A exortao foi til: no pensei mais naquilo e adormeci de
novo. A palavra na noite  como um raio de luz. Ilumina um
trecho da realidade em confronto com o qual se dissipam as
edificaes da fantasia. Por que me sentia to temeroso em
relao  pobre Carla, de quem ainda no era amante? Evidente que
eu fizera tudo para temer minha situao. Enfim, o beba que
eu havia evocado no seio de Augusta at ento no dera outro
sinal de vida seno a construo da lavanderia.
        Levantei-me sempre acompanhado dos melhores propsitos.
Corri ao meu estdio e preparei num envelope um pouco de
dinheiro que queria oferecer a Carla no mesmo instante em que
lhe anunciasse a minha despedida. Contudo, deixaria claro que
me prontificava a mandar-lhe pelo correio outras importncias
de que viesse a necessitar, bastando escrever-me para um
endereo que a faria saber. No momento exato em que me propunha
sair, Augusta convidou-me com um doce sorriso a acompanh-la
 casa de meu sogro. Havia chegado de Buenos Aires o pai de
Guido para assistir ao casamento, e precisvamos ir l conhec-lo.
Ela certamente estav menos preocupada com o pai de Guido
do que comigo. Queria renovar o encanto do dia anterior. A

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coisa, porm, no era mais a mesma: a mim parecia mau deixar
transcorrer muito tempo entre meu bom propsito e a sua
execuo. Enquanto caminhvamos pela rua, um ao lado do outro
e, na aparncia, seguros de nosso afeto, uma outra j se
considerava amada por mim. Isto era mau. Senti aquele passeio como
uma verdadeira, autentica constrio.
        Fomos encontrar Giovanni realmente melhor. S no podia
calar as botinas por causa de uma certa inchao nos ps, a
que ele no dava qualquer importncia e eu, quela altura,
tampouco. Achava-se na sala de visitas com o pai de Guido, a quem
me apresentou. Augusta logo nos deixou para ir ao encontro da
me e da irm.
        O        Sr. Francesco Speier pareceu-me homem muito menos
instrudo que o filho. Era baixo, gordo, na casa dos sessenta, com
poucas idias e pouca vivacidade, talvez porque ouvisse bastante
mal em conseqncia de alguma enfermidade. Misturava algumas
palavras espanholas ao seu italiano:
        -        Cada volta que vengo a Trieste...
        Os dois velhos falavam de negcios, e Giovanni escutava
atentamente, uma vez que aqueles negcios eram muito
importantes para o destino de Ada. Estive a ouvir distraidamente.
Percebi que o velho Speier decidira liquidar seus negcios na
Argentina e entregar a Guido todos os seus duros para aplic-los
na fundao de uma firma comercial em Trieste; ele depois
retornaria a Buenos Aires onde vivia com a mulher e a filha na
pequena propriedade que lhes restava. No compreendi por que
contava tudo aquilo a Giovanni em minha presena, e at hoje
no sei.
        A mim pareceu-me que os dois, em certo ponto, deixaram de
falar, fitando-me como se esperassem de mim algum conselho;
para ser amvel observei:
        -        No deve ser pequena essa propriedade, j que lhe basta
para viver!
        Giovanni gritou logo:
        -        Que est dizendo? - A detonao da voz recordava os
seus melhores dias, mas a verdade  que, se no tivesse gritado
tanto, o Sr. Francesco no teria percebido a minha observao.
Agora, ao contrrio, empalideceu e disse:
        - Espero que Guido no me falte com o pagamento dos juros
deste capital.
        Giovanni, sempre gritando, procurou tranqiliz-lo:
        - No s os juros! At o dobro se for o caso! No  seu
filho?
        O Sr. Francesco, contudo, no parecia muito seguro e esperava
mesmo de mim uma palavra que o tranqilizasse. No me fiz
de rogado e fui at exaustivo, pois o velho agora ouvia com
mais dificuldade ainda.
        Depois, a conversa entre os dois homens de negcio continuou,
e evitei a todo custo qualquer outra interveno. Giovanni
observava-me de tempos em tempos por cima dos culos para vigiar-me
e sua respirao pesada parecia uma ameaa. Continuou
falando por algum tempo at que me perguntou a certa altura:
        - No acha?
        Anu calorosamente.
        Mais caloroso ainda devia parecer o meu assentimento,
porquanto meu ato refletia a fria que se agitava em meu interior.
Que estava fazendo ali naquele lugar, perdendo um tempo
precioso para realizar meus bons intentos? Obrigavam-me a
negligenciar numa obra que era to til para mim e para Augusta!
Preparava uma desculpa para ir-me embora, mas nesse instante
o salo foi invadido pelas mulheres acompanhadas de Guido.
Este, logo aps a chegada do pai, havia presenteado a futura
esposa com um magnfico anel. Ningum notou minha presena
ou veio cumprimentar-me, nem mesmo a pequena Anna. Ada j
trazia no dedo a jia esplendorosa e, sempre com o brao apoiado
ao ombro do noivo, mostrava-a agora ao pai. At mesmo as
senhoras admiravam com ar exttico.
        Os anis no me diziam nada. Eu no usava nem mesmo a
aliana de casado, que me impedia a circulao do sangue! Sem
me despedir, passei pelo salo, avancei para a porta da rua e fiz
meno de sair. Augusta, porm, percebeu minha tentativa de
fuga e me agarrou a tempo. Fiquei preocupado com seu ar de
transtorno. Seus lbios estavam plidos como, no dia de nosso
casamento, pouco antes de sairmos para a igreja. Disse-lhe que
tinha um assunto urgente a tratar. Depois, tendo-me
oportunamente lembrado que poucos dias antes, por um capricho,
comprara uns culos levssimos que ainda no estreara, mas que

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trazia no bolso do colete onde o sentia agora, disse-lhe que tinha
uma consulta marcada com o oculista para examinar a vista que
desde algum tempo eu achava cansada. Ela respondeu que podia
ir-me logo em seguida; antes devia despedir-me do pai de Guido.
Fiz um movimento de impacincia, mas acabei por aquiescer.
        Voltei ao salo e todos me cumprimentaram gentilmente. Eu
agora, certo de que no seria difcil escapar, cheguei mesmo a
ter um momento de bom humor. O pai de Guido, meio confuso
entre toda aquela parentela, perguntou-me:
        - Ser que nos veremos antes de meu regresso a Buenos
Aires?
        - Oh! - disse eu - sem dvida: cada volta que o senhor
venga a esta casa, provavelmente me encontrar!
        Todos riram e sa triunfalmente, acompanhado inclusive por
um cumprimento bastante alegre por parte de Augusta. Sara
to corretamente aps cumprir as formalidades legais que podia
caminhar em segurana. Contudo, outro motivo me libertava das
dvidas que at aquele momento me haviam detido: corria para
longe da casa de meu sogro a fim de afastar-me dali o mais
rpido possvel, ou seja, at a casa de Carla. Em casa dele, e no
pela primeira vez (assim me parecia), suspeitavam de que eu
conspirasse vilmente contra os interesses de Guido. Inocentemente e
na maior distrao eu mencionara a propriedade na Argentina,
e logo Giovanni interpretou minhas palavras como se fossem
premeditadas para prejudicar a imagem de Guido junto ao pai.
Eu no teria dificuldades de explicar-me com Guido se houvesse
necessidade disso; com Giovanni e os demais, que me achavam
capaz de semelhantes maquinaes, bastava a vingana. No
que me dispusesse a trair deliberadamente Augusta. Fazia,
porm, s claras aquilo que me agradava. Uma visita a Carla no
implicava ainda nada de mal, e mesmo, se por ali viesse a
encontrar por acaso a minha sogra como da outra vez, e se ela
me perguntasse o que estava fazendo, ter-lhe-ia respondido sem
hesitar:
        - Ora essa! Vou  casa de Carla! - Tratava-se, assim, da
nica vez em que ia ver Carla sem me lembrar de Augusta.
Tanto me ofendera a atitude de meu sogro!
        Chegando ao patamar, no ouvi o eco da voz de Carla. Senti
um instante de terror: teria sado? Bati e entrei em seguida, antes
que algum me desse permisso. Carla estava ali, e com ela
encontrava-se tambm a me. Costuravam numa associao que
podia ser freqente, mas que eu presenciava pela primeira vez.
Trabalhavam as duas a coser a bainha de um lenol, uma oposta
 outra. Eis que eu correra ao encontro de Carla e a encontro
em companhia da me. No era a mesma coisa. No podiam atuar
nem os bons nem os maus propsitos. Tudo continuava a
permanecer em suspenso.
        Carla ergueu-se excitada, enquanto a velha lentamente tirou
os culos e guardou-os num estojo. Eu, contudo, arranjei um
modo de parecer indignado por outra razo que no a de me ver
interdito de esclarecer a minha situao. No eram aquelas as
horas que Copler lhe destinava ao estudo? Cumprimentei
amavelmente a velha senhora embora me fosse difcil simular tal ato
de gentileza. Cumprimentei tambm Carla, quase sem olhar para
ela. Disse-lhe:
        -        Vim para ver se podamos extrair daquele livro - e
indiquei a obra de Garcia, sobre a mesa no mesmo lugar em que
o havamos deixado - alguma coisa de til.
        Sentei-me no mesmo lugar ocupado no dia anterior e fui logo
abrindo o livro. Carla a princpio tentou sorrir; como, porm,
no correspondi  sua gentileza, sentou-se com certa solicitude
de obedincia ao meu lado e ficou observando. Estava
hesitante; no compreendia. Fixei-a e percebi que em sua face se
desenhava algo que podia significar desdm e obstinao.
Imaginei que era assim que recebia as reprimendas de Copler. S
que no estava ainda certa de que as minhas reprimendas fossem
de fato as mesmas que Copler lhe endereava, porque - como
me disse mais tarde - recordava que eu a havia beijado no
dia anterior e por isso se achava para sempre isenta de minha
ira. Mostrava-se, portanto, sempre pronta a converter aquele
desdm num sorriso amigvel. Devo dizer aqui, j que mais
tarde no terei tempo, que a presuno de me haver domesticado
definitivamente apenas com o beijo que me concedera,
desagradou-me enormemente: uma mulher que pensa assim  muito
perigosa.
        Mas naquele momento a minha inteno era a mesma de
Copler, carregada de reprovaes e ressentimentos. Pus-me a ler
em voz alta exatamente a parte que havamos lido no dia ante-

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rior e que eu prprio havia pedantemente criticado, j agora no
fazendo os mesmos comentrios, mas pesando uma ou outra
palavra que me pareciam mais significativas.
        Com voz um pouco trmula, Carla interrompeu-me:
        - Acho que j tnhamos lido esta parte!
        Fui assim finalmente obrigado a usar minhas prprias
palavras. s vezes, nossas palavras podem dar-nos um pouco de
satisfao. As minhas no apenas foram mais brandas que meu
nimo e o meu comportamento como imediatamente me
reconduziram  vida social:
        - Veja, senhorita - e acompanhei em seguida o apelativo
afetuoso com um sorriso que podia ser igualmente de amante -,
queria rever este assunto antes de passarmos a outro. Talvez
ontem o tenhamos julgado um tanto precipitadamente, e um
amigo meu ainda h pouco advertiu-me que, para compreender
tudo quanto o autor afirma,  preciso estud-lo todo.
        Achei finalmente que devia dar alguma ateno  pobre
senhora, que certamente, no curso de sua vida e por mais infeliz
que fosse, jamais se havia encontrado numa situao semelhante.
Enviei-lhe tambm um sorriso, que me custou mais esforos do
que o enviado a Carla:
        - O assunto no  muito interessante - disse-lhe -, mas
pode ser acompanhado com alguma vantagem mesmo por
aqueles que no se ocupam do canto.
        Continuei a ler obstinadamente. Carla decerto se sentia
melhor, e em seus lbios carnosos errava algo que parecia um
sorriso. A velha, ao contrrio, mostrava sempre a aparncia de
um animal prisioneiro e permanecia naquele cmodo s porque
a sua timidez a impedia de encontrar uma desculpa para
retirar-se. De minha parte, estava determinado a no trair o meu desejo
de p-la para fora dali. Seria uma coisa desagradvel e
comprometedora.
        Carla mostrou-se mais decidida: pediu-me com muita
delicadeza que interrompesse por um momento a leitura e, voltando-se
para a me, disse-lhe que podia retirar-se e que acabariam o
trabalho do lenol mais tarde.
        A senhora aproximou-se de mim, hesitante sobre se devia
estender-me a mo. Apertei-a imediatamente com afeto e disse:
        - Compreendo que esta leitura no seja nada interessante.
        Parecia at que eu deplorava a sua sada. A senhora l se foi
afinal, depois de ter deixado sobre uma cadeira o lenol que
at ento segurava de encontro ao peito. Carla seguiu-a por um
instante at o corredor para dizer-lhe qualquer coisa, enquanto
eu me impacientava por t-la finalmente junto de mim. Voltou,
fechou a porta atrs de si e, retornando ao seu lugar, trazia de
novo em torno  boca algo de rgido que recordava obstinao
numa face infantil. Disse:
        - Estudo todos os dias a esta hora. E logo hoje tinha que
acontecer este trabalho de urgncia!
        - Mas no v que no me importa nada o seu canto? -
gritei, agredindo-a com meu abrao violento, que me levou a
beij-la primeiro na boca e logo depois no mesmo ponto em que
a beijara na vspera.
        Curioso! Ela ps-se a chorar intensamente e desvencilhou-se
de mim. Disse soluando que sofrera muito ao me ver entrar
daquela maneira. As lgrimas no so motivadas pela dor, mas
pela histria. Chora-se quando se protesta contra a injustia.
Era, de fato, injusto obrigar ao estudo aquela bela moa que
se podia beijar.
        Enfim, a coisa andava pior do que eu imaginava. Tive de
explicar-me e, para faz-lo imediatamente, no dispus do tempo
necessrio a inventar alguma histria e acabei contando a
verdade inteira. Disse-lhe de minha impacincia por v-la e beij-la.
Tinha a inteno de vir bem cedo; naquele propsito havia
inclusive passado toda a noite. Naturalmente no soube dizer o que
pretendia fazer vindo at ela, mas isso no importava. Era
verdade que sentira a mesma dolorosa impacincia quando quis ir
 sua casa para dizer-lhe que iria abandon-la para sempre e
quando corri para tom-la em meus braos. Depois contei-lhe os
acontecimentos da manh e sobre como minha mulher obrigou-me
a sair com ela, levando-me  casa de meu sogro, onde eu
tivera que ficar imobilizado a ouvir como transcorriam negcios
que no me diziam respeito. Por fim, com grande esforo,
consegui desvencilhar-me e percorrer o longo caminho a passo
clere, para encontrar o qu?... O quarto todo engolido por
aquele lenol!
        Carla explodiu de rir, pois compreendeu que em mim no
havia nada de Copler. O riso em sua bela face parecia o arco-

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ris, e beijei-a de novo. Ela no respondia s minhas carcias,
recebia-as submissa, uma atitude que adoro talvez porque amo
o        sexo fraco em proporo direta  sua fraqueza. Pela primeira
vez contou-me que soubera atravs de Copler que eu amava muito
a minha mulher:
        - Por isso - acrescentou, e vi passar em sua bela face a
sombra de um propsito srio - entre ns no pode haver mais
que uma bela amizade.
        No acreditei muito naquele propsito to sensato porque a
prpria boca que o exprimia j no sabia subtrair-se aos meus
beijos.
        Carla falou demoradamente. Queria evidentemente despertar
minha compaixo. Recordo tudo o que me disse, no que s vim
a acreditar quando ela desapareceu de minha vida. Enquanto a
tive a meu lado, sempre a tomei por uma mulher que mais cedo
ou mais tarde se aproveitaria de sua ascendncia sobre mim para
me arruinar e  minha famlia. No acreditei quando asseverou
nada querer alm de segurana para si e para a me. Agora,
tenho certeza de que nunca foi intuito seu obter de mim mais
do que o quanto necessitava, e quando me lembro dela
envergonho-me de hav-la compreendido e amado to mal. Essa pobre
mulher jamais obteve nada de mim. Eu lhe teria dado tudo, pois
sou daqueles que pagam as prprias dvidas. Mas esperava
sempre que ela me pedisse.
        Contou-me sobre o estado de desespero em que se viu com a
morte do pai. Por meses e meses ela e a velha foram obrigadas
a trabalhar dia e noite nuns bordados que um comerciante lhes
encomendara. Ela acreditava ingenuamente que a providncia
divina haveria de ajud-la, e vez por outra se punha  janela
para olhar a rua por onde esperava que este chegasse. Mas quem
veio foi Copler. Agora ela se dizia contente com seu estado atual,
mas ambas passavam noites inquietas porque a ajuda obtida era
bastante precria. E se chegasse o dia em que ela no tivesse nem
voz nem talento para cantar? Copler haveria de abandon-las.
Alm disso, ele vivia dizendo que ela devia estrear num teatro
dentro em breve. E se a estria redundasse num verdadeiro
fracasso?
        Sempre no intuito de despertar compaixo, contou-me que a
desgraa financeira de sua famlia havia at mesmo desfeito o
seu sonho de amor: o noivo acabou por abandon-la.
        E eu, sempre longe da compaixo, perguntei-lhe:
        - E esse noivo beijava voc muito? Assim como fao?
        Ela riu porque eu a impedia de falar. Vi diante de mim um
homem que me assinalava o caminho.
        J de h muito passara a hora em que eu devia estar em casa
para o almoo. Quis ir-me embora. Bastava por aquele dia.
Achava-me bem longe do remorso que me mantinha desperto
durante a noite, e a inquietude que me arrastara  casa de Carla
desaparecera de todo. Mas no me sentia tranqilo. Talvez seja
este meu destino. No tinha remorsos, porquanto Carla me
prometera quantos beijos quisesse em nome de uma amizade que
no podia ofender Augusta. Pareceu-me descobrir a razo do
descontentamento que de hbito fazia serpentear dores
imprecisas pelo meu organismo. Carla via-me sob uma luz falsa. Carla
podia desprezar-me, vendo-me to desejoso de seus beijos, mas
devotado a Augusta! Essa mesma Carla que dava sinais de
estimar-me tanto pela necessidade que ela tinha de mim!
        Decidi conquistar sua estima e dirigi-lhe palavras que deviam
doer-me como a recordao de um crime vil, como uma traio
cometida por livre escolha, sem necessidade e sem vantagem
alguma.
        Estava quase  porta e, com ar de pessoa serena que a
contragosto se confessa, disse-lhe:
        - Copler lhe falou do afeto que dedico  minha mulher. 
verdade: tenho grande estima por ela.
        Depois contei-lhe por alto a histria de meu casamento, sobre
como me apaixonei pela irm mais velha de Augusta, que no
queria saber de mim, pois estava apaixonada por outro, e sobre
como depois tentei casar-me com a outra irm, que tambm
me rechaou, e sobre como enfim me acomodei em casar-me
com ela.
        Carla acreditou imediatamente na veracidade da histria.
Depois eu soube que Copler ouvira algo em minha casa e lhe
contara algumas particularidades no de todo verdadeiras, mas
quase, que eu agora retificava e confirmava.
        - E sua mulher  bonita? - perguntou pensativa.

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-        uma questo de gosto - respondi.
        Havia um centro repressor qualquer que ainda agia em mim.
Afirmei que estimava minha mulher, mas ainda no dissera que
a amava. No revelei que me agradava, mas tambm que no
me pudesse agradar. Naquele momento pareceu-me estar sendo
muito sincero; agora sei que tra com aquelas palavras ambas
as mulheres e todo o amor, o meu e o delas.
        Para falar a verdade, ainda no me sentia tranqilo; devia,
portanto, faltar alguma coisa. Lembrei-me do envelope dos bons
propsitos e ofereci-o a Carla. Ela o abriu e restituiu-o, dizendo-me
que poucos dias antes Copler lhe levara a mesada e que por
ora no tinha qualquer necessidade de dinheiro. Minha
inquietude aumentou por fora de minha antiga convico de que as
mulheres realmente perigosas no aceitam pouco dinheiro.
Percebeu meu mal-estar e com deliciosa ingenuidade (da qual me
dou conta somente agora ao escrever) pediu-me umas poucas
coroas a fim de comprar uns pratos que lhes faziam falta depois
de uma catstrofe que ocorrera na cozinha.
        Em seguida, aconteceu algo que deixou um sinal indelvel em
minha memria. No momento de ir-me embora, beijei-a, e ela,
desta vez, com toda a intensidade respondeu ao meu beijo. Meu
veneno fizera efeito. E disse-me com absoluta ingenuidade:
        - Gosto de si porque sua bondade  tal que nem a riqueza
pde estrag-lo.
        E acrescentou com malcia:
        - Agora sei que no devemos faz-lo esperar, mas que este
 o nosso nico perigo.
        No patamar perguntou-me ainda:
        - Posso mandar para longe o professor de canto e tambm
o Sr. Copler?
        Descendo rapidamente a escala, respondi:
        - Veremos!
        Eis que algo ainda permanecia em suspenso nas nossas
relaes; todo o resto estava claramente estabelecido.
        Disso me sobreveio tamanho mal-estar que, quando cheguei l
fora, indeciso encaminhei-me em direo oposta  de minha casa.
Tive quase o desejo de voltar imediatamente  casa de Carla
para explicar-lhe ainda uma coisa: meu amor por Augusta.
Podia faz-lo porquanto no dissera que no a amava. Apenas,
como concluso  verdadeira histria que lhe havia contado,
esquecera de dizer que agora eu amava verdadeiramente
Augusta. Carla, contudo, deduzira que de fato eu no amava minha
mulher; por isso correspondera to fervidamente ao meu beijo,
sublinhando-o com uma declarao de amor. Pareceu-me que,
no fora esse episdio, eu poderia suportar mais facilmente o
olhar confiante de Augusta. E pensar que pouco antes ficara
alegre por saber que Carla conhecia meu amor por minha mulher
e que assim, por deciso sua, a aventura que eu buscara me
viria oferecida na forma de uma amizade temperada de beijos.
        No jardim pblico sentei-me a um banco e, com a bengala,
tracei distraidamente no saibro aquela data. Depois ri
amargamente: sabia que tal data no assinalaria o fim de minhas
traies. Ao contrrio, elas iniciavam naquele dia. Onde poderia
encontrar foras para no voltar a ver a mulher to desejvel
que me esperava? Ademais, j assumira compromissos,
compromissos de honra. Dela recebera beijos e no me fora dado
recompens-la seno com alguma loua! Na verdade, era uma conta
no saldada o que ora me ligava a Carla.
        O almoo foi triste. Augusta no me pediu explicaes pelo
meu atraso e eu no lhas dei. Receava trair-me, tanto mais que,
no breve percurso entre o jardim e a casa, eu brincara com a
idia de revelar-lhe tudo, e a histria de minha traio poderia
assim estar inscrita na minha face honesta. Este seria o nico
meio de salvar-me. Contando-lhe tudo, me poria sob sua
proteo e sob sua vigilncia. Seria um ato de tal deciso que eu
poderia assinalar de boa f aquela data como um
encaminhamento  honestidade e  salvao.
        Falamos de muitas coisas sem importncia. Procurei ser
alegre, mas sequer consegui tentar parecer afetuoso. Ela parecia
ansiosa; decerto esperava uma explicao que no veio.
        Depois do almoo, Augusta voltou ao seu trabalho de separar
em armrios especiais nossa roupa de inverno. Dei com ela vrias
vezes durante a tarde, toda imersa no tal trabalho, l, ao fundo
do longo corredor, ajudada pela criada. Seu grande
aborrecimento no lhe interrompia a atividade.
        Inquieto, passei de nosso quarto de dormir ao banheiro. Quis
chamar Augusta e dizer-lhe pelo menos que a amava porque

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para ela - pobre simplria! - isto teria bastado. Em vez disso,
continuei a meditar e a fumar.
        Passei naturalmente por vrias fases. Houve inclusive um
momento em que aquele acesso de virtude foi interrompido pela
viva impacincia de ver chegar o dia seguinte para correr  casa
de Carla. Pode ser que at esse desejo fosse inspirado por algum
bom propsito. No fundo, a grande dificuldade estava em
empenhar-me sozinho no cumprimento do dever. A confisso, que
me traria o apoio de minha mulher, pareceu-me impensvel;
restava, portanto, Carla, em cuja boca eu podia selar meu
juramento com um ltimo beijo! Quem era Carla? A prpria
chantagem no seria o maior perigo a correr junto dela! No dia
seguinte, ela se tornaria minha amante: quem sabe o que depois
conseguiria de mim! S a conhecia pelo que dela me contava
o imbecil do Copler e com base em informaes provenientes
de outrem; um homem mais previdente do que eu, como por
exemplo Olivi, no teria aceito manter com ela nem sequer
relaes comerciais.
        Toda a bela e s atividade de Augusta nos arranjos da casa
estaria conspurcada. A cura drstica do matrimnio que eu havia
adotado na minha fatigante procura da sade estaria por terra.
Eu permaneceria mais doente do que nunca e exposto aos meus
danos e aos dos outros.
        Posteriormente, quando de fato me tornei amante de Carla,
voltando a pensar naquela triste tarde, no cheguei a
compreender por que antes de comprometer-me mais a fundo no fui
detido por algum propsito mais firme. Tinha lamentado tanto
minha traio antes de comet-la que talvez parecesse ter sido
fcil evit-la. Podemos rir das boas intenes que ocorrem depois
do acontecido, como tambm das que o antecedem, pois no
valem de nada. Nas horas angustiosas de ento, marquei em
grossos caracteres no meu livro de endereos, na letra C (Carla),
aquela data com a seguinte nota: 'ltima traio' Mas a primeira
traio efetiva, que conduziu a traio ulteniores, s teve lugar
no dia seguinte.
        J de tarde, sem nada melhor que fazer, tomei um banho.
Sentia o corpo imundo, queria lavar-me. Quando, porm, estava
no banho, pensei: "Para limpar-me deveria dissolver-me todo
nesta gua." Corri a vestir-me, mas to sem vontade que nem
me enxuguei devidamente. O dia desapareceu e fiquei  janela a
observar as folhas novas e verdes das rvores do jardim. Senti
um arrepio; com certa satisfao pensei fosse de febre. No
desejei a morte, apenas a doena, uma doena que me servisse
de pretexto para fazer o que queria ou que me impedisse de
faz-lo.
        Depois de haver hesitado algum tempo, Augusta veio
procurar-me. Vendo-a to meiga e destituda de rancor, senti
aumentar em mim os arrepios, a ponto de me fazerem bater os
dentes. Atemorizada, obrigou-me a recolher-me ao leito. Batiam-me
sempre os dentes de frio; como sabia no ter febre, impedia-a
de chamar o mdico. Pedi-lhe que apagasse a luz, que se sentasse
ao meu lado e ficasse em silncio. No sei por quanto tempo
permanecemos assim: reconquistei o necessrio calor e at
mesmo alguma confiana em mim. Tinha, contudo, a mente ainda
to ofuscada que, quando Augusta quis de novo chamar o
mdico, disse-lhe que sabia a razo de meu mal-estar e que lhe
contaria mais tarde. Voltava ao meu propsito de confessar. No me
restava outra sada para libertar-me de tanta opresso.
        Foi assim que ficamos ainda por algum tempo mudos. Mais
tarde, Augusta ergueu-se da poltrona e veio deitar-se ao meu lado.
Senti medo: talvez ela tivesse adivinhado tudo. Tomou-me a
mo, acariciou-a, depois apoiou a sua levemente sobre a minha
testa para ver se ardia, e por fim disse:
        - Voc devia esperar por isso! Por que essa surpresa
dolorosa?
        Fiquei impressionado com palavras to estranhas, ao mesmo
tempo pronunciadas atravs de um soluo sufocado. Era evidente
que no aludia  minha aventura. Pois, como poderia eu prev-la
ou imaginar que me afetaria daquela maneira? Com certa rudeza
perguntei:
        - Mas que quer voc dizer? Que devia prever eu?
        Murmurou confusa:
        - A chegada do pai de Guido para o casamento de Ada...
        Finalmente compreendi: pensava que eu sofria com a
iminncia do casamento da irm. Pareceu-me que estava sendo
realmente injusta comigo: eu no era culpado de semelhante delito.
Senti-me puro e inocente como um recm-nascido e
imediatamente liberto de qualquer opresso. Saltei da cama:

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        - Voc cr que eu sofra com o casamento de Ada? st
louca! Desde que me casei, nunca mais pensei nela. Nem me
lembrava mais que o Sr. Cada Volta havia chegado!
        Abracei-a e beijei-a cheio de desejo, e minha inflexo foi
marcada por tal sinceridade que ela se envergonhou de sua
suspeita.
        Sua face ingnua tambm ficou aliviada de quaisquer
preocupaes e fomos logo para a mesa do jantar. Naquela mesma
mesa, onde havamos sofrido tanto poucas horas antes, sentva-mo-nos
agora como dois bons companheiros em frias.
        Recordou-me que eu havia prometido contar a razo de meu
mal-estar. Fingi uma doena, a doena que me deveria propiciar
a faculdade de fazer sem culpa tudo quanto me agradasse. Contei-lhe
que j em companhia de dois velhos senhores, de manh,
me sentira profundamente deprimido. Depois, fora apanhar os
culos que o oculista me prescrevera. Talvez aquele sinal de
velhice tivesse piorado a minha depresso. E fiquei a vagar pelas
ruas da cidade por horas e horas. Contei-lhe at mesmo alguns
dos meus delrios imaginrios que, havia tanto, me faziam sofrer,
e recordo que continham inclusive um esboo de confisso. No
sei qual a relao deles com a doena imaginria, mas falei ainda
de nosso sangue que circulava sem parar, nos mantinha de p,
e nos fazia capazes de pensamentos e aes e, por isso, de culpa
e remorso. Ela no compreendeu que se tratava de Carla; a mim,
porm, pareceu que lhe havia dito.
        Depois do jantar, pus os culos e fingi durante algum tempo
ler o jornal, mas aqueles vidros enevoavam-me a vista. Tive uma
espcie de alegre tontura, como se me achasse ligeiramente
alcoolizado. Disse que no conseguia compreender o que estava
lendo. Continuava a bancar o doente.
        Passei a noite a bem dizer insone. Esperava o abrao de Carla
com imenso desejo. Queria de fato a jovem das grossas tranas
fora do lugar e de voz to musical, quando a nota no lhe era
imposta. Fazia-se desejvel at mesmo pelo que j havia sofrido
por ela. Fui perseguido durante toda a noite por um frreo
propsito. Haveria de ser sincero com Carla antes de torn-la minha
e lhe diria toda a verdade acerca de minhas relaes com
Augusta. Na minha solido pus-me a rir: era bastante original isto
de ir  conquista de uma mulher tendo nos lbios a declarao
de amor por outra. Talvez Carla retornasse  sua passividade!
E por qu? Por ora nenhum ato seu poderia diminuir o apreo
de sua submisso, da qual me parecia poder estar seguro.
        Na manh seguinte, ao vestir-me, murmurava as palavras que
lhe diria. Antes de ser minha, Carla deveria saber que Augusta,
com seu carter e tambm com sua sade (e levaria algum tempo
para explicar o que entendo por sade, coisa que serviria
igualmente para a edificao de Carla), havia conseguido conquistar
o meu respeito e tambm o meu amor.
        Ao tomar o caf, estava to absorto na preparao desse to
elaborado discurso que Augusta no obteve de mim outro sinal
de afeto seno um leve beijo antes de eu sair. Que importava,
se era todo seu! Corria para Carla a fim de reacender minha
paixo por Augusta.
        Mal entrei no quarto onde Carla tinha o seu estdio, senti
um tal alvio por encontr-la s que imediatamente agarrei-a e
comecei a abra-la com paixo. Apavorou-me a energia com
que me repeliu. Uma verdadeira violncia! Parecia no querer
saber de mim e fiquei de boca aberta em meio  sala,
dolorosamente desiludido.
        Mas Carla logo se recuperou, murmurando:
        - No v que a porta estava aberta e que algum vinha
descendo as escadas?
        Assumi o aspecto de um visitante cerimonioso para dar tempo
a que passasse o importuno. Depois fechamos a porta. Ela
empalideceu vendo que eu dava a volta  chave. Assim, tudo estava
claro. Pouco depois murmurou entre os meus braos, com voz
sufocada:
        - Voc quer mesmo?
        J no me chamava de senhor, e isto foi decisivo. Da eu ter
respondido sem hesitar:
        - No quero outra coisa!
        Esquecera que antes desejava esclarecer-lhe algo.
        Logo depois quis falar de minhas relaes com Augusta, eu
que no conseguira faz-lo antes. Mas o momento era difcil.
Falar de outra coisa com Carla naquele instante seria como
diminuir a importncia da sua entrega. At o mais insensvel dos
homens sabe que no se pode fazer uma coisa destas, embora
todos saibam que no h comparao entre a importncia da

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entrega antes que ocorra e imediatamente depois. Seria uma
grande ofensa para uma mulher, que nos abrisse os braos pela
primeira vez, ouvir-nos dizer-lhe: "Antes de mais nada, quero
esclarecer algo que lhe disse ontem..." Mas que ontem? Tudo
o que aconteceu no dia anterior deve parecer indigno de ser
mencionado e se ocorre que um cavalheiro no venha a sentir
assim, tanto pior para ele, devendo proceder de modo a que
ningum mais d por isso.
        Eu era sem dvida um indivduo assim, pois na minha
simulao cometi um engano, que na minha sinceridade no faria.
Perguntei-lhe:
        - Como foi que voc se entregou a mim? Como mereci uma
coisa destas?
        Queria mostrar-me grato ou reprov-la? Provavelmente no
passava de uma tentativa para iniciar as explicaes.
        Um pouco surpresa, ela olhou para cima, a fim de observar
minha reao:
        - Pois eu julguei que voc  que me tinha possudo - e
sorriu afetuosamente para provar que no era sua inteno
repreender-me.
        Recordei que as mulheres exigem que se diga que elas foram
possudas. Depois, ela prpria percebeu que se havia enganado,
que as coisas se tomam e as pessoas se entregam; murmurou:
        - Estava  sua espera. Era o cavalheiro que devia libertar-me.
Decerto  pena que voc seja casado, mas, visto que no ama
sua mulher, pelo menos sei que a minha felicidade no destri
a de ningum.
        Senti-me de tal forma atacado por minha dor lombar que
tive de renunciar a abra-la. Ento a importncia de minhas
palavras inconsideradas no fora exagerada por mim? Era
exatamente a minha mentira que havia induzido Carla a tornar-se
minha? Se lhe quisesse falar de meu amor por Augusta, Carla
teria o direito de reprovar-me por hav-la enganado! Emendas e
explicaes no eram mais possveis naquele momento. Em
seguida, haveria a oportunidade de explicar e esclarecer.  espera
de que esta se apresentasse, eis que se constitua um novo
vnculo entre eu e Carla.
        Ali, ao lado de Carla, renasceu toda a minha paixo por
Augusta. Eu no tinha agora seno um desejo: correr para minha
verdadeira mulher, s para v-la entregue ao seu trabalho de
formiga assdua, a cuidar de nossa roupa numa atmosfera de
cnfora e naftalina.
        Mas permaneci fiel ao meu dever, que foi gravssimo em
funo de um episdio que muito me perturbou a princpio, pois
que me pareceu outra ameaa, vinda a mim daquela esfinge
com a qual eu tratava. Carla contou-me que pouco depois de eu
haver sado no dia anterior chegara o professor de canto e que
ela o pusera na rua.
        No consegui ocultar um gesto de contrariedade. Era o mesmo
que avisar Copler de nossa mancebia.
        - Que dir Copler? - exclamei.
        Ps-se a rir e refugiou-se, desta vez por iniciativa sua, entre
os meus braos:
        - No havamos combinado p-lo tambm pela porta afora?
        Era uma graa, mas j no podia conquistar-me. Logo assumi
uma atitude que me ficava bem, a do pedagogo, porque me
propiciava a possibilidade de desafogar o rancor que me ia no
fundo da alma por aquela mulher que no me permitia falar
como eu desejara a respeito de minha esposa. Neste mundo 
preciso trabalhar - disse-lhe - porque, como ela j devia saber,
este era um mundo mau, onde os fortes dominam. E se eu viesse
a morrer? Que aconteceria a ela? - Levantei a hiptese de meu
abandono de um modo que ela prpria no podia ofender-se
e de fato at se comoveu. Depois, com a evidente inteno de
humilh-la, disse que com minha mulher bastava eu manifestar
um desejo qualquer para v-lo satisfeito.
        - Pois bem! - disse resignada. - Mandaremos informar ao
professor que volte! - A seguir tentou infundir-me a antipatia
que o maestro lhe provocava. Todos os dias devia agentar a
companhia daquele velhote antiptico que a obrigava a repetir
vezes sem fim os mesmos exerccios que no conduziam a nada,
a nada mesmo. Ela s se lembrava de ter passado alguns dias
agradveis quando o maestro esteve doente. Esperou mesmo que
morresse, mas no teve esta sorte.
        Por fim, tornou-se inclusive violenta em seu desespero.
Repetiu, exagerando-o, seu lamento por no ter tido sorte na vida:
era uma desgraada, no tinha remdio. Quando lembrava que
me havia amado imediatamente porque lhe pareceu que as mi-

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nhas aes, as minhas palavras, os meus olhares eram para ela
uma promessa de vida menos difcil, menos trabalhosa, menos
desagradvel, sentia at vontade de chorar.
        Foi assim que conheci os seus soluos, os quais me importunavam;
eram violentos a ponto de sacudir, penetrando-o, seu
hbil organismo. Parecia-me sentir imediatamente um brusco
assalto ao meu bolso e  minha vida. Perguntei-lhe:
        - Mas voc acha que minha mulher no faz nada em casa?
Neste momento em que estamos aqui a conversar, ela tem os
pulmes infestados pela cnfora e a naftalina.
        Carla soluou:
        - As roupas, os mveis, os vestidos. . . Ela  que  feliz!
        Pensei irritado que ela quisesse fosse eu a correr para
comprar-lhe todas aquelas coisas, a fim de lhe proporcionar a
ocupao que eu preferia. No demonstrei irritao, graas aos cus,
e obedeci  voz do dever que gritava: "Acaricia a jovem que
se entregou a ti!" Acariciei-a. Passei a mo suavemente pelos
seus cabelos. Da resultou que seus soluos se acalmaram e suas
lgrimas fluram abundantes e incontidas como a chuva que se
segue  trovoada.
        - Voc  o meu primeiro amante - disse ainda -, e espero
que no deixe de me amar!
        Aquela sua comunicao, de que eu era o seu primeiro amante,
designao que preparava o lugar para um segundo, no me
comoveu muito. Era uma declarao que chegava atrasada, pois
havia bem uma meia hora o argumento fora abandonado. Alm
disso, configurava uma nova ameaa. Uma mulher cr que tem
todos os direitos sobre o seu primeiro amante. Com doura
murmurei-lhe ao ouvido:
        -        Voc tambm  a primeira amante que tenho.., desde
que me casei.
        A doura da voz mascarava a tentativa de equiparar as duas
situaes.
        Pouco depois deixei-a porque no queria de modo algum
chegar a casa tarde para o almoo. Antes de sair tirei de novo
do bolso o envelope que eu chamava dos bons propsitos, j
que fora criado por um timo propsito. Tinha necessidade de
pagar para me sentir mais livre. Carla de novo recusou o
dinheiro e ento me aborreci fortemente, mas soube impedir a
manifestao desse aborrecimento, gritando palavras
carinhosssimas. Gritava para no espanc-la, mas tambm poderia
perceb-lo. Disse-lhe que chegara ao mximo dos meus desejos
possuindo-a, e agora queria ter a sensao de possu-la ainda
mais, mantendo-a completamente. Por isso devia fazer tudo para
no me aborrecer, pois eu podia sofrer muito. Querendo ir-me
s pressas, resumi em poucas palavras meu conceito, que se
tornou - assim gritado - muito brusco.
        - Voc  minha amante, no ? Portanto, tenho de
sustent-la.
       Ela, aturdida, deixou de resistir e tomou o envelope, enquanto
me olhava ansiosa, estudando o que seria a verdade, o meu grito
de dio ou talvez as palavras de amor com que lhe era entregue
tudo quanto ela desejara. Acalmou-se um pouco quando, antes
de partir, aflorei levemente com os lbios sua fronte. Na escada,
veio-me a dvida de que ela, dispondo daquele dinheiro e tendo
sentido que me encarregava de seu futuro, iria pr na rua o
prprio Copler, quando este de tarde viesse  sua casa. Tive
vontade de subir de novo as escadas para exort-la a no
comprometer-me com semelhante ato. Mas no havia tempo e tive
de correr para casa.
        Temo que o mdico que vai ler este manuscrito venha a
pensar que Carla tambm seria um assunto interessante para a
psicanlise. Poder parecer-lhe que aquela entrega, precedida do
despedimento do professor de canto, fora bastante precipitada.
Tambm a mim me parecia que ela esperava demasiadas
concesses como prmio de seu amor. Passaram-se meses e meses
para que eu compreendesse melhor a pobre moa. Talvez se
tivesse deixado prender para libertar-se da inquietante tutela de
Copler, e fosse para ela surpresa bastante dolorosa perceber que
se havia entregue em vo, pois eu continuava a exigir exatamente
o que mais lhe custava, ou seja, o canto. Estava ainda em meus
braos e eu j lhe fazia saber que devia cantar. Da, uma ira
e uma dor que no encontravam as palavras justas. Por motivos
diversos acabamos os dois por dizer estranhssimas palavras.
Quando comeou a me amar, readquiriu todo o natural que a
atitude calculada lhe roubara. Eu jamais consegui ser natural
com ela.

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        Enquanto me apressava, ia pensando: "Se soubesse o quanto
amo minha mulher, decerto se comportaria de outra maneira."
E quando ela o soube, de fato comportou-se de maneira diversa.
        Em plena nua, respirei a liberdade e no senti a dor de hav-la
comprometido. Restava ainda bastante tempo at o dia seguinte
e talvez conseguisse encontrar uma sada para as dificuldades
que me ameaavam. Correndo para casa tive at coragem de
insurgir-me contra nosso sistema social, como se fosse o culpado
de minhas transgresses. Achava eu que ele devia ser
suficientemente flexvel para permitir que de tempos em tempos (no
sempre) se pudesse prevaricar sem temor das conseqncias, mesmo
com as mulheres que deveras no amamos. No havia sinais de
remorso em mim. Da eu pensar que o remorso no nasce do
arrependimento de uma ao m j cometida, mas da viso de
nossa prpria disposio pecaminosa. A parte superior do corpo
inclina-se para olhar e julgar a outra parte, que acha disforme.
Sente asco, e isto se chama remorso. Na tragdia clssica a
vtima no retornava  vida; o remorso, contudo, desaparecia.
Coisa que significava que a deformidade era curada e que,
portanto, as lamentaes dos outros no tinham nenhuma
importncia. Onde haveria lugar em mim para o remorso, quando
corria com tanto afeto e com tanta satisfao para a minha
legtima esposa? H muito que no me sentia to puro.
        Ao almoo, sem qualquer esforo, mostrei-me alegre e
afetuoso para com Augusta. No houve naquele dia nenhuma
nota desafinada entre ns. Nada de excessos: portei-me como
devia portar-me com a mulher que era honesta e fielmente
minha. Houve vezes em que se registraram excessos de
afetuosidade de minha parte, mas s quando no meu esprito se travava
uma luta entre as duas mulheres e, excedendo-me nas
manifestaes de afeto, era-me mais fcil ocultar a Augusta que entre
ns havia, pelo menos por ora, a sombra bastante forte de outra
mulher. Por isso posso mesmo dizer que Augusta me preferia
quando eu no era inteira nem sinceramente seu.
        Eu prprio estava um tanto surpreso com minha calma e
atribua-a ao fato de que conseguira fazer com que Carla
aceitasse o envelope dos bons propsitos. No que com isso
acreditasse estar quite com ela. Parecia-me, porm, haver comeado
a pagar uma indulgncia. Infelizmente durante todo o tempo
que durou meu relacionamento com Carla, o dinheiro foi minha
preocupao principal. Em vrias ocasies pus algum de parte
em lugares bem escondidos da biblioteca, para estar preparado
a fazer face a qualquer exigncia da amante que eu tanto temia.
Assim, aquele dinheiro, que Carla deixou ao abandonar-me,
acabou servindo para pagar coisas bem diversas.
        Devamos passar a noite em casa de meu sogro para um jantar
do qual participariam apenas os membros da famlia e que devia
substituir o tradicional banquete de casamento, que teria lugar
dali a dois dias. Guido queria aproveitar a melhora de Giovanni
e casar-se logo, pois no acreditava que ela fosse duradoura.
        Fui com Augusta bem cedo aquela noite para a casa dos
sogros. No caminho, recordei-lhe que no dia anterior ela
suspeitara de que eu ainda sofresse com esse evento. Envergonhou-se
de tal suspeita e valorizei minha inocncia. Nem me lembrava
mais de que a solenidade da noite era a preparao do
casamento!
        Embora no houvesse outros convidados seno os da famlia,
os sogros quiseram que o jantar fosse preparado com todo o
requinte. Augusta foi chamada a ajudar na decorao da mesa.
ALberta no queria envolver-se. No fazia muito tempo, obtivera
um prmio num concurso para comdias em um ato, e agora se
preparava alacremente para a reforma do teatro nacional. Assim,
ficamos diante daquela mesa apenas ns, eu e Augusta, ajudados
por um criada e por Luciano, empregado do escritrio de
Giovanni, que demonstrava possuir talento tanto para as tarefas
burocrticas quanto para as domsticas.
        Ajudei a levar flores para a mesa e a distribu-las em boa ordem.
        - Veja - disse, brincando com Augusta - que eu tambm
contribuo para a felicidade deles. Se me pedisse para lhes
preparar o leito nupcial, eu o faria com a mesma serenidade!
        Procuramos, depois, pelos noivos que haviam regressado de
uma visita de cerimnia. Estavam escondidos no canto mais
discreto do salo e at o momento em que os encontramos suponho
que andassem aos beijos. A noiva nem sequer havia tirado seu
traje de passeio e estava linda, enrubescida pelo calor.
        Creio que os noivos, para ocultar o trao dos beijos que haviam
trocado, queriam dar a impresso que estavam discutindo
cincia. Era uma tolice, mas igualmente uma impropriedade! Que-

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riam afastar-nos de sua intimidade ou pensavam que seus beijos
podiam magoar algum? Isto talvez tenha prejudicado meu bom
humor. Guido dizia que Ada no acreditava em sua afirmao
de que h certas vespas capazes de paralisar, com uma ferroada,
outros insetos s vezes mais fortes do que elas, mantendo-os
depois imveis, vivos e frescos, para alimento de sua
descendncia. Eu me lembrava de que havia algo assim monstruoso na
natureza, mas naquele instante no quis dar ganho de causa a
Guido:
        - Voc acha que eu sou uma vespa, para me fazer tal
pergunta? - respondi rindo.
        Deixamos os noivos para que se ocupassem de coisas mais
agradveis. Eu, contudo, comeava a achar a tarde longa demais
e tive vontade de ir para o meu estdio e l esperar pela hora
da festa.
        Na sala de estar encontramos o Dr. Paoli, que saa do quarto
de meu sogro. Era um mdico que no obstante jovem j
conquistara boa clientela. Muito louro, branco e rosado como um
beb. Seu fsico, porm, era poderoso e seu olhar grave
emprestava um ar srio e imponente a toda a sua pessoa. Os culos
faziam seus olhos parecerem ainda maiores e seu olhar se
agarrava s coisas como uma carcia. Agora que conheo bem tanto
ele quanto o Dr. S. - o da psicanlise -, acho que os olhos
deste so inquisidores por inteno, enquanto os do Dr. Paoli
o so por fora de uma insopitvel curiosidade. Paoli v
nitidamente o seu cliente, mas tambm a mulher deste e a cadeira em
que ela se senta. S Deus sabe qual dos dois conhece melhor os
seus clientes! Durante a doena de meu sogro fui
freqentemente ao consultrio do Dr. Paoli para convenc-lo de no levar
ao conhecimento da famlia que a catstrofe era iminente;
recordo que um dia, olhando-me mais demoradamente do que era
de meu gosto, ele disse sorridente:
        - O senhor adora sua mulher!
        Era homem observador, porque na verdade eu adorava minha
mulher, na poca em que ela sofria tanto com a doena do pai
e em que eu a traa diariamente.
        Disse-nos que Giovanni estava bem melhor do que no dia
anterior. Alm disso, no se mostrava preocupado porque a poca
do ano era favorvel, e em sua opinio os noivos podiam
tranqilamente seguir viagem aps o casamento. - Naturalmente -
acrescentava com cautela -, no ocorrendo complicaes
imprevisveis. - Seu prognstico concretizou-se, pois que advieram
complicaes imprevisveis.
        No instante de despedir-se, recordou-se de que conhecamos
um certo Copler, a cuja casa fora chamado naquele mesmo dia
para uma consulta. Encontrou o enfermo atacado de paralisia
renal. Referiu-se ao fato de que a enfermidade fora precedida
de uma horrvel dor de dentes. E aqui fez um prognstico grave,
embora, como de hbito, atenuado por uma dvida:
        - Se passar desta noite,  possvel at que ainda viva
muitos anos.
        Augusta, compungida, teve os olhos cheios de lgrimas e me
pediu que corresse logo a ver o nosso pobre amigo. Aps uma
hesitao, aquiesci ao seu desejo, e de bom grado, pois minha
alma de sbito encheu-se de Carla. Como fora rude com a pobre
moa! Eis que, com a morte de Copler, ela ficaria l sozinha,
no seu patamar, j no de todo comprometida, de vez que seria
removido o nico elo que a ligava ao meu mundo. Era preciso
correr at ela para apagar a impresso que lhe devia ter causado
minha dura atitude da manh.
        Contudo, por prudncia, fui antes de mais nada visitar Copler.
Para poder dizer a Augusta o que tinha visto.
        J conhecia o modesto mas decente e cmodo apartamento
onde Copler morava na Corsia Stadion. Um velho inquilino
havia sublocado a ele trs de seus cinco aposentos. Fui recebido
por este, um homem gordo, ofegante, olhos irritados, que
caminhava inquieto de um lado para outro, depois de ter
constatado que Copler agonizava. O velho falava em voz baixa,
sempre ofegando, como se temesse perturbar a tranqilidade do
moribundo. Eu tambm baixei a voz.  uma forma de respeito,
como ns homens o sentimos;  possvel que o moribundo
preferisse sentir-se acompanhado em seu ltimo instante por vozes
claras e fortes que lhe recordassem a vida.
        O velho informou-me que o moribundo estava sendo assistido
por uma irm de caridade. Cheio de respeito, detive-me por
alguns instantes diante da porta do quarto em que o pobre
Copler, no seu estertor, com ritmo exato, media os ltimos
instantes. A respirao ruidosa compunha-se de dois sons: hesi-

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tante o que era produzido pelo ar que ele inspirava; precipitado
o que brotava do ar expulso. Pressa de morrer? Uma pausa
seguia-se aos dois sons e pensei que, quando aquela pausa se
alongasse, uma nova vida comearia.
        O velho quis que eu entrasse no quarto, mas no entrei. J
fora fitado por mais de um moribundo com expresso de censura.
        No esperei que a pausa se alongasse e corri para a casa de
Carla. Bati  porta de seu estdio, fechada a chave, e ningum
respondeu. Impaciente, comecei a dar-lhe pequenos pontaps
e s minhas costas abriu-se a porta do outro quarto. A voz da
me de Carla perguntou:
        - Mas quem ? - Depois a velha apareceu temerosa e, ao
me reconhecer  luz amarelada que emanava da cozinha, percebi
que sua face se cobria de intenso rubor, salientado pela ntida
brancura de seus cabelos. Carla no estava, e ela prontificou-se
a passar por dentro para abrir-me a porta do estdio e receber-me
no cmodo que achava ser o nico digno de mim. Pedi-lhe
para no se incomodar, entrei no compartimento da cozinha e
sentei-me sem mais numa cadeira de lenho. No fogareiro, sob
uma panela, ardia um modesto monte de carvo. Disse-lhe que
no se incomodasse comigo e cuidasse da refeio. Ela
tranqilizou-me. Cozinhava feijo, que de resto nunca ficava
suficientemente cozido. A pobreza da refeio que preparava na casa
cujas despesas eu agora deveria sustentar sozinho abrandou-me
e atenuou a raiva sentida por no ter encontrado a amante 
minha espera.
        A senhora permanecia de p, embora eu insistisse vrias vezes
para que sentasse. Sbito, contei que viera para dar  Srta. Carla
uma pssima notcia: Copler estava  morte.
        A velha deixou cair os braos e imediatamente sentiu
necessidade de sentar-se.
        - Meu Deus! - murmurou. - E que faremos agora?
        Logo se deu conta de que a sorte de Copler era mais negra
que a sua, acrescentando com pesar:
        - Pobre senhor! Era to bom!
        Tinha a face j banhada pelas lgrimas. Ela, evidentemente,
no sabia que, se o pobre homem no tivesse morrido a tempo,
teria sido posto para fora daquela casa. Tambm isso me
tranqilizou. Estava circundado pela mais absoluta discrio!
        Quis tranqiliz-la e comuniquei-lhe que eu continuaria a
fazer por elas tudo quanto Copler fizera at ento. Protestou,
dizendo que no lamentava por ela, j que se sabia amparada
por pessoas to bondosas, mas pelo destino daquele que fora seu
grande benfeitor.
        Quis saber de que doena morrera Copler. Relatei-lhe como
o trspasse se anunciara, recordei-lhe a discusso que tivera
certa vez com Copler sobre a utilidade da dor. Eis que no seu
caso os nervos dentais comearam a reagir pedindo ajuda, pois
a um metro de distncia deles os rins tinham deixado de
funcionar. Estava to indiferente ao destino do amigo de quem vira
h pouco o estertor que continuava a entreter-me com suas
teorias. Se pudesse ainda ouvir-me, dir-lhe-ia que era possvel
compreender que os dentes do doente imaginrio pudessem doer
verdadeiramente por causa de uma enfermidade que se
manifestava a alguns quilmetros de distncia.
        Pouco havia mais de conversa possvel entre a velha e eu;
por isso aquiesci em esperar Carla no estdio. Apanhei o livreto
de Garcia e tentei ler algumas pginas. Mas a arte do canto no
me tocava muito.
        A velha voltou para onde eu estava. Mostrava-se inquieta com
a demora de Carla. Disse que a filha sara para comprar uns
pratos de que tinham necessidade urgente.
        Minha pacincia estava a ponto de exaurir-se. Contrariado,
perguntei:
        - Como foi que quebraram os pratos? Por que no prestam
mais ateno?
        Assim me libertei da velha, que voltou para a cozinha a
lamentar-se:
        - Foram s dois.., por culpa minha...
        Isto me provocou um momento de hilaridade, pois estava a
par de que todos os pratos da casa tinham sido destrudos, no
pela velha, mas por Carla. Fiquei sabendo mais tarde que a
filha no era nada paciente com ela, da o enorme receio de
falar das atividades da moa com os seus protetores. Parece que,
certa vez, por ingenuidade, contou a Copler que Carla se
aborrecia terrivelmente com as lies de canto. Copler agastou-se
com Carla, que ficou furiosa com a me.

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        Foi assim que, quando minha deliciosa amante finalmente
apareceu, amei-a violentamente, com fria. Ela, encantada,
sussurrava:
        - E eu que duvidava do seu amor! Passei o dia inteiro
perseguida pelo desejo de matar-me, sentindo que me havia entregue
a um homem que em seguida me tratou to mal!
        Expliquei-lhe que no raro sou afligido por terrveis dores de
cabea, e, ao me encontrar num estado em que, se no tivesse
resistido valentemente, teria corrido para junto de Augusta,
bastou falar nos meus males para conseguir dominar-me. Estava
fazendo progressos. Choramos juntos o pobre Copler, at juntos
demais!
        De resto, Carla no era indiferente ao fim atroz de seu
benfeitor. Ao falar dele, estava plida:
        - Eu me conheo bem! - disse. - Vou ficar por muito
tempo com medo de estar sozinha. Quando vivo, ele j me fazia
tanto medo!
        E pela primeira vez, timidamente, props que eu passasse a
noite em sua companhia. No tinha a menor inteno de faz-lo
e no saberia prolongar nem mesmo por meia hora minha
permanncia naquele quarto. Mas, sempre atento para no
demonstrar  pobre moa meu verdadeiro nimo, do qual eu era o
primeiro a condoer-me, fiz algumas objees  proposta, dizendo-lhe
que tal coisa no era possvel, j que a velha me habitava
a mesma casa. Com indisfarvel desdm ela arqueou os lbios:
        - Trazemos a cama para c; ela no se atrevenia de espiar-me.
        Contei-lhe ento sobre o banquete  minha espera em casa;
logo, porm, senti necessidade de dizer-lhe que nunca me seria
possvel passar uma noite com ela. No propsito de bondade que
havia feito pouco antes, consegui domar toda a aspereza de
minha voz, que permaneceu afetuosa, mas pareceu-me que, se
fizesse outra concesso qualquer ou apenas deixasse esperar,
isto equivalenia a uma nova traio a Augusta, que eu no queria
cometer.
        Naquele momento senti quais eram os meus vnculos mais
fortes com Carla: meu propsito de afeto e as mentiras que lhe
dissera sobre minhas relaes com Augusta e que aos poucos,
devaganinho, no curso do tempo, era preciso atenuar e at mesmo
anular. Por isso iniciei essa obra .na mesma noite, naturalmente
com a devida prudncia, pois era ainda demasiado fcil recordar
o fruto que obtivera com a minha mentira. Disse-lhe que eram
muito fortes as obrigaes que sentia para com minha mulher,
pessoa to digna de ser melhor amada e a quem jamais daria o
desgosto de saber que eu a traa.
        Carla abraou-me:
        -  por isso que amo voc: bom e afetuoso como o senti
desde a primeira vez. Jamais tentarei causar mal quela
pobrezinha.
        A mim no agradava ouvi-la chamar minha mulher de
pobrezinha, mas fiquei reconhecido  pobre Carla pela sua
indulgncia. Era timo que no odiasse minha mulher. Quis
demonstrar-lhe o meu reconhecimento e olhei em torno  procura de
um sinal de afeto. Acabei por encontr-lo. Tambm ela fazia
jus  sua lavanderia: permiti-lhe dispensar definitivamente o
professor de canto.
        Carla teve um mpeto de afeto que me constrangeu, mas que
suportei valentemente. Depois, disse-me que de maneira alguma
abandonara o canto. Cantava o dia inteiro, s que  sua maneira.
Queria mesmo que eu ouvisse uma cano. Mas eu no tinha
tempo e aproveitei para sair s pressas. Creio que, naquela noite,
ela voltou a pensar em suicdio, mas nunca lhe dei tempo para
revelar-me isso.
        Voltei  casa de Copler para depois levar a Augusta as
ltimas notcias do doente, a fim de que ela pensasse que eu passara
em companhia dele todas as horas de minha ausncia. Coplen
j falecera h duas horas, logo aps minha sada. Acompanhado
do velho aposentado, que continuava a andar de um lado para
o outro do corredor, entrei na cmara morturia. O cadver
jazia vestido sobre a nudez do colcho. Tinha nas mos um
crucifixo. Em voz baixa o aposentado contou-me que todas as
formalidades tinham sido cumpridas e que uma sobrinha do
extinto passaria a noite junto ao cadver.
        Assim pude ir-me embora, sabendo que ao meu pobre amigo
era concedido todo aquele pouco que ainda lhe podia ocorrer;
contudo, ainda permaneci alguns minutos a fit-lo. Muito
apreciaria que de meus olhos brotasse uma lgrima sincera pelo
pobre que tanto lutara contra a sua doena, a ponto de tentar
um acordo com esta. -  doloroso! - disse. A doena, para

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a qual havia tantos medicamentos, matara-o brutalmente.
Parecia uma irriso. Mas a minha lgrima falhou. A face emaciada
de Copler nunca pareceu to forte como na rigidez da morte.
Dava a impresso de ter sido produzida por um escalpelo num
mrmore colorido, e ningum conseguiria prever a iminncia
da putrefao. Era, porm, uma verdadeira vida o que
manifestava aquela face: desaprovava desdenhosamente talvez a mim,
o doente imaginrio, ou talvez Carla, que no queria cantar.
Estremeci por um momento, parecendo-me que o morto
recomeava a estertorar. No demorei, no entanto, a recuperar minha
calma de crtico, ao perceber que aquilo que me parecera um
estertor nada mais era do que o ofegar, aumentado pela
emoo, do aposentado junto a mim.
        Em seguida, este acompanhou-me  porta e pediu-me que, se
soubesse de algum que quisesse alugar um quartinho,
recomendasse o seu:
        - Veja o senhor que mesmo em tais circunstncias eu soube
cumprir o meu dever, e at mais que isto, muito mais!
        Pela primeira vez ergueu a voz, na qual ecoou um
ressentimento, sem dvida destinado ao pobre Copler que lhe deixava
livre o quarto sem o devido aviso prvio. Sa a correr,
prometendo tudo o que ele me pedia.
        Em casa de meu sogro cheguei no momento em que os
convidados se acomodavam  mesa. Pediram-me notcias e eu, para
no comprometer a alegria do banquete, disse que Copler ainda
vivia e que restava, pois, alguma esperana.
        Pareceu-me que a reunio corria um tanto triste. Talvez eu
tivesse essa impresso a vista de meu sogro, condenado a uma
sopinha e a um copo de leite, enquanto  sua volta todos se
regalavam com os manjares mais requintados. Sem ter muito
com que distrair-se, empregava o tempo a observar os outros
comerem. Vendo que o Sr. Fnancesco se dedicava ativamente aos
acepipes, murmurou:
        - E pensar que  dois anos mais velho do que eu!
        Depois, quando o Sr. Francesco entrou no terceiro copo de
vinho branco, resmungou em voz baixa:
-        o terceiro! Pena que no seja de fel!
        O augrio no me teria perturbado se tambm eu no estivesse
comendo e bebendo quela mesa e no soubesse que a mesma
metamorfose seria augurada ao vinho que passava por minha
boca. Por isso comecei a comer e beber s escondidas.
Aproveitava as oportunidades em que meu sogro enterrava o enorme
nariz no copo de leite ou respondia a alguma pergunta que lhe
era dirigida para engolir grandes bocados ou sorver plenos goles
de vinho. Albenta, apenas no intuito de fazer rir aos outros,
avisou Augusta de que eu estava bebendo demais. Minha
mulher, de brincadeira, ameaou-me com o dedo. No o fez por
mal, mas j agora no valia a pena comer s escondidas.
Giovanni, que at ento mal dera acordo da minha presena,
dirigiu-me por cima dos culos um olhar de verdadeiro dio. Disse:
        -        Nunca abusei da comida ou da bebida. Quem faz isto no
 um homem deveras, mas um... - e repetiu vrias vezes a
ltima palavra, que no era de fato um elogio.
        Sob o efeito do vinho, a palavra ofensiva, acompanhada de
um riso geral, despertou-me no nimo um desejo de vingana
verdadeiramente irracional. Ataquei meu sogro no que tinha de
mais fraco: a sua doena. Gritei que no era homem de fato
no o que abusava de comida, mas o que de repente se
adaptava s prescries do mdico. Eu, no lugar dele, seria, ao
contrrio, independente. No casamento de minha filha - quando nada
pelo afeto que lhe dedicasse - no haveria de permitir que me
impedissem de comer e de beber.
        Giovanni observou com ira:
        -        Queria ver voc no meu lugar!
        -        No basta que eu esteja no meu? Deixei por acaso de
fumar?
        Era a primeira vez que dispunha da oportunidade de gabar-me
de minha fraqueza e de imediato acendi um cigarro, a fim
de ilustrar na prtica as minhas palavras. Todos riram e
contaram ao Sr. Francesco como a minha vida andava cheia de
ltimos cigarros. Aquele, contudo, no era dos ltimos e eu me
sentia forte e combativo. Logo perdi o apoio dos demais,
quando servi vinho a Giovanni em seu grande copo de gua.
Tinham medo de que ele bebesse e gritavam para impedi-lo, at
que a Sra. Malfenti conseguiu pegar o copo e afast-lo dali.
        -        Confessa que voc queria matar-me? - perguntou
calmamente Giovanni, observando-me com curiosidade. - Ou foi

208 209

o        vinho que voc tomou? - Ele no fizera um s gesto para
aproveitar-se do vinho que lhe oferecera.
        Senti-me verdadeiramente aviltado e vencido. Quase atirei-me
aos ps de meu sogro para pedir-lhe perdo. Mas tambm isto me
pareceu um impulso do vinho, e me contive. Pedir perdo seria
confessar minha culpa, ao passo que o banquete continuava e
duraria o bastante para oferecer-me a oportunidade de reparar
a brincadeira to mal-sucedida. H tempo para tudo neste mundo.
Nem todos os bbados so presas imediatas de todas as
sugestes do vinho. Quando bebo em demasia, analiso meus impulsos
da mesma forma que quando estou tranqilo e provavelmente
com o mesmo resultado. Continuei a observar-me para
compreender como havia chegado ao pensamento malvolo de prejudicar
meu sogro. E percebi que estava cansado, mortalmente cansado.
Se todos soubessem o dia que eu passara haveriam de perdoar-me.
Por bem duas vezes havia tomado e abandonado
violentamente uma mulher e por duas vezes retornara  minha, para
reneg-la tambm por duas vezes. Minha sorte foi que, por
associao, surgiu na minha lembrana, de repente, o cadver sobre
o qual em vo tentara chorar, e o pensamento fixado nas duas
mulheres desapareceu; caso contrrio, teria acabado por falar
em Carla. No tive sempre o desejo de confessar-me, mesmo
quando a ao do vinho no mais me fazia magnnimo?
Acabei por falar de Copler. Queria que todos soubessem que eu
perdera um grande amigo naquele dia. Haveriam de desculpar
minha atitude.
        Gritei que Copler morrera, morrera mesmo, e que me calara
at ali para no entristecer a todos. Vejam! Vejam! Eis que
finalmente senti correr-me lgrimas nos olhos e tive que voltar o
rosto para ocult-las.
        Todos riram, pois no acreditavam em mim; interveio ento
a obstinao, que  verdadeiramente o carter mais evidente do
vinho. Descrevi o morto:
        -        Parecia esculpido por Miguel ngelo, ali rgido, na pedra
mais incorruptvel.
        Houve silncio geral, interrompido por Guido ao exclamar:
        -        E agora voc no sente mais necessidade de no nos
entristecer?
        A observao era justa. Eu estava quebrando um propsito
que fizera! No seria o caso de reparar a falha? Pus-me a rir
desconjuntadamente:
        - Foi uma pea! Ele est vivo e bem melhor.
        Todos me fitaram sem compreender.
        - Est melhor - acrescentei a srio -, reconheceu-me e
at me sorriu.
        Todos acreditaram, mas a indignao foi geral. Giovanni
declarou que, no fora o receio de passar mal com o esforo que
teria de fazer, sem dvida atirava-me um prato na cabea. Era
de fato imperdovel que eu perturbasse a festa com a inveno
de semelhante notcia. Se fosse verdade, eu no sentiria culpa.
No seria melhor voltar a repetir-lhes a verdade? Copler estava
morto e, mal me visse sozinho, haveria de encontrar lgrimas
prontas para chor-lo, espontneas e abundantes. Procurei as
palavras; contudo, a Sra. Malfenti com seu grave ar de grande
dama interrompeu-me:
        - Vamos deixar por ora o pobre enfermo. Pensaremos nisso
amanh!
        Obedeci imediatamente, at mesmo com um pensamento que
se afastou em definitivo do morto: "Adeus! Espere-me! Voltarei
a voc mais tarde!"
        Chegara a hora dos brindes. Giovanni obtivera permisso do
mdico para sorver uma taa de champanhe na ocasio.
Gravemente observou como lhe deitavam o lquido na taa e recusou-se
a lev-la aos lbios antes de inteiramente cheia. Depois de
pronunciar uma saudao sria e sem floreios a Ada e Guido,
sorveu lentamente a bebida at a ltima gota. Olhando-me de
esguelha, disse-me que o ltimo sorvo tinha sido  minha sade.
Para anular o augrio, que eu sabia mau, cruzei os dedos em
figa com mos sob a toalha.
        A lembrana dessa noite permaneceu para mim um tanto
confusa. Sei que por iniciativa de Augusta, quela mesa,
disseram um mundo de coisas boas a meu respeito, citando-me como
marido-modelo. Tudo me era perdoado, e at meu sogro se
mostrou mais gentil comigo. Percebi, contudo, que, embora
desejasse que o marido de Ada fosse to bom quanto eu, queria que ele
fosse ao mesmo tempo melhor negociante e principalmente uma
pessoa.., e procurava a palavra. No a encontrou, e ningum

210 211

 nossa volta reclamou-a; nem mesmo o Sr. Francesco, que por
me ter visto pela primeira vez naquela manh pouco podia
conhecer-me. Em meu canto no me ofendi. Como mitiga a alma
da gente o sentimento de ter grandes erros a reparar! Aceitava
de esprito aberto todas as insolncias, desde que acompanhadas
daquele afeto que eu no merecia. E na minha mente, confusa
pelo cansao e pelo vinho, completamente sereno, acariciei a
imagem do bom marido que no se torna menos bom por ser
adltero. Era preciso ser bom, bom, bom, e o resto no importava.
Enviei com a mo um beijo a Augusta, que o acolheu com
um sorriso de reconhecimento.
        Depois quela mesa quiseram aproveitar-se de minha
embriaguez para rir, e fui obrigado a fazer um brinde. Acabei por aceitar
porque no momento pareceu-me coisa decisiva professar meus
bons propsitos em pblico. No que duvidasse de mim, pois
me sentia tal como me descrevi; haveria porm de sentir-me
ainda melhor quando tivesse firmado um propsito diante de
tantas pessoas que de certo modo o iriam corroborar.
        Foi assim que no brinde falei s de mim e de Augusta.
Narrei pela segunda vez naquele dia a histria de meu casamento.
Eu a falsificara para Carla, calando sobre o fato de estar
enamorado de minha mulher; agora falsificava-a de outra forma,
pois que no falei de duas pessoas muito importanteS na histria
de meu casamento, ou seja Ada e Alberta. Contei minhas
hesitaes, das quais no sabia consolar-me por me haverem
privado tanto tempo da felicidade. Depois, por cavalheirismo,
atribu tambm hesitaes a Augusta. Que, alis, as negou, sorrindo
vivazmente.
        Recuperei o fio do discurso com alguma dificuldade. Contei
como finalmente empreendemos a viagem de npcias e como
andamos fazendo amor por todos os museus da Itlia. Estava
enterrado at o pescoo na mentira e me referi a alguns
pormenores inventados, que no serviam a propsito algum. E depois
se diz que no vinho  que est a verdade.
        Augusta interrompeu-me uma segunda vez para pr as coisas
nos devidos lugares e contou como teve de evitar os museus
para que minha presena no pusesse em perigo as obras de
arte. No lhe ocorria que assim revelava a falsidade no apenas
daquele particular, mas de toda a histria! Se algum observador
atento estivesse  mesa, logo teria descoberto a natureza do amor
que eu projetava num ambiente onde no podia chegar a termo.
        Retomei o longo e desenxabido discurso, contando a chegada
 nossa casa e como ambos nos pusemos a perfeccion-la
fazendo isto e aquilo, entre outras coisas at mesmo uma lavanderia.
        Sempre sorridente, Augusta me interrompeu de novo:
        - Esta no  uma festa em nossa homenagem, mas em honra
de Ada e Guido! Fala a respeito deles!
        Todos anuram ruidosamente. Ri-me tambm ao dar-me conta
de que por obra minha havamos chegado a uma verdadeira
alegria ruidosa que  pragmtica em ocasies semelhantes.
Mas no encontrei nada mais a dizer. Pareceu-me estar falando
h horas. Engoli vrios outros copos de vinho um aps outro:
        -         sade de Ada! - Ergui-me por um momento para ver
se ela estava fazendo figas embaixo da mesa.
        -         sade de Guido! - e acrescentei, aps haver emborcado
o vinho:
        -        De todo o corao! - esquecendo-me que no primeiro
brinde essa declarao no fora ajuntada.
        -        Ao vosso primeiro filho!
        E teria bebido outros copos por todos os filhos futuros caso
no fosse finalmente atalhado. Por aqueles pobres inocentes eu
teria bebido todo o vinho que havia  mesa.
        Depois tudo ficou ainda mais nebuloso. Claramente recordo
uma nica coisa: minha principal preocupao era no deixar
perceber que estava embriagado. Mantinha-me ereto e falava
pouco. Desconfiava de mim mesmo. Sentia necessidade de
analisar cada uma de minhas palavras antes de pronunci-las.
Enquanto a conversao geral se desenvolvia, eu era forado a
renunciar a ela, porque no me sobrava tempo para aclarar minhas
trbidas idias. Quis eu prprio iniciar um assunto, e  certa
altura disse a meu sogro:
        -        Soube que o Extrieur caiu dois pontos?
Disse algo que na verdade no era da minha competncia e
que ouvira na Bolsa; s queria falar de negcios, assunto srio
de que uma pessoa embriagada raramente se lembra. Mas parece
que para meu sogro o assunto no passara indiferente; olhou-

212 213

me como se eu fosse uma ave agourenta. Com ele eu no
conseguia acertar uma.
        Passei ento a dar ateno  minha vizinha, Alberta. Falamos
de amoreS. O assunto interessava-lhe na teoria, e a mim, pelo
menos naquele momento, no me interessava na prtica. Alm
do mais, era agradvel falar dele. Pediu-me que lhe expusesse
algumas idias e descobri de repente uma que me pareceu
provir diretamente de minha experincia do dia. A mulher era um
objeto que variava de preo mais que qualquer ao da Bolsa.
Alberta no me compreendeu bem e pensou que estivesse a
repetir uma coisa j sabida de todos, ou seja, que o valor da
mulher variava com a idade. Quis explicar-me com mais clareza:
a mulher podia ter alto valor  certa hora da manh, nenhum
valor ao meio-dia, para valer  tarde o dobro do que valera de
manh e acabar  noite por ter valor negativo. Expliquei o
conceito do valor negativo: uma mulher estaria cotada a esse valor
quando um homem calculava que soma estaria pronto a pagar
para mand-la para os quintos dos infernos.
        Contudo, a pobre comedigrafa no via a justeza de minha
descoberta, enquanto eu, recordando a oscilao dos valores
daquele dia sofrida por Carla e por Augusta, apreciava devidamente
a exatido de minha teoria. Pena que o vinho intervieSSe,
quando quis explicar-me melhor, e desviei-me inteiramente do
tema.
        - Veja s - disse-lhe -, admitindo que voc tenha neste
momento o valor x, pelo simples fato de permitir que eu
esfregue o meu p contra o seu, seu valor aumentar
imediatamente pelo menos para dois x.
        Acompanhei sem hesitar minhas palavras com o ato.
        Corada, surpresa, retirou o p e, querendo mostrar-se
espirituosa, observou:
        -        Mas isto j  prtica e no teoria. Vou chamar Augusta.
Devo confessar que eu tambm sentia aquele pezinho como
algo bem diverso de uma rida teoria, mas protestei gritando
com o ar mais cndido do mundo:
        -         pura teoria, purssima, e  engano da sua parte
interpretar de outra maneira.
        As fantasias geradas pelo vinho so to reais quanto os
verdadeiros acontecimentos.
        Por muito tempo eu e Alberta no nos esquecemos de que eu
tocara uma parte de seu corpo, prevenindo-a de que o fazia por
prazer. A palavra tinha relevado o ato e o ato a palavra. At
o dia em que se casou, teve sempre para mim um sorriso
envergonhado, e da por diante uma vergonha irada. As mulheres so
assim. Cada dia que passa, traz-lhes uma nova interpretao do
passado. Deve ser uma vida pouco montona, a delas. Comigo,
ao contrrio, a interpretao do meu ato foi sempre a mesma:
o furto de um pequeno objeto de intenso sabor, e s por culpa
de Alberta em certa poca procurei recordar-lhe aquele ato,
embora mais tarde tivesse pago qualquer preo para esquec-lo
de todo.
        Recordo ainda que antes de deixar a casa ocorreu outra coisa
bem mais grave. Fiquei, um instante, a ss com Ada. Giovanni
j fora deitar-se h algum tempo e os outros se despediam do
Sr. Francesco que partia para o hotel acompanhado de Guido.
Fitei Ada longamente, toda vestida de rendas brancas, os ombros
e os braos desnudOs. Fiquei durante muito tempo mudo,
embora sentisse necessidade de dizer-lhe alguma coisa; mas, aps
analis-la, acabei por suprimir todas as frases que me vieram aos
lbios. Recordo que cheguei analisar a possibilidade de dizer-lhe:
"Como estou feliz por ver voc finalmente casada e casada
com meu grande amigo Guido. Agora tudo estar acabado entre
ns." Queria dizer uma mentira porque todos sabiam que entre
ns tudo j se acabara h vrios meses, mas pareceu-me que
aquela mentira seria um belssimo elogio e  certo que uma mulher,
assim vestida, pede elogios e gosta de receb-los. Porm,
aps longa reflexo, no lhe fiz nenhum. Suprimi as palavras
porque no mar de vinho em que eu boiava encontrei uma tbua
que me salvou. Pensei que fazia mal em arriscar o afeto de
Augusta s para ser amvel com Ada, que no gostava de mim.
Mas, na dvida que por alguns instantes me turvou a mente, e
tambm no esforo de me libertar daquelas palavras, lancei a
Ada um tal olhar que ela se ergueu e saiu, voltando-se de
repente para observar-me espavorida, pronta talvez a sair
correndo.
        Recordamos um olhar talvez melhor que uma palavra, porque
no h em todo o vocabulrio nenhum que saiba desnudar uma
mulher. Sei hoje que aquele olhar faiscava as palavras que eu

214 215

idealizara, simplificandoas. Atravs dos olhos de Ada, havia
tentado penetrar alm dos vestidos e at mesmo da epiderme. E
decerto significava: "Quer vir para a cama comigo ?" O vinho
 um grande perigo, principalmente porque no traz a verdade a
tona. At mesmo o contrario da verdade revela especialmente
nossa histria passada e esquecida e no nossa vontade atual;
atira caprichosamente a luz as mnimas idias com as quais em
poca mais ou menos recente nos entretivemos e das quais j
no lembramos; no faz caso daquilo que esquecemos e l tudo
quanto ainda restou perceptvel em nOSSO corao. E sabemos
que no  possivel anular nada to radicalmente, como se faz
com uma letra de cmbio mal girada. Toda nossa histria 
sempre legvel, e o vinho grita-a, passando por cima de tudo
quanto a vida depois acrescentou a ela.
        Para voltar a casa, eu e Augusta tomamos um tlburi. Na
escurido pareceu fosse meu dever abraar e beijar minha
mulher, porque em situaes semelhantes muitas vezes procedi
assim e temia que, se no o fizesse, ela poderia pensar que algo
entre ns havia mudado. Nada havia mudado entre ns: at
isto o vinho gritava! Ela havia casado com Zeno Cosini que,
imutvel, se achava a seu lado. Que importa se naquele dia eu
tivesse possudo outras mulheres, cujo nmero o vinho, para me
tornar mais feliz, aumentava, acrescendo-lhe no sei mais se Ada
ou se Alberta?
        Recordo que, ao adormecer, revi por um instante a face
marmrea de Copler em seu leito de morte. Parecia exigir justia,
ou seja, as lgrimas que eu lhe prometera. Mas no as verti nem
mesmo naquele momento, pois o sono me abraou, aniquilando-me.
Antes, porm, desculpei-me com o fantasma: "Espere ainda
mais um pouco. Em breve estarei com voc!" Com ele no
estive nunca mais, pois no assisti nem mesmo ao seu enterro.
Tnhamos tanto que fazer em casa, e quanto a mim, tambm fora,
que no sobrou tempo para ele. Falamos dele uma ou outra vez,
mas s para rirmos, recordando que minha bebedeira o fizera
morrer e ressuscitar vrias vezes. Seu nome acabou proverbial
em famlia, e quando os jornaiS, como acontece amide,
anufrciam e desmentem a morte de algum, l em casa dizemos:
"Como o pobre Copler."
        Na manh seguinte, acordei com um pouco de dor de cabea.
PreocuPOume um tanto a dor do lado, provavelmente porque,
enquanto durou o efeito do vinho, no chegando a senti-la,
perdi-lhe o hbito. Mas no fundo no estava triste. Augusta
contribuiu para a minha serenidade, dizendo-me que teria sido
desagradvel se eu no fosse quele jantar, pois antes de minha
chegada ela tivera a impresso de estar num funeral. Portanto,
no devia ter remorsos de meu procedimento. Depois, senti que
s uma coisa no me tinha sido perdoada: o olhar  irm!
        Quando nos encontramos  tarde, Ada estendeu-me a mo
com uma ansiedade que s aumentou a minha. Talvez lhe
peSasse na conscincia aquela fuga nada delicada. Mas tambm o
meu fora um papelaO. Recordava exatamente o movimento dos
olhos e compreendi que, quem o tivesse experimentado, no
podia esqueCer aquele olhar. Era preciso repar-lo com uma atitude
estudadamente fraterna.
        Quando se sofre por ter bebido demais, diz-se que no h
melhor cura que tomar outra bebida. Naquela manh, andei a
reanimar-me em casa de Carla. Fui v-la com o desejo de viver
mais intensamente, e  isto o que reconduz ao lcool; a caminho,
desejei que ela me propiciasse uma intensidade de vida diversa
da que me dera no dia anterior. Estava imbudo de propsitOS
pouco precisos, mas de todo honestos. Sabia no poder abandon-la
logo, mas podia encaminhar-me lenta, lentamente para
aquele ato bastante moral. At l haveria de continuar a falar
bem de minha mulher. Sem dar por isso, Carla um belo dia
acabaria sabendo o quanto eu amava minha esposa. Trazia no
bolso do casaco um outro envelope com dinheiro para fazer face
a qualquer ocorrncia.
        J estava em casa de Carla h um quarto de hora quando ela
me reprovou com uma palavra cuja exatido f-la durante muito
tempo ressoar em meu ouvido: "Como voc  rude no amor!"
No estava cnscio de o ter sido na ocasio. Comeara a falar
sobre minha mulher e os elogios tributados a Augusta haviam
soado aos ouvidos de Carla como reprovaes que eu dirigisse
a esta.
        Depois, foi Carla quem me feriu. Para passar o tempo, contei-lhe
como me havia aborrecido no banquete, principalmente no

216 217

brinde que eu fizera e que se mostrara absolutamente fora de
propsito. Carla observou:
        - Se Voc amasse sua mulher, no propOnia brindes de mau
gosto  mesa dos pais dela.
        E me deu at um beijo para me recompensar do pouco amor
que eu dedicava  minha mulher.
        No entanto, aquele desejo de intensidade vital, que me
trouxera a Carla, havia de me levar de volta a Augusta, nica pessoa
com quem podia falar de meu amor por ela mesma. O vinho que
eu tomava para curar-me j era demais, ou j pedia outro vinho.
Mas nesse dia as minhas relaes com Carla deviam tornar-se
mais cordiais, atingindo finalmente aquela simpatia de
que - como soube mais tarde - a pobre jovem era merecedora. Ela,
por vrias vezes, se oferecera a cantar uma canoneta, desejosa
de saber a minha opinio. Eu nada queria com aquela cantoria
e poucO me importava a sua ingenuidade. Disse-lhe que, tendo
renunciado aos estudos, no valia a pena cantar.
        Ora, isto no fundo era uma grave ofensa, e Carla sofreu com
ela. Sentada ao meu lado, para no me deixar ver as lgrimas,
fitava imvel as mos cruzadaS sobre o peito. Repetiu sua
censura:
        - Como voc deve ser rude com quem no ama, se  assim
comigo!
        Bom diabo que sou, deixei enternecer-me por aquelas lgrimas
e pedi a Carla que me ensurdecesse com sua grande voz naquele
pequeno ambiente. Ela ento comeou a hesitar e foi preciso
inclusive amea-la de ir-me embora se no atendesse ao meu
pedido. Devo reconhecer que me pareceu por um instante ter
mesmo encontrado um pretexto para conquiStar pelo menos
temporariamente a minha liberdade; diante da ameaa, porm,
minha humilde serva correu a sentar de olhos baixos diante do
pianO. Dedicou-se por brevssimo instante ao recolhimento e
passOU a mo pelo rosto como para afastar uma nvoa.
Conseguiu-o com uma presteza que me surpreendeU, e sua face,
quando desvelada por aquela mo, no lembrava em nada o
sofrimento de antes.
        Tive, de repente, uma grande surpresa. Carla dizia a canoneta,
narravaa, sem gritar. Os gritos - como depois me disse
- eram-lhe impostos pelo professor; agora livrara-se de ambos.

A canoneta triestina

Fazzo l'amor xe vero
Cossa ghe xe de mal
Vol che a sedes'ani
Stio l come un cocal... *

 uma espcie de narrativa ou confisso. Os olhos de Carla
brilhavam de malcia e confessavam mais do que as palavras. No
havia o perigo de afetar os tmpanos e me aproximei dela,
surpreso e encantado. Sentei-me a seu lado e ela repetiu para mim
a canoneta, entrecerrando os olhos para expressar de maneira
mais sutil e mais pura como aqueles dezesseis anos ansiavam
pela liberdade e pelo amor.
Pela primeira vez reparei devidamente no rosto de Carla:
uma forma oval purssima, interrompida pela profunda e
arquejada cavidade dos olhos e das zgomas tnues, tornadas qui
ainda mais puras por uma branqUido nvea, agora que sua
face estava  luz e voltada para mim, e no ofuscada por
qualquer sombra. Pediam afeto e proteo as linhas doces daquela
carne que parecia transparente, mas que ocultava to bem o
sangue e as veias, talvez dbeis demais para aparecer.
        Ora, sentia-me pronto a conceder-lhe todo esse afeto e
proteo, incondicionalmente, at mesmo no momento em que
viesse a me achar disposto a retornar a Augusta, pOiS a jovem
naquele instante no pedia mais que um afeto paternal, que eu
podia conceder-lhe sem incidir em traio. Que delcia! Ficava
em companhia de Carla, proporcionava-lhe o que sua bela face
pedia, sem com isto afastar-me de Augusta! Meu afeto por
Carla tornou-se terno. A partir de ento, quando sentia
necessidade de honestidade e de pureza, no me ocorria mais
abandon-la, era s permanecer em sua companhia e mudar de assunto.
        Esta nova doura devia-se ao seu rostinho oval que eu
acabara de descobrir, ou ao seu talento para a msica? InegaVelmente
ao seu talento! A estranha canoneta triestina termina com uma


*        ["Fao o amor,  verdade; que mal pode haver nisso? Querias que
aos dezesseis anos eu ficasse por a como uma coruja?.."] (N. do T.)

218 219

estrofe em que a mesma jovem proclama estar velha e perdida
e no precisa mais de liberdade seno para morrer. Carla
continuava a instilar malcia e alegria naqueles pobres versos. Era,
contudo, a juventude que se fingia de velha para melhor
proclamar os seus direitos.
        Ao terminar, encontrando-me em plena admirao, ela pela
primeira vez, alm de me amar, tambm me quis verdadeiramente
bem. Sabia que a canoneta me agradava mais do que o canto
lrico que lhe ensinava o professor:
        - Pena - acrescentou com tristeza - que no se possa
extrair disso o necessrio para viver, a menos que se queira
andar pelos cafs-concerto.
        Convenci-a facilmente de que as coisas no eram bem assim.
Havia no mundo muitos grandes artistas que recitavam mais
do que cantavam.
        Fez-me citar alguns nomes. Ficou contente em saber quo
importante sua arte poderia ser.
        -        Bem sei - acrescentou ingenuamente - que esse tipo de
canto  bem mais difcil que o outro, em que basta gritar at
perder o flego.
        Sorri apenas e no discuti. Sua arte era certamente difcil, e
ela sabia disso, pois era a nica que conhecia. A canoneta
custara-lhe prolongado estudo. Ensaiara vezes sem conta, corrigindo
a entonao de cada palavra, de cada nota. Agora estu-
dava outra nova, mas s dali a algumas semanas estaria em
condies de cant-la. Antes disso no queria que eu a ouvisse.
        Seguiram-se momentos deliciosos na sala onde at ento s
se haviam passado cenas de brutalidade. Eis que diante de Carla
se esboava uma carreira. A carreira que me livraria dela. Muito
parecida com a que Copler havia sonhado! Propus-lhe arranjar
um professor. Ela, a princpio, horronizou-se com a palavra;
depois, deixou-se convencer facilmente, quando lhe disse que
devia experimentar, podendo despedi-lo quando bem
entendesse, caso o achasse aborrecido ou pouco til.
        Tambm com Augusta estive naquele dia em timas relaes.
Meu esprito estava tranqilo como se houvesse regressado de
um passeio e no da casa de Carla, assim como o pobre Copler
devia sentir-se ao deixar aquela casa nos dias em que no lhe
davam motivos para enfurecer-se. Aproveitei-me da ocasio
como se tivesse chegado a um osis. Para mim e para a minha
sade teria sido gravssimo se meu longo relacionamento com
Carla se desenvolvesse em meio a uma perene agitao. A partir
desse dia, como resultado da beleza esttica, as coisas se
processaram mais calmas, com leves interrupes, necessrias
para reanimar, tanto meu amor por Carla quanto por Augusta.
Cada uma de minhas visitas a Carla representava, sem dvida,
uma traio a Augusta, mas tudo era logo esquecido num banho
de sade e bons propsitos. E o bom propsito no era brutal e
excitante como nos tempos em que tinha o desejo de declarar
a Carla que no haveria de voltar a v-la. Eu era suave e
paternal: eis que continuamente pensava na carreira dela.
Abandonar todos os dias uma mulher para correr-lhe atrs no dia
seguinte representava uma fadiga que o meu pobre corao no
saberia suportar. Assim, em vez disso, Carla permanecia em meu
poder e eu a encaminhava ora numa direo ora noutra.
        Por muito tempo os bons propsitos foram suficientemente
fortes para induzir-me a correr pela cidade em busca de um
professor que servisse a Carla. Brincava com esse bom propsito
e no tomava atitude alguma. At que um belo dia, Augusta me
segredou que ia ser me, e ento meu propsito agigantou-se
de um momento para outro, e Carla teve seu professor.
        Eu s hesitara muito porque era evidente que, mesmo sem
professor, Carla saberia entregar-se a um trabalho
verdadeiramente srio em prol de sua nova arte. Cada semana
apresentava-me uma nova canoneta, cuidadosamente ensaiada nos gestos
e na dico. Certas notas mereciam ser mais trabalhadas, mas
talvez ela conseguisse afinar-se sozinha. A prova decisiva de que
Carla era uma verdadeira artista residia no modo como
aperfeioava continuamente suas canonetas sem jamais renunciar
o que de melhor conseguira nas primeiras tentativas. Insistia
com ela freqentemente para que me repetisse sua primeira
produo; de cada vez que a ouvia, encontrava sempre algum
acento novo ou eficaz. Dada a sua ignorncia, era extraordinrio
que, no esforo de atingir uma expresso forte, jamais lhe
acontecesse conspurcar sua interpretao com acentos falsos ou
exagerados. Artista que era, acrescentava cada dia uma pequena
pedra ao edifcio, deixando o resto permanecer intato. A
canoneta melhorava, embora o sentimento que a ditava ficasse es-

        220        221

tereotipado. Carla, antes de cantar, passava sempre a mo pelo
rosto, e por trs daquela mo criava-se um instante de
recolhimento que bastava para introduzi-la no esprito da
comediazinha que ela devia arquitetar. Uma comdia nem sempre pueril.

O mentor irnico de

Rosina, que nasceste num casebre

ameaava, mas no muito seriamente. Parecia que a cantora se
dava conta de que era a histria de sempre. O pensamento de
Carla era bem outro, mas acabava por chegar ao mesmo
resultado:
        - Tenho simpatia por Rosina, pois de outra forma no
valeria a pena cantar esta canoneta - dizia ela.
        Acontecia a Carla s vezes, inconscientemente, reacender o
meu amor por Augusta e o meu remorso. Era o que se dava
todas as vezes em que se permitia atitudes ofensivas contra a
posio to solidamente ocupada por minha mulher.
Permanecia vivo o seu desejo de ter-me todo para si por uma noite
inteira; confessou-me que lhe parecia, pelo fato de jamais termos
dormido juntos, no sermos totalmente ntimos. Querendo
acostumar-me a ser mais doce com ela, no me recusei
terminantemente a satisfaz-la, mas quase sempre pensei que no
seria possvel tal coisa, a menos que estivesse disposto a
encontrar Augusta pela manh debruada  janela onde me teria
esperado a noite inteira. Alm disso, no seria uma nova traio
 minha mulher? Vez por outra, ou seja, quando corria  casa de
Carla cheio de desejo, sentia-me propenso a content-la; sbito,
porm, via a impossibilidade e a inconvenincia de tal ato. Com
isso, por outro lado, no se chegou por longo tempo nem a
eliminar a perspectiva da coisa nem a realiz-la. Em princpio,
estvamos de acordo: mais cedo ou mais tarde haveramos de
passar uma noite inteira juntos. Contudo, a possibilidade j se
esboava, pois eu convencera o Sr. Gerco a despedir os
inquilinos que dividiam o andar de Carla em duas partes, e ela agora
tinha finalmente seu prprio quarto de dormir.
        Acontece que, pouco depois do casamento de Guido, meu
sogro foi acometido de uma crise que deveria lev-lo ao tmulo,
e eu tive a imprudncia de contar a Carla que minha mulher
passaria uma noite  cabeceira do pai, a fim de permitir que
minha sogra repousasse um pouco. No consegui ver-me livre:
Carla queria a todo custo que eu passasse em sua companhia a
noite que seria to dolorosa para a minha mulher. No tive
coragem de rebelar-me contra tal capricho; aquiesci com o
corao pesado.
        Preparei-me para o sacrifcio. No fui  casa de Carla pela
manh; corri para l,  noite, cheio de desejo, tentando
convencer-me de que era infantil pensar que ia trair mais gravemente
Augusta por faz-lo num momento em que ela sofria por outro
motivo. Por isso cheguei quase a impacientar-me com a pobre
Augusta, que me retinha para mostrar-me as coisas de que
necessitava para o jantar,  noite, e para o caf da manh.
        Carla recebeu-me no estdio. Pouco depois, chegou a me, que
fazia de criada e nos serviu um saboroso jantar, ao qual
acrescentei os doces que trouxera. A velha voltou depois para tirar a
mesa e eu estava de fato desejoso de deitar-me; na verdade, era
cedo demais e Carla convenceu-me de que eu devia ouvi-la
cantar um pouco. Acabou por desfiar todo o seu repertrio, o
que constituiu sem dvida a melhor parte daquelas horas, pois
a ansiedade com que eu esperava a minha amante serviu para
aumentar o prazer que sempre me proporcionava a canoneta
de Carla.
        - O pblico haveria de cobrir voc de flores e aplausos -
declarei-lhe um certo instante, esquecido de que seria
impossvel manter todo um pblico no estado de nimo em que eu
me achava.
        Fomos deitar afinal na mesma cama do pequeno quarto
desprovido de enfeites. Parecia um corredor bloqueado por uma
parede. Eu ainda no tinha sono e me desesperava ao
pensamento de que, mesmo que o tivesse, ser-me-ia impossvel
dormir com to pouco ar  minha disposio.
        Carla foi chamada pela voz tmida de sua me. Ela, para
responder, foi at a porta e entreabriu-a. Ouvi como perguntava
 velha o que queria, num tom de voz rspido. Timidamente a
outra pronunciou palavras cujo sentido no percebi, e Carla
gritou antes de bater a porta na cara da me:
        - Deixe-me em paz! J disse que esta noite vou dormir aqui!

        222        223

        Assim, fiquei sabendo que Carla, atormentada  noite pelo
medo, costumava dormir sempre em companhia da me no
antigo quarto, onde havia outra cama, ficando vaga aquela em que
agora amos dormir. Era certamente por medo que ela me
induzira a fazer aquele papelo com Augusta. Confessou com alegria
maliciosa, de que no participei, que se sentia mais segura
comigo do que com sua me. Deu-me o que pensar aquela cama ali,
nas proximidades do estdio solitrio. Nunca a tinha visto. Estava
com cimes! Pouco antes achara desrespeitosa a atitude de
Carla para com a me. Que diferena de Augusta, que
renunciara  minha companhia para assistir os seus genitores. Sou
especialmente sensvel a faltas de respeito para com os pais, uma
vez que eu prprio suportei com muita resignao as
implicncias do meu.
        Carla no percebeu nem meu cime nem meu desprezo.
Suprimi as manifestaes de cimes, recordando no ter direito a
isso, j que passava boa parte do dia na esperana de que
algum me carregasse com a amante. No havia igualmente
sentido em fazer ver  pobre jovem o meu desprezo, pois que j
imaginava uma maneira de abandon-la definitivamente,
conquanto o meu desdm fosse agora aumentado pelas razes que
pouco antes haviam provocado os meus cimes. O que
importava era fugir o mais rpido possvel daquele minsculo quarto
onde no havia mais que um metro cbico de ar, alm de estar
quentssimo.
        No me recordo do motivo de que lancei mo para afastar-me
rapidamente. Lembro que me pus a me vestir de repente.
Falei numa chave que esquecera de entregar  minha mulher,
sem a qual ela, se houvesse necessidade, no poderia entrar em
casa. Mostrei-lhe a chave que no era outra seno a que trago
sempre no bolso, apresentada, porm, como a prova tangvel
da veracidade de minhas asseres. Carla sequer tentou deter-me;
vestiu-se e acompanhou-me at embaixo para iluminar o
caminho. Na escurido das escadas, pareceu observar-me com
um olhar inquisidor que me perturbou: comearia a compreender-me?
No era assim to fcil, visto que eu sabia simular
bastante bem. Para agradecer-lhe por me deixar sair, continuava de
quando em quando a aplicar meus lbios sobre suas faces e
simulava estar invadido ainda do mesmo entusiasmo que me
conduzira a ela. No tive, pois, qualquer dvida quanto ao bom
resultado de minha simulao. Pouco antes, com uma
inspirao de amor, Carla me dissera que o feio nome de Zeno,
impingido por meus genitores, no era decerto aquele que se
apropriava a mim. Ela gostaria que eu me chamasse Drio e ali,
na escurido, despediu-se de mim chamando-me por esse nome.
Depois, percebendo que o tempo estava ameaador, ofereceu-se
para ir l em cima buscar-me um guarda-chuva. Eu, porm, no
conseguia de maneira alguma suport-la por mais tempo, e corri,
segurando sempre na mo a chave em cuja autenticidade eu
prprio j comeava a acreditar.
        A profunda escurido da noite era interrompida de tempos
em tempos por fulgores que ofuscavam. O uivo dos troves
parecia longssimo. O ar ainda estava tranqilo e sufocante
como se fosse o quartinho de Carla. At as grossas gotas dgua
que caam eram tpidas. No alto, evidente, havia uma ameaa,
e pus-me a correr. Tive a sorte de encontrar na Corsia Stadion
um porto ainda aberto e iluminado, no qual me refugiei a
tempo! Em seguida, o temporal abateu-se sobre a cidade. O crepitar
da chuva foi interrompido por um furioso vendaval que parecia
trazer consigo o rugido dos troves que agora soavam prximos.
Estremeci! Seria verdadeiramente comprometedor se eu fosse
atingido por um raio, quela hora, na Corsia Stadion! Ainda
bem que eu era conhecido, at por minha mulher, como pessoa
de hbitos bizarros, capaz de passear por ali  noite, de modo que
havia sempre uma desculpa para tudo.
        Tive de permanecer no porto mais de uma hora. Parecia
sempre que o tempo queria amainar; de repente, contudo,
retornava o seu furor, e cada vez de outra forma. Agora caa granizo.
        O porteiro da casa veio fazer-me companhia e tive de dar-lhe
um trocado para retardar o momento de fechar o porto. Depois
chegou um senhor vestido de branco e encharcado da chuva.
Era velho, magro e seco. Nunca mais voltei a v-lo, mas nunca
mais esqueci o fulgor de seus olhos negros e a energia que
emanava de toda a sua minscula figura. Praguejava por estar
ensopado daquela maneira.
        Sempre gostei de entreter-me com pessoas a quem no
conheo. Com elas sinto-me so e salvo.  um autntico repouso. Basta
tomar cuidado para no mancar, e tudo corre bem.

        224        225

        Quando finalmente o tempo acalmou, corri imediatamente,
no para a minha casa, mas para a de meu sogro. Pareceu-me
que devia naquele momento correr rpido ao apelo e gabar-me
de l estar.
        Meu sogro havia adormecido e Augusta, assistida por uma
irm de caridade, pde vir ao meu encontro. Disse-me que fizera
bem em vir e atirou-se chorosa nos meus braos. Presenciara o
pai sofrer horrivelmente.
        Percebeu que eu estava encharcado. Fez-me repousar numa
poltrona e cobriu-me com um cobertor. Por algum tempo pde
ficar ao meu lado. Eu me sentia muito cansado, e durante o
pouco tempo que ela conseguiu ficar comigo, lutei para no
dormir. Sentia-me tambm muito inocente por no t-la trado,
passando toda uma noite longe do domicilio conjugal. To bela
era a minha inocncia que tentei aument-la. Comecei a
pronunciar palavras que pareciam uma confisso. Disse-lhe que
me sentia fraco e culpado e, como neste ponto ela olhasse para
mim pedindo explicaes, logo tirei o corpo fora e,
mergulhando na filosofia, argumentei que o sentimento de culpa perseguia
todos os meus pensamentos e cada uma de minhas respiraes.
        - Os religiosos tambm pensam assim - disse Augusta -;
quem sabe no somos punidos por culpas que ignoramos?
        Dizia palavras aptas a acompanharem suas lgrimas, que
continuavam a correr. Pareceu-me que ela no compreendera bem a
diferena entre meu pensamento e o dos religiosos, mas no quis
discutir e, ao som montono do vento recrudescido, com a
tranqilidade que me dera o mpeto de confisso, peguei num
sono longo e restaurador.



Quando chegou a vez do professor de canto, tudo foi resolvido
em poucas horas. Eu j o escolhera h algum tempo e, para dizer
a verdade, decidi-me por seu nome antes de mais nada por ser o
professor de canto mais em evidncia de Tnieste. Para no
comprometer-me, a prpria Carla foi quem tratou do assunto. Nunca
cheguei a v-lo, mas devo afirmar que agora sei muito a respeito
dele, e  uma das pessoas que mais estimo neste mundo. Devia
ser uma dessas criaturas simplnias, o que  estranho para um
artista que vivia de sua arte, esse Vittorio Lali. Em suma, um
homem de se invejar, pois que, alm de genial, era tambm
saudvel.
        Logo verifiquei que a voz de Carla se amaciara, tornando-se
mais flexvel e segura. Tnhamos receio de que o professor
puxasse por ela, como fez o escolhido por Copler. Ele deve ter-se
adaptado aos desejos de Carla, mantendo-se sempre no gnero
que ela preferia. S muitos meses depois, ela percebeu que a
voz se firmara, afinando-se. J no cantava canonetas triestinas,
depois nem mesmo as napolitanas, mas passara a antigas canes
italianas, a Mozart e Schubert. Recordo especialmente uma
"Ninna Nanna" atribuda a Mozart; nos dias em que mais sinto
a tristeza da vida e lamento a perda daquela mulher que foi
minha e no amei essa cano de ninar ecoa em meus ouvidos
como uma censura. Revejo ento Carla representando o papel
da me que arranca do seio os sons mais doces para fazer
dormir o seu filhinho. Contudo, ela, que fora amante
inesquecvel, no podia ser boa me, j que era m como filha. V-se
que o saber cantar como me  uma caracterstica capaz de
encobrir quaisquer outras.
        Contou-me Carla a histria de seu professor. Aps alguns
anos de estudo no Conservatnio de Viena, viera para Tnieste
onde teve a sorte de trabalhar para o nosso maior compositor,
ento quase cego. Escrevia as composies que o mestre lhe
ditava, dele merecendo aquela confiana que os cegos
concedem por inteiro. Assim, ficou conhecendo seus projetos, suas
amadurecidas convices, seus sonhos sempre juvenis. Logo
familiarizou-se com toda espcie de msica, inclusive a que
convinha a Carla. Esta descreveu-me a aparncia fsica do maestro:
jovem, louro, tendendo ao robusto; negligente no vesturio,
uma camisa branca nem sempre muito limpa, uma gravata que
j tinha sido preta, larga e flutuante, um chapu de feltro de
abas despropositadas. Homem de poucas palavras - segundo
Carla, e devo acreditar, pois como se tornasse um pouco mais
falante em sua companhia, alguns meses depois ela prpria
veio participar-me - estava inteiramente voltado  tarefa que
assumira.
        Depressa os meus dias passaram a sofrer complicaes. De
manh, trazia para a casa de Carla, alm do amor, um amargo

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cime, que se tornava muito menos amargo ao longo do dia.
Parecia-me impossvel que aquele rapaz no se aproveitasse da
fcil e apetitosa presa. Carla mostrava-se surpresa por eu pensar
uma coisa destas, mas sua surpresa me fez pensar ainda mais.
No se lembrava mais de como as coisas se haviam passado
entre ns?
        Um dia, cheguei  sua casa furioso de cime e ela,
espavorida, props-me imediatamente despedir o maestro. No creio
que seu espanto fosse produzido exclusivamente pelo medo de
se ver sem meu apoio, pois ela me deu  poca demonstraes
de afeto de que no podia duvidar; vez por outra estas me
faziam feliz, embora, quando me encontrava em outro estado
de nimo, me aborrecessem, parecendo-me atos hostis a
Augusta, aos quais, e por muito que me custasse, eu era obrigado a
associar-me. Sua proposta embaraou-me. Quer me
encontrasse no momento do amor ou do arrependimento, no queria
aceitar um sacrifcio seu. Fora era manter uma comunicao
qualquer entre os meus dois estados de nimo e eu no queria
diminuir minha j escassa liberdade de passar de um a outro.
Por isso no concordei em aceitar tal proposta que, no entanto,
serviu para me tornar mais cauto, e mesmo quando me
exasperavam os cimes eu sabia como ocult-los. Meu amor tornava-me
to irritado que por fim passei a considerar Carla um ser
inferior, independentemente de desej-la ou no. Ou a tratava
como se me trasse ou no lhe dava importncia alguma. Isso
quando no a odiava, ou nem lembrava que ela existia. Eu
pertencia ao ambiente de sade e de honestidade em que reinava
Augusta e ao qual retornava de corpo e alma to logo Carla me
deixava livre.
        Dada a absoluta sinceridade de Carla, sei exatamente por
quanto tempo ela me foi fiel, e meu cime recorrente de hoje
no pode ser considerado seno manifestao de um recndito
senso de justia. Devia tocar-me o que eu merecesse. Quem
primeiro se enamorou foi o maestro. Creio que as manifestaes
iniciais de seu amor foram certas palavras que Carla me referiu
com ar de triunfo na acepo de que se tratava de seu primeiro
triunfo artstico a merecer um elogio tambm de minha parte.
Ele lhe dissera estar de tal forma afeioado ao seu dever de
professor que, se ela no pudesse pagar as lies, ele
continuaria a ministr-la de graa. T-la-ia esbofeteado, mas sobreveio o
momento em que pude fingir estar alegre com esse verdadeiro
triunfo. Ela esqueceu logo depois o esgar que deve ter
vislumbrado em minha face, igual ao de quem ferra os dentes num
limo, e aceitou serena o tardio louvor. Contara-lhe ele seus
dissabores, que afinal no eram muitos: msica, misria e famlia. A
irm dera-lhe grandes preocupaes e ele soubera transmitir a
Carla uma verdadeira antipatia por aquela desconhecida. Tal
antipatia pareceu-me bastante comprometedora. Cantavam
canes de sua autoria, que achei bastante chochas, fosse quando
Carla me inspirava amor, fosse quando me parecia um
trambolho. Pode ser, contudo, que fossem boas, ainda que nunca
ouvisse depois falarem delas. O homem foi mais tarde reger
orquestras nos Estados Unidos e talvez por l at cantem essas
canes.
        Um dia, ela contou-me que ele a pedira em casamento e ela
recusara. Ento passei dois quartos de hora verdadeiramente
terrveis: o primeiro em que me senti invadido por tanta ira
que queria esperar o professor para expuls-lo a pontaps; o
segundo, quando no consegui conciliar a possibilidade de
manter minha aventura amorosa diante daquele casamento, que era
no fundo uma coisa bela e moral, alm de simplificar bastante
minha posio quanto  carreira de Carla, que ela imaginava
iniciar em minha companhia.
        Por que motivo o bendito professor se apaixonara daquela
maneira e com tal rapidez? J ento, aps um ano de
relacionamento, tudo se havia abrandado entre mim e Carla, inclusive
o cenho de preocupao que eu tinha ao deix-la. Meus
remorsos eram agora supontabilssimos e, conquanto Carla tivesse
ainda razo de me achar rude no amor, parecia enfim habituada
a ele. Coisa que lhe deve ter sido inclusive fcil conseguir, pois
eu j no era to brutal quanto nos primeiros dias; depois de
suportar aquele primeiro excesso, o resto, em comparao, deve
ter-lhe parecido bastante suave.
        Por isso mesmo, quando j no dava tanta ateno a Carla,
sempre achei que eu no havia de ficar contente no dia em que
viesse  procura de minha amante e no a encontrasse mais.
        verdade que ento seria timo poder voltar para Augusta sem
o        habitual intermezzo com Carla, e naquele momento eu me

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sentia muitssimo capaz disso; antes, porm, queria provar. Meus
propsitos deviam girar em torno do seguinte: "Amanh vou
insistir com ela para que aceite a proposta do maestro, mas hoje
farei tudo para impedir." E com grande esforo continuei a
comportar-me como amante. Agora, ao diz-lo, aps haver
registrado todas as fases de minha aventura, poderia parecer que
tentasse fazer com que minha amante se casasse com outro e
continuasse minha, o que seria a poltica de um homem mais
sensato e mais equilibrado do que eu, embora outro tanto corrupto.
Contudo, no  verdade: queria que se casasse com o
professor, mas que o decidisse apenas no dia seguinte.  por isso que
s ento cessou para mim aquele estado que me obstino em
qualificar de inocncia. No era mais possvel adorar Carla
durante uma breve parte do dia e depois odi-la por vinte e
quatro horas contnuas, e acordar cada manh ignorante como
um recm-nascido e viver o dia, to semelhante aos
precedentes, surpreendendo com a aventura que este pudesse trazer e
que eu devia saber de cor. Isto no era mais possvel. Estava
colocado diante da eventualidade de perder para sempre a
minha amante, se no soubesse domar o desejo de libertar-me. De
repente, domei-o!
        Foi assim que num dia, quando j no me importava com
Carla, que lhe fiz uma cena de amor cuja falsidade e veemncia
muito se assemelhavam quela que, presa do vinho, fizera a
Augusta na noite do tlbuni. S que desta vez estava sbrio e
acabei por comover-me de fato ao som de minhas palavras.
Disse-lhe que a amava, que no sabia mais viver sem ela; por
outro lado, achava estar exigindo o sacrifcio de sua vida, visto
que eu no podia oferecer-lhe nada capaz de equiparar-se com
o que lhe prometia Lali.
        Houve inclusive uma nota nova em nossas relaes, alis no
desprovidas de muitas horas de ardente amor. Ela ouvia as
minhas palavras contentssima. Algum tempo depois, tentou
convencer-me de que no era o caso de afligir-me tanto por estar
Lali enamorado dela. Ela nem pensava nisso!
        Agradeci-lhe, sempre com o mesmo fervor que, no entanto,
j no me comovia. Sentia um certo peso no estmago:
evidentemente estava mais comprometido do que nunca. Meu aparente
fervor, em vez de diminuir, aumentou, s para permitir-me dizer
algumas palavras de admirao pelo pobre Lali. No queria de
modo algum perd-lo, queria salv-lo, mas no dia seguinte.
        Quando se tratou de manter ou de despedir o professor,
chegamos a um acordo. Eu no queria priv-la do casamento e ao
mesmo tempo de sua carreira. Ela prpria confessou-me que
gostaria de mant-lo: a cada lio tinha a prova da necessidade
de sua assistncia. Assegurou-me que eu podia viver tranqilo
e confiante: amava a mim e a mais ningum.
        Obviamente minha traio se havia ampliado e distendido.
Prendia-me  minha amante por uma nova afetuosidade, que
me atava com novos vnculos e invadia um territrio at ali
exclusivamente reservado ao meu afeto legtimo. Mas, de volta
a casa, at mesmo essa afetividade desaparecia ou se refletia
aumentada sobre Augusta. No nutria, em relao a Carla, seno
uma profunda desconfiana. Quem pode afirmar o que havia de
verdade naquela proposta de casamento? No me surpreenderia
se um dia desses Carla, mesmo sem haver casado com o
professor, me presenteasse com um filho dotado de grande talento
musical. E recomearam os frreos propsitos que eu fazia ao
sair da casa de Carla, para abandon-los quando de volta  sua
companhia e retom-los mal a deixava outra vez. Todos, alis,
sem conseqncias de qualquer espcie.
        E nem houve outras conseqncias com as novidades que se
seguiram. O vero passou e levou consigo meu sogro. Tive em
seguida muito que fazer na nova casa comercial de Guido, onde
trabalhei mais do que em qualquer outro lugar, inclusive nas
vrias faculdades universitnias. Dessa minha atividade hei de
falar mais tarde. Passou tambm o inverno at que surgiram no
meu pequeno jardim as primeiras folhas verdes, que no me
encontraram to deprimido como as do ano anterior. Nasceu
minha filha Antnia. O professor de Carla permaneceu  nossa
disposio, mas, por essa poca, ela no queria saber dele, nem
eu tampouco.
        Houve, contudo, graves conseqncias nas minhas relaes
com Carla, por causa de acontecimentos que, na verdade, no
seriam considerados importantes. Passaram quase inadvertidamente
e foram marcados apenas pelas conseqncias que
deixaram em seu rastro.

        230        231

        Precisamente no incio da primavera, acabei cedendo 
insistncia de Carla para passearmos juntos pelo Jardim Pblico.
Aquilo me parecia altamente comprometedor, mas Carla queria
tanto passear de brao comigo ao sol que acabei por concordar.
No devia ter concordado nunca, nem por um minuto, em
bancarmos marido e mulher, porque essa primeira tentativa acabou
muito mal.
        Para melhor aproveitar a inesperada tepidez que vinha do
cu, no qual o sol parecia ter readquirido h pouco seu imprio,
sentamo-nos a um banco da praa. O jardim, nas manhs dos
dias feriados, ficava deserto e parecia-me que, se estivesse ali
quieto, o risco de ser surpreendido talvez fosse menor. Em vez
disso, apoiado com a axila na muleta, a passos lentos, mas
enormes, aproximou-se de ns Tullio, o dos cinqenta e quatro
msculos, e, sem olhar-me, sentou-se ao nosso lado. Depois, ergueu
a cabea, seu olhar encontrou-se com o meu e cumprimentou-me:
        - H quanto tempo! Como vai? E ento, j no tem tanto
o que fazer?
        Aproximou-se ainda mais de mim e no primeiro impacto
movi-me no sentido de impedir que visse Carla. Mas ele, logo
aps haver-me apertado a mo, perguntou:
        - Sua senhora?
        Esperava ser apresentado.
        Submeti-me:
        - Srta. Carla Gerco, amiga de minha mulher.
        Depois, continuei a mentir, e sei pelo prprio Tullio que a
segunda mentira bastou para revelar tudo. Com um sorriso
forado, disse:
        - Esta moa tambm sentou-se por acaso aqui, sem reparar
em mim.
        O mentiroso devia ter presente que, para ser acreditado, no
 preciso dizer seno as mentiras necessrias. Com seu bom
senso popular, quando nos encontramos novamente, Tullio disse:
        - Voc deu explicaes demais e percebi logo que mentia
e que aquela beleza era sua amante.
        Eu j havia perdido Carla e com grande volpia confirmei
que ele acertara em cheio, mas contei-lhe com tristeza que ela
me havia abandonado. No acreditou e fiquei-lhe reconhecido.
Pareceu-me que sua incredulidade fosse um bom augrio.
        Carla foi tomada por um mau humor que eu jamais vira. Sei
agora que sua rebelio comeou a partir daquele momento. No
percebi logo, pois estava prestando ateno au que me dizia
Tllio, contando-me sobre sua enfermidade e as curas a que se
submetera, e por isso estava de costas para ela. Mais tarde aprendi
que uma mulher, mesmo quando se deixa tratar com menos
gentileza, salvo em certos instantes, jamais admite ser renegada
em pblico. Manifestou seu desdm mais em relao ao pobre
coxo do que a mim, e no lhe respondeu quando este lhe dirigiu
a palavra. Eu prprio no estava atento a Tullio pois naquele
momento no chegava a interessar-me pela sua cura. Fitava os
seus olhos midos para ver se percebia o que ele imaginava do
encontro. Sabia que estava aposentado e que, tendo o tempo
inteiramente livre, podia facilmente invadir com sua tagarelice
todo o pequeno ambiente social de nossa Trieste de ento.
        Passada uma longa meditao, Carla ergueu-se para deixar-nos.
Murmurou:
        - At a vista - e foi-se embora.
        Sabia que estava furiosa comigo e, sempre tendo em conta a
presena de Tullio, procurei conquistar o tempo necessrio para
aplac-la. Pedi-lhe permisso para acompanh-la a casa, j que
seguiria na mesma direo. Sua seca despedida significava a
bem dizer o abandono e foi a primeira vez em que seriamente
o temi. A dura ameaa me tirava o flego.
        Mas a prpria Carla no sabia ainda aonde a levaria o seu
passo decisivo. Dava vazo a uma irritao momentnea, que
em breve iria esquecer.
        Esperou-me; depois, seguiu ao meu lado sem nada dizer.
Quando chegamos a casa, foi tomada por uma onda de pranto que
no me perturbou, pois que a induziu a refugiar-se nos meus
braos. Expliquei-lhe quem era Tullio e os prejuzos que sua
maledicncia me poderia causar. Vendo que continuava a
chorar, mas sempre nos meus braos, ousei um tom mais resoluto:
queria ento comprometer-me? No havamos combinado que
tudo faramos para poupar a mulher inocente que, alm de minha
esposa, era a me de minha filha?
        Parece que Carla arrependeu-se, mas quis ficar sozinha para
acalmar-se. Escapei, contente da vida.

232 233

        Deve ter sido dessa aventura que lhe veio a cada instante o
desejo de se mostrar comigo em pblico e passar por minha
mulher. Parece que, no querendo casar-se com o professor,
tentava constranger-me a ocupar uma parte maior do lugar que a ele
recusava. Importunou-me muito tempo para que arranjasse dois
ingressos para o teatro; entraramos cada um por um dos lados
da fila e acabaramos sentados um junto do outro, como por
acaso. Com ela voltei apenas algumas vezes mais ao Jardim
Pblico, aquele marco milirio de minhas transgresses, ao qual
agora chegvamos pelo outro extremo. Nada alm disso!
Contudo, minha amante acabou por parecer-se muito comigo. Sem
qualquer razo, a cada instante, discutia em meio a acessos de
clera imprevistos. Logo se arrependia deles, mas bastavam para
tornar-me cada vez mais bom e dcil. No raro a encontrava
banhada em lgrimas e de maneira alguma conseguia obter uma
explicao para a sua dor. Talvez a culpa fosse minha, por no
insistir o suficiente para obt-la. Quando a conheci melhor, ou
seja, quando ela me abandonou, no precisei de outras
explicaes. Premida pelas necessidades, ela se havia precipitado
naquela aventura comigo, que no lhe dava a devida importncia.
Entre os meus braos tornou-se mulher, e - agrada-me sup-lo
-        mulher honesta. Naturalmente no atribuo isto a qualquer
mrito meu, tanto mais que arquei com todos os prejuzos.
        Nasceu-lhe um novo capricho, que a princpio me surpreendeu
e logo aps me comoveu ternamente: queria ver minha mulher,
Jurava que no se aproximaria dela e que se comportaria de
modo a no ser percebida. Prometi que havia de preveni-la
quando soubesse que minha mulher sairia a uma determinada
hora. Poderia v-la, mas no na vizinhana de minha casa, lugar
deserto onde qualquer pessoa sozinha podia ser observada;
melhor seria numa rua qualquer movimentada da cidade.
        Naquele nterim minha sogra foi acometida de uma
enfermidade nos olhos e teve que andar com uma venda por vrios dias.
Aborrecia-se mortalmente e, para induzi-la a seguir rigidamente
o tratamento, suas filhas se revezavam junto dela: minha mulher
pela manh, Ada at as quatro da tarde precisamente. Com
instantnea resoluo eu disse a Carla que minha mulher deixava
a casa de minha sogra todos os dias exatamente s quatro da
tarde. Nem hoje sei por que desejei que Ada passasse aos olhos
de Carla como sendo minha mulher.  certo que, depois daquele
fatal pedido de casamento que lhe fizera o maestro, eu sentia
necessidade de vincular melhor a minha amante a mim e talvez
imaginasse que quanto mais bela Carla achasse minha mulher
tanto mais apreciaria o homem que sacrificava por ela (por assim
dizer) uma tal mulher. Augusta naquele tempo no passava
de uma sadia ama-de-leite. Pode ter infludo sobre a minha
deiso at mesmo a prudncia. Tinha certamente razo de
temer os humores de minha amante e, se ela se deixasse levar
a qualquer ato precipitado com Ada, isto no teria importncia,
j que esta me dera provas de que jamais tentaria difamar-me
junto a minha verdadeira mulher.
        Se Carla me comprometesse com Ada, eu haveria de contar-lhe
tudo e, para dizer a verdade, com certa satisfao.
        Contudo, minha poltica logrou um xito no de todo
previsvel. Induzido por certa ansiedade, corri na manh seguinte
 casa de Carla muito antes da hora de costume. Fui encontr-la
inteiramente mudada em relao ao dia anterior. Uma grande
seriedade invadira a nobre forma oval de seu rosto. Quis beij-la,
mas me repeliu, deixando-me em seguida aflorar suas faces
com meus lbios, apenas para induzir-me a ouvi-la docilmente.
Sentei-me diante dela do outro lado da mesa. Sem se precipitar,
tomou uma folha de papel em que estivera a escrever at o
momento de minha chegada e a reps entre as partituras de
msica que jaziam sobre a mesa. No dei maior ateno quela
folha; s mais tarde soube que se tratava de uma carta escrita
a Lali.
        Contudo, hoje sei que mesmo naquele instante o nimo de
Carla estava invadido pela dvida. Seu olhar srio pousava
indagador sobre o meu; depois, voltava-o para a luz da janela, a
fim de melhor isolar-se e estudar sua prpria disposio de
esprito. Quem sabe! Se eu tivesse logo adivinhado melhor
aquilo que se debatia em seu interior, teria podido conservar
ainda a minha deliciosa amante.
        Contou-me sobre seu encontro com Ada. Esperou-a diante da
casa de minha sogra e, quando a viu sair, reconheceu-a logo.
        - No havia como enganar-me. Voc descreveu-me seus
traOs to bem. Oh! Como deve conhec-la!

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        Calei-me por um instante para dominar a comoo que me
embargava a garganta. Depois continuou:
        - No sei o que houve entre vocs dois, mas no quero
atraioar mais aquela mulher to bela e to triste! Vou escrever
hoje mesmo ao professor de canto, comunicando que estou
disposta a casar-me com ele.
        - Triste! - gritei surpreso. - Voc se engana
redondamente, a no ser que no momento um sapato apertasse o p dela!
        Triste, Ada? Se vivia a sorrir; naquela manh mesmo eu a
vi sorridente por um instante em minha casa.
        Mas Carla estava mais bem-informada do que eu:
        - Qual sapato apertado! Ela tinha o passo de uma deusa a
caminhar sobre nuvens!
        Cada vez mais entusiasmada, contou-me que conseguira trocar
uma palavra - Oh! Amabilssima! - com Ada. Ela deixara
cair o leno e Carla recolheu-o, devolvendo-o. Sua breve palavra
de agradecimento comoveu Carla at s lgrimas. E entre as duas
a coisa no acabou por a: Carla afirmava que Ada notara que
ela chorava e que se despediu dela com um olhar aflito de
solidariedade. Para Carla tudo estava claro: minha mulher sabia
que eu a atraioava e sofria! Da seu propsito de no mais
voltar a ver-me e casar-se com Lali.
        No sabia como defender-me! Era-me fcil falar com toda a
antipatia a respeito de Ada, mas no de minha mulher, a sadia
ama-de-leite que de modo algum percebia o que me andava na
alma, inteiramente devotada ao seu mister. Perguntei a Carla
se no havia notado a dureza do olhar de Ada, e se no
percebera que sua voz era baixa e rude, desprovida de qualquer
doura. Para reaver sem tardana o amor de Carla, eu teria
atribudo de bom grado a Augusta muitos outros defeitos, mas
isso no era possvel, pois h cerca de um ano que junto  minha
amante eu no fazia outra coisa seno elevar minha mulher aos
pncaros celestes.
        Encontrei outra sada. Eu prprio fui tomado de grande
emoo, que fez brotar lgrimas aos meus olhos. Achava-me no
direito de compadecer-me por mim mesmo. Sem que o quisesse,
metera-me numa enrascada na qual me sentia infelicssimo.
Aquela confuso entre Ada e Augusta era insuportvel. A
verdade  que minha mulher no era to bela quanto Ada e que
esta (a quem Carla votara tanta compaixo) tinha grandes
defeitos para mim. De modo que Carla era verdadeiramente injusta
ao julgar-me.
        Minhas lgrimas tornaram Carla mais meiga:
        - Drio, querido! Como me fazem bem as suas lgrimas!
Deve haver um mal-entendido qualquer entre vocs dois e isto
 o momento de esclarecerem tudo. No quero julg-lo
severamente, mas no voltarei a trair aquela mulher to linda, nem
quero ser a causa de suas lgrimas. Isto eu juro!
        A despeito do juramento, acabou por tra-la pela ltima vez.
Queria afastar-se de mim para sempre com um ltimo beijo,
mas aquele beijo eu s o concebia de uma forma; caso contrrio,
me despediria cheio de rancor. Resignou-se. E murmuramos
ambos:
        -        Pela ltima vez!
        Foi um instante delicioso. O propsito feito a dois surtia uma
eficcia que apagava qualquer culpa. ramos inocentes e felizes!
Meu benvolo destino reservara-me um instante de perfeita
felicidade.
        Sentia-me to feliz que continuei a comdia at o momento
de nos despedirmos. No nos veramos mais! Ela recusou o
envelope que eu trazia sempre no bolso do casaco e no quis nem
mesmo uma lembrana minha. Era preciso apagar de nossa nova
vida os traos dos erros passados. Ento beijei-a paternalmente
na fronte, como a princpio ela tanto desejara.
        Depois, j na escada, tive uma hesitao porque a coisa ia
ficando um tanto sria; se tivesse certeza de que ela ainda estaria
 minha disposio na manh seguinte, o pensamento do futuro
no me teria ocorrido to depressa. Ela, do alto do patamar,
me via descer e eu, procurando sorrir, gritei-lhe:
        -        At amanh!
        Ela recuou surpresa, quase apavorada, e afastou-se dizendo:
        -        Nunca mais!
        Eu sentia o alvio de ter ousado pronunciar a palavra que
podia conduzir-me a um outro ltimo abrao quando viesse a
quer-lo. Livre de desejos e livre de compromissos, passei um
belo dia com minha mulher e depois no escritrio de Guido.
Devo dizer que a falta de compromissos me aproximava de minha
mulher e de minha filha. Eu era para elas algo mais do que de

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hbito: no apenas gentil, mas um verdadeiro pai que dispe
e ordena com serenidade, com a mente voltada para o lar. Ao ir
deitar-me, disse para mim mesmo em forma de deliberao:
        -        Todos os dias deviam ser iguais a este.
        Antes de adormecer, Augusta sentiu necessidade de
confidenciar-me um grande segredo: ela o soubera da me naquele mesmo
dia. Dias antes Ada surpreendera Guido abraando a criada.
Ada quis bancar a orgulhosa; em seguida, porm, a domstica
mostrou-se insolente e Ada acabou por despedi-la. No dia anterior
estavam ansiosas para saber como Guido encararia o fato. Se se
queixasse, Ada pediria a separao. Mas Guido ps-se rir,
protestando que Ada no vira bem; contudo, no se opunha a
que, embora inocente, a criada, por quem dissera sentir
verdadeira antipatia, fosse posta na rua. Parece que as coisas agora
estavam em paz.
        A mim o que importava era saber se Ada realmente vira mal
quando surpreendeu o marido em tal atitude. Havia alguma
possibilidade de engano? Pois que  preciso recordar que, quando
duas pessoas se abraam, tm posies diversas de quando uma
limpa os sapatos da outra. Eu estava de excelente humor. Sentia
necessidade de mostrar-me justo e sereno no julgamento de
Guido. Ada era certamente de carter ciumento e pode ser que
tivesse, em funo da distncia, confundido as duas posies.
        Com voz triste Augusta disse estar certa de que Ada vira
bem e que at ento julgara mal por excesso de afeto. E
acrescentou:
        -        Antes tivesse casado com voc!
        Eu, que me sentia cada vez mais inocente, presenteei-a com
a frase:
        -        Resta saber se eu teria feito melhor negcio casando-me
com ela e no com voc!
        Depois, antes de adormecer, murmurei:
        - Grande safado! Manchar assim o prprio lar!
        Eu era bastante sincero ao reprovar-lhe exatamente aquela
parte da ao que eu no tinha por que reprovar a mim mesmo.
        Na manh seguinte, levantei com o vivo desejo de que ao
menos esse primeiro dia viesse a parecer-se com o precedente.
Era provvel que Carla no estivesse mais do que eu empenhada
nas intenes deliciosas do dia anterior, e eu me sentia
inteiramente livre. Tinham sido belos demais para ser
comprometedores. Decerto a nsia de saber o que Carla pensava daquilo me
fazia correr. Meu desejo seria encontr-la pronta para outra
deliberao. A vida correria depressa, rica de fruies sem
dvida, mas ainda mais de esforos para melhorar, e cada um dos
meus dias seria dedicado em grande parte ao bem e, em
pequenssima, ao remorso. A nsia tinha razo porque, em todo aquele
ano to rico de propsitos para mim, Carla no tivera seno
um: demonstrar que me queria bem. Ela o havia mantido e da
decorria uma certa dificuldade de inferir se agora lhe seria fcil
aceitar o novo propsito que rompia com o antigo.
        Carla no estava em casa. Foi uma grande desiluso e mordi
os dedos de raiva. A velha fez com que eu entrasse na cozinha.
Disse-me que Carla estaria de volta antes da tarde. Informara
que ia comer fora; por isso no fogo no havia nem mesmo a
pequena chama que ali ardia habitualmente:
        -        O senhor no sabia? - perguntou-me a velha, arregalando
os olhos de surpresa.
        Pensativo e distrado, murmurei:
        - Ela me disse ontem, mas no pensei que essa comunicao
ficasse valendo para hoje.
        Fui-me embora em seguida, aps haver-me despedido
gentilmente. Eu rangia os dentes, mas sm deixar perceber. Era
necessrio tempo para eu ter coragem de me aborrecer
publicamente. Entrei no Jardim Pblico e ali passeei por uma meia hora,
deixando passar o tempo para compreender melhor as coisas.
Eram to claras que j no se compreendia mais nada. De
repente, sem qualquer complacncia, via-me obrigado a manter
um propsito semelhante. Estava mal, realmente mal.
Claudicava e lutava at mesmo com uma espcie de aflio. Costumo
sentir esse tipo de aflio: respiro perfeitamente, mas conto as
respiraes uma por uma, porque de outra forma sinto que,
se no estivesse atento, poderia morrer sufocado.
        quela hora devia ir ao meu escritrio, ou melhor, ao de
Guido. Mas no era possvel afastar-me assim daquele stio.
Que faria depois? Bem diverso era este dia do antecedente! Se
ab menos soubesse o endereo do maldito professor que,  fora
de cantar  minha custa, me havia carregado com a amante.

        238        239

        Acabei por voltar para junto da velha. Encontrara uma forma
de fazer com que Carla quisesse voltar a ver-me. O mais difcil
era fazer com que ela estivesse a meu alcance. O resto no
apresentava a menor dificuldade.
        Encontrei a velha sentada junto a uma janela da cozinha,
absorta em cerzir meias. Ergueu os culos e, quase temerosa,
dirigiu-me um olhar interrogador. Hesitei! Depois perguntei-lhe:
        - Sabe que Carla resolveu casar-se com o Lali?
        Pareceu-me que contava esta novidade a mim mesmo. Carla
me dissera pelo menos duas vezes, mas eu lhe prestara pouca
ateno no dia anterior. Aquelas palavras de Carla haviam
repercutido em mim, e bem claramente, porque eu as recordava, mas
resvalaram sem penetrar mais fundo. Agora  que me atingiam
as vsceras, que se contorciam de dor.
        A velha tambm pareceu olhar-me hesitante. Com certeza
receava cometer alguma indiscrio que lhe poderia ser
reprovada. Depois explodiu, numa alegria evidente:
        - Carla lhe disse? Ento deve ser verdade. Penso que faz
muito bem! Que acha o senhor?
        Sorria de prazer a maldita velha, que sempre julguei
informada de minhas relaes com Carla. T-la-ia espancado de bom
grado; limitei-me, contudo, a dizer que preferia esperar que o
professor alcanasse uma posio social. Em suma, a coisa me
parecia um tanto precipitada.
        Na sua alegria a senhora mostrou-se pela primeira vez loquaz
comigo. No era do meu parecer. Quando se casava jovem,
podia-se fazer carreira depois de casado. Qual a necessidade de
faz-la antes? Carla tinha poucas necessidades. O canto j lhe
haveria de custar menos, visto que o marido seria ao mesmo
tempo professor.
        Estas palavras, que podiam significar uma censura  minha
avareza, deram-me uma idia que me pareceu magnfica e que
me trouxe um momento de alvio. No envelope que trazia
sempre no bolso do casaco devia haver agora uma bela soma. Tirei-o
do bolso, fechei-o e entreguei-o  velha para que o desse a Carla.
Tinha talvez o desejo de pagar afinal de um modo decoroso
a minha amante, mas o desejo mais forte era o de rev-la e reav-la.
Carla haveria de tornar a me ver, tanto no caso de querer
restituir-me o dinheiro quanto no de achar conveniente aceit-lo,
pois teria sentido necessidade de agradecer-me. Respirei: nem
tudo estava acabado para sempre!
        Disse  velha que o envelope continha pouco dinheiro, o
restante do que lhes fora destinado pelos amigos do pobre Copler.
Depois, bastante tranqilizado, mandei dizer a Carla que eu
permanecia sendo seu bom amigo para toda a vida e que, se
tivesse necessidade de um auxlio, poderia contar comigo sem
acanhamento. Com isso pude fornecer-lhe meu endereo, que
era o do escritrio de Guido.
        Parti com passo muito mais elstico do que aquele que me
levara at l.
        Nesse dia, porm, tive uma violenta altercao com Augusta.
Tratava-se de coisa de pouca importncia. Eu dizia que a sopa
estava salgada e ela afirmava o contrrio. Tive um acesso imbecil
de irritao porque me pareceu que ela zombava de mim e puxei
com toda a violncia a toalha da mesa, fazendo cair por terra
a loua. A criana, que estava no colo da bab, comeou a
gritar, o que me mortificou grandemente, pois a pequena boca
parecia reprovar-me. Augusta empalideceu como s ela sabia
empalidecer, tomou a criana em seus braos e saiu. Pareceu-me
que tambm cometia um excesso: ento me deixara comer
sozinho como um co? Logo retornou sem a criana, reps a mesa,
sentou-se diante do prprio prato, no qual meteu a colher como
se quisesse recomear a comer.
        Eu, de mim para mim, resmungava, mas j cnscio de que
estava sendo um joguete nas mos de foras desordenadas da
natureza. A natureza, que no encontrava grandes dificuldades
acumul-las, tambm no as tinha menores em desencade-las.
As minhas imprecaes agora eram dinigidas a Carla, que fingia
agir s em proveito de minha mulher. Eis no que dera aquilo
tudo!
        Augusta, graas a um sistema ao qual se manteve fiel at hoje,
quando me v em semelhantes condies, no protesta, no
chora, no discute. Quando humildemente comecei a pedir-lhe
desculpas, ela s quis explicar uma coisa: no havia rido; apenas
sorrira daquela forma que tanto me agradava e que eu tantas
vezes havia gabado.
        Envergonhei-me profundamente. Supliquei que mandasse
buscar a criana para junto de ns e, quando a tive entre os meus

        240        241

braos, fiquei a brincar demoradamente com ela. Depois, fi-la
sentar-se sobre a minha cabea e com o vestidinho que me
cobria o rosto pude enxugar meus olhos repletos das lgrimas
que Augusta no havia provocado. Brincava com a criana
sabendo que com isso, sem me rebaixar em pedir desculpas,
reaproximava-me de Augusta, cuja face, na verdade, j
readquirira as cores habituais.
        Por fim, tambm esse dia terminou muito bem e a tarde
pareceu-se com a precedente. Tudo se passava como se eu, naquela
manh, tivesse encontrado Carla no seu lugar de costume. Nem
me faltara o desabafo. Pedi reiteradas desculpas a Augusta, a
fim de induzi-la a reaver aquele sorriso maternal de quando eu
dizia ou cometia extravagncias. Que desagradvel seria se ela
em minha presena forasse uma determinada atitude ou se
tivesse que privar-se de um dos seus habituais sorrisos afetuosos,
que me pareciam o mais completo e benvolo dos juzos que se
poderia fazer a meu respeito.
         noite voltamos a falar de Guido.
        Parece que estava inteiramente de pazes feitas com Ada.
Augusta admirava-se da maravilhosa bondade da irm. Desta vez,
contudo, tocou a mim sorrir, pois era evidente que ela no fazia
idia de sua prpria bondade, que era enorme. Perguntei-lhe:
        - E se eu manchasse o nosso lar, voc me perdoaria? -
Ela hesitou:
        - Ns temos nossa filha - exclamou -, ao passo que Ada
no tem filhos que a prendam quele homem!
        Ela no gostava de Guido; penso s vezes que lhe guardava
rancor porque me fizera sofrer.
        Poucos meses depois, Ada presenteou Guido com dois gmeos,
e este nunca compreendeu por que eu lhe apresentava
congratulaes to calorosas.  que, tendo filhos, segundo o juzo de
,Augusta, podia desfrutar de todas as empregadas da casa sem
perigo algum para ele.
        Na manh seguinte, contudo, quando encontrei sobre a mesa
do escritrio um envelope com a caligrafia de Carla, respirei
contente. Eis que nem tudo estava acabado e que se podia
continuar a viver munido de todos os elementos necessrios. Com
palavras breves, marcava um encontro para as onze da manh
no Jardim Pblico, na entrada defronte da sua casa. O encontro
no se daria no seu quarto, embora fosse num lugar no muito
distante dele.
        No consegui esperar e cheguei ao local do encontro quinze
minutos antes. Se Carla no estivesse ali, teria ido sem maiores
titubeios  sua casa, o que seria bastante mais cmodo.
        Tambm aquele dia estava impregnado pela nova primavera
doce e luminosa. Depois de passar pela rumorosa Corsia Stadion
e entrar no jardim, achei-me no silncio buclico, interrompido
apenas pelo suave e contnuo rumor das plantas roadas pela
brisa.
        Com passo clere preparava-me para deixar o jardim, quando
Carla veio ao meu encontro. Trazia o envelope na mo e
aproximou-se de mim sem um sorriso de cumprimento, seno que
com uma rgida deciso na palidez do rosto. Vinha com um
vestido simples de fazenda grossa com listras azuis, que lhe
assentava muito bem. Parecia fazer parte do jardim. Mais tarde,
nos momentos em que mais a odiei, atribu-lhe a inteno de
vestir-se assim s para tornar-se ainda mais desejvel no prprio
momento em que se recusava a mim. Mas era, na verdade, o
primeiro dia da primavera que a vestia.  preciso ainda recordar
que, no meu longo mas brusco amor, o trajar de minha amante
desempenhava para mim pequenssimo papel. Eu corria
diretamente para aquele quarto, ou ia sempre encontr-la diretamente
em sua sala de msica, e as mulheres modestas so de fato muito
simples quando esto em casa.
        Estendeu-me a mo, que apertei dizendo:
-        Obrigada por ter vindo!
        Como teria sido mais decoroso para mim se durante todo
aquele colquio eu tivesse mantido essa brandura!
        Carla parecia comovida e, quando falava, uma espcie de
tremor lhe fazia mover o lbio. s vezes, at mesmo ao cantar,
aquele tremor dos lbios a impedia de alcanar a nota. Disse-me:
        - Gostaria de satisfaz-lo, aceitando este dinheiro, mas no
posso, no posso de maneira alguma. Peo-lhe que o receba de
volta.
        Vendo-a prxima das lgrimas, atendi imediatamente,
tomando o envelope que permaneceu em minha mo at muito tempo
depois de ter deixado aquele lugar.
-         verdade ento que no quer mais saber de mim?

242 243

        Fiz a pergunta sem me lembrar de que ela j me respondera
no dia anterior. Seria possvel que, desejvel como a via, ela
se recusasse a mim?
        - Zeno! - respondeu a moa com alguma doura. - No
havamos combinado que no nos veramos mais? Em
decorrncia disso, assumi compromissos iguais aos que voc j tinha
antes de me conhecer. So to solenes quanto os seus. Espero
que agora sua mulher perceba que voc  inteiramente dela.
        Em seu pensamento continuava, portanto, a ter importncia
a beleza de Ada. Se eu tivesse certeza de que me abandonava
por causa de minha cunhada, teria meios de remediar o caso.
Bastava dizer-lhe que Ada no era minha mulher e fazer com
que visse Augusta com seus olhos mopes e sua figura de
ama-de-leite. Mas os compromissos que havia assumido j no eram
agora mais importantes? Precisava discutir o caso.
        Tratei de falar com calma, embora a mim tambm os lbios
tremessem, s que de desejo. Deixei-a ver que ela no sabia o
quanto representava para mim e que no tinha o direito de
dispor assim de sua pessoa. Em meu crebro agitava-se a prova
cientfica de tudo quanto queria exprimir, ou seja, a famosa
experincia de Darwin com uma gua rabe, mas, graas ao
cu, estou quase seguro de que no cheguei a falar-lhe disso.
Devo, contudo, ter mencionado os animais e sua fidelidade fsica,
num balbuciar sem sentido. Abandonei, pois, os argumentos
mais difceis, no acessveis nem a ela nem a mim naquele
instante, e disse:
        - Que compromissos pode ter assumido? E que importncia
podem ter em confronto com o afeto que lhe dedico h mais
de um ano?
        Agarrei-a rudemente pela mo, sentindo necessidade de um
ato enrgico, no encontrando qualquer palavra que pudesse
supri-lo.
        Desprendeu-se com tanta violncia do meu agarro que parecia
ser a primeira vez que eu tomava a liberdade de semelhante ato.
        - Nunca - disse com atitude de quem jura. - Assumi um
compromisso sagrado! E com um homem que por sua vez
assumiu igual compromisso em relao a mim.
        No havia dvida! O sangue, que lhe tingiu as faces de
improviso, era incitado pelo rancor a um homem que no assumira
qualquer compromisso em relao a ela. E explicou-se ainda
melhor:
        - Ontem samos juntos a passear, de braos dados com a me
dele.
        Era evidente que minha amante se afastava cada vez mais
de mim. Eu corria atrs dela loucamente, como um co ao qual
se negaceia um saboroso pedao de carne. Agarrei-lhe de novo
a mo com violncia:
        - Pois bem - propus -, vamos passear tambm os dois
assim pela cidade inteira. A fim de que melhor nos vejam, vamos
andar pela Corsia Stadion para l e para c, percorrer todo o
Corso at Sant'Andrea, sempre de brao dado, e voltar depois
a casa por outro caminho, e que toda a gente o saiba.
        Eis que renunciava a Augusta pela primeira vez! Pareceu-me
uma libertao porque era de Augusta que Carla queria
arrancar-me.
        Esta se livrou de novo de meu aperto e disse com secura:
        - Seria mais ou menos o mesmo passeio que fizemos ontem!
        Saltei ento:
        - E ele sabe, sabe de tudo? Sabe que ainda ontem voc foi
minha?
        - Sim - disse com orgulho. - Ele sabe de tudo, tudo.
        Senti-me perdido; na minha raiva, igual a um co que, quando
no pode mais alcanar o bocado desejado, morde as vestes de
quem lho arrebata, disse:
        - Este seu futuro marido tem excelente estmago. Hoje digere
a mim e amanh poder digerir tudo o que voc quiser.
        No ouvia o som exato de minhas palavras. Sabia que estava
gritando de dor. Ela teve, ao contrrio, uma expresso indignada
de que eu no julgara capaz aquele escuro e meigo olhar de
gazela:
        - Por que diz isto a mim? No tem coragem de dizer a ele?
        Voltou-me as costas e com passo rpido encaminhou-se para
a sada. Eu j estava com remorso das minhas palavras,
ofuscado pela grande surpresa de que doravante no poderia mais
tratar Carla com doura. Ela me mantinha pregado ao cho. A
pequena figura azul e branca, com passo breve e clere, j
alcanava a sada, quando decidi correr atrs. No sabia o que
lhe dissera, e era impossvel que nos separssemos assim.

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        Fui alcan-la no porto de sua casa e expressei-lhe
sinceramente a grande dor daquele momento:
        -        Vamos separar-nos assim, depois de tanto amor?
        Ela continuava a proceder como se no me ouvisse e segui-a
ainda pelas escadas. Depois, olhou-me com olhar inamistoso:
        -        Se quer ver meu marido, venha comigo. No est ouvindo?
 ele quem est ao piano.
        S ento ouvi as notas sincopadas do "Adeus" de Schubert
transcrito por Liszt.
        Embora sem ter desde a infncia empunhado uma espada ou
um porrete, a verdade  que no sou medroso. O grande desejo
que me agitara at ento desaparecera de repente. Do macho
no restava em mim seno a combatividade. Exigira
imperiosamente uma coisa que no me pertencia. Para diminuir o meu
erro, neceSsitava bater-me; de outra forma, a recordao daquela
mulher que me ameaava com a punio do marido, haveria de
ser atroz para mim.
        -        Pois bem! - disse-lhe. - Se deixar, vou com voc.
        O        corao me batia, no de medo, mas do temor de no me
comportar bem.
        Continuei a subir ao lado dela. De repente, ela estacou,
apoiou-se  parede e comeou a chorar em silncio. L de cima
continuavam a chegar as notas do "Adeus", ecoando do piano
que eu comprara. O pranto de Carla tornava os sons comoventes.
        -        Farei o que voc quiser! Quer que eu v embora? -
perguntei.
        -        Quero - disse ela, mal conseguindo articular a breve
palavra.
        -        Ento, adeus! - disse-lhe. - J que quer assim, adeus
para sempre!
        Desci lentamente as escadas, assoviando eu tambm o "Adeus"
de Schubert. No sei se seria uma iluso, mas pareceu-me que
ela me chamava:
        -        Zeno!
        Naquele momento, ela podia chamar-me at mesmo por aquele
estranho nome de Drio, que eu achava at carinhoso, e eu no
teria parado. Tinha grande desejo de sair dali e retornar, mais
uma vez puro, para Augusta. At um co, a quem  fora
de pontaps se impede a aproximao da fmea, vai-se embora
puriSSimO num momento assim.
        Quando, no dia seguinte, fiquei novamente reduzido ao estado
em que me encontrava no momento de correr para o jardim
pblico, pareceu-me simplesmente ter bancado o canalha: ela
me chamara, ainda que no tosse com o nome do amor, e no
lhe respondi! Foi o primeiro dia de dor, ao qual se seguiram
muitos outros de amarga desolao. No conseguia
compreender por que me afastara daquele modo, atribuindo-me a culpa
de ter tido medo do homem ou receio de escndalo. Teria aceito
novamente qualquer compromisso agora, como quando propusera
a Carla o longo passeio atravs da cidade. Perdera um momento
favorvel e sabia perfeitamente que certas mulheres s no-lo
concedem uma vez em toda a vida. A mim teria bastado aquela
nica vez.
        Resolvi imediatamente escrever-lhe uma carta. No podia
deixar passar nem mais um dia sem fazer uma tentativa de
aproximar-me dela. Escrevi e reescrevi a carta para sintetizar em poucas
palavras toda a sagacidade de que era capaz. Reescrevi-a muitas
vezes tambm porque o fato de redigi-la era um grande
conforto para mim; era o desabafo de que necessitava. Pedia-lhe
perdo pela ira que lhe havia demonstrado, asseverando que
meu grande amor necessitava de tempo para aquietar-se.
Acrescentava: "Cada dia que passa, me traz uma outra migalha de
calma", e escrevi esta frase vrias vezes, sempre rangendo os
dentes. Depois dizia-lhe que no me perdoava as palavras que
lhe dirigira e sentia necessidade de pedir desculpas. No podia,
contudo, oferecer-lhe aquilo que Lali lhe oferecia e de que ela
era to digna.
        Imaginava que minha carta surtiria grande efeito. J que Lali
sabia de tudo, Carla poderia mostrar-lhe a carta, e para ele
poderia ser vantajoso ter um amigo da minha classe. Sonhei at
que poderamos arranjar uma doce vida a trs, uma vez que
meu amor era tal que naquele momento eu veria mitigada a
minha sorte, caso me fosse permitido fazer simplesmente a corte
a Carla.
        No terceiro dia recebi um curto bilhete dela. No me chamava
na verdade nem de Zeno nem de Drio. Dizia apenas: "Obri-

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gada! Seja igualmente feliz com sua mulher, que  digna de todo
o bem!" Falava de Ada, naturalmente.
        O momento favorvel no havia continuado e, vindo das
mulheres, no continua nunca, a no ser que as paremos,
segurando-as pelas tranas. Meu desejo condensou-me numa bile furiosa.
No contra Augusta! Minha alma estava to cheia de Carla que
eu sentia remorsos, e diante de Augusta ficava limitado a um
sorriso imbecil, estereotipado, que a ela parecia autntico.
        Contudo, eu tinha que fazer alguma coisa. No podia mais
esperar e sofrer assim cada dia! No queria voltar a escrever-lhe.
A escrita tem pouca importncia para as mulheres. Era preciso
encontrar algo melhor.
        Sem inteno precisa, encaminhei-me a correr para o Jardim
Pblico. Depois, muito mais lentamente, para a casa de Carla,
e, chegando ao patamar, bati  porta da cozinha. Se houvesse
possibilidade, evitaria contato com Lali, embora no me
desagradasse encontrar-me com ele. Seria a crise de que eu sentia
necessidade.
        A velha senhora, como de hbito, estava ao fogo, em que
ardiam duas trempes. Ficou admirada ao ver-me; depois, riu-se
como boa inocente que era. Disse:
        - Fico satisfeita em v-lo por aqui! Estava to acostumada
com o senhor todos os dias que compreendo muito bem como
esta ausncia h de fazer-lhe falta.
        No tive dificuldade em motiv-la a falar. Contou-me que a
afeio de Carla por Vittorio se revelava cada vez maior.
Naquele dia, juntamente com a me dele, viriam almoar com elas.
Acrescentou sorridente: - Daqui a pouco ele estar
convencendo Carla a acompanh-lo  casa de seus alunos, nas lies de
canto que d durante o dia. No sabem ficar separados nem por
um segundo.
        Sorria maternalmente dessa felicidade. Contou-me que dentro
de poucas semanas se casariam.
        Senti um gosto amargo na boca e quase ganhei a porta para
ir-me embora. Depois, contive-me na esperana de que a
conversa da velha pudesse sugerir-me alguma idia boa ou dar-me
qualquer esperana. O ltimo erro, que cometi com Carla, foi
exatamente afastar-me antes de haver estudado todas as
possibilidades que se me podiam oferecer.
        Por um instante cheguei a pensar que tivera uma idia.
Perguntei  velha se estava decidida a bancar a empregada da filha
at a morte. Disse-lhe que sabia que Carla no era muito afvel
com ela.
        Continuou a trabalhar assiduamente ao lado do fogo, mas
sem deixar de ouvir-me. Foi de um candor que eu no merecia.
Queixou-se de Carla, que perdia a pacincia por tudo e por nada.
Desculpava-se:
        -  verdade que a cada dia estou mais caduca e esqueo
tudo. Ela no tem culpa disto!
        Esperava, contudo, que as coisas andassem melhor. O mau
humor de Carla diminuiria, agora que era feliz. Alm disso,
Vittorio, desde o incio, no se cansava de demonstrar-lhe grande
respeito. Por fim, sempre dedicada a revestir uma forma com
massa e recheio de fruta, acrescentou:
        - meu dever acompanhar minha filha. No posso agir de
outra forma.
        Com certa ansiedade tentei convenc-la. Disse-lhe que podia
perfeitamente libertar-se de tamanha escravido. No me
conhecia? Eu continuaria a dar-lhe o estipndio mensal que at ento
vinha concedendo a Carla. Queria manter fosse quem fosse!
Queria conservar comigo a velha, que me parecia parte da filha.
        A velha manifestou-me reconhecimento. Admirava minha
bondade, mas ps-se a rir ante a idia de que lhe pudessem propor
abandonar a filha. Era algo impensvel.
        Eis uma dura palavra que me bateu contra a fronte, fazendo-a
curvar-se! Retornei  grande solido onde no havia Carla, nem
mesmo um caminho visvel que conduzisse a ela. Recordo que
fiz um ltimo esforo para iludir-me de que aquela via pudesse
permanecer pelo menos assinalada. Disse  velha, antes de me
retirar, que podia ocorrer viesse a mudar de idia dali a algum
tempo. Pedi-lhe ento que no deixasse de se lembrar de mim.
        Sa daquela casa cheio de despeito e rancor, exatamente como
se tivesse sido maltratado ao praticar uma boa ao. Aquela
velha ofendera-me de fato com sua exploso de riso. Senti que
ressoava ainda em meus ouvidos e que significava algo mais
que simples irriso  minha ltima proposta.
        No quis seguir para junto de Augusta em tal estado. Previa
o meu destino. Se fosse para junto dela, acabaria por maltrat-

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la, e ela se vingaria com a palidez que me fazia tanto mal.
Preferi percorrer as ruas num passo ritmado, que ao menos
serviria para dar um pouco de ordem ao meu esprito. E de fato
a ordem veio! Parei de me queixar do destino e vi-me como se
uma grande luz me houvesse projetado de corpo inteiro sobre
o calamento observado por mim. J no queria a posse de Carla,
queria o seu abrao, e preferivelmente o seu ltimo abrao.
Uma coisa ridcula! Mordi com fora os lbios para atrair a dor,
ou seja, um pouco de seriedade, sobre a minha ridcula figura.
Sabia tudo a meu respeito; era imperdovel que sofresse tanto
quanto me era oferecida uma oportunidade nica de ruptura.
        Clareei de tal forma o nimo que pouco depois, numa nua
alegre da cidade, a que fora dar sem nenhuma inteno, ao ver
uma mulher muito pintada fazendo-me sinais, acompanhei-a sem
a menor hesitao.
        Cheguei a casa bem tarde para o almoo; fui to carinhoso
com Augusta que ela ficou logo satisfeita. No fui capaz, no
entanto, de beijar minha filhinha e por algum tempo nem
consegui comer. Sentia-me aviltado. No fingi qualquer doena,
como de outras vezes, para ocultar ou atenuar o delito e o
remorso. No me parecia possvel encontrar conforto em
quaisquer propsitos para o futuro, e pela primeira vez no os fiz de
fato. Foram necessrias vrias horas para que eu voltasse ao
ritmo habitual que me projetava do negro presente para o
luminoso futuro.
        Augusta percebeu que alguma coisa de novo se passava
comigo. E rindo:
        - Com voc a gente nunca se enfada. Cada dia voc  um
homem diferente.
        Sim! Aquela mulher do subrbio no se parecia com nenhuma
outra, e eu a tinha em mim.
        Passei toda a tarde e a noite com Augusta. Estava
ocupadssima e eu inerte ao seu lado. Parecia-me ser transportado, assim
inerte, por uma corrente, uma corrente de gua lmpida: a
honesta vida de minha casa.
        Deixava-me levar pela correnteza que me conduzia mas no
purificava. Pelo contrrio! Evidenciava a minha mcula.
        Naturalmente, na longa noite que se seguiu, cheguei aos
propsitos. O primeiro foi o mais frreo. Haveria de munir-me de
uma arma com a qual me suicidaria imediatamente, se me
surpreendesse a correr para aquela parte da cidade. Tal propsito
fez-me bem e aliviou-me.
        No me lamentei mais na cama e at simulei uma respirao
regular de adormecido. Assim retornei  antiga idia de
purificar-me com uma confisso  minha mulher, exatamente como
ao estar prestes a tra-la com Canla. Contudo, j agora era uma
confisso bem difcil, no pela gravidade do malfeito, mas pela
complicao que da resultou. Diante de um juiz da qualidade
de minha mulher, devia alegar as circunstncias atenuantes, e
estas prevaleceriam apenas se eu pudesse dizer da impensada
violncia com que fora destruda minha relao com Carla.
        Ento, porm, teria sido necessrio confessar igualmente
aquela traio, j agora antiga. Era mais pura que a atual, mas (quem
sabe?) talvez mais ofensiva para minha mulher.
         fora de estudar-me, cheguei a propsitos cada vez mais
razoveis. Pensei que evitaria a repetio de um transe semelhante.
apressando-me a estabelecer uma nova relao como aquela que
eu perdera e que me fazia falta, como se podia observar. At
mesmo uma nova amante me atemorizava. Mil perigos ameaavam
a mim e  minha resumida famlia. No havia outra Carla
neste mundo, e com lgrimas de amargura voltei a lament-la,
ela, doce e boa que era, que tentara inclusive amar a mulher
que eu amava, e s no o conseguira porque eu pusera diante
dela uma outra - exatamente aquela que eu de fato no amava!

        250        251


7


HISTRIA DE UMA SOCIEDADE COMERCIAL


Foi Guido quem me quis com ele em sua nova casa comercial.
Eu queria muito participar da empresa, mas estou certo de
que nunca lhe permiti adivinhar o meu desejo. Compreendese
que, na minha inatividade, a proposta de um empreendimento
em companhia de um amigo houvesse de me soar simptica.
Mas existia algo mais. Eu ainda no abandonara a
esperana de vir a ser um bom negociante, e pareceu-me mais
fcil progredir ensinando a Guido que aprendendo de Olivi.
H muitos neste mundo que aprendem ouvindo apenas a si
mesmos ou, pelo menos, que no conseguem aprender o que
os outros lhes ensinam.
Eu tinha, alm disso, outras razes para aceitar a sociedade.
        Queria ser til a Guido! Antes de mais nada, queria-lhe bem
e, conquanto ele desejasse parecer forte e seguro, para mim
no passava de um inerte, carente de proteo, a qual de bom
grado eu lhe queria prestar. Ademais, diante de minha
conscincia, e no s aos olhos de Augusta, parecia-me que, quanto
mais me ligasse a Guido, mais clara se patentearia minha
absoluta indiferena por Ada.
        Em suma, no esperava mais que uma palavra de Guido
para pr-me  sua disposio, e essa palavra s no veio antes
porque ele no me achava assim to inclinado ao comrcio,
j que me escusava de emprender o que se me apresentava
em minha prpria casa.
        Um dia falou-me:
        -        Cursei toda a Escola Superior de Comrcio; ainda
assim, tenho certa preocupao em gerir devidamente todos os
pormenores que garantem o perfeito funcionamento de uma
casa comercial.  verdade que o bom comerciante no tem
necessidade de saber nada, porque, se precisa de uma
balana, chama o balanceiro; se precisa compreender uma lei,

252 253

convoca o advogadO e mesmo para a contabilidade, vale-se
do guarda-livros. Mas  bem desagradvel ter que entregar
desde o incio dos negcios a contabilidade da firma a um
estranho!
        Foi sua primeira aluso clara ao propsito de ter-me na
firma. Na verdade, eu no dispunha de outra prtica de
assuntOS contbeiS seno aquela adquirida nos poucos meses
que mantive em meu poder o livrO-raZo de Olivi; estava,
porm, certo de ser o nico contabilista que GuidO no
considerava estranho.
        Falou-se claramente pela primeira vez da eventualidade de
uma associao comercial entre ns, quando ele comeou a
escolher os mveis do escritrio. Ordenou imediatamente que
colocassem duas escrivaninhas no gabinete da adminiStrao.
perguntei-lhe, corando:
-        Por que duas?
        Respondeu:
-        A outra  para voc.
        Senti por ele tal reconhecimento que quase lhe dei um
abrao.
        Quando samoS do escritriO, Guido, um pouco embataado,
explicou-me que no era ainda o caso de oferecer-me um
posto em sua casa comercial. Deixava o lugar  minha
disposiO em sua prpria sala, para me motivar a vir fazer-lhe
companhia sempre que assim desejasse. No queria obrigar-me
a nada, e ele tambm ficaria livre de compromisso. Se os
negcios prosperaSSem, dar-me-ia um cargo na adminiStrao da
empresa.
        Falando de seus negciOS, o belo rosto moreno de GuidO
adquiria feio bastante sria. Parecia que j planejara todas
as operaes a que pretendia dedicar-se. Olhava a distncia,
por cima de minha cabea, e eu me fiava tanto na seriedade
de suas meditaeS que chegava a voltar-me para ver tambm
o que ele via, ou seja, as operaes que deviam trazer-lhe
fortuna. Ele no queria nem palmilhar O mesmo caminho que
fora percorrido com tanto xito por nosso sogro, nem a trilha
modesta e segura batida por Olivi. Ambos, em sua opinio,
eram comerciantes  antiga. Impunhase um novo sendeiro,
e de boa vontade associava-se a mim por considerar que eu
no fora estragado pelos velhos.
        Tudo isso me parecia verdade. Conquistava meu primeiro
sucesso comercial e corei de prazer pela segunda vez. Foi
assim, e pela gratido da estima que ele me demonstrara, que
trabalhei com ele e para ele, ora mais ora menos
intensamente, por bem dois anos, sem outra compensao do que a
glria daquele lugar no gabinete da administrao. No h
dvida de que aquele foi, at hoje, o mais longo perodo em
que me dediquei a uma mesma ocupao. S no me posso
gabar disto porque essa minha atividade no produziu frutos
nem para mim nem para Guido, e em comrcio - todos
sabem - s se pode julgar pelos resultados.
        Mantive a iluso de estar entregue ao grande comrcio por
cerca de trs meses, tempo necessrio  instalao da firma.
Soube que me competia no apenas verificar certos
pormenores como a correspondncia e a contabilidade, mas ainda
supervisionar os negcioS. Guido, contudo, exerceu sempre
grande ascendncia sobre mim, tanto que teria podido at
mesmo arruinar-me, e s mesmo a minha boa sorte foi que
impediu isto. Bastava um aceno seu para que corresse a ele.
Isto desperta minha estupefao ainda agora quando escrevo,
depois de tanto tempo que tive para meditar neste assunto ao
longo de minha vida.
        E insisto em escrever sobre esses dois anos porque meu
apego a ele me parece clara demonstraO da minha doena.
Que motivos tinha eu para me apegar a ele a fim de aprender
os grandes negcios, e logo depois permanecer apegado a ele
para ensinar-lhe os pequenos? Que razes tinha para sentir-me
bem em tal posio s porque me parecia que minha amizade
por Guido significava uma grande indifetena por Ada?
Quem exigia de mim tudo aquilo? No bastava, para provar
nossa indiferena recproca, a existncia de todos aqueles
fedelhos que dvamos assiduamente  vida? No queria mal
a Guido, mas no seria certamente o amigo que eu teria
escolhido livremente. Sempre observei to claramente OS seus
defeitos que sua maneira de pensar s vezes me irritava,
quando no me comovia algum ato seu de fraqueza. Por quanto
tempo entreguei-lhe o sacrifcio de minha liberdade e deixei-me
arrastar por ele s posies mais odiosas, s para assisti-lo!
Uma verdadeira e clara manifestaO de doena ou de

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grande bondade, duas qualidades intimamente relacionadas
entre si.
        Tudo isso permanece vlido, mesmo quando se tem em
conta que o tempo desenvolveu entre ns um grande afeto, como
sempre acontece entre pessoas que se vem todos os dias. E
no foi pequena a minha afeio! Agora que ele no mais
existe, senti por muito tempo o quanto me fazia falta, e at
minha prpria vida pareceu-me vazia com sua ausncia, pois
grande parte dela estava invadida por ele e por seus negcios.
        Acontece-me rir ao recordar de repente que logo em nossa
primeira operao comercial, a compra dos mveis, esquecemos
um detalhe. Estvamos com os mveis as costas, mas
ainda no havamos decidido onde abrir o escritrio. A
escolha do local gerou entre ns uma divergncia de opinio que
retardou a abertura. Eu sempre tinha observado pelo
procedimento de meu sogro e de Olivi que, para tornar possvel a
vigilncia do armazm, era necessrio que o escritrio lhe
fosse contguo. Guido protestava com uma careta de
repugnncia:
        -        Nada desses escritrios triestinos que cheiram a
bacalhau e curtume! - Ele estava seguro de organizar a vigilncia
mesmo de longe, embora hesitasse em decidir-se. Um belo dia,
o vendedor dos mveis intimou-o a retir-los do depsito, seno
os atiraria  rua; ento, ele correu a alugar um local, o
ltimo que lhe fora oferecido, bem no centro da cidade, onde no
era possvel ter armazm por perto. E com isso nunca
chegamos a ter um.
        O        escritrio compunha-se de duas vastas salas bem
iluminadas e de um cubculo sem janelas. Na porta desse cubculo
inabitvel foi deixado um cartozinho com a inscrio em
letras lapidares: Contabilidade; depois, nas outras duas
portas, uma teve a inscrio: Caixa, e a outra foi guarnecida com
a designao um tanto inglesa de Privado. Guido tambm
estudara comrcio na Inglaterra e de l trouxera noes teis.
A Caixa dispunha, como devia, de um magnfico ba de ferro
e da grade tradicional. Nossa sala Privada transformou-se num
gabinete de luxo esplendidamente atapetado de uma cor escura
aveludada e fornido com duas escrivaninhas, um sof e vrias
poltronas comodssimas.
        Depois adquirimos os livros e os vrios utenslios. Nisto a
minha autoridade de diretor era indiscutvel. Encomendava e
os objetos chegavam. Na verdade, teria preferido no ser
atendido to prontamente, mas meu dever era dizer tudo aquilo
que faltava num escritrio. Ento imaginei ter descoberto a
grande diferena que havia entre ns dois. Tudo que eu sabia
me servia para falar, e a ele para agir. Quando ele chegava a
saber aquilo que eu sabia e no mais, ele comprava. 
verdade que, vez por outra, no comrcio, acabou por no fazer
nada, ou seja, a no comprar nem vender, mas mesmo esta
me pareceu a resoluo de uma pessoa que acredita saber
muito. Mesmo na inrcia eu haveria de ficar mais hesitante.
        Fui muito prudente nas compras. Corri a Olivi para ver o
modelo dos copiadores e dos livros de contabilidade. Em
seguida, o filho ensinou-me a abrir o termo dos livros e me
explicou mais uma vez a contabilidade por partidas dobradas,
coisa nada difcil, mas que se esquece facilmente. Quando
chegssemos ao balano, haveria de me explicar tambm aquilo.
        No sabamos ento o que haveramos de fazer naquele
escritrio (agora sei que Guido tambm no sabia) e discutamos
a propsito de todos os aspectos de nossa organizao.
Recordo-me de que durante dias falamos sobre onde
colocaramos outros empregados se deles tivssemos necessidade.
Guido sugeria que metssemos na Caixa quantos l pudessem
caber. Mas o pequeno Luciano, nico empregado que
tnhamos no momento, insistia em que na Caixa s podamos
deixar os funcionrios que trabalhassem com dinheiro. Era duro
ter que aceitar lies do nosso contnuo! Tive uma inspirao:
        - Se no incorro em erro, na Inglaterra paga-se tudo com
cheque.
        Era algo que ouvira dizer em Trieste.
        - Bravo! - disse Guido. - Agora tambm me recordo.
Curioso como pude me esquecer disso!
        Comeou a explicar a Luciano extensamente como j no
se usava o manuseio de grandes somas. Os cheques passavam
de uma a outra pessoa, em quaisquer importncias que se
quisesse. Foi uma bela vitria a nossa, e Luciano calou-se.
        O rapaz aproveitou-se bem de quanto aprendeu com Guido.
Aquele moo de recados  hoje respeitado comerciante
em Trieste. Cumprimenta-me ainda com certa humildade, ate-

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nuada por um sorriso. Guido passava sempre uma parte do
dia a ensinar a princpio a Luciano, depois a mim, e mais
tarde  empregada. Lembro que durante muito tempo
acalentara a idia de dedicar-se ao comrcio em bases de comisso,
para no arriscar seu prprio dinheiro. Explicou-me a
essncia de tal atividade e, visto que eu evidentemente aprendia
rpido demais, tornou a explic-la a Luciano, que esteve a
ouvi-lo por muito tempo com ares da mais viva ateno, os
grandes olhos brilhantes no rosto ento imberbe. No se pode
dizer que Guido tenha perdido seu tempo, porque Luciano
foi o nico de ns que teve xito em tal gnero de comrcio.
Depois se diz que a cincia  que sai vencedora!
        Nesse nterim, chegaram os pesos de Buenos Aires. Foi um
negcio srio! A princpio, pareceu-me coisa simples; o mercado
triestino, contudo, no estava preparado para essa
moeda extica. Tivemos novamente necessidade do jovem Olivi,
que nos ensinou o modo de realizar a ordem. Depois, dado
que houve um momento em que ficamos sozinhos, com Olivi
acreditando j nos ter conduzido a bom porto, Guido se
encontrou vrios dias com os bolsos abarrotados de coroas, at
que encontramos um banco que nos livrou do incmodo
pacote, entregando-nos um talo de cheques de que logo
aprendemos a fazer uso.
        Guido sentiu necessidade de dizer a Olivi que nos havia
facilitado a dita transao:
        - Asseguro-lhe que jamais farei concorrncia  firma de
meu amigo!
        Mas o jovem, que do comrcio tinha um outro conceito,
respondeu:
        - Quem dera houvesse um nmero maior de contratantes
para os nossos artigos. Estaramos bem melhor de vida!
        Guido ficou de boca aberta, compreendeu bastante bem,
como lhe acontecia sempre, e aferrou-se quela teoria que
ministrava a trs por dois.
        A despeito de sua Escola Superior, Guido tinha conceito
pouco preciso do Deve e do Haver. Observou com surpresa
como constitu a conta do capital e tambm como registrava
as despesas. Depois, porm, ficou to douto em contabilidade
que, quando lhe era proposto qualquer negcio, analisava-o
antes de tudo do ponto de vista contbil. Parecia-lhe, sem dvida,
que o conhecimento da contabilidade conferia ao mundo
um novo aspecto. Via nascer devedores e credores em todos
os lados, mesmo quando duas pessoas se esmurravam ou se
beijavam.
        Pode-se dizer que entrou no comrcio armado da mxima
prudncia. Recusou uma quantidade de negcios e durante
seis meses chegou a recusar todos, com um ar tranqilo de
quem sabe melhor:
        - No! - dizia, e o monossbalo parecia o resultado de
um clculo preciso, at quando se tratava de um artigo que ele
nunca tinha visto. Mas toda essa reflexo era malbaratada em
verificar como o negcio, aps o lucro ou a perda eventuais,
haveria de ser contabilizado. Era a ltima coisa que ele
aprendera e que se sobrepunha a todas as outras noes.
        Lamento ter que falar to mal de meu pobre amigo, mas
devo ser verdico, inclusive para compreender melhor a mim
mesmo. Recordo toda a inteligncia que ele empregou para
obstruir o nosso modesto escritrio com teorias fantsticas,
impeditivas de qualquer operao corrente. A um dado ponto,
para iniciar o trabalho em comisso, devamos expedir pelo
correio um milhar de circulares. Guido saiu-se com esta
reflexo:
        - Quantos selos poderamos economizar, se antes de
expedir as cartas soubssemos quais delas se destinam s pessoas
que de fato nos interessam!
        A frase, em si mesma, no teria impedido nada, mas ele
gostou tanto dela que comeou a atirar para o ar as circulares
j fechadas nos envelopes, a fim de expedir apenas os que
cassem com o endereo voltado para cima. A experincia
recordava algo semelhante que eu prprio fizera no passado,
embora acredite no ter eu chegado a tal ponto.  claro que
no cheguei a expedir as circulares eliminadas por ele, pois no
me sentia seguro para julgar se o mtodo eliminatrio no
provinha realmente de uma inspirao autntica, caso em
que me competia economizar os selos, pagos afinal por ele.
        Minha boa sorte impediu-me de ser arruinado por Guido,
mas essa mesma boa sorte me impediu igualmente de tomar
uma parte mais ativa em seus negcios. Digo-o alto e bom
som porque h muita gente em Trieste que no pensa assim:
durante o tempo que passei na firma, nunca interferi com

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qualquer inspirao que fosse, do gnero daquela das frutas
secas. Nunca o impeli a um negcio e nunca o impedi de
faz-lo. Era seu assessor! Incitava-o  atividade,  cautela.
Nunca, porm, ousaria jogar com o dinheiro dele.
        Ao seu lado eu me punha sempre inerte. Procurei met-lo
no caminho certo, e s no o consegui por demasiada inrcia.
De resto, quando duas pessoas trabalham juntas, no lhes
compete decidir quem deve ser D. Quixote, e quem, Sancho
Pana. Ele fazia os negcios e eu, como bom Sancho, seguia-o
devagar nos meus livros, depois de t-los criticado e
examinado como era de meu dever.
        O comrcio em comisso fracassou completamente, mas
sem nos causar qualquer prejuzo. Recebemos uma nica
remessa de mercadorias, de uma papelaria de Viena, e uma
parte daqueles artigos de escritrio foi vendida por Luciano,
que aos poucos soube quanto receberamos de comisso e
fez com que Guido lha desse quase toda. Guido acabou por
condescender, pois eram ninharias, e porque o primeiro
negcio assim liquidado devia trazer-nos sorte. Aquele primeiro
negcio deixou-nos o pequeno quarto de depsito abarrotado
de uma quantidade de material de escritrio que tivemos de
pagar e guardar. Dava para o consumo normal de muitos anos
de uma firma comercial bem mais ativa que a nossa.
        Durante uns meses o pequeno escritrio to claro, no
centro da cidade, foi para ns um agradvel recreio.
Trabalhava-se pouco (creio que realizamos ao todo duas transaes
com sacos de aniagem usados, para os quais encontramos no
mesmo dia vendedor e comprador, dando-nos uma pequena
margem de lucro) e conversava-se muito, como bons amigos,
at mesmo com o inocente Luciano, que, quando ouvia falar
de negcios, excitava-se como rapazes de sua idade quando
ouvem falar de mulheres.
        Era fcil para mim, quela altura, divertir-me
inocentemente com os inocentes, pois ainda no havia perdido Carla.
E recordo os dias inteiros dessa poca.  noite, em casa, tinha
muito que contar a Augusta, e podia dizer-lhe tudo o que se
referia ao escritrio, sem omitir nada e sem nada
acrescentar para falsear a verdade.
        No me preocupava de maneira alguma quando Augusta
exclamava pensativa:
        - Mas quando vocs comeam a ganhar dinheiro?
        Dinheiro? Sequer havamos pensado nele. Sabamos que
primeiro era necessrio observar, estudar as mercadorias, o
pas e at mesmo o nosso Hinterland. No se improvisava uma
casa comercial de um dia para outro! E at Augusta se
acalmava com minhas explicaes.
        Pouco depois, admitimos no escritrio um hspede muito
barulhento. Um co de caa de poucos meses, agitado e
enxerido. Guido apreciava-o muito e organizou para ele um
abastecimento regular de leite e de carne. Quando no
tinha o que fazer ou pensar, tambm eu o via saltitar pelo
escritrio, naquelas suas quatro ou cinco atitudes que sabamos
interpretar e que o tornavam to querido a ns todos.
Mas no me parecia destinado a ns, assim barulhento e
imundo. Para mim a presena daquele co em nosso
escritrio foi a primeira prova que Guido forneceu de no ser digno
de dirigir uma casa comercial. Aquilo provava absoluta
ausncia de seriedade. Tentei explicar-lhe que o co no podia
promover os nossos negcios, mas no tive coragem de
insistir, e ele, com uma resposta qualquer, me fez calar.
        Contudo, pareceu-me que devesse dedicar-me  educao
daquele nosso colega, e desfechava-lhe com grande
satisfao alguns pontaps quando Guido no estava, O co latia
e, a princpio, retornava para junto de mim, julgando que eu
o tivesse chutado por engano. Mas um segundo chute explicava-lhe
melhor o sentido do primeiro e ento ele ia esconder-se
a um canto, e de l s saa quando Guido regressava ao
escritrio. Arrependi-me depois por me haver encarniado em
cima de um inocente, mas j era tarde demais. Cumulei o co
de gentilezas; este, porm, no confiava mais em mim, e em
presena de Guido deu claros sinais dessa antipatia.
        - Estranho! - disse Guido. - Por sorte que o conheo,
seno desconfiava de voc. Os ces, de modo geral, no se
enganam em suas antipatias.
        Para dissipar as suspeitas de Guido, estive a ponto de
contar-lhe como conseguira conquistar a antipatia do co.
        Com pouco surgiu um desentendimento entre ns a
propsito de uma questo que de fato no tinha tanta importncia
para mim. Entregue  sua paixo pela contabilidade, Guido
meteu na cabea escriturar seus gastos domsticos na conta

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das despesas gerais. Depois de haver consultado Olivi, opus-me
a isso e defendi os interesses do velho Cada Volta. Na
verdade, no era possvel levar quela conta tudo o que
gastava Guido, Ada e o que custaram depois os gmeos que
nasceram. Eram despesas que incumbiam diretamente a
Guido e no  firma. Em compenSao, sugeri que Guido
escrevesse a Buenos Aires, solicitando a atribuio de um salrio
a si prpriO, mas o pai recusou-se, observando que Guido j
percebia 75% dos lucros, enquanto a ele tocava apenas o
resto. A mim pareceu-me uma resposta justa, ao passo que
Guido continuou a escrever longas cartas ao pai, discutindo
a questo de um ponto de vista superior, como dizia. Buenos
Aires ficava muito distante e assim a correspondncia durou
enquanto existiu a nossa empresa. Afirmei, porm, meu ponto
de vista! A conta das despesas gerais permaneceu pura, no
fui inquinado das despesas particulares de Guido e o capital
ficou todo compreendido na falncia da firma, ntegro, sem
qualquer deduo.
A quinta pessoa admitida nO escritrio (incluindo na conta
Argos) foi Carmen. Presenciei sua admisso ao emprego. Eu
chegara ao escritrio depois de ter estado com Carla e me
sentia muito calmo, cheio daquela serenidade das oito da
manh do prncipe de Talleyrand. No corredor escuro dei com
uma senhorita que Luciano me disse estar  espera de Guido
para uma entrevista pessoal. Eu tinha algo a fazer e pedi-lhe
que esperasse l fora. Guido entrou pouco depois em nosso
gabinete, evidentemente sem dar com a senhorita, e Luciano
veio trazer-lhe um carto de visitas de que a moa era
portadora. Guido leu-o.
    - No! - disse secamente, tirando o palet por causa
do calor. Mas logo teve uma hesitao:
        -  melhor que a receba em considerao  pessoa que
a recomendou.
        F-la entrar e s olhei para ela quando percebi que Guido
se atirara de um salto para vestir o palet antes de se dirigir
 bela jovem de rosto moreno, corado, e olhos cintilantes.
        Ora, estou certo de j ter visto moas to bonitas quanto
Carmen, mas no de beleza to agressiva, ou seja, to evidente
ao primeirO olhar. Em geral as mulheres so criadas mais pelo
nOSSO prprio desejo, ao passo que esta no necessitava desta
primeira etapa. Olhando para ela, sorri e cheguei mesmo a
rir. Parecia um industrial que sasse pelo mundo apregoando
a excelncia de seus produtos. Apresentava-se para candidatar-se
a um emprego, e eu tive vontade de intervir na contratao
        e perguntar: - Qual emprego? De alcova?
        Vi        que seu rosto no estava pintado, mas nele as cores eram
to precisaS, a candura e o rubor to semelhantes ao das frutas
maduras que o artifcio estava admiravelmente simulado. Seus
grandes olhos escuros refratavam tal quantidade de luz que
o menor de seus movimentos se carregava de importncia.
        Guido fizera-a sentar-se, e ela olhava modestamente para
a ponta da sombrinha ou mais provavelmente para o bico
das botas de verniz. Quando Guido falou, ela ergueu
rapidamente os olhos e revolteOu-OS to luminosos naquela face que
o meu pobre chefe recebeu um choque. Estava modestamente
vestida, mas isso no a favorecia porque em seu corpo
qualquer modstia se anulava. S as botas eram de luxo e faziam
pensar naquelas folhas de papel branqusSimO que VelsqueZ
punha embaixo dos ps de seus modelos. O prprio
Velsquez, para destac-la do ambiente, haveria de figurar Carmen
apoiada sobre aquele negror de laca.
        Na minha serenidade, fiquei a ouvir curiosO. Guido
perguntou-lhe se sabia estenografia. Ela confessou que de fato no
sabia, mas acrescentou que tinha grande prtica de escrever
cartas sob ditado. Curioso! Aquela figura alta, esbelta e to
harmnica, emitia uma voz rouca. No consegui calar minha
surpresa:
        -        Est resfriada? - perguntei.
        -        No! - respondeume. - Por que pergunta? - e de
intrigada dirigiu-me um olhar que era ainda mais intenso que
o habitual. Ela decerto ignorava possuir voz rouca e tive de
supor que seu ouvidinho tambm no era assim to perfeito
quanto apregoava.
        Guido perguntou-lhe se conhecia ingls, francs ou alemo.
Ele deixava-lhe a escolha de vez que mesmo ns no sabamos
que lngua nos seria mais til. Carmen respondeu que sabia
um pouco de alemo, muito pouco.
        -        Alemo at que nem precisamos porque domino muito
bem.

262 263

        A moa esperava a palavra decisiva que a mim parecia j
ter sido dada e, para apress-la, declarou que buscava no novo
emprego uma oportunidade de praticar, contentando-se por isso
com um salrio modesto.
        Um dos primeiros efeitos da beleza feminina sobre um
homem  o de tirar-lhe a avareza. Guido encolheu os ombros
como para dizer que no se preocupava com estas ninharias,
fixou-lhe um salrio que ela aceitou satisfeita e recomendou-lhe
com grande seriedade que estudasse estenografia. Creio que
fez a recomendao apenas em considerao a mim, julgando-se
comprometido por ter antes declarado que s admitiria algum
que fosse estengrafa perfeita.
        Na mesma noite falei com minha mulher sobre a nova
colaboradora. Ela mostrou-se excessivamente preocupada. Sem que
lhe dissesse nada, pensou logo que Guido admitira a moa ao
servio com a inteno de fazer dela sua amante. Eu discuti
o assunto e, embora admitindo que Guido se comportava um
pouco como enamorado, asseverei que poderia recuperar-se
daquela paixo sem maiores conseqncias. A moa, afinal de
contas, parecia pessoa de bem.
        Poucos dias depois - no sei se por acaso - recebemos no
escritrio a visita de Ada. Guido ainda no havia chegado
e ela esteve um instante comigo a perguntar sobre ele. Depois,
com passo hesitante, conduziu-se para a sala vizinha, onde
se achavam apenas Carmen e Luciano. Carmen exercitava-se
na mquina de escrever, toda absorta em catar as letras.
Ergueu os belos olhos para Ada que a fitava. Como eram
diferentes as duas mulheres! Semelhavam-se um pouco, mas Carmen
parecia uma caricatura de Ada. Eu pensei que a mais ricamente
vestida tinha sido feita de fato para tornar-se mulher ou me,
ao passo que a outra, apesar de naquele instante estar com um
modesto avental para no sujar o vestido na mquina, nascera
para amante. No sei se neste mundo h sbios que possam
dizer por que motivo os belssimos olhos de Ada concentravam
menos luz que os de Carmen e davam a impresso de rgos
destinados exatamente para ver as coisas e as pessoas, e no
para aturdir. Contudo, Carmen suportou bravamente o olhar
desdenhoso e tambm cheio de curiosidade de Ada: havia
talvez nele um pouco de inveja, ou quem sabe fosse eu a
atribuir-lhe isso?
        Esta foi a ltima vez que eu vi Ada ainda bela, como no
tempo em que me desprezou. Depois, ocorreu sua desastrosa
gravidez e os gmeos que tiveram necessidade de interveno
cirrgica para virem ao mundo. E logo foi acometida pela
doena que lhe exauniu toda a beleza. Por isso me recordo
to bem daquela visita. Recordo-a ainda porque naquele
momento toda a minha simpatia era para ela, para a sua beleza
suave e modesta, afrontada por outra to diferente. Era certo que
eu no gostava de Carmen, no lhe conhecia seno os
magnficos olhos, as cores esplndidas, a voz rouca e por fim a
maneira - de que era inocente - como fora admitida na firma.
Quis mesmo muito bem a Ada naquele momento, e  uma
coisa bastante estranha querermos bem a uma mulher que j
desejamos com ardor, que no foi nossa e que agora nos 
indiferente. Em suma, chega-se desta forma  mesma condio
em que estaramos se ela tivesse ento cedido ao nosso desejo,
e  surpreendente poder constatar mais uma vez como certas
coisas pelas quais vivemos acabam por ter importncia
insignificante.
        Quis abreviar-lhe a dor e trouxe-a de volta para a outra
sala. Guido, que chegou em seguida, ficou muito vermelho
ao dar com a presena da mulher. Ada apresentou uma razo
bastante plausvel para a visita, perguntando-lhe ao sair:
        - Vocs admitiram uma nova empregada?
        - Admitimos! - disse Guido e, para dissimular seu
embarao, no encontrou nada melhor do que interromper-se
para perguntar se algum viera  sua procura. Recebendo
resposta negativa, teve ainda uma expresso de desagrado como
se estivesse  espera de uma visita importante embora eu
soubesse perfeitamente que no esperava ningum. S ento
disse a Ada, com um ar de indiferena que finalmente
conseguiu simular:
        - Precisvamos de um estengrafo!
        Achei muitssimo divertido ouvi-lo enganar-se at quanto
ao sexo da pessoa de quem necessitava.
        A vinda de Carmen trouxe grande animao ao nosso
escritrio. No falo da vivacidade oriunda de seus olhos, nem
de sua graciosa figura ou das cores de sua face; falo mesmo
dos negcios. Guido sentiu estmulo pelo trabalho com a

        264        265

presena da jovem. Antes de mais nada quis demonstrar a
mim e aos outros que a nova empregada era necessria, e cada
dia inventava tarefas das quais ele prprio participava. Depois,
por muito tempo, sua atividade foi um meio eficaz de cortejar
a moa. Alcanou mesmo eficcia inaudita. Conseguia ensinar-lhe
a maneira de datilografar as cartas que ditava e corrigia
tambm a grafia de muitssimas palavras. Fazia-o sempre com
delicadeza. Qualquer que fosse a retribuio por parte da
jovem, nunca seria excessiva.
        Das tarefas inventadas por ele em funo do namoro poucas
produziram resultados. Certa vez trabalhou longamente para
comerciar um artigo que acabou por nos trazer problemas.
Houve um momento em que nos deparamos com um homem
de face contrada pela dor sobre cujos calos estvamos pisando
sem saber. Queria que lhe dissssemos por que motivo
queramos comerciar com tal artigo e acreditava que fssemos
mandatrios de algum poderoso concorrente estrangeiro. Quando
nos surgiu pela primeira vez, estava transtornado e temia o
pior. Ao perceber que no passvamos de ingnuos, riu nas nossas
bochechas e afianou-nos que nada conseguiramos. Acabou
tendo razo, mas at recebermos o castigo passou-se muito
tempo e Carmen teve cartas e mais cartas a escrever. Descobrimos
que no encontrvamos o artigo porque ele estava circundado
de barreiras. No revelei tais negcios a Augusta, mas
ela mencionou-os a mim porque Guido falara com Ada sobre
isto, para demonstrar a trabalheira que tinha o nosso
estengrafo. Esse negcio, jamais realizado, permaneceu sempre
de muita importncia para Guido. Falava-me dele todos os
dias. Estava convencido de que em nenhuma outra cidade do
mundo aconteceria coisa semelhante. Nosso ambiente
comercial era miservel e qualquer comerciante empreendedor acabava
por ser estrangulado. Ele se inclua no caso.
        Na louca e desordenada seqncia dos negcios que passaram
por nossas mos naquela poca, houve um que de fato
nos prejudicou. No fomos atrs dele; o negcio  que tombou
sobre ns. Fomos procurados no escritrio por um senhor
dlmata, de nome Tacich, cujo pai trabalhara na Argentina
com o pai de Guido. Veio a princpio procurar-nos s para
obter informaes comerciais que conseguimos fornecer-lhe.
        Tratava-se de um belo jovem, at belo demais. Alto, forte,
de face morena, na qual se casavam em tons delicados o azul
bao dos olhos, s longas sobrancelhas e bigodes curtos e
densos, onde havia reflexos ureos. Em suma, havia nele uma
tal exuberncia de cores que me pareceu a pessoa ideal para
cortejar Carmen. Isso tambm lhe deve ter ocorrido, pois
vinha ao escritrio todos os dias. As conversas duravam o dia
inteiro, e nunca eram enfadonhas. Os dois lutavam para
conquistar a mulher, e como todos os animais no cio, pavoneavam
suas melhores qualidades. Guido estava um pouco inferiorizado
pelo fato de que o dlmata ia encontr-lo at em casa, e por
isso conhecia Ada, mas no havia nada mais que pudesse
prejudicar aos olhos de Carmen; eu, que conhecia to bem
aqueles olhos, percebi-o imediatamente, ao passo que Tacich
s o aprendeu muito mais tarde, e, para ter um pretexto de
v-la com maior freqncia, adquiriu de ns, e no diretamente
do fabricante, vrios vages de sabo, que pagou alguns por
cento mais caro. Depois, sempre por amor, acabou arrastando-nos
quele negcio desastroso.
        Seu pai observara que, constantemente, em determinadas
pocas do ano, o sulfato de cobre subia e em outras baixava
de preo. Decidiu-se assim a comprar para especulao no
momento mais favorvel, na Inglaterra, umas sessenta
toneladas. Falamos demoradamente sobre a operao e chegamos
inclusive a prepar-la, estabelecendo contacto com a firma
inglesa. Depois o pai telegrafou ao filho, dizendo que lhe
parecia adequado o momento, mencionando at o preo pelo
qual se disporia a fechar negcio. Tacich, apaixonado como
estava, correu ao escritrio e nos consignou a operao, em
paga do que recebeu um belo, grande e acariciante olhar de
Carmen. O pobre dlmata acolheu reconhecido o olhar, sem
saber que era uma manifestao de amor por Guido.
        Recordo-me da tranqilidade e da segurana com que Guido
agarrou-se  operao, que de fato parecia faclima, pois na
Inglaterra era possvel consignar a mercadoria ao nosso porto,
onde seria cedida, sem ser desembaraada, ao nosso comprador.
Guido estipulou exatamente a comisso que haveria de
receber e, com minha ajuda, estabeleceu o limite que imporia ao
nosso amigo ingls para a aquisio. Com a ajuda do dicionrio
combinamos juntos os termos do telegrama em ingls. Uma

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vez expedido, Guido esfregou as mos e se ps a calcular
quantas coroas iriam chover na caixa como prmio daquele
leve e rpido esforo. Para propiciar a merc dos deuses, achou
justo prometer uma pequena comisso a mim e logo, com certa
malcia, tambm a Carmen, que colaborara no negcio com
a fora do olhar. Ambos quisemos recusar, mas ele pediu que
ao menos fingssemos aceitar. Temia que a recusa pudesse
trazer mau augrio e eu aquiesci imediatamente para
tranqiliz-los. Sabia com certeza matemtica que de minha parte
no lhe podiam vir seno os melhores augrios, mas
compreendia que ele pudesse duvidar disso. Neste mundo, quando
no nos queremos mal, amamo-nos todos; contudo, os nossos
vivos desejos s acompanham os negcios de que participamos.
        O negcio foi discutido minuciosamente em todos os detalhes
e at recordo que Guido calculou mesmo por quantos
meses, com o lucro que nos iria dar, poderia manter a
famlia e o escritrio, ou seja, suas duas famlias, como dizia
algumas vezes, ou seus dois escritrios, como dizia em outras,
quando se aborrecia em casa. Foi estudado em demasia aquele
negcio, e talvez no tenha dado certo por isso. De Londres
chegou um telegrama conciso: Anotado, seguido da indicao
do preo do sulfato no dia, bastante superior ao autorizado
por nosso comprador. Adeus negcio. Tacich foi informado
do insucesso e pouco depois abandonou Trieste.
        Na poca, fiquei cerca de um ms sem ir ao escritrio; por
isso no passou por minhas mos uma carta que chegou 
firma, de aspecto inofensivo, mas que devia acarretar graves
conseqncias para Guido. Com esta, a companhia inglesa
confirmava seu telegrama e acabava informando que anotara
nossa ordem para atendimento futuro, caso o pedido no
fosse cancelado. Guido esquecera-se de revogar a ordem e eu,
quando retornei ao escritrio, nem me lembrava mais do
assunto. Meses depois, numa noite, Guido veio procurar-se em
casa com um telegrama que ele no compreendia e pensava
nos fosse endereado por engano, embora trouxesse claro
nosso endereo telegrfico, que eu mandara registrar to logo
instalamos o escritrio. O despacho continha apenas trs
palavras: 60 tons settled, que logo compreendi, por no ser nada
difcil j que o do sulfato de cobre fora o nico negcio de
vulto que havamos tratado. Expliquei-lhe que se podia
concluir do telegrama que o preo fixado por ns para a execuo
da ordem fora finalmente alcanado e que por isso ramos
naquele momento os felizes proprietrios de sessenta toneladas
de sulfato.
        Guido protestou:
        - Eles esto doidos se pensam que vou consentir na
execuo dessa ordem depois de passado tanto tempo!
        Logo me lembrei que devamos ter no escritrio a carta
de confirmao do primeiro telegrama, ao passo que Guido
no se lembrava de hav-la recebido. Ele, inquieto, props
que fssemos imediatamente ao escritrio para ver se
encontrvamos; isso muito me agradou porque me aborrecia a
discusso na presena de Augusta, que ignorava o fato de
no ter eu durante um ms comparecido ao escritrio.
        Corremos ao escritrio. Guido estava to desgostoso de se
ver obrigado a aceitar aquele primeiro grande negcio que,
para eximir-se, teria corrido at Londres. Abrimos o escritrio;
tateando pela escurido, encontramos o caminho para a nossa
sala e conseguimos acender o gs. A carta foi encontrada e
continha os dizeres que eu supunha; confirmava que nossa
ordem, sendo vlida enquanto no revogada expressamente,
fora agora cumprida.
        Guido fitou a carta com a face contrada no sei se pelo
desgosto ou pelo esforo de querer aniquilar com seu olhar
tudo aquilo que se anunciava existente com tanta simplicidade
de palavras.
        - E pensar - observou - que teria bastado escrever.
duas linhas para evitar um prejuzo destes!
        No era certamente uma censura dirigida a mim, pois eu
estivera ausente do escritrio e, conquanto tivesse achado a
carta sem dificuldades por saber onde deveria estar, aquela
era a primeira vez que eu lhe deitava os olhos. Mas para
eximir-me radicalmente de qualquer reprovao, voltei para
ele decidido:
        - Durante a minha ausncia voc devia ter lido
cuidadosamente todas as cartas!
        A fronte de Guido desenrugou-se. Ergueu os ombros e
murmurou:

268 269

        -        Este negcio ainda pode acabar dando sorte para
ns!
        Pouco depois nos separamos e retornei a casa.
        Mas Tacich tinha razo: em certas pocas o sulfato de cobre
baixava de preo, cada dia mais e mais, e ns tnhamos, na
execuo de nossa ordem e na impossibilidade de ceder a
mercadoria quele preo a outrem, a oportunidade de estudar
todo o fenmeno. Nosso prejuzo aumentou. No primeiro dia,
Guido perguntou minha opinio. Teria podido vender com um
prejuzo mnimo em confronto com que deveria suportar depois.
No quis dar-lhe conselhos, mas no deixei de lembrar-lhe
a convico de Tacich, segundo a qual a queda de preo
deveria continuar por mais de cinco meses. Guido riu:
        - No me faltava outra coisa deixar esse provinciano dirigir
os meus negcios!
        Recordo que tentei ainda corrigi-lo, dizendo-lhe que aquele
provinciano h muitos anos lidava com sulfato de cobre em
sua cidadezinha na Dalmcia. No posso ter o menor remorso
pelo prejuzo que Guido sofreu com a operao. Se me tivesse
ouvido, teria evitado o que ocorreu.
        Mais tarde, discutimos o negcio do sulfato de cobre com
um agente, um homenzinho baixo, gordote, vivo e sagaz, que
nos reprovou por termos feito aquela compra, mas que no
parecia esposar a opinio de Tacich. Segundo ele, o sulfato
de cobre, conquanto constitusse um mercado  parte, no
deixava de se ressentir da flutuao do preo do metal. Guido
adquiriu com aquela conversa uma certa segurana. Pediu
ao agente que o mantivesse informado sobre qualquer
oscilao do preo; esperaria para vender mais tarde no s sem
qualquer prejuzo, mas ainda com um pequeno lucro. O agente
riu discretamente e, em meio  conversa, disse uma frase que
observei por me parecer bastante correta:
        - Curioso como neste mundo h to pouca gente que se
resigna com pequenos prejuzos; os vultosos  que induzem
imediatamente s grandes resignaes.
        Guido no fez caso dele. E admirei tambm que no tivesse
contado ao agente a maneira pela qual havamos chegado
quela compra. Perguntei-lhe a razo e no se fez de rogado.
Temera, disse-me, desacreditar-nos e mesmo  nossa
mercadoria, se tivesse revelado a histria da sua aquisio.
        Depois, ficamos sem falar do sulfato por outro tanto, at
que nos chegou de Londres uma carta que nos convidava a
efetuar pagamento e a mandar as instrues para a remessa.
Imagine-se, receber sessenta toneladas! Guido comeou a ficar
doido. Fizemos os clculos de quanto teramos que gastar para
a armazenagem de tal mercadoria durante vrios meses.
Uma soma enorme! Eu no disse nada, mas o corretor que
vira satisfeito a chegada da mercadoria no porto de Trieste,
pois mais cedo ou mais tarde seria incumbido de vend-la, fez
observar a Guido que aquela soma aparentemente enorme no
era tanto, se expressa em "porcentos" sobre o valor da mercadoria.
        Guido ps-se a rir, porque a observao lhe pareceu
estranha:
        - Acontece que eu no tenho s cem quilos de sulfato;
infelizmente, tenho sessenta toneladas!
        Acabaria por se deixar convencer pelo clculo do agente,
sem dvida justo, visto que com uma pequena elevao do preo
as despesas estariam mais do que cobertas, se naquele
momento no fosse tomado por uma das suas chamadas
inspiraes. Quando lhe ocorria uma idia comercial prpria, ficava
to empolgado que no admitia qualquer outra considerao.
Eis a idia: a mercadoria lhe fora vendida entregue no porto
de Trieste pelo explorador que pagara o transporte da Inglaterra
at l. Ora, se revendesse a mercadoria aos antigos vendedores,
que com isto economizaria as despesas com o frete de volta,
ele poderia praticar um preo bem mais vantajoso de quantos
lhe foram oferecidos em Trieste. O raciocnio no era de todo
verdadeiro, mas, para agrad-lo, ningum o contestou. Depois
de liquidado o negcio, Guido mostrou uma expresso um
tanto amarga no rosto, parecendo de fato um pensador
pessimista; disse:
        - No falemos mais disto. A lio saiu-me cara; precisamos
agora saber como aproveit-la.
        Contudo, voltamos a falar do assunto. Ele no tinha mais
aquela grande segurana em recusar negcios e, ao fim do
exerccio, quando lhe mostrei o quanto havamos perdido,
murmurou:
        - Aquele maldito sulfato de cobre foi a minha desgraa!
Sinto sempre necessidade de refazer-me desse prejuzo!

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        Minha ausncia do escritrio fora provocada pelo abandono
de Carla. No conseguia mais assistir aos amores de Carmen
e Guido. Trocavam olhares, sorrisos, em minha presena.
Afastei-me desdenhosamente com uma resoluo que tomei
 tarde no momento de fechar o escritrio e sem nada dizer
a ningum. Esperava que Guido me perguntasse a razo de
tal afastamento e me preparava para dar-lhe a devida
resposta. Podia mostrar-me bem severo com ele, que ignorava
inteiramente minhas andanas pelo Jardim Pblico.
        Era uma espcie de cimes meus, pois Carmen se me
afigurava como a Carla de Guido, uma Carla mais meiga e
submissa. At com a segunda mulher tivera mais sorte do que
eu, como no caso da primeira. Mas talvez - e isto me
proporcionava a razo para reprov-lo duplamente - devesse
tambm essa sorte aquelas qualidades que eu invejava nele
e que continuava a considerar como inferiores: paralelamente
 sua segurana no manejo do arco, seguia sua desenvoltura
no caminho da vida. Eu reconhecia haver sacrificado Carla a
Augusta. Quando revivia no pensamento os dois anos de felicidade
que Carla me concedera, era-me difcil compreender
como - sendo assim como agora eu sabia - conseguira
suportar-me tanto tempo. No a ofendera todos os dias por amor
a Augusta? J Guido era capaz de usufruir Carmen sem ao
menos lembrar-se de Ada. No seu esprito desenvolto, duas
mulheres no eram demais. Confrontando-me com ele, achava-me
perfeitamente inocente. Eu tinha casado com Augusta sem
amor e, no entanto, no sabia tra-la sem sofrer.  possvel
que ele tambm se tivesse casado com Ada sem am-la, mas
-        embora eu j no me importasse com ela na verdade -
recordava o amor que ela me inspirara e parecia-me que pelo
fato de t-la amado tanto em seu lugar eu seria ainda mais
delicado do que o era agora no meu.
        No foi Guido quem veio procurar-me. Eu mesmo
retornei ao escritrio, em busca de consolo para a minha grande
perda. Ele comportou-se segundo as clusulas de nosso
contrato, que no me obrigava a qualquer atividade regular em
sua casa comercial e, quando se encontrava comigo na rua
ou em famlia, demonstrava por mim a slida amizade de que
sempre lhe fui grato e nem parecia perceber que eu deixara
vazia a mesa que ele adquirira para mim. Entre ns s havia
um embarao: o meu. Quando retornei ao meu posto,
acolheu-me como se eu estivesse ausente apenas por um dia,
exprimiu calorosamente o prazer de reconquistar a minha
companhia e, percebendo meu propsito de retomar o trabalho,
exclamou:
        - Acho que fiz bem em no permitir que ningum tocasse
nos seus livros!
        Na verdade, encontrei o livro-razo e at o dirio no mesmo
ponto em que os deixara.
        Luciano disse-me:
        - Agora que o senhor voltou, vamos ver se as coisas aqui
tambm melhoram. O Sr. Guido andou meio desanimado com
uns dois ou trs negcios que tentou fazer e no lhe saram
bem. No diga nada que contei ao senhor; fao-o para ver se
consegue encoraj-lo.
        Ocorreu-me que de fato pouco se trabalhava naquele
escritrio, e at o momento em que o prejuzo sofrido com o
sulfato de cobre se tornou realidade, levava-se ali uma vida
realmente idlica. Conclu que Guido j no sentia tanta
necessidade de trabalhar para manter Carmen sob sua direo
e tambm que o perodo da corte j passara e que ela j se
tornara sua amante.
        A acolhida de Carmen trouxe-me surpresa, pois ela sentiu
imediatamente a necessidade de recordar-me uma coisa que
eu ja havia completamente esquecido. Creio que, pouco antes
de abandonar o escritrio, tentei dar tambm em cima de
Carmen, naqueles dias em que andava atrs de quantas
mulheres visse, no desespero de no poder recuperar a que
perdera. Acolheu-me com grande seriedade e com certo
embarao; estava contente em ver-me, pois achava que eu era
amigo de Guido e que meus conselhos lhe podiam ser teis,
e queria manter comigo - se eu permitisse - uma bela e
fraterna amizade. Disse mesmo alguma coisa nesse sentido,
estendendo-me num gesto largo a mo direita. Em seu rosto,
de uma beleza que parecia sempre doce, havia uma expresso
bastante severa, como a enfatizar a pura fraternidade da
relao proposta.
        Agora que lembrei, estou envergonhado. Talvez se me
tivesse lembrado antes no teria mais voltado ao escritrio.
Fora uma coisa to insignificante e encravada em meio a tan-

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tas outras aes do mesmo valor que se no me recordasse
agora do fato poderia acreditar que ele jamais tivesse ocorrido.
Poucos dias aps o abandOno de Carla, eu estava examinando
os livros com a ajuda de Carmen e, com muito jeito, para ver
melhor a mesma pgina, passei o brao pela sua cintura, que
depois apertei com mais fora. Com um repelo, Carmen
desvencilhou-se de mim e fui-me embora.
        Teria podido defender-me com um sorriSO, induzindo-a a
sorrir comigO, porque as mulheres SO bastante propensas
a sorrir de delitos assim! Poderia dizer-lhe:
        -        Tentei algo que no deu certo e que lastimo, mas no
lhe guardo rancor e quero ser seu amigo, se no puder ser
outra coisa.
Ou podia ter bancado o srio, escusando-me com ela e
mesmo com Guido:
-        Desculpe-me e por favor no me julgue antes de conhecer
as condies em que me encontro.
        Contudo, as palavras faltaram-me. Minha garganta - creio
- estava cerrada pelo rancor que se solidificava, e eu no
conseguia falar. Todas essas mulheres que me repudiaram
resolutamente emprestavam cores negras  minha vida. Nunca
eu passara por perodo to trgico. Em vez de responder,
s consegui ranger os dentes, coisa pouco cmoda quando se
deseja ocult-la. Talvez a palavra me tivesse faltado tambm
pela dor de ver to peremptoriamente excluda uma esperana
que, todavia, eu acalentara. No posso deixar de confess-lo:
no havia melhor substituta do que Carmen para a amante
que eu perdera, aquela jovem to pouco comprometedora que
s exigia de mim permisso para estar ao meu lado, at o
momento em que me pediu para no v-la mais. Uma amante
para dois  a amante menos comprometedora. Certamente
que as minhas idias no se mostravam assim to claras, mas
eu as sentia, e agora sei. Tornandome amante de Carmen,
teria trabalhado em favor de Ada sem prejudicar muito Augusta.
Ambas seriam menos tradas do que se GuidO e eu
tivssemos cada qual a sua amante.
        S dei a resposta a Carmen alguns dias depois, e at hoje
me envergonho dela. A excitaO em que me atirara o
abandono de Carla devia subsistir ainda para me fazer
chegar a tal ponto. Dela tenho remorsos como de nenhuma outra
aO de minha vida. As palavras impensadas que deixamos
escapar remordem mais fortemente do que as aes mais
nefandas a que a paixo nos induz. Naturalmente, designo por
palavras s aquelas que no so realmente atos, pois sei muito
bem que as palavras de lago, por exemplo, so verdadeiras e
indiscutveis aes. Mas as aes, inclusive as palavras de
lago, so cometidas para que se tenha um prazer ou um
benefcio; a ento todo o nosso ser, at mesmo aquela poro
que depois se erigir em juiz, faz parte delas e julga a nosso
favor. A lngua estpida, esta age independentemente ou no
interesse de uma pequena poro do nosso ego, que sem ela
se sentiria vencido, e continua a simular uma luta quando
esta j est perdida ou acabada. Quer ferir ou acariciar.
Move-se sempre em meio a metforas gigantescas. E quando
so ardentes, as palavras escaldam quem as pronuncia.
        Observei que Carmen j no tinha as cores saudveis que
determinavam sua pronta admisso em nosso escritrio. Supus
que as tivesse perdido por algum sofrimento cuja causa, no
me parecendo fsica, eu atribua a seu amor por GuidO. De
resto, ns, os homens, somos muito inclinados a compadecer
nos da mulher que se entrega aos outros. No vemos que
vantagem possam esperar disto. PodemOS at mesmo apreciar
esse outro - como acontecia no meu caso -, mas nem por iSSO
nos esquecemos de como em geral acabam as aventuras de
amor. Senti por Carmen uma sincera compaixo, como jamais
sentira por Augusta ou por Carla. Disse-lhe: - E j que teve
a gentileza de me oferecer sua amizade, permita que lhe faa
umas advertncias.
        Ela no permitiu porque, como todas as mulheres em tais
circunstncias, achava que qualquer advertncia seria uma
agresso. Corou e balbuCiOU - No compreendo! Por que
me diz isto? - E para me fazer calar: - Se eu tivesse
necessidade de conselhos, recorreria certamente ao senhor.
        Com isto no me foi concedida a oportunidade de pregar-lhe
moral, o que muito me prejudicou. Caso contrrio,
certamente atingiria um elevado grau de sinceridade, embora
tentando prend-la novamente nos meus braos. No me
arrependeria nunca de ter querido assumir a hipcrita atitude de
mentor.

274 275

        Por vriOS dias da semana, GuidO no deu as caras no
escritrio, pois se apaixonara pela caa e a pesca. Eu, por minha
vez, aps o retorno, por algum tempo revelei-me muito
assduo ao trabalho, ocupadssimo em pr em dia os livros
contbeis. Ficava quase sempre a ss com Carmen e Luciano,
que me consideravam seu chefe. No me parecia que Carmen
sofresse com a ausncia de GUidO e imaginei que o amava
tanto que se alegrava sabendo-o a divertir-se. Devia
igualmente estar avisada quanto ao perodo de sua ausncia, j
que no deixava trair qualquer espera ansiosa. Por Augusta
eu sabia, ao contrrio, que Ada no procedia assim, pois
se lamentava com azedume das freqentes ausncias do
marido. De resto no era aquela a sua nica lamentao. Como
todas as mulheres no amadas, lamentava-se com a mesma
intensidade tanto das pequenas quanto das grandes ofensas.
Guido no s a traa como passava o tempo todo a praticar
violino quando se achava em casa. Aquele violino, que tanto
me fizera sofrer, era uma espcie de lana de Aquiles pela
variedade de suas aplicaes. Soube mesmo que ele visitara
o escritrio, onde contribura para a conquista de Carmen
com belssimas variaes sobre o Barbeiro de Sevilha. Depois
retornou a casa, pois no havia lugar para ele no escritrio;
no lar, poupava a Guido o desprazer de ter que conversar
com a esposa.
        Entre mim e Carmen no houve mais nada. Muito cedo
passei a devotar-lhe indiferena absoluta, como se ela tivesse
mudado de sexo, algo semelhante ao que eu sentia por Ada.
Uma viva compaixo por ambas, nada mais. Exatamente isto!
        Guido cumulava-me de gentilezas. Creio que no ms em
que o deixei sozinho soube apreciar o valor de minha
companhia. Uma coisinha como Carmen pode ser agradvel de
tempos em tempos; torna-se, porm, insuportvel ao longo
de dias inteiros. Guido convidou-me a caar e pescar. Abomino
a caa e recusei-me terminantemente a acompanh-lo.
Contudo, uma noite, movido pelo enfado, acabei por ir com ele
 pesca. Falta aos peixes qualquer meio de comunicao
conosco; assim, no conseguem despertar a nossa compaixo.
Abocanham a isca mesmo quando esto sos e salvos na
gua! Alm disso, a morte no lhes altera o aspecto. Sua dor,
se existe, permanece perfeitamente oculta sob as escamas.
        Quando uma vez me convidou para uma pescaria noturna,
quis antes saber se Augusta me permitiria sair aquela noite e
permanecer fora at to tarde. Disse-lhe estar ciente de que o
barco largaria do cais do Sartrio s nove da noite e, se
pudesse, iria encontr-lo l. Pensei que com isto ele ficasse certo
de que no me veria mais aquela noite, pois, como j fizera
inumeras vezes, eu no compareceria ao encontro.
        Contudo, nessa noite fui expulso de casa pelo berreiro de
minha filhinha Antnia. Quanto mais a me a ninava, mais a
pequena vagia. Pus ento em prtica meu sistema, que
consiste em gritar insolncias no ouvidinho da macaquinha berrante.
Tudo o que consegui foi mudar o ritmo dos berros,
porque ela ento comeou a estrilar espavorida. Quis tentar
novo mtodo, um pouco mais enrgico; Augusta, porm,
recordou a tempo o convite de Guido e me acompanhou  porta,
prometendo que iria deitar-se se eu no conseguisse voltar
seno muito tarde. De forma que, alm de me mandar embora,
parecia at disposta a tomar o caf da manh sem mim, se
eu tivesse que estar ausente at l. H uma pequena disseriso
entre mim e Augusta - a nica - no que respeita ao modo
de tratar as crianas birrentas: para mim a dor da criana 
menos importante que a nossa, e vale a pena infligi-la aos
menores desde que nos poupe distrbio a ns adultos; ela, ao
contrrio, acha que ns, que fizemos os filhos, devemos
igualmente suport-los.
        Tinha tempo de sobra para chegar ao local do encontro e
atravessei a cidade lentamente a olhar as mulheres e ao
mesmo tempo inventando um esquema especial que impedisse
qualquer dissdio entre mim e Augusta. A humanidade,
contudo, ainda no estava suficientemente evoluda para o que eu
trazia em mente! Meu esquema destinava-se a um futuro
longnquo e sua nica utilidade para mim era a de demonstrar
em que consistiam minhas dissenses com Augusta: a falta
de um esquema semelhante! Tratava-se de algo bastante simples,
um trenzinho caseiro, uma espcie de cadeirinha com duas
rodas sobre trilhos, na qual a criana passaria o tempo todo:
se a criana chorasse, bastaria premir um boto para que a
cadeirinha se deslocasse ao outro extremo da casa levando
consigo a pequena birrenta at um ponto do qual seus gritos,

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suavizados pela distncia, poderiam parecer inclusive
agradveis. E eu e Augusta viveramos felizes e tranqilos.
Era uma noite rica de estrelas e desprovida de lua, uma
daquelas noites em que se v muito longe, por isso ficamos
calmos e ternos. Olhei as estrelas, que talvez ainda retivessem
o sinal do olhar de adeus de meu pai moribundo. Haveria de
passar o perodo horrendo em que meus filhos se sujavam e
berravam. Depois, ficariam parecidos comigo; eu os amaria
como de meu dever e sem esforos. Na bela e vasta noite,
acalmei-me de todo, sem qualquer necessidade de fazer propsitos.
        Quase ao chegar ao fim do mole Sartnio, as luzes que
brilhavam na cidade eram interrompidas por uma construo em
runas, que acabava em ponta como um curto quebra-mar. A
escurido era profunda e a mar cheia, negra e quieta, parecia
preguiosamente inchada.
        No via mais nem os cus nem o mar. A poucos passos de
mim estava uma mulher, que despertou minha curiosidade
para as suas botas de verniz refletindo por um instante na
escurido. No breve espao e na obscuridade, pareceu-me que
aquela mulher alta e decerto elegante estava trancada num
quarto comigo. As aventuras mais agradveis podem
acontecer quando menos se pensa, e vendo que ela de sbito
avanava para mim deliberadamente, conheci por instantes
uma sensao agradabilssima, que logo desapareceu, quando
ouvi a voz rouca de Carmen. Tentava fingir satisfao ao saber
que tambm eu faria parte do grupo. Contudo, na
obscuridade e com aquele tipo de voz, no se podia fingir.
        Disse-lhe rudemente:
        - Guido convidou-me. Mas, se quiser, arranjo uma
desculpa e deixo vocs a ss!
        Ela protestou declarando que estava muito contente com
o fato de me ver pela terceira vez naquele dia. Contou-me que
no pequeno barco estaria reunido o escritrio em peso, j
que Luciano tambm vinha. Pobres de nossos negcios se o
barco fosse a pique! Disse-me que Luciano tambm vinha
certamente para dar-me a prova da inocncia do passeio.
Depois, ainda conversou sobre coisas fteis, a princpio
afirmando que era a primeira vez que ia  pesca com Guido,
confessando depois que era a segunda. Deixou escapar que no lhe
desagradava estar sentada a pagliolo, ou seja, diretamente
sobne o fundo da lancha, e achei estranho que ela conhecesse
tal termo. Confessou-me que o aprendera na primeira vez que
fora  pesca com Guido.
        -        Naquele dia - acrescentou para enfatizar a completa
inocncia do primeiro passeio -, pescamos cavalas e no
dourados. De manh.
        Pena que no tive tempo de faz-la desembuchar mais um
pouco, pois teria sabido tudo o que importava; surgindo da
escurido da Sacchetta, veio-se aproximando de ns
rapidamente o barco de Guido. Eu continuava na dvida: dada a
presena de Carmen, no devia tratar de desaparecer? 
possvel que Guido nem sequer tivesse a inteno de convidar ns
dois, j que me recordava de haver praticamente recusado o
convite. Nesse nterim a lancha aproou e Carmen, juvenulmente
segura at mesmo na obscuridade, pulou para dentro dela,
sem apoiar-se na mo que Luciano lhe oferecia. E como eu
hesitasse, Guido gritou:
-        No nos faa perder tempo!
        Com um salto, ali estava eu tambm na barca. Meu salto
foi quase involuntrio: um produto do grito de Guido. Olhava
para terra com grande vontade de ficar, mas bastou um
momento de hesitao para tornar impossvel o desembarque.
Acabei sentando-me  proa da lancha nada grande. Quando
me habituei com a escurido, percebi que  popa, de frente
para mim, estava sentado Guido e, a seus ps, a pagliolo,
Carmen. Luciano, que remava, estava entre ns. Eu no me
sentia nem muito seguro nem muito cmodo na pequena
barca, mas habituei-me e contemplei as estrelas, que de novo
me tranqilizaram.  verdade que, em presena de Luciano -
empregado devoto da famlia de nossas mulheres -, Guido
no se arriscaria a trair Ada; assim, nada havia de mal que
eu estivesse com eles. Desejava vivamente poder desfrutar
daquele cu, daquele mar e da calma vastido. Se tivesse que
sentir remorsos e sofrer, melhor teria sido ficar em casa,
deixando-me torturar pela pequena Antnia. O ar fresco da noite
encheu-me os pulmes e admiti que poderia divertir-me em
companhia de Guido e Carmen, a quem no fundo eu queria
bem.
        Passamos diante do farol e entramos em mar aberto. A
algumas milhas alm brilhavam as luzes de inmeros veleiros:

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l se preparavam insdias bem diversas para os peixes. Saindo
dos Banhos Militares - imensa mole negrejante sobre os seus
pilares -, comeamos a mover-nos para cima e para baixo
na Riviera de Sant'Andrea, o stio predileto dos pescadores.
Junto de ns, silenciosamente, muitos outros barcos faziam
manobras iguais  nossa. Guido preparou as trs linhas
e iscou os anzis, espetando-os nas caudas de pequenos
camares. Entregou uma linha a cada um de ns, dizendo que
a minha, a da proa - a nica munida de chumbeira -,
seria a preferida dos peixes. Vislumbrei na obscuridade o meu
camarozinho com a cauda espetada e pareceu-me que movia
lentamente a parte superior do corpo, a que no se havia
transformado em bainha. Esse movimento deixava
transparecer mais um gesto de meditao do que um espasmo de dor.
Talvez o centro que provoca a dor nos grandes organismos
se reduza nos seres minsculos a uma experincia nova, a um
estmulo ao pensamento. Deixei-o afundar-se na gua, dando-lhe
dez braas de linha segundo as instrues de Guido. Aps
o que, tambm Guido e Carmen soltaram as suas. Guido
tinha agora  popa tambm um remo, com o qual
impulsionava a barca com arte para que os anzis no se enredassem.
Luciano provavelmente no estava ainda em condies de
executar esta manobra. Alm disso, tinha a seu cargo uma
pequena rede com que retiraria da gua os peixes que os
anzis trariam  superfcie. Por muito tempo ficou sem o
que fazer. Guido falava pelos cotovelos. Qui o que o
prendia a Carmen era antes sua paixo pelo ensino do que mesmo
o amor. Eu preferia no ouvi-lo, para poder pensar no
animalzinho que eu mantinha suspenso  voracidade dos peixes
e que com seus movimentos de antenas - se ainda estivesse
ali na gua - melhor haveria de atra-los. Contudo, Guido
chamava-me repetidas vezes e tive de ouvir suas teorias sobre
a pesca. O peixe haveria de tocar por vrias vezes a isca; ns
o sentiramos, mas s devamos puxar a linha no momento em
que estivesse tesa. Ento dvamos um puxo firme para
trspassar seguramente o anzol pela boca do peixe. Guido, como
de hbito, era prolixo em suas explicaes. Queria explicar-nos
claramente o que sentiramos na mo quando o peixe
beliscasse a isca. E continuava a discorrer, enquanto eu e
Carmen j conhecamos pela experincia a repercusso quase
sonora que nos vinha s mos a cada contato que o anzol
sofria. Amide tivemos que recolher a linha para renovar
a isca. O pequeno animal pensativo acabava muito nas fauces
de algum peixe destro em evitar o anzol.
        A bordo havia cerveja e sanduches. Guido temperava tudo
com sua inesgotvel tagarelice. Agora falava das imensas
riquezas que jaziam no mar. No se tratava, como supunha
Luciano, dos peixes ou dos tesouros que os homens deixaram
submergir. Na gua do mar havia ouro dissolvido. De repente,
recordou-se de que eu estudara qumica e disse-me:
        - Voc tambm deve saber sobre esse ouro.
        Eu no me lembrava, mas anui, arriscando uma observao
de cuja veracidade no podia estar seguro. Declarei:
        - O ouro do mar  o mais dispendioso de todos. Para
obtermos um dos napolees que nele esto dissolvidos
teramos que gastar cinco.
        Luciano, que se voltara para mim ansioso, na expectativa
de que eu confirmasse as riquezas sobre as quais vagvamos,
voltou-me desiludido as costas. No lhe interessava aquela
espcie de riqueza. Guido, ao contrrio, me deu razo,
acreditando lembrar-se de que o preo daquele ouro era exatamente
cinco vezes mais elevado, conforme eu dissera. Queria elogiar-me,
sem dvida, confirmando a assero inventada por mim.
Via-se que me considerava pouco perigoso, e nele no havia
sombra de cime pela mulher estendida a seus ps. Pensei
um instante em met-lo em apuros, declarando que agora me
recordava melhor e que, para extrair um daqueles napolees,
seriam suficientes trs ou at mesmo dez.
        Nesse momento, porm, fui convocado pela minha linha,
que se estendia com um arranco poderoso. Dei-lhe um puxo
e gritei. Guido aproximou-se com um salto e tomou-me a
linha das mos. Entreguei-a sem mais. Ps-se a pux-la para
fora, de incio pouco a pouco, depois, vencida a resistncia,
de estiro. E na gua turva viu-se brilhar o corpo argnteo de
um grande peixe. Corria agora rapidamente e sem
resistncia no rastro de sua dor. Foi quando compreendi tambm
a dor do animal mudo, que parecia um grito na pressa de
correr para a morte. Logo o tive arquejante a meus ps.
Luciano tirara-o da gua com a rede e agarrando-o sem receio
arrancou-lhe da boca o anzol.

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        Sopesou o gordo peixe:
-        Um dourado de trs quilos!
        Admirado, mencionou o preo a pedir por um peixe
daqueles no mercado. Depois, Guido observou que estvamos
na preamar e seria difcil apanhar mais peixes. Contou que
os pescadores afirmam que, quando a gua no flui nem reflui,
os peixes no comem, no podendo, portanto, ser apanhados.
Filosofou sobre os perigos a que era arrastado um animal pelos
seus apetites. Depois, pondo-se a rir, sem perceber que se
comprometia, disse:
-        Voc foi o nico que apanhou alguma coisa esta noite.
        Minha presa ainda se debatia no fundo do barco, quando
Carmen deu um grito. Guido perguntou sem mover-se e
traindo na voz uma grande vontade de rir:
-        Outro dourado?
        Carmen respondeu confusa:
-        Parecia! Mas no fisgou o anzol!
        Estou seguro de que, instigado pelo desejo, ele lhe dera
um belisco.
        Comecei a sentir-me pouco  vontade na barca. J no
acompanhava com interesse os sinais do anzol e at agitava
a linha de modo a que os pobres animais no fisgassem.
Aleguei que estava com sono e pedi a Guido que me
desembarcasse em Sant'Andrea. Depois, preocupado em tirar-lhe a
suspeita de que me afastava molestado pelas implicaes do
grito de Carmen, contei a cena que minha filhinha fizera
aquela noite e o meu desejo de certificar-me logo de que tudo
agora corria bem.
        Complacente como sempre, Guido acostou a barca 
margem. Ofereceu-me o dourado pescado por mim, mas recusei.
Propus devolver-lhe a liberdade, atirando-o ao mar, o que
provocou um grito de protesto por parte de Luciano, ao passo
que Guido bondosamente disse:
        -        Se pudesse devolver-lhe a vida e a sade, bem que o
faria. Mas agora o pobrezinho s serve para o prato!
        Segui-os com os olhos e verifiquei que no aproveitaram o
espao que eu deixara livre. Continuavam bem juntinhos
e a barca se foi um pouco inclinada  frente, por causa do
excesso de peso na popa.
        Pareceu-me punio divina saber que minha filha se achava
febril. No lhe teria eu provocado a doena, simulando diante
de Guido uma preocupao que no sentia pela sua sade?
Augusta ainda estava de p; pouco antes viera o Dr. Paoli e
tranqilizou-a, dizendo que uma febre sbita to violenta
no podia ser indcio de doena grave. Ficamos durante muito
tempo a contemplar Antnia, que jazia abatida no pequeno
leito, com a pele do rostinho intensamente afogueada sob os
cachinhos castanhos e desordenados. No chorava, mas
lamentava-se de tempos em tempos, um lamento breve,
interrompido por um torpor imperioso. Meu Deus! Como o sofrimento
me aproximava dela. Teria dado uma parte de minha vida
para tornar sua respirao menos difcil. Como evitar o
remorso de ter imaginado que no podia am-la e depois o de
ter passado todo aquele tempo de sofrimento longe dela e
em que companhia!?
        - Parece-se com Ada! - disse Augusta com um soluo.
Era verdade! Dvamos por isso pela primeira vez; a
semelhana tornou-se cada vez mais evidente  medida que Antnia
cresceu, tanto que s vezes sinto tremer o corao ao pensar
que lhe poder tocar o destino da pobre com quem se parece.
        Fomo-nos deitar depois de pr junto do nosso o leito da
criana. Mas eu no podia dormir: sentia um peso no corao
como naquelas noites em que os meus erros do dia se
espelhavam em imagens noturnas de dor e remorso. A doena da
menina pesava em mim como se fosse minha culpa. Rebelei-me!
Estava inocente e podia falar, podia dizer tudo. Contei
a Augusta meu encontro com Carmen, a posio que ela
ocupava no barco e tambm sobre o grito que desconfiei fosse
provocado por uma carcia mais forte de Guido, sem contudo
poder assever-lo. Augusta estava convencida disso. Por que
a voz de Guido se mostraria alterada, logo em seguida, pela
hilaridade, se no fosse por isso? Procurei atenuar sua
convico, mas acabei contando mais ainda. Fiz uma confisso
que inclusive dizia respeito a mim, descrevendo o
aborrecimento que me afastara de casa e meu remorso de no amar
Antnia como devia. Senti-me melhor e adormeci
profundamente.
        Na manh seguinte, Antnia estava tambm melhor, quase
sem febre. Jazia calma e liberta da aflio, embora plida e

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abatida, como se consumida por um esforo desproporcional
ao seu pequeno organismo; evidentemente, j sara vitoriosa
da breve batalha. Na calma que da decorreu at mesmo para
mim, recordei, com mgoa, haver comprometido horrivelmente
Guido e quis que Augusta me prometesse que no falaria
com ningum sobre as minhas suspeitas. Ela protestou que
no se tratava de suspeitas, mas de evidncias certas, coisa
que neguei sem conseguir convenc-la. Depois prometeu-me
tudo o que pedi e fui tranqilamente para o escritrio.
        Guido no havia chegado e Carmen contou que tinham tido
bastante sorte logo depois de minha partida. Pescaram outros
dois dourados, menores que o meu, mas de peso considervel.
No acreditei e pensei que quisesse convencer-me de que
aps minha partida tivessem abandonado a ocupao a
que tanto se entregaram enquanto estive presente. A gua
no estava parada? At que horas ficaram no mar?
        Carmen, para convencer-me, fez com que Luciano
confirmasse a pesca dos dois dourados; pensei ento que Luciano
seria capaz de qualquer atitude para atrair a simpatia de
Guido.
        Durante toda a idlica quietude que precedeu o negcio do
sulfato de cobre, ocorreu no escritrio um fato bastante
estranho que no consigo esquecer, no s porque coloca em
evidncia a desmesurada presuno de Guido como tambm
porque projeta sobre mim uma luz sob a qual  difcil
distinguir-me.
        Um dia, estvamos os quatro no escritrio e o nico de
ns que falava de negcios era, como sempre, Luciano. Houve
em suas palavras algo que soou aos ouvidos de Guido como
uma represso ao seu procedimento, coisa que, em presena
de Carmen, lhe era difcil suportar. Contudo, era igualmente
difcil defender-se, pois Luciano tinha as provas de que um
negcio, aconselhado por ele h algumas semanas e recusado
por Guido, acabara por render um bom dinheiro a quem
dele se ocupara. Guido acabou por declarar que nutria
verdadeiro desprezo pelo comrcio e que, se no tivesse sorte
nos negcios, arranjaria meios de ganhar a vida exercendo
atividades muito mais inteligentes. Com o violino, por
exemplo. Todos concordaram, at eu, ressalvando, porm:
-        Desde que estude bastante.
        A minha ressalva desagradou-o; informou que, se fosse o
caso de estudar, poderia fazer muitas outras coisas, como, por
exemplo, na literatura. Tambm nisto os outros se puseram
todos de acordo, e eu tambm, embora com alguma hesitao.
No me lembrava dos traos de nossos grandes escritores e os
evocava para ver se encontrava algum que se parecesse com
Guido. Este ento gritou:
        - Querem umas boas fbulas? Sou capaz de improvis-las
como Esopo!
        Todos riram, menos ele. Pediu a mquina de escrever e,
fluentemente, como se escrevesse sob ditado, com gestos mais
amplos do que um trabalho  mquina exige, produziu a
primeira fbula. J estendia a folha de papel a Luciano quando
mudou de opinio, trazendo-a de volta e metendo-a na
mquina para escrever uma segunda fbula; esta, porm, lhe custou
mais esforos que a primeira, tanto que esqueceu de simular
com gestos a inspirao e teve de corrigir vrias vezes o que
escrevera. Da eu admitir que a primeira fbula no fosse
realmente de sua autoria e que a segunda realmente tivesse
brotado de seu crebro, do qual me pareceu digna. A primeira
contava a histria de um passarinho que nota a porta da
gaiola aberta. A princpio, a ave pensa aproveitar o ensejo
para escapulir; depois, retrai-se, temendo que, durante sua
ausncia, algum feche a porta, perdendo ela a liberdade.
A segunda tratava de um elefante, e era verdadeiramente
elefantina. Sofrendo de uma fraqueza nas pernas, o enorme animal
foi consultar um homem, mdico clebre, o qual, ao ver aqueles
membros poderosos, exclamou: - Nunca vi pernas to fortes.
        Luciano no se deixou entusiasmar pelas fbulas, mesmo
porque no as compreendera. Ria fartamente, mas via-se que
achava cmico algum apresentar-lhe aquelas coisas como
sendo rentveis. Riu depois por complacncia quando Guido
explicou que o passarinho temia ser privado da liberdade de
retornar  gaiola e o homem admirava as pernas do elefante
no obstante estarem fracas. Perguntou, porm:
        - Que se ganha com estas fbulas?
        Guido mostrou-se superior:
        - O prazer de hav-las feito, mas pode-se ganhar muito
dinheiro se se fizer um livro.

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        Carmen, ao contrrio, estava agitada de emoo. Pediu
licena a Guido para copiar as duas fbulas e agradeceu-lhe
reconhecida quando este lhe ofertou a folha datilografada,
depois de nela apor o seu autgrafo.
        Que fazia eu ali? No tinha necessidade de bater-me pela
admirao de Carmen,  qual, como j disse, no dava a
mnima importncia; recordando no entanto minha maneira de
proceder, devo acreditar que mesmo uma mulher que no
seja objeto de nosso desejo pode arrastar-nos  luta. No 
verdade que os cavaleiros medievais se batiam inclusive por
mulheres que nunca haviam visto? Aconteceu que nesse dia
as dores lancinantes de meu pobre organismo subitamente
se tornaram to agudas que no tive alternativa para atenu-las
seno me bater com Guido na composio de fbulas.
        Passou-me a mquina e comecei verdadeiramente a
improvisar.  verdade que a primeira dessas fbulas j h muitos
dias estava em meu esprito. Improvisei o ttulo: "Hino 
Vida!" Depois, aps curta reflexo, escrevi por baixo: "Dilogo".
Parecia-me mais fcil fazer os animais falarem do que
descrev-los. Assim nasceu minha fbula com este brevssimo
dilogo:
        O camaro meditativo: - A vida  bela, mas  preciso
ter cuidado com o lugar em que se senta.
        O dourado, correndo ao dentista: - A vida  bela, mas
precisamos acabar com estes animaizinhos traidores que
escondem na carne saborosa um metal assassino.
        Tocava agora a vez de fazer a segunda fbula, s que os
animais me faltavam. Olhei para o co que jazia no seu
cantinho e tambm ele olhou para mim. Daqueles olhos tmidos
extra uma recordao: poucos dias antes, Guido retornara
da caa cheio de pulgas e fora catar-se em nosso gabinete.
Tive logo a inspirao e escrevi de um lance: "Era uma vez
um prncipe que foi atacado pelas pulgas. Rogou aos deuses
que lhe infligissem uma nica pulga, enorme e famlica, mas
uma s, destinando as demais aos outros homens. Porm,
nenhuma das pulgas aceitou ficar sozinha com tal imbecil, e ele
teve que alojar as pulgas todas."
        Naquele momento as minhas fbulas pareceram-me
esplndidas. As coisas que brotam de nosso crebro tm um aspecto
de todo amvel, principalmente quando examinadas logo aps
o nascimento. Para dizer a verdade, meu dilogo me agrada
ainda hoje, quando j tenho bastante prtica de escrever.
O hino  vida feito pelo morituro  algo simptico para
aqueles que o vem morrer e  mesmo verdade que muitos
moribundos gastam seu ltimo alento em dizer o que julgam ser
a causa de sua morte, erguendo assim um hino  vida dos
que sabero evitar aquele acidente. Quanto  segunda fbula
no quero falar a respeito, j que foi comentada argutamente
pelo prprio Gudo, que gritou sorridente:
        - No  uma fbula; no passa de uma maneira de me
chamar de imbecil.
        Ri com ele, e as dores que me haviam levado a escrever
de repente se atenuaram. Luciano riu quando lhe expliquei
o que eu queria dizer e observou que ningum daria um
nquel nem pelas minhas nem pelas fbulas de Guido. A
Carmen, contudo, as minhas fbulas no agradaram. Lanou-me
um olhar indagador, verdadeiramente novo para aqueles
olhos, e que entendi como sendo uma palavra dita:
        - Voc no gosta de Guido!
        Fiquei totalmente perturbado, pois decerto ela no se
enganava. Pensei que procedia mal, comportando-me como se
no apreciasse Guido, eu que, no entanto, trabalhava
desinteressadamente para ele. Devia prestar ateno  minha
maneira de me comportar.
        Disse brandamente a Guido:
        - Reconheo de bom grado que as suas fbulas so
melhores que as minhas. Mas  preciso lembrar que so as
primeiras que fao.
        Ele no se rendeu:
        - E voc acha que andei fazendo outras antes?
        O olhar de Carmen j se havia adoado e, para faz-lo
ainda mais doce, eu disse a Guido:
        - Voc tem, sem dvida, um talento fabuloso.
        O elogio fez com que rissem ambos e logo eu tambm,
todos satisfeitos, pois notava-se que eu falara sem qualquer
inteno malvola.
        O negcio do sulfato de cobre imprimiu maior seriedade
ao nosso escritrio. J no havia tempo para fbulas. Quase
todos os negcios que nos eram propostos acabavam por ser
aceitos por ns. Houve os que deram algum lucro, apesar de

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pouco; outros que deram prejuzo, e grande. O principal defeito
de Gudo era uma estranha avareza, ele que fora dos negcios
se mostrava to generoso. Quando um negcio se revelava
bom, liquidava-o apressadamente, vido de realizar o
pequeno lucro da provindo. Quando, ao contrrio, se encontrava
num negcio desfavorvel, s decidia o momento de sair quando
os efeitos j repercutiam no seu bolso. Por isso creio que os
seus prejuzos foram sempre relevantes e mnimos os seus
lucros. As qualidades de um comerciante no so mais que
as conseqncias de todo o seu organismo, da ponta dos
cabelos s unhas dos ps. A Guido se aplicaria perfeitamente
uma palavra dos gregos: "astuto imbecil". Verdadeiramente
astuto, mas um autntico palerma. Era cheio de umas
astcias que s serviam para lubrificar o plano inclinado sobre
o qual deslizava cada vez mais para baixo.
        Junto com o sulfato de cobre aconteceu-lhe inesperadamente
a chegada dos gmeos. Sua primeira impresso foi de surpresa
nada agradvel; contudo, logo depois de me haver anunciado
o        acontecimento, saiu-se com uma piada que me fez rir muito,
e ele, satisfeito com o sucesso, no pde conservar a cara
feia. Associando os dois filhinhos s sessenta toneladas de
sulfato, disse:
        - Estou condenado a ser atacadista!
        Para confort-lo, recordei-lhe que Augusta estava de novo no
stimo ms e que em breve, em matria de filhos, eu estaria
empatando com a tonelagem dele. Respondeu, sempre
argutamente:
        -        Como bom contador que voc , no me parece a mesma
coisa.
        Alguns dias depois, foi tomado (por certo tempo) de grande
afeto pelos fedelhos. Augusta, que passava parte do dia com
a irm, contou-me que ele dedicava diariamente algumas
horas s crianas. Acariciava-as, ninava-as, e Ada ficava to
reconhecida que entre os dois cnjuges parecia reflorir um
novo afeto. Foi por essa ocasio que pagou vultoso prmio
a uma companhia de seguros para que os filhos, ao
completarem vinte anos, tivessem algum capital. Lembro-me disto
por ter sido eu a registrar a importncia a dbito de sua
conta.
        Tambm a mim convidaram para ver os gmeos; a prpria
Augusta me disse que eu poderia igualmente cumprimentar
a irm, que no pde receber-me, pois estava de resguardo,
embora j passassem dez dias do parto.
        Os infantes jaziam em dois bercinhos num gabinete contguo
ao quarto dos pais. Ada, de seu leito, gritou:
        - So bonitos, Zeno?
        Fiquei surpreso com o tom de sua voz. Pareceu-me mais
suave: era um verdadeiro grito porque nele se percebia um
esforo, permanecendo, porm, doce. Sem dvida, a doura
da voz provinha da maternidade, mas fiquei comovido ao
descobrir que ela se dirigia propriamente a mim. Essa doura
me fez sentir como se Ada no me chamasse apenas pelo
nome, que lhe acrescentava algum qualificativo afetuoso como
caro ou me chamava de irmo! Senti um vivo reconhecimento
e tornei-me bom e afetuso. Respondi festivamente:
        - Lindos, uns amores, iguaizinhos, duas maravilhas. -
Na verdade pareciam-me dois anjinhos lvidos. Que nem
berravam no mesmo ritmo.
        Com pouco Guido voltou  vida de antigamente. Depois
do negcio do sulfato vinha mais amide ao escritrio; todas
as semanas, aos sbados, partia para a caa e s retornava
segunda de manh, j tarde e a tempo apenas de dar uma
olhadela no escritrio antes do almoo. Ia pescar de tarde e
no raro passava a noite no mar. Augusta relatava-me os
aborrecimentos de Ada, que no apenas sofria com cimes
doentios, mas por ficar sozinha em casa a maior parte do
dia. Augusta tentava acalm-la, recordando-lhe que caadas
e pescarias no eram freqentadas por mulheres. Contudo -
no se sabia por quem - Ada fora informada de que Carmen
vez por outra acompanhava Guido  pesca. Guido confessou-lhe
isto depois, acrescentando que no via mal nenhum em
        prestar uma gentileza a uma auxiliar que lhe era to til.
        E Luciano no estava sempre com eles? Acabou por prometer
        que no convidaria mais a moa, j que desagradava a esposa.
        Afirmava no querer renunciar nem  caa, que lhe saa to
dispendiosa, nem  pescaria. Dizia que trabalhava muito (e na
verdade, naquela poca, em nosso escritrio havia muito o
que fazer) e que um pouco de distrao at lhe fazia bem.
        Ada no pensava da mesma forma e achava que a melhor

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distrao seria estar com a famlia, nisto encontrando o apoio
incondicional de Augusta, ao passo que para mim tal
distrao se revelava barulhenta demais.
        Augusta ento exclamava:
        -        Mas voc no vem para casa todos os dias nas horas
de costume?
        Era verdade e tinha que confessar que entre Guido e eu
havia uma grande diferena, de que eu, alis, no me gabava.
Dizia a Augusta, acariciando-a:
        - O mrito pertence a voc que soube usar mtodos
drsticos para educar-me.
        Por outro lado, as coisas para o pobre Guido andavam
piores de dia para dia: a princpio, apesar dos dois filhos,
tinha apenas uma ama, pois pensava que Ada seria capaz
de amamentar um dos meninos. Mas ela no pde e tiveram
que mandar vir uma segunda ama. Quando Guido queria
fazer-me rir, passeava para um lado e para outro do escritrio
marcando o tempo com as palavras:
        - Uma mulher. . - dois filhos.., duas amas!
        Havia uma coisa que Ada odiava em especial: o violino
de Guido. Era capaz de suportar os vagidos dos gmeos, mas
sofria horrivelmente com o som do violino do esposo. Havia
confidenciado a Augusta:
        - Tenho vontade de latir como um co contra aquele
violino!
        Estranho! Augusta, ao contrrio, ficava feliz quando
passava diante de meu estdio e sentia sair de l meus sons
arrtmicos!
        - Contudo, o casamento de Ada foi por amor - dizia
eu admirado. - E o violino no  o que Guido tem de
melhor?
        Tais conversas foram de todo esquecidas quando tornei
a ver Ada, pela primeira vez aps o parto. Fui o primeiro
a perceber sua doena. No comeo de novembro - um dia
frio, sem sol, enevoado - deixei o escritrio excepcionalmente
s trs da tarde e corri para casa pensando repousar e sonhar
por algum tempo na tepidez de meu estdio. Para chegar
a ele tenho que passar por um longo corredor; diante do
quarto de trabalho de Augusta detive-me ao ouvir a voz de
Ada. Era doce ou insegura (o que se equivale, creio) como
no dia em que se dirigira a mim. Entrei no quarto levado pela
estranha curiosidade de ver como a serena, a calma Ada
podia assumir aquela voz que recordava um pouco a de
certas atrizes nossas quando querem fazer chorar, embora
elas prprias no saibam. Na verdade, era uma voz falsa ou
eu assim a sentia, s porque, sem ter ainda visto quem a
emitia, percebi, depois de tantos dias, que continuava
comovida e comovente. Pensei que falassem de Guido, pois qual
outro argumento poderia comov-la daquela maneira?
        Contudo, as duas senhoras, tomando juntas uma chvena
de caf, falavam de assuntos domsticos: lavagem de roupa,
empregadas etc. E bastou-me ver Ada para compreender que
a voz no era falsa. Comovente era tambm o rosto, que pela
primeira vez eu o via assim alterado, e a voz, se no
correspondia a um sentimento, espelhava exatamente todo um
organismo, e por isso era sincera e verdadeira. Senti isto
imediatamente. No sou mdico; no pensei, portanto, em doena,
mas procurei explicar a mim mesmo a alterao que via no
aspecto de Ada como efeito da convalescena. Como, porm,
explicar que Guido no se desse conta de todas aquelas
alteraes por que passava a mulher? Eu, no entanto, que
conhecia de cor aqueles olhos, aqueles olhos que tanto receei
porque logo percebi que examinavam framente as pessoas
e as coisas para aprov-las ou repeli-las, constatei de imediato
que haviam mudado, intumescidos, como se, para verem
melhor, forassem as rbitas. Aqueles olhos enormes destoavam
do pequenino rosto acabrunhado e descolorido.
        Estendeu-me com grande afeto a mo:
        - J sei - disse-me - que voc aproveita todos os
instantes para vir em casa ver sua mulher e a filha.
        Tinha a mo mida de suor e sei que isto  sinal de
fraqueza. Tanto mais me pareceu que, uma vez restabelecida,
haveria de recuperar sua antiga cor e as linhas seguras do
rosto do contorno dos olhos.
        Interpretei as palavras a mim endereadas como censura
dirigida a Guido; bondosamente respondi que ele, na
qualidade de chefe da firma, tinha responsabilidades maiores que
o retinham no escritrio.
        Observou-me indagadora, para assegurar-se de que eu falava
a srio.

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        Apesar disso, acho que ele poderia encontrar um
tempinho para a mulher e os filhos - e sua voz surgia embargada
de lgrimas. Refez-se com um sorriso que pedia indulgncia
e acrescentou:
        -        Alm dos negcios ainda caa e pesca! E isto lhe toma
tanto tempo.
        Com uma volubilidade que me surpreendeu, comeou a
falar sobre os pratos deliciosos que se preparavam em casa
com os produtos das caadas e pescarias de Guido.
        -        Mas eu bem que renunciaria a eles! - acrescentou
com um suspiro e uma lgrima. No se reputava infeliz, ao
contrrio! Custava-lhe at acreditar que tivera aquelas duas
crianas que tanto adorava! Com um pouco de malcia,
acrescentou sorrindo que as amava ainda mais agora que cada
uma tinha a sua ama. Ela no costumava dormir muito; ao
menos, porm, quando chegava a cair no sono, ningum a
incomodava. E quando lhe perguntei se na verdade dormia
assim to pouco, ps-se sria e confessou pateticamente que
este era o seu maior distrbio. Depois, alegre, acrescentou:
        -        Mas j estou melhor!
        Teve de deixar-nos por duas razes: antes de entardecer
queria ir ver a me e no conseguia suportar a temperatura
dos nossos quartos dotados de grandes lareiras. Eu, que achava
aquela temperatura simplesmente agradvel, pensei fosse um
sinal de fora o fato de senti-la excessivamente quente:
        -        No me parece que esteja to fraca - disse-lhe
sorrindo -; vai ver como se sente quando tiver a minha idade.
        Ela ficou bastante satisfeita por se sentir tratada como
jovem.
        Eu e Augusta acompanhamo-la at o terrao. Parecia
necessitar bastante de nossa amizade, pois que, para dar aqueles
poucos passos, caminhou entre ns dois, tomando primeiro o
brao de Augusta e em seguida o meu, que logo enrijeci, com
receio de ceder a um velho hbito de comprimir qualquer
brao feminino que se oferecesse a meu contato. No terrao
ainda falou muito e, lembrando-se do pai, teve de novo os
olhos midos, pela terceira vez em um quarto de hora. Quando
se foi, eu disse a Augusta que aquela no era uma mulher
mas um chafariz. Embora houvesse entrevisto a doena de
Ada, no lhe dei qualquer importncia. Tinha os olhos
dilatados; a face emagrecida; a voz estava transformada e at
mesmo o carter propenso a uma afetuosidade que no lhe
era prpria - tudo isso porm eu atribua  dupla
maternidade que a enfraquecera. Em suma, mostrei-me magnfico
observador, pois pude ver tudo, embora tambm um grande
ignorante por no ter dado com a palavra exata: doena!
        No dia seguinte, o obstetra de Ada pediu o parecer do
Dr. Paoli, que imediatamente pronunciou a palavra que eu no
soubera dizer: ~corbus basedowil. Guido contou-me,
descrevendo com grande sapincia a molstia e lamentando-se por
Ada que sofria muito. Sem qualquer malcia, acho que sua
compaixo e o seu cientificismo no eram grandes: assumia
um ar acanhado ao falar da mulher; quando, no entanto,
ditava cartas a Carmen, manifestava toda uma alegria de viver
e ensinar; supunha que o nome da doena derivasse de
Basedow, amigo de Goethe, ao passo que eu, ao estud-la numa
enciclopdia, percebi que se tratava de outro.
        Grande, importante essa doena de Basedow! Para mim foi
importantssimo hav-la conhecido. Estudei-a em vrias
monografias e achei que s ento havia descoberto o segredo
essencial de nosso organismo. Creio que h muitos indivduos
como eu que, em certos perodos de tempo, deixam-se ocupar
por idias que atravancam o crebro, bloqueando-o para tudo
o mais. Mas isto acontece tambm com a coletividade!
Vivemos de Darwin depois de termos vivido de Robespierre e
Napoleo, e depois de Liebig e oxal de Leopardi, quando
Bismark no est trovejando sobre o cosmos!
        Mas eu vivia apenas de Basedow! Pareceu-me que ele
trouxera luz s razes da vida, que assim era feita: todos os
organismos distribuam-se numa linha, em cuja cabea est a
molestia de Basedow, que acarreta um consumo  abundante
e alucinado das foras vitais a um ritmo imprudente; no outro
extremo acham-se os organismos debilitados pela avareza
orgnica, destinados a perecer de uma molstia semelhante a
um esgotamento e que, em vez disso,  uma ociosidade. A
medida urea entre as duas molstias se encontra no centro
e vem designada impropriamente por sade, no passando
de uma simples pausa. E entre o centro e uma das
extremidades - precisamente a de Basedow - encontram-se todos
aqueles que se exaltam e consomem a vida em grandes dese-

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jos, ambies, prazeres e at em trabalhos, e na outra aqueles
que no prato da vida deitam apenas migalhas propiciando o
advento de longevos abjetos que surgem como um peso para a
sociedade. Contudo, mesmo esse peso parece necessrio. A
sociedade  avana porque os basedowianos a impulsionam,
e s no se precipita no abismo porque os outros a detm.
Estou convencido de que, se pudssemos constituir a
sociedade, haveramos de faz-la mais simples; ela, porm, j est
constituda assim, com o bcio num extremo e o edema no
outro, e nada podemos fazer. Os que esto no centro tm
tendncia para um ou outro dos males, e ao longo da linha
de toda a humanidade no h lugar para a sade perfeita.
        Quanto a Ada, a julgar pelo que dissera a Augusta,
faltava-lhe o bcio; contava, no entanto, com todos os outros
sintomas da doena. Pobre Ada! Vira nela a encarnao da sade
e do equilbrio, tanto que por muito tempo pensei que tivesse
escolhido marido com o mesmo nimo frio com que o pai
selecionava mercadorias, e agora estava atacada por uma
molstia que a conduzia em direo oposta: s perverses
psquicas. De minha parte, adoeci com ela, de uma enfermidade
leve, mas prolongada. Durante muito tempo s pensava em
Basedow. Chego a acreditar que em qualquer parte do
universo em que nos coloquemos vamos acabar contaminados
por ela. Precisamos mover-nos. A vida est cheia de venenos
letais, mas h tambm aqueles que agem como antdotos. S
correndo podemos subtrair-nos aos primeiros e aproveitar-nos
dos outros.
        A minha enfermidade consistia numa idia fixa, um sonho,
e mesmo um pesadelo. Deve ter-se originado de uma reflexo:
sob o nome de perverso queremos significar um desvio da
sade, aquela espcie de sade que nos acompanhou por
um perodo de nossa vida. Agora sabia em que consistia a
sade de Ada. No poderia sua doena lev-la a amar-me,
a mim que repelira quando estava boa?
        No sei como este terror (ou esta esperana) nasceu no
meu crebro!
        Talvez porque a voz doce e rouca de Ada me parecesse
de amor quando se dirigiu a mim? A pobre Ada tornara-se
to feia que eu j no conseguia desej-la. Contudo, revendo
nosso relacionamento passado, parecia-me que de repente fora
tomada de amor por mim, o que me colocaria nas
desagradveis circunstncias que lembravam um pouco as de Guido
em relao ao amigo ingls das sessenta toneladas de sulfato
de cobre. Exatamente o mesmo caso! Poucos anos antes eu
lhe havia feito uma declarao de amor e no a revogara
seno pelo fato de me ter casado com a irm. Um contrato
em que no a protegia a lei, mas o cavalheirismo. Parecia-me
estar de tal forma comprometido que se ela se apresentasse
diante de mim, daqui a muitos e muitos anos, aperfeioada
quem sabe pela doena de Basedow com um enorme papo, eu
ainda assim teria que honrar minha palavra.
        Recordo, no entanto, que tal perspectiva tornou meu
pensamento mais afetuoso para com ela. At ali, quando era
informada dos padecimentos que sofria por causa de Guido,
eu certamente no me comprazia, mas de certa forma voltava
o pensamento para a casa em que Ada se recusava a entrar e
onde no se sofria na verdade. Agora as coisas haviam
mudado: j no existia aquela Ada que me refugara com
desdm, a menos que os meus textos de medicina se enganassem.
        A doena de Ada era bastante grave. O Dr. Paoli, poucos
dias depois, aconselhou que a afastassem da famlia e a
internassem numa casa de sade em Bolonha. Soube por Guido;
Augusta depois me contou que nem naquele momento foram
poupados grandes desgostos  pobre irm. Guido tivera o
descaramento de propor ficasse Carmen a cuidar da famlia
durante a ausncia da esposa. Ada no tivera coragem de dizer
abertamente o que pensava de semelhante proposta; declarou
que no arredaria p de casa se no lhe fosse permitido
entregar a direo da mesma  tia Maria, e Guido acabou
por concordar. Contudo, ele continuava a acalentar a idia
de poder manter Carmen  sua disposio no lugar deixado livre
por Ada. Um dia, disse a Carmen que, se ela no tivesse
tanto com o que se ocupar no escritrio, lhe entregaria
satisfeito a direo da casa. Luciano e eu nos entreolhamos, e certamente
descobrimos um no rosto do outro uma expresso
maliciosa. Carmen enrubesceu e murmurou que no seria
possvel aceitar.
        - Eu sei - disse Guido furioso - que as estpidas
convenes sociais nos impedem de fazer o que seria
recomendvel!

294 295

        Mas logo tambm se calou e foi com surpresa que o vimos
calar-se diante de um tema to interessante.
        A famlia inteira acompanhou Ada  estao. Augusta
pediu-me que levasse flores  irm. Cheguei um pouco atrasado,
com uma bela caixa de orqudeas que entreguei a Augusta.
Ada observava-nos e, quando Augusta lhe ofereceu as flores,
disse:
        -        Agradeo-lhes de corao!
        Queria dizer que recebia as flores tambm de mim, mas
foi como uma manifestao de afeto fraternal, doce conquanto
um tanto fria. Basedow decerto nada tinha a ver com aquilo.
        Parecia uma recm-casada a pobre, com aqueles olhos
desmesuradamente dilatados, como se o fossem de felicidade.
Sua doena sabia dissimular todas as emoes.
        Guido seguia com ela, retornando dias depois. Esperamos
na plataforma a partida do trem. Ada seguiu debruada 
janela do vago, agitando o leno, at nos perder de Vista.
        Acompanhamos ento a Sra. Malfenti em lgrimas de volta
para casa. No momento de nos despedirmos, minha sogra, aps
beijar Augusta, beijou-me tambm a mim.
        - Desculpe! - disse com um riso entre as lgrimas. -
No o fiz de propsito, mas se quer posso dar-te outro beijo.
        At Anninha, agora com doze anos, quis beijar-me. Alberta,
na iminncia de trocar o teatro nacional pelo casamento,
e que de hbito era um pouco reservada comigo, nesse dia
estendeu-me calorosamente a mo. Todos me queriam bem
porque minha mulher se mostrava saudvel; com isso
demonstravam antipatia por Guido, cuja mulher estava enferma.
        Contudo, mesmo assim corri o risco de tornar-me um marido
menos exemplar. Dei grande consternao  minha mulher,
no por minha culpa, antes por causa de um sonho que
recentemente cometi a tolice de contar.
        Eis o sonho: estvamos os trs, Augusta, Ada e eu
debruados a uma janela, precisamente a mais estreita que havia
em nossas trs habitaes, ou seja, a minha, a de minha sogra,
e a de Ada. Estvamos conseqentemente na janela da cozinha
da casa de minha sogra, que na realidade se abre sobre um
pequeno ptio, ao passo que no sonho dava diretamente para o
Corso. O pequeno peitoril era to estreito que Ada, posta entre
ns dois e apoiando-se em nossos braos, acabava ficando
totalmente colada comigo. Fitei-a de perto e vi que seus olhos se
tinham tornado frios e precisos, e que as linhas de seu rosto
estavam purssimas at a nuca coberta pelos leves cachos, aqueles
cachos que eu vira tantas vezes quando me voltava as costas.
Apesar de tanta frieza (tal me parecia sua atitude), continuava
colada a mim, como supus que estivesse naquela tarde de meu
noivado, em torno  mesa falante. No sonho, eu falava
alegremente para Augusta (sem dvida, fazendo fora para ocupar-me
tambm dela): "Olha como est curada? Que fim levou
o Basedow?" "No v?", perguntou Augusta, que era a nica
de ns a conseguir ver a rua. Com um esforo, debruamo-nos
tambm e percebemos uma grande multido que avanava
ameaadoramente a gritar "Que fim levou o Basedow?",
perguntei de novo. Depois o vi. Era ele que seguia acompanhado
pela multido: um velho andrajoso coberto por um grande
manto esfrangalhado, de brocado rgido, a enorme cabea
coberta por uma cabeleira branca e revolta, esvoaante ao
vento, os olhos saltados das rbitas a fitar ansiosos com
um olhar que eu havia notado nos animais perseguidos, de
medo e de ameaa. E a multido gritava: "Morte ao
propagador da peste!"
        Depois, houve um intervalo vazio na noite. Em seguida,
Ada e eu nos encontrvamos sozinhos na escada mais
ngreme que existia em nossas trs casas, a que conduz ao sto
do meu sobrado. Ada se achava alguns degraus acima de
mim, voltada em minha direo; eu subia, ela parecia querer
baixar. Abracei-lhe as pernas e ela se curvou para mim, no
sei se em decorrncia de sua fragilidade ou se para ficar
mais junto de mim. Por um momento pareceu-me desfigurada
pela molstia; logo, olhando-a com ateno, consegui v-la
novamente tal como havia aparecido  janela, saudvel e bela.
Dizia-me com a voz firme: "V na frente que sigo voc!"
Voltei-me para preced-la correndo, mas sem deixar de
perceber que a porta do sto comeava a entreabrir-se devagar
e que por ela passava a cabea branca e eriada de Basedow,
o rosto entre temeroso e ameaador. Vi-lhe tambm as pernas
inseguras e o pobre e msero corpo que o manto no chegava
a ocultar. Consegui correr na frente, no sei se para preceder
Ada ou se para fugir dela.

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        Ora, parece que ofegante despertei em meio  noite, e na
minha sonolncia contei todo ou parte do sonho a Augusta, para
voltar ao sono, j mais tranqilo e profundo. Creio que naquela
semiconscincia segui cegamente meu antigo desejo de confessar
os meus erros.
        De manh, o rosto de Augusta estampava a palidez de cera
das grandes ocasies. Recordava perfeitamente o sonho, mas
no exatamente o quanto lhe havia contado. Com um ar de
resignao dolorosa ela disse:
        - Voc est infeliz porque ela ficou doente e foi-se
embora;  por isso que voc sonha com ela.
        Defendi-me, sorrindo e escarnecido. Basedow e no Ada
era importante para mim; contei-lhe sobre os meus estudos
e as concluses a que chegara. No sei se consegui convenc-la.
Quando se  apanhado no sonho,  difcil defender-se. 
totalmente diverso do que chegar junto  mulher logo depois
de hav-la trado em plena conscincia. De resto, por tais
cimes de Augusta, eu nada tinha a temer, porque ela amava
tanto Ada que o cime no seria capaz de lanar sombra
alguma entre ambos, e quanto a mim ela me tratava com um
respeito ainda mais afetuoso e me era ainda mais grata pela
mais leve manifestao de afeto de minha parte.
        Em poucos dias Guido retornou de Bolonha com as
melhores notcias. O diretor da casa de sade garantia uma cura
definitiva sob a condio de que Ada posteriormente
desfrutasse em casa de total tranqilidade. Guido transmitiu com
simplicidade e bastante inconscincia as impresses do
clnico, sem compreender que na famlia Malfendi aquele
veredicto vinha confirmar muitas suspeitas contra si. Eu disse
a Augusta:
        - Eis-me novamente ameaado pelos beijos de sua me.
        Guido parecia no estar muito  vontade na casa dirigida
pela tia Maria. Por vezes, caminhava para um lado e outro
do escritrio murmurando:
        - Dois filhos... trs babs.., nenhuma mulher...
        Permanecia ausente, com freqncia at mesmo do escritrio
desafogando seu mau humor no extermnio de animais nas
caadas e pescarias. Mas pelo fim do ano, quando tivemos de
Bolonha a notcia de que Ada obtivera alta e se dispunha a
regressar, no me pareceu que ele ficasse mais feliz. J estava
habituado  tia Maria, ou melhor, via-a to pouco que se
tornara fcil e agradvel suport-la. Comigo, naturalmente,
no manifestou mau humor a no ser exprimindo a dvida
de que talvez Ada se apressasse demais em deixar a casa de
sade antes de se assegurar contra uma recada. De fato,
quando ela, aps alguns meses e ainda no curso daquele
inverno, teve que regressar a Bolonha, Guido me disse
triunfante:
        - No falei?
        No creio, contudo, que naquele triunfo houvesse outra
alegria seno a viva satisfao de ter previsto com exatido.
No desejava mal  mulher; teria, porm, preferido que ela
permanecesse por muito tempo em Bolonha.
        Quando Ada retornou, Augusta estava de resguardo pelo
nascimento de nosso filho Alfio e na ocasio foi de fato
comovente. Quis que comparecesse com flores  estao e
dissesse a Ada que ela queria v-la no mesmo dia. E se Ada
no pudesse vir diretamente da estao, que eu voltasse
imediatamente para casa a fim de dar-lhe notcias da irm e
dizer se havia recuperado inteiramente a beleza que era o
orgulho da famlia.
        Na estao estvamos apenas eu, Guido e Alberta, pois a
Sra. Malfendi passava grande parte do dia junto a Augusta.
Na plataforma, Guido procurava convencer-nos de sua
alegria com a chegada da esposa; Alberta ouvia-o, fingindo
grande distrao de propsito - como depois me disse - para
no ter que responder. Quanto a mim, a simulao com
Guido no me exigia muito trabalho. Estava to habituado
a fingir que no me dava conta de sua preferncia por
Carmen, e nunca ousei fazer aluses ao seu procedimento em
relao  esposa. Por isso no me era difcil mostrar uma
feio atenta como se admirasse sua alegria ante o retorno
da mulher amada.
        Quando o trem entrou na estao ao meio-dia em ponto,
ele avanou na frente para receber a mulher que descia.
Tomou-a nos braos e beijou-a carinhosamente. Eu, que via seu
dorso curvado para poder beijar a mulher mais baixa do que
ele, pensei: "Que grande artista!" Em seguida, tomou Ada pela
mo e trouxe-a para junto de ns:

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        - Ei-la de volta ao nosso afeto!
        Ento Guido revelou-se como era, ou seja, falso e
simulador, pois, se tivesse encarado melhor a pobre moa, teria
percebido que, em vez de vir destinada ao nosso afeto, vinha
mas era  nossa indiferena. A face de Ada dava m impresso
porque seus pmulos pareciam fora do lugar como se as
carnes, ao lhe voltarem, tivessem esquecido a que regio
pertenciam e fossem refugiar-se mais abaixo. Tinham antes
o aspecto de inchaes do que de pmulos. Os olhos haviam
retornado s rbitas, mas nada conseguiu reparar os danos
que produziram ao saltarem delas. Estavam destrudas ou
deslocadas as antigas linhas precisas e importantes. Quando
nos despedimos, ao sair da estao, ao sol de inverno ofuscante,
vi que todo o colorido daquele rosto no era mais o
mesmo que eu tanto amava. Havia empalidecido e sobre as
partes carnosas s havia manchas de carmim. Parecia que a
sade desertara dali, e s com artifcio fosse possvel fingi-la.
        Imediatamente eu disse a Augusta que a irm estava
belssima, tal como quando em criana, e ela acreditou. Mais
tarde, depois de t-la visto, ela confirmou vrias vezes, para
minha surpresa, como se fosse verdade evidente a minha
piedosa mentira. Exclamava:
        - Est to bonita como era em criana, assim como vai
ficar minha filha!
        Constate-se aqui que o olhar de uma irm no  de todo
arguto.
        Por algum tempo no voltei a ver minha cunhada. Ela
tinha filhos demais e ns tambm. Contudo, Ada e Augusta
arranjavam modo de encontrar-se vrias vezes por semana, e
sempre nas horas em que eu estava ausente de casa.
        Aproximava-se a poca do balano e eu tinha muito que
fazer. Foi a poca de minha vida em que mais trabalhei.
Houve dias em que fiquei  mesa de trabalho por cerca de
dez horas. Guido oferecera-me o auxlio de um contador, que
recusei. Tinha assumido o encargo e devia corresponder 
expectativa. Queria com isso compens-lo de minha funesta
ausncia de um ms; agradava-me igualmente demonstrar a
Carmen a minha diligncia, que no podia ser inspirada seno
por meu afeto a Guido.
        Porm,  medida que ia acertando a escrita, comecei a
descobrir os grandes prejuzos em que incorrramos naquele
primeiro ano de exerccio. Preocupado, falei por alto a Guido
sobre o assunto; ele, que se preparava para ir  caa, no
quis prestar ateno:
        -        Voc ver que no  to grave quanto lhe parece; alm
do mais, o ano ainda no terminou.
        Na verdade, faltavam oito dias inteiros para o fim do ano.
Resolvi falar com Augusta. A princpio, viu no caso apenas
os danos que poderiam recair sobre mim. As mulheres so
sempre assim; Augusta, porm, ficava extraordinariamente
preocupada, mesmo para uma mulher, quando se tratava de
seus prprios danos. Eu no iria acabar - perguntava ela -
sendo responsabilizado pelos prejuzos sofridos pelo cunhado?
Queria que consultssemos imediatamente um advogado.
Enquanto isso, era necessrio que me desligasse de Guido e
parasse de freqentar o escritrio.
        No me foi fcil convenc-la de que eu no podia ser
responsabilizado por coisa alguma, j que no passava de
empregado de Guido. Ela argumentava que quem no tem
salrio fixo no pode ser considerado um simples empregado, e
sim algo semelhante ao patro. Mesmo aps t-la convencido,
manteve a sua opinio, pois descobriu que eu no perderia
nada se deixasse de freqentar aquele escritrio, onde
seguramente acabaria por desacreditar-me comercialmente. Diabo!
Minha reputao comercial! Eu prprio concordava que era
importante salv-la e, conquanto ela no tivesse razo em
seus argumentos, conclumos que eu devia fazer o que ela
queria. Consentiu que eu terminasse o balano, j que o
iniciara, mas logo em seguida, no entanto, devia encontrar uma
maneira de recolher-me ao meu estdio, no qual no se
ganhava dinheiro, mas pelo menos no se perdia.
Fiz ento uma curiosa experincia comigo mesmo. No
consegui abandonar a minha atividade, embora houvesse decidido
faz-lo. Fiquei estupefato! Para compreender bem as coisas,
 preciso recorrer a imagens. Recordei que houve tempos na
Inglaterra em que o castigo aos trabalhos forados se
aplicava ao condenado pendurando-o por cima de uma roda
acionada pela fora da gua, e obrigando a vtima a mover
as pernas num certo ritmo para no serem esfaceladas. Quan-

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do se trabalha, tem-se sempre o sentido de uma constrio
desse gnero.  verdade que, quando no se trabalha, a posio  a
mesma e acho justo afirmar que eu e Olivi sempre
estivemos ambos pendurados; apenas eu sempre fiquei
de modo que no era preciso mover as pernas. Por isso mesmo nossa
posio dava um resultado diferente; agora, no entanto, sei
com certeza que isso no legitimava nem uma reprovao
nem um elogio. Em suma, o caso depende de estar pendurado
sobre uma roda mvel ou sobre uma imvel. Desembaraar-se
dela  sempre difcil.
        Vrios dias depois de encerrado o balano, continuei a ir
ao escritrio, embora houvesse decidido nunca mais voltar
l.        Saa de casa sem destino certo; tomava uma direo ao
acaso, que era sempre a do escritrio;  medida que avanava,
tal direo se ia tornando precisa, at encontrar-me sentado
 cadeira de sempre em frente a Guido. Por sorte, num dado
momento, fui solicitado a no abandonar meu posto, ao que
logo aquiesci, visto que nesse nterim me dera conta de como
estava aferrado a ele.
        Por volta de 15 de janeiro, o balano estava fechado. Um
verdadeiro desastre! Um prejuzo de metade do capital! Guido
no quis que o mostrasse ao jovem Olivi, temendo alguma
indiscrio, mas insisti, na esperana de que este, com sua
grande prtica, conseguisse encontrar na minha escrita algum erro
capaz de inverter toda a posio. Podia ser que alguma
importncia escriturada no deve pertencesse ao haver e, uma vez
retificada, poderamos chegar a uma diferena significativa.
Sorrindo, Olivi prometeu a Guido a mxima discrio e
trabalhou ao meu lado durante um dia inteiro. Infelizmente no
encontrou erro algum. Devo dizer que aprendi muito com a
reviso feita a dois; a partir de ento ser-me-ia possvel
analisar balanos ainda mais importantes do que o nosso.
        - E o que vo fazer agora? - perguntou com seus
grandes culos enquanto se  despedia. J imaginava qual a
sugesto. Meu pai, que muitas vezes me falara de comrcio em
minha infncia, j me havia ensinado. Segundo as leis
vigentes, dado a perda de metade do capital, o que devamos era
liquidar a firma e, com sorte, restabelec-la imediatamente
sobre novas bases. Deixei-o repetir-me o conselho. Acrescentou:
        - Trata-se de simples formalidade. - Depois, sorrindo:
-        Mas pode custar caro se no procederem assim.
         tarde, Guido tambm se ps a rever o balano ao qual
ainda no se rendera. F-lo sem qualquer mtodo,
verificando os lanamentos ao acaso. Quis interromper esse trabalho
intil e transmitir-lhe o conselho de Olivi, a fim de que
liquidssemos logo, ainda que pro forma, a razo social.
        At ento Guido apresentava o rosto contrado pelo
esforo de buscar nas contas o erro libertador: um cenho
complicado pela contrao de quem tivesse na boca um sabor
amargo.  minha comunicao, ergueu a face, que se clareou num
esforo de ateno. No compreendeu logo, mas quando o
fez, p-se a rir satisfeito. Interpretei assim a sua expresso:
spera, cida, at encontrar-se diante daquelas cifras que no
se podiam alterar; alegre e resoluta, quando o doloroso
problema foi lanado  parte por uma proposta que lhe propiciava
o ensejo de recuperar o sentimento de patro e rbitro.
        No compreendia. Parecia-lhe o conselho de um inimigo.
Expliquei-lhe que a advertncia de Olivi tinha seu valor
especialmente pelo perigo, que recaa de modo evidente sobre a
firma, de perder ainda mais dinheiro e entrar em falncia. Uma
falncia eventual seria considerada fraudulenta, se depois do
balano, j agora consignado em nossos livros, no tomssemos
as medidas aconselhadas por Olivi. E ajuntei:
        - A penalidade, no caso de falncia culposa, segundo a
lei  a priso!
        O        rosto de Guido cobriu-se de tal rubor que temi estivesse
ameaado por uma congesto cerebral. Gritou:
        -        Nesse caso Olivi no tem necessidade de dar-me
conselhos! Se isso um dia tiver que acontecer, saberei resolver o
problema sozinho!
        Sua deciso f-lo impor-se e tive a sensao de encontrar-me
diante de uma pessoa perfeitamente cnscia de suas
responsabilidades. Baixei meu tom de voz. Passei imediatamente
para o seu lado e, esquecendo de lhe haver apresentado o
Conselho de Olivi como digno de considerao, acrescentei:
        -        Foi o que eu prprio objetei a Olivi. A
responsabilidade  sua e nada temos a ver com o que voc decidir sobre
o destino da firma, que pertence a voc e a seu pai.

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        Era o que, na verdade, eu dissera  minha mulher e no
a Olivi, mas, em suma, era tambm verdade que o dissera a
algum. Ora, aps ouvir a viril declarao de Guido, seria
capaz de diz-lo igualmente a Olivi, porque a deciso e a
coragem sempre tiveram o dom de me conquistar. Tanto que
eu apreciava a mera desenvoltura que podia resultar no s
daquelas qualidades, mas de outras muito inferiores.
        E como quisesse transmitir todas as suas palavras a Augusta
para tranqiliz-la, insisti com ele:
        - Voc sabe que dizem a meu respeito, provavelmente
com razo, que no tenho qualquer talento para o comrcio.
Posso executar tudo aquilo que voc mandar, mas nunca
assumir a responsabilidade pelo que voc faz.
        Ele assentiu vivamente. Sentia-se to bem na parte que eu
lhe atribua que at esqueceu o aborrecimento pelo pssimo
balano. Declarou:
        - Sou o nico responsvel. Tudo est em meu nome e
no admitiria que algum mais quisesse repartir a
responsabilidade comigo.
        tima coisa para contar a Augusta, muito melhor mesmo
do que eu havia desejado. Precisava ver o ar que ele assumia
ao fazer a declarao: em vez de um semifalido, parecia um
apstolo! Estava comodamente instalado em seu balano
passivo, e dali se proclamava meu patro e senhor. Dessa vez,
como de tantas outras no curso de nossa vida em comum, meu
impulso de afeto por ele foi sufocado pelas suas expresses
reveladoras da desmesurada estima que nutria por si mesmo.
Ele desafinava. Sim:  preciso diz-lo desta forma; o grande
msico desafinava!
        Perguntei-lhe bruscamente:
        - Quer que eu faa uma cpia do balano para seu pai?
        Por um instante estive a ponto de lhe fazer uma declarao
bem mais rude, dizendo que, logo aps o encerramento do
balano, eu no iria mais ao escritrio. No o fiz por no
saber como empregar todas as horas livres que me sobrariam.
Contudo, a minha pergunta substitua quase perfeitamente a
declarao que no cheguei a fazer. Assim lhe recordava que
no era o nico a mandar naquele escritrio. Mostrou-se
surpreso com as minhas palavras, que no lhe pareceram
conforme, ao quanto at ento havamos falado, com minha evidente
concordncia, e com o mesmo tom de voz anterior disse:
        - Vou instruir voc sobre a maneira de fazer a cpia.
        Protestei gritando. Em toda a minha vida nunca gritei
tanto quanto o fiz com Gudo, que me parecia estar surdo. Disse-lhe
claramente que a lei responsabilizava o contador
igualmente e que eu no estava disposto a impingir como cpia
fiel uma coluna de cifras fantasiosas.
        Ele empalideceu e admitiu que eu tinha razo,
acrescentando, porm, que estava no seu direito de ordenar que no se
tirassem de maneira alguma extratos de seus livros. Quanto
a isto reconheci com prazer que ele tinha razo, e logo,
reanimado, declarou que ele prprio escreveria ao pai. Parecia
querer faz-lo imediatamente, mas mudou de idia e me props
tomar um pouco de ar. Desejei satisfaz-lo. Supunha que ainda
no tivesse digerido bem o balano e quisesse exercitar-se um
pouco para consegui-lo.
        O        passeio recordou-me o da noite de meu noivado. Faltava
lua, pois havia muita nvoa no cu, mas na Terra era igual,
e caminhvamos seguros atravs da atmosfera lmpida. Guido
tambm recordou aquela noite memorvel:
        - a primeira vez que caminhamos novamente juntos 
noite. Voc se lembra? Voc ento me explicou que na lua
tambm se beija como aqui. Embora hoje no se possa ver,
estou certo de que na lua aquele beijo continua eterno, ao
passo que aqui...
        Recomearia a falar mal de Ada? Da pobre enferma?
Interrompi-o brandamente, quase concordando com ele (no o havia
acompanhado com a inteno de ajud-lo a esquecer?):
        - Claro que na Terra no se pode beijar para sempre! Mas
o que est l em cima no passa da imagem de um beijo. O
beijo  antes de tudo movimento.
        Tentava afastar-me de todos os seus problemas, do balano
e de Ada; e tanto  verdade, que consegui eliminar
devidamente uma frase que estive a pique de pronunciar, qual seja,
a de que l em cima o beijo no gerava gmeos. Mas ele, a
fim de se livrar do balano, no encontrava nada melhor para
se lamentar de seus outros infortnios. Como havia
pressentido, comeou a falar mal de Ada. A queixar-se de seu
primeiro ano de casado, que achava desastroso. No por causa

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dos gmeos, to bonzinhos e bonitos, mas da enfermidade da
esposa. Afirmava que a molstia a tornava irascvel, ciumenta
e ao mesmo tempo pouco afetuosa. Terminou por exclamar
desconsolado:
        -        A vida  injusta e dura!
        Parecia-me absolutamente interdito dizer uma s palavra
que implicasse uma posio minha entre ele e Ada. Achava,
no entanto, que devia dizer algo. Ele acabara de falar a
respeito da vida e lhe pespegara dois predicados que no pecavam
por excesso de originalidade. Eu seria capaz de formular coisa
melhor, mesmo porque mentalmente fazia a crtica daquilo
que ele dissera. No mais das vezes dizemos coisas que seguem
o som das palavras numa associao casual. Depois  que se
vai ver se aquilo que se disse vale o esforo da emisso, e
vez por outra descobrimos que a associao casual partejou
uma idia. Disse:
        -        A vida no  boa nem m;  original!
        Tive a impresso de haver exprimido algo importante.
Enunciada assim, a vida me pareceu de tal maneira nova que
estive a olh-la como se a visse pela primeira vez com seus
corpos gasosos, fluidos e slidos. Se a descrevesse assim a
algum no habituado a ela, e por isso destitudo de nosso
senso comum, este haveria de ficar boquiaberto diante
daquela enorme construo desprovida de objetivo. Certamente
perguntaria: "Mas como vocs conseguem suport-la?" E,
informado dos mnimos detalhes, daqueles corpos celestes
suspensos do azul, que vemos mas no podemos tocar,
inclusive o mistrio que circunda a morte, teria certamente
exclamado: "Muito original!"
        -        Original, a vida? - disse Guido, a rir-se. - Onde leu
isto?
        No me dei ao trabalho de assegurar-lhe que no o havia
lido em parte alguma porque as minhas palavras haveriam
de ter menos importncia para ele. Contudo, quanto mais
pensava nela, mais achava a vida original. E no era
necessrio que viessem os de fora para consider-la construda de
uma forma to bizarra. Bastava recordar tudo aquilo que ns,
homens, esperamos da vida para a acharmos to estranha, a
ponto de concluirmos que talvez o homem tenha sido posto
nela por engano e que de fato no pertena a ela.
        Sem que nos dssemos conta da direo tomada por nosso
passeio, acabamos por chegar, como da outra feita,  ladeira
da Via Belvedere. Topando com a mureta sobre a qual se
estendera aquela noite, Guido pulou para ela e deitou-se
exatamente como da vez anterior. Cantarolava, talvez
oprimido pelos pensamentos, e meditava certamente sobre as cifras
inexorveis da sua contabilidade. De minha parte, recordei
que tive vontade de assassin-lo ali naquele lugar, e
confrontando meus sentimentos de ento com os de agora admirava
mais uma vez a incomparvel originalidade da vida. De sbito
recordei que pouco antes e por capricho de pessoa ambiciosa
me havia irritado com o pobre Gudo, e isto num dos piores
dias de sua vida. Concentrei-me numa indagao: assistia
sem compaixo  tortura infligida a Guido pelo balano
que eu preparara com tamanho cuidado, e me veio uma
dvida curiosa, seguida de uma curiosssima recordao. A dvida:
eu era bom ou mau? A recordao, provocada
repentinamente pela dvida que no era nova: via-me em criana
e vestido (estou certo) ainda de calas curtas, erguendo o
rosto para perguntar  minha me sorridente: "Eu sou bom
ou sou mau?" Essa dvida devia ter sido inspirada ao
menino por todos que o achavam bom, e por tantos outros que,
de brincadeira, o qualificavam de mau. No era, portanto, de
admirar que a criana se sentisse embaraada por tal dilema.
Oh! Incomparvel originalidade da vida! Era extraordinrio
que a dvida j infligida por ela  criana, de forma to
pueril, no fosse resolvida pelo adulto depois de transposta
metade de sua existncia.
        Na noite escura, exatamente naquele lugar onde uma vez
j quisera matar, aquela dvida angustiou-me profundamente.
Decerto a criana no sofrera tanto ao sentir a dvida vagar por
sua cabea mal liberta da touca, pois em pequenos nos dizem
que nos podemos emendar. Para libertar-me de tanta angstia,
quis acreditar de novo nisto e consegui. Se no tivesse conseguido,
teria que chorar por mim, por Guido e por nossa
vida to triste. O propsito renovou a iluso! O propsito
de ficar ao lado de Guido e de colaborar com ele no
desenVolvimento de seus negcios, dos quais dependia a sua vida
e a dos seus, e isto sem qualquer proveito para mim. Entrevi
a possibilidade de correr, brigar e estudar por causa dele e

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admiti a possibilidade de me tornar, para ajud-lo, um grande
empreendedor, um genial negociante. Foi o que pensei
naquela noite escura desta vida originalssima!
        Guido, no entanto, parou de cismar no balano. Saiu do
lugar onde estava e pareceu tranqilizado. Como se tivesse
extrado uma concluso de um raciocnio sobre o qual eu nada
sabia, disse-me que no comunicara nada ao pai com receio
de que este empreendesse enorme viagem de vir de seu sol de
vero at a nossa nvoa hibernal. Aduziu que o prejuzo
parecia  primeira vista imenso, mas que no haveria de ser
tanto assim se no tivesse que suport-lo sozinho. Pedira a
Ada que arcasse com a metade, dando-lhe em compensao
uma parte dos lucros do exerccio seguinte. A outra metade
do prejuzo ele a suportaria sozinho.
        Eu no disse nada. Achei at que me era interdito dar
conselhos, pois de outra forma acabaria por fazer aquilo que
de fato no queria, ou seja, erigir-me em juiz entre os dois
cnjuges. Alm do mais, no momento sentia-me to cheio de
bons propsitos que me pareceu fosse negcio conveniente
para Ada participar de uma empresa dirigida por ns.
        Acompanhei Guido at a porta de casa e apertei-lhe
demoradamente a mo para renovar em silncio o propsito de
querer-lhe bem. Depois ensaiei dizer-lhe alguma coisa
agradvel, acabando por achar esta frase:
        - Que seus gmeos tenham uma boa noite e deixem voc
dormir, pois certamente voc tem necessidade de repouso.
        Ao ir-me embora, mordi os lbios, reprovando-me por no
ter encontrado nada melhor que dizer. Bem que sabia que os
gmeos tinham agora cada qual a sua ama e que dormiam a
meio quilmetro dele, no lhe podendo perturbar o sono!
De qualquer modo, percebeu a inteno do augrio, pois
aceitou-o reconhecido.
        Chegando em casa, encontrei Augusta no quarto de dormir
com as crianas. lfio sugava-lhe o seio, enquanto Antnia
dormia em sua caminha, os caracis da nuca voltados em nossa
direo. Achei que devia explicar as razes de meu atraso;
por isso contei-lhe at a maneira arquitetada por Guido para
libertar-se do dficit. A proposta de Guido pareceu-lhe
indigna:
        - Se eu fosse Ada, recusaria - exclamou com violncia,
embora em voz baixa para no despertar o pequeno.
        Impelido por meus propsitos de bondade, argumentei:
        - Contudo, se eu me encontrasse nas mesmas dificuldades
de Guido, voc no me ajudaria?
Ela riu:
        - Seria muito diferente! Veramos entre ns o que seria
mais vantajoso para eles! - e acenou para a criana nos seus
braos e Antnia. Aps um momento de reflexo, continuou:
-        Se aconselharmos Ada a empregar seu dinheiro num
negcio de que em breve voc no far mais parte, no ficaremos
na obrigao de indeniz-la, se depois vier a perd-lo?
        Era uma idia de ignorante, mas, no meu novo altrusmo,
exclamei:
        - E por que no?
        - Mas no v que temos dois filhos nos quais devemos
pensar?
        Claro que os via! A pergunta era uma figura retrica
verdadeiramente isenta de sentido.
        - E eles tambm no tm dois filhos? - perguntei
vitorioso.
        Ela ps-se a rir estrepitosamente, acordando lfio, que de
repente deixou de mamar para chorar. Augusta ocupou-se
dele, sempre rindo, e aceitei o seu riso como se provocado
pela minha espirituosidade, ao passo que, na verdade, no
momento em que fizera aquela pergunta, sentira agitar-se
em meu peito um grande amor pelos pais de todas as crianas
e pelos filhos de todos os pais. Mas tendo-se rido dele, nada
mais sobrou de tal afeto.
        Contudo, at a mgoa de no me saber essencialmente bom
se mitigou. Pareceu-me haver resolvido o angustioso problema.
No se era nem bom nem mau, como no se era tanta outra
coisa mais. A bondade era a luz que iluminava em lampejos,
por instantes, a escurido da alma humana. Era necessria
uma tocha flamejante para iluminar o caminho (houve momentos
em minha vida em que essa tocha brilhava e certamente
voltaria a brilhar) e o ser pensante podia escolher sob
aquela luz a direo em que se mover na obscuridade. Por
isso uma pessoa podia apresentar-se boa, muito boa ou sempre
boa, e isto era o importante. Quando a chama voltasse, no

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haveria de surpreender-me nem ofuscar-me. Ento, assopr-la-ia
para extingui-la, pois j no teria necessidade dela. Teria
sabido conservar meu propsito, ou seja, a direo.
        O propsito de bondade  plcido e prtico, e eu estava
calmo e tranqilo. Curioso! O excesso de bondade me fizera
exceder na auto-estima e na crena em meu poder. Que podia
fazer por Guido? Era verdade que na sua empresa eu era
superior aos demais, tal como na minha o velho Olivi era superior
a mim. Isto, porm, no provava muito. E para ser
bastante prtico: que aconselharia a Guido no dia seguinte?
Talvez me ocorresse alguma inspirao. Mas, se nem nas
mesas de jogo nos deixamos guiar pelas inspiraes quando
jogamos com o dinheiro dos outros! Para fazer prosperar
uma casa comercial, era necessrio encontrar uma atividade
diria para ela, e s se podia chegar a isto trabalhando cada
hora em prol da organizao. Eu no seria capaz de fazer
coisa semelhante, nem me parecia justo submeter-me, por
fora da bondade, a ser condenado a uma vida de chatura.
        Sentia, contudo, a impresso, decorrente de meu impulso
de bondade, de que assumira um compromisso com Guido e
no podia esmorecer. Suspirei profundamente vrias vezes
e numa delas at gemi, de certo no momento em que me
julguei obrigado a me ligar ao escritrio de Guido, assim
como Olivi se ligara ao meu.
Augusta entredormindo, murmurou:
        -        O que  que voc tem? Encontrou algo mais para dizer
a Olivi?
        Eis a idia que eu buscava! Aconselharia Guido a contratar
o filho de Olivi como gerente! Aquele jovem to srio e to
trabalhador, que eu via com maus olhos metido em meus
negcios como  espera de suceder ao pai na direo de minha
firma, a fim de me expulsar definitivamente dela, certamente
haveria de funcionar muito melhor e com vantagens para
todos no escritrio de Guido. Dando-lhe um lugar em sua
firma, Guido conseguiria salvar-se e a mim tambm.
        A idia exaltou-me e despertei Augusta para conversarmos.
Ela se mostrou entusiasmada, a ponto de despertar
completamente. Pareceu-lhe que assim eu me livraria mais facilmente
dos negcios comprometedores de Guido. Adormeci com a
conscincia tranqila. Encontrara um modo de salvar Guido
sem precisar condenar-me; muito pelo contrrio.
        Nada mais desagradvel do que ver repudiado um conselho
sincero que nos custou um esforo e mesmo horas de sono.
No meu caso custara ainda um duplo esforo: a iluso de
imaginar que eu poderia ser til nos negcios de Guido. Um
desmedido esforo. A princpio, chegara a uma verdadeira
bondade, em seguida a uma absoluta objetividade, para tudo
ir por gua abaixo!
        Guido recusou meu conselho terminantemente e com
desdm. No acreditava na capacidade do jovem Olivi; alm disso,
desagradava-lhe sua aparncia de velho prematuro e, mais que
tudo, no suportava aqueles culos imensos faiscando na cara
lavada. Os argumentos eram verdadeiramente aptos a me
fazer crer que apenas um tivesse fundamento: o desejo de
me provocar despeito. Acabou por dizer que teria aceito como
chefe do escritrio no o moo, e sim o velho Olivi. Eu,
porm, no me sentia em condio de buscar o auxlio deste,
j que no seria capaz de assumir, de um momento para
para outro, a direo de meus negcios. Ca na besteira de
discutir com Guido e disse-lhe que o velho Olivi pouco valia.
Contei-lhe o quanto me custara sua teimosia em no querer
comprar a tempo umas famosas passas.
        - Pois bem! - exclamou Guido. - Se o velho no vale
mais que isto, que valor poder ter o filho, que no passa
de um discpulo dele?
        Era, sem dvida, um bom argumento, e tanto mais
desagradvel para mim, que o havia fornecido com minha
tagarelice imprudente.
        Poucos dias depois, Augusta contou-me que Guido
propusera a Ada que arcasse com metade do prejuzo dele. Ada
recusara, dizendo a Augusta:
        - Ele me trai e ainda quer o meu dinheiro!
        Augusta no teve cragem de aconselh-la a d-lo, mas
assegurou que fez o possvel para dissuadir a irm da idia
de que o marido a traa. Ela respondeu de modo a dar a
entender que sabia muito mais do que podamos imaginar.
E Augusta comentou o assunto comigo: - A mulher deve

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fazer qualquer sacrifcio pelo marido, mas ser que esta regra
se aplicaria tambm a Guido?
        Nos dias subseqentes, a atitude de Guido mostrou-se
verdadeiramente extraordinria. Vinha ao escritrio de tempos
em tempos e no permanecia por mais de meia hora. Saa
correndo, como algum que tivesse esquecido alguma coisa
em casa. Soube depois que ia apresentar a Ada novos
argumentos, que lhe pareciam decisivos, a induzi-la a fazer o
que ele queria. A sua era de fato a aparncia de algum que
tivesse chorado ou gritado muito e em seguida fugido, e nem
mesmo em nossa presena conseguia dominar a emoo que
lhe contraa a garganta e fazia brotar lgrimas em seus olhos.
Perguntei-lhe o que tinha. Respondeu-me com um sorriso
triste, mas amistoso, para demonstrar que no me cabia a
culpa. Depois, controlou-se de modo a poder falar sem agitar-se
muito. Disse enfim umas poucas palavras: Ada fazia-o
sofrer com seus cimes.
        Procurava convencer-me de que discutiam assuntos ntimos,
ao passo que eu sabia estar em jogo tambm a questo lucros
e perdas.
        Mas parece que isto no tinha importncia. Era o que ele
me dizia e tambm o que Ada dizia a Augusta, no
mencionando seno a questo dos cimes. A prpria violncia das
discusses, que deixavam marcas profundas no rosto de Guido,
levava a crer que dissessem a verdade.
        De fato, o que se passou foi que entre os cnjuges no se
discutiu outro assunto seno dinheiro. Ada, por orgulho e
conquanto se deixasse guiar por suas mgoas passionais, nada
mencionava sobre isto, e Guido, talvez pela conscincia da
culpa e conquanto sentisse Ada enfurecida pelos cimes,
continuava a discutir os negcios como se o resto no existisse,
Precipitava-se a correr cada vez mais atrs daquele dinheiro,
enquanto ela, que na verdade no dava ateno aos assuntos
comerciais, protestava contra a proposta de Guido com um
nico argumento: o dinheiro devia ficar para os filhos.
Quando ele encontrava outros argumentos, a sua paz, a vantagem
que seu trabalho faria recair sobre os prprios filhos, a
segurana de se encontrar conforme os preceitos legais, ela
conclua com um duro "no". Guido exasperava-se e - como
acontece com as crianas - o seu desejo se aguava mais.
Ambos - quando falavam a outrem - se acreditavam, no
entanto, sinceros, ao afirmar que sofriam por amor e por
cimes.
        Foi uma espcie de mal-entendido que me impediu de
interferir a tempo para pr fim  lamentvel questo do dinheiro.
Eu podia provar a Guido que isto realmente no tinha
importncia. Como guarda-livros sou um pouco moroso e s
compreendo as coisas depois de registr-las nos livros, preto
no branco; pareceu-me, porm, haver percebido desde o
princpio que a importncia solicitada por Guido  mulher no
mudaria muito a situao. Que proveito teria, na verdade,
receber aquela soma em dinheiro? O prejuzo no ia aparecer
menos, se Ada tivesse aceito jogar fora o dinheiro naquela
contabilidade; coisa alis que Guido no lhe pedia. A lei
jamais se deixaria enganar ao descobrir que, aps ter perdido
tanto, a firma quisesse arriscar ainda mais, atraindo  empresa
novos acionistas.
        Uma manh Guido no apareceu no escritrio, o que nos
surpreendeu, pois sabamos que na noite anterior no fora a
casa.  hora do almoo, soube por Augusta, comovida e
agitada, que Guido tentara suicidar-se na noite anterior. J
estava fora de perigo. Devo confessar que a notcia, que a
Augusta soava trgica, a mim provocou raiva.
        Recorrera quele meio drstico para quebrar a resistncia
da mulher! Soube igualmente que o fizera com toda a
prudncia, pois, antes de tomar o comprimido de morfina, deixou
que o vissem com o frasco aberto  mo. De modo que, ao
primeiro torpor em que caiu, Ada chamou o mdico, que o
ps imediatamente fora de perigo. Ada passou uma noite
horrenda, porque o doutor se mostrara reticente sobre as
conseqncias do envenenamento; sua agitao prolongou-se
em seguida, pois Gujdo, recobrando-se e talvez no consciente
de todo, ps-se a dirigir-lhe reprovaes, chamando-a de
inimiga, perseguidora, que lhe frustrava o sadio exerccio do
trabalho ao qual queria tanto dedicar-se.
Ada concedeu-lhe de imediato o emprstimo pedido; depois,
finalmente, no intuito de defender-se, falou s claras e fez-lhe
todas as reprovaes que h tanto tempo vinha calando. Com

312 313

isto chegaram a entender-se, porque ele conseguiu - assim
supunha Augusta - dissipar em Ada quaisquer suspeitas
quanto  sua fidelidade. Mostrou-se enrgico e, quando esta
falou de Carmen, exclamou:
        - Est com cimes dela? Pois bem, mando-a embora hoje
mesmo.
        Ada no respondera, admitindo assim que tivesse aceito a
proposta e que ele se empenharia em cumpri-la.
        Admirei-me que Guido tivesse conseguido comportar-se
assim em sua semiconscincia, e cheguei at a crer que ele no
tivesse engolido sequer a pequena dose de morfina. Eu achava
que um dos efeitos do entorpecimento do crebro pelo sono
consistia em abrandar o nimo mais endurecido, induzindo-o
s mais ingnuas confisses. No passara eu por situao
semelhante? Isto aumentou meu desdm e meu desprezo por
Guido.
        Augusta chorava ao contar-me o estado em que Ada se
encontrava. No! Ada j no tinha a mesma beleza, com
aqueles olhos que pareciam arregalados pelo terror.
        Entre minha mulher e eu estabeleceu-se uma longa
discusso sobre se eu devia fazer imediatamente uma visita a Guido
e Ada, ou se seria melhor fingir ignorar o assunto e esperar
seu regresso ao escritrio. Tal visita constitua para mim um
incmodo insuportvel. Ao v-lo, como poderia deixar de
manifestar-lhe o que pensava a seu respeito? Eu dizia:
        - uma atitude indigna de um homem! No tenho a
menor inteno de matar-me, mas, se me decidisse a faz-lo,
estou certo de que iria at o fim!
        Era o que eu de fato sentia e desejava express-lo a
Augusta. Pareceu-me, porm, que dava demasiada importncia a
Guido, comparando-o comigo:
        - No  preciso ser qumico para destruir um organismo
to sensvel como o nosso. Quase todas as semanas, aqui
mesmo em nossa terra, a costureirinha que engole uma
soluo de fsforo preparada em segredo em seu prprio quarto
miservel no acaba, apesar de toda a assistncia mdica,
encontrando a morte, o pobre rosto contrado ainda pela dor
fsica e moral que sofreu sua pobre alma inocente?
        Augusta no admitia que a alma de uma costureirinha
suicida fosse assim to inocente; depois de um leve protesto,
no entanto, retornou  tentativa de induzir-me a tal visita.
Garantiu que eu no devia temer qualquer embarao. J
falara inclusive com Guido e ele a tratara com tal serenidade
que parecia ter cometido a mais corriqueira das aes.
        Sa de casa sem dar a Augusta a satisfao de me mostrar
convencido de seus argumentos. Aps leve hesitao, tratei
sem mais de satisfazer o desejo de minha mulher. Por breve
que fosse o percurso, o ritmo de meus passos concorreu para
um abrandamento de meu juzo em relao a Guido. Recordei
a direo que me fora assinalada poucos dias antes pela luz
que iluminara o meu caminho. Guido era uma criana, uma
criana a quem eu prometera a minha indulgncia. Se no
conseguisse matar-se antes disto, mais cedo ou mais tarde ele
tambm haveria de chegar  maturidade.
        A empregada fez-me entrar para uma salinha que devia
ser o quarto de vestir de Ada. O dia estava nublado e o
ambiente estreito, com a nica janela coberta por pesados
reposteiros, mergulhava na escurido.  parede estavam os
retratos dos pais de Ada e de Guido. Permaneci ali por pouco
tempo; a criada voltou a chamar-me e levou-me ao quarto
onde se achava o casal. Este era amplo e iluminado, mesmo
naquele dia, graas s suas imensas janelas e ao mobilirio
claro. Guido jazia no leito com a cabea enfaixada e Ada
sentava-se ao lado dele.
        Guido recebeu-me sem qualquer embarao, diria at com
o mais vivo reconhecimento. Parecia sonolento, mas, para
cumprimentar-me e dar-me em seguida suas recomendaes,
soube erguer-se no leito e mostrar-se de todo desperto. Deixou,
em seguida, a cabea cair sobre o travesseiro e cerrou os
olhos. Lembrou-se acaso de que devia simular o grande efeito
da morfina? De qualquer modo inspirava piedade e no ira,
e com isto senti-me generoso.
        No olhei logo para Ada: tinha medo da fisionomia de
Basedow. Quando a olhei, tive uma agradvel surpresa, pois
esperava algo pior. Seus olhos estavam de fato
desmesuradamente dilatados, mas as inchaes que haviam substitudo os
pmulos da face j tinham desaparecido; achei-a mais bonita.
Trajava um amplo robe cor-de-rosa, fechado at o pescoo,
dentro do qual seu pobre corpo se perdia. Nela havia qualquer

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coisa de muito casto e, a julgar pelos olhos, algo de bastante
severo. No consegui aclarar de todo os meus sentimentos;
na verdade, pensei ter a meu lado uma mulher que se
assemelhava quela Ada que eu amara tanto.
        Em certo momento, Guido arregalou os olhos, extraiu de
sob o travesseiro um cheque, no qual imediatamente distingui
a assinatura de Ada, entregou-me e o pediu que o resgatasse,
creditando a importncia numa conta que eu devia abrir em
nome de Ada.
        - Em nome de Ada Malfendi ou de Ada Speier? -
perguntou ele a Ada, gracejando.
        Ela ergueu os ombros e disse:
        - Vocs dois  que sabem o que  melhor.
        - Depois eu lhe digo como fazer os outros lanamentos
-        acrescentou Guido com uma brevidade que me ofendeu.
        Eu estava a ponto de interromper-lhe a sonolncia,  qual
de sbito se abandonara, dizendo-lhe para fazer ele mesmo os
lanamentos que quisesse.
        Nesse nterim, trouxeram-lhe uma grande chvena de caf
puro, que Ada lhe deu. Ele tirou os braos de baixo das
cobertas e com ambas as mos levou a xcara  boca. Ali,
agora, com o nariz metido na tigela, parecia mesmo uma
criana.
        Quando me despedi, garantiu-me que no dia seguinte iria
ao escritrio.
        J me havia despedido de Ada, por isso fiquei um tanto
surpreso quando ela veio acompanhar-me  porta de sada.
Ofegava:
        - Zeno, por favor! Venha comigo um instante. Preciso
falar-lhe uma coisa.
        Segui-a at a salinha, onde estivera a princpio e de onde
agora se ouvia o choro de um dos gmeos.
        Ficamos de p olhando-nos face a face. Ela ainda ofegava
e por isto, s por isto, pensei que me tivesse feito entrar
naquele cmodo escuro para reclamar o amor que eu lhe
oferecera.
        Na obscuridade seus grandes olhos apareciam terrveis.
Cheio de angstia, perguntava a mim mesmo o que devia
fazer. No seria meu dever tom-la em meus braos,
poupando-lhe assim a necessidade de pedir-me fosse o que fosse? Num
breve instante, que multiplicidade de propsitos! Saber o que
uma mulher pretende  uma das coisas mais difceis da vida.
Olivir-lhe as palavras no adianta, porque todo um discurso
pode ser anulado por um olhar e nem mesmo este pode dar-nos
indicaes precisas quando nos encontramos com ela,
a seu pedido, num pequeno compartimento escuro.
        No conseguindo adivinhar sua inteno, tentava
compreender-me a mim mesmo. Qual era o meu desejo? Queria
beijar aqueles olhos e aquele corpo esqueltico? No sabia
dar uma resposta precisa, porquanto, pouco antes, a vira na
severa castidade de sua camisola fofa, to desejvel como
a jovenzinha que eu havia amado.
         sua nsia agora se associava o pranto; assim, prolongou-se
o tempo em que eu no sabia o que ela desejava e o que
desejava eu. Finalmente, com voz entrecortada, falou mais
uma vez de seu amor por Guido, de modo que no tive mais
nem direitos nem deveres em relao a ela. Balbuciou:
        - Augusta me disse que voc queria deixar Guido sozinho
e no se ocupar mais dos negcios dele. Queria pedir-lhe que
continuasse a ajud-lo. No creio que ele esteja em condies
de agir sozinho.
        Pedia-me para continuar fazendo aquilo que eu j fazia.
Era pouco, bem pouco, e tentei conceder-lhe mais:
        - J que assim deseja, continuarei a trabalhar com Guido;
vou fazer todo o possvel para assisti-lo ainda mais do que
tenho feito,
        Eis de novo o exagero! Percebi-o no momento exato em
que incorria nele, mas no soube renunciar. Queria dizer a
Ada (ou talvez mentir-lhe) que ela me oprimia. Ela no queria
o meu amor, mas o meu apoio, e eu lhe falava de modo a
faz-la crer que estava pronto a conceder-lhe ambos.
        Ada, de repente, agarrou-me a mo. Arrepiei-me. Muito
promete a mulher que nos estende mo! Sempre senti isto.
Quando uma mulher me dava a mo era como se eu a tomasse
inteira. Ao sentir o contato, pareceu-me que estvamos
praticando algo semelhante a um abrao. Sem dvida, foi um
contato ntimo.
        Ela acrescentou:

        316        317

        - Devo regressar brevemente a Bolonha, para a casa de
sade, e seguirei tranqila se souber que voc est com ele.
        - Ficarei ao lado dele! - respondi com ar resignado.
Ada deve ter imaginado que o ar de resignao significava
o sacrifcio que eu estava disposto a fazer. Em vez disso, o
que estava era resignando-me a voltar a uma vida inteiramente
vulgar, visto que ela nem pensara em seguir-me para a vida
de exceo com que eu sonhara.
        Esforcei-me para baixar de todo  terra, e imediatamente
descobri em meu bestunto um problema de contabilidade nada
simples. Devia creditar a importncia do cheque que estava
em meu bolso numa conta de Ada. Isto era bastante claro;
mas no a maneira como tal registro afetaria a rubrica
de 'lucros e perdas'. No lhe disse nada talvez pelo receio de
que ela no soubesse da existncia neste mundo de um
livro-razo que continha contas de espcie to variada.
        Contudo, no quis sair da sala sem haver dito algo. Foi
assim que, em vez de falar de contabilidade, pronnciei uma
frase que no momento deixei escapar ali, negligentemente, s
para dizer alguma coisa, que depois, porm, senti de grande
importncia para mim, para Ada e para Guido, principalmente
para mim mesmo, pois me comprometia mais uma vez ainda.
A frase foi de tal modo importante que durante anos recordei
a maneira displicente como articulei os lbios para
pronunci-la na sala exgua e escura, na presena daqueles quatro
retratos dos genitores de Ada e Guido, defrontando-se tambm
estes entre si na parede. Disse:
        - Voc acabou casando com um homem ainda mais
estranho do que eu, Ada!
        Como a palavra sabe atravessar o tempo! Ela prpria  um
acontecimento que se interliga aos acontecimentos! Tornava-
se um acontecimento, trgico acontecimento, porque dirigida
a Ada. Em meu pensamento, nunca conseguiria evocar com
tanta vivacidade a hora em que Ada escolhera entre Guido
e eu, naquela rua ensolarada onde, aps dias de espera,
encontrei-a para caminhar a seu lado e esforar-me por
conquistar seu riso, que tolamente eu acolhia como uma promessa!
E recordei ainda que, ento, j me tornara inferior pelo
embarao dos msculos de minhas pernas, ao passo que Guido
se movia com mais desenvoltura que a prpria Ada e no
era marcado por nenhum sinal de inferioridade, a no ser que
se considerasse como tal o estranho basto que insistia em
carregar.
        Ela disse em voz baixa:
        -  verdade!
        Depois, sorrindo afetuosamente: - Mas estou feliz por
Augusta, sabendo que voc  bem melhor do que eu supunha.
- Depois, com um suspiro: - Tanto que me atenua um
pouco a mgoa de que Guido no seja o que esperava.
        Eu, sempre mudo, ainda me mantinha em dvida. Pareceu-me
dizer que eu me tornara aquilo que ela esperava de Guido.
Seria, pois, amor? E disse ainda:
        - Voc  o melhor homem de nossa famlia, a nossa f,
a nossa esperana. - Voltou a estender-me a mo, e apertei-a
talvez demais. Retirou-a, porm, com tal rapidez, que
qualquer dvida se dissipou. Naquele compartimento escuro eu
soube novamente como devia comportar-me. Talvez para
atenuar seu ato, dirigiu-me outro afago:
        - Conhecendo-o melhor, lamento o que fiz voc sofrer.
Voc sofreu muito, no?
        Mergulhei os olhos na escurido de meu passado, 
procura daquela dor, e murmurei:
- Sofri!
        Pouco a pouco recordei o violino de Guido e imaginei que
me teriam posto fora daquele salo se no me tivesse agarrado
a Augusta; lembrei da sala de visita em casa dos Malfendi,
onde em torno a uma mesinha Lus XIV um casal se acariciava
enquanto outro, na mesinha ao lado, o invejava.
Repentinamente recordei-me at de Carla, porque Ada estivera tambm
com ela. Ento senti viva a voz de Carla a dizer-me que eu
pertencia  minha mulher, ou seja, a Ada. Repeti, enquanto
as lgrimas me brotavam dos olhos:
        - Sofri muito! Muito!
        Ada a bem dizer soluava: - Lamento tanto, tanto!
        Fez um esforo e disse:
        - Mas agora voc ama Augusta!
        Um soluo interrompeu-a por um instante e estremeci sem
saber se ela parava para ouvir se eu iria afirmar ou negar

        318        319

aquele amor. Para minha felicidade, no me deu tempo de
falar, pois continuou:
        - Por isso  que entre ns existe e deve existir um
verdadeiro afeto fraternal. Preciso de voc. Para aquela criana
que l est, preciso agora ser como me, tenho o dever de
proteg-lo. Voc quer ajudar-me nessa tarefa difcil?
        Em sua grande emoo quase se apoiava em mim, como
no sonho. Mas eu me ative s suas palavras. Pedia-me um
afeto fraterno; o compromisso de amor que eu pensava me
ligasse a ela transformava-se assim em mais um direito seu;
no obstante, prometi-lhe sem hesitar que ajudaria Guido, que
ajudaria a ela, que faria tudo o que ela quisesse. Se
estivesse mais calmo, deveria ter mencionado a minha
incapacidade para a tarefa que ela me atribua, mas teria destrudo
toda a inesquecvel emoo daquele instante. Alm do mais,
estava to comovido que no podia sentir minha
incapacidade. Naquele momento pensava que na verdade no existia
incapacidade para ningum. At mesmo a de Guido podia ser
despachada com algumas palavras que lhe dessem o necessrio
entusiasmo.
        Ada acompanhou-me ao patamar e ali ficou, apoiada ao
corrimo, enquanto eu descia. Era assim que Carla sempre
fazia, mas o estranho  que o fizesse Ada, que amava Guido,
e eu lhe estava to grato que, antes de atingir o segundo
lance da escada, ergui ainda uma vez o rosto para v-la e
despedir-me. Assim se fazia no amor de amantes, embora
se pudesse fazer tambm (no estava vendo?) no amor fraternal.
        Sa contente da vida. Ada acompanhou-me at o patamar,
apenas at ali. J no pairavam dvidas. As coisas estavam
neste p: eu a amara e agora amava Augusta, mas meu antigo
amor dava-lhe direito  minha devoo. Ela continuava a amar
a sua "criana", embora me dispensando um grande afeto
fraternal, no s porque me casara com a irm, mas ainda
para indenizar-me dos sofrimentos que me causara e que constituam
um vnculo secreto entre ns. Tudo aquilo era de uma
grande doura, de um sabor raro em nossa vida. Tamanha
doura no me poderia proporcionar verdadeira sade? Na
verdade, eu naquele dia caminhava sem embarao e sem
dores, sentindo-me magnnimo e forte e trazendo no corao
um sentimento de segurana que era novo para mim. Esqueci-me
de que traira minha mulher da maneira mais vergonhosa
ou de que me propusera a no faz-lo mais - o que se
equivalia a sentir-me de fato, como Ada me via, o melhor homem
da famlia.
        Quando esse herosmo enfraqueceu, quis reaviv-lo; a essa
altura, porm, Ada partira para Bolonha e todos os meus
esforos no sentido de extrair um estmulo de tudo o que ela
me dissera tornavam-se vos. Sim! Faria o pouco que pudesse
por Guido, mas tal propsito no aumentava nem o ar em
meus pulmes nem o sangue em minhas veias. Em meu corao
sempre permaneceu uma grande doura para com Ada, que
se renovava cada vez que ela, em suas cartas a Augusta, se
recomendava a mim com alguma palavra afetuosa. Eu
correspondia cordialmente ao seu afeto e acompanhava seu
tratamento com votos de melhora. Oxal conseguisse recuperar
toda a sua sade e beleza!
        No dia seguinte, Guido chegou ao escritrio e ps-se
imediatamente a estudar os lanamentos que queria fazer. Props:
        - Agora estornamos metade da conta de 'lucros e perdas'
para a conta de Ada.
        Ento era isto o que ele queria fazer e que no adiantava
nada? Se eu permanecesse o executor indiferente de sua
vontade, como o fora at poucos dias antes, teria simplesmente
executado os lanamentos e no se pensaria mais nisto. Ao
contrrio, achei de meu dever dizer-lhe tudo; acreditava que
o estimularia ao trabalho, fazendo-o saber que no era assim
to fcil cancelar o prejuzo em que incorrera.
        Expliquei-lhe que, quanto me era dado saber, Ada
entregara o dinheiro para ser posto a crdito de sua conta e isto
no aconteceria se ns a saldssemos, debitando ao lado, na
outra coluna, metade das perdas de nosso balano. E mais,
que a parte da perda que ele queria transportar da conta
prpria pertencia a ele e at lhe pertencia toda, e que isto
no implicava sua anulao, e sim, ao contrrio, a prpria
constatao da mesma. Pensara tanto nestas coisas que me
era fcil explicar-lhe tudo; conclu:
        - Ainda que ocorra - livre-nos Deus! - o quadro
preVisto por Olivi, a perda apareceria claramente em nossos
livros, mal fossem examinados por um perito-contador.

320 321

        Olhava-me atnito. Sabia o bastante de contabilidade para
compreender, mas no conseguia faz-lo porque o anseio o
impedia de submeter-se  evidncia. Depois, acrescentei, para
faz-lo ver tudo claramente:
        - Est percebendo como no tinha sentido Ada fazer este
depsito?
        Quando por fim compreendeu, ficou terrivelmente plido
e comeou a roer nervosamente as unhas. Permaneceu
aturdido e quis dominar-se com aquela sua cmica atitude de
comando; determinou que os lanamentos fossem feitos
assim mesmo, acrescentando:
        - Para eximi-lo de qualquer responsabilidade estou disposto
a fazer eu prprio os lanamentos e apor minha assinatura!
        Compreendi! Queria continuar sonhando ali onde no
havia lugar para sonhos: nas partidas dobradas!
        Recordei o que prometera a mim mesmo na ladeira da
Via Belvedere, e mais tarde a Ada, na escura saleta de sua
casa; falei generosamente:
        - Farei imediatamente os lanamentos que voc deseja:
no sinto necessidade de ser protegido pela sua assinatura.
Estou aqui para ajud-lo e no para lhe opor obstculos!
        Apertou-me afetuosamente a mo:
        - A vida  difcil - disse - e para mim  um grande
conforto ter ao lado um amigo como voc.
        Comovidos olhamo-nos, nos olhos. Os seus brilhavam. Para
escapar  comoo que tambm me ameaava, disse-lhe rindo:
        - A vida no  difcil, mas muito original.
        Ele tambm riu satisfeito.
        Depois, ficou ao meu lado para ver como iria saldar aquela
conta de 'lucros e perdas'. Fi-lo em poucos minutos. A conta
morreu, mas levou a zero tambm a de Ada, cujo crdito
anotamos paralelamente num pequeno livro, para o caso de que
algum imprevisto pudesse destruir as outras provas e para
sabermos que lhe devamos pagar juros. A outra metade da
conta de 'lucros e perdas' serviu para aumentar o 'deve' j
considervel da conta de Guido.
        Por sua natureza, os contabilistas so um gnero de animaL
muito chegados  ironia. Fazendo aqueles lanamentos eu
pensava: "Uma conta - a intitulada de 'lucros e perdas' -
havia morrido assassinada, e a outra - a de Ada - morrera
de morte natural, porque no conseguamos mant-la viva;
j a de Guido, no sabamos como acabar com ela, e sendo
de um devedor duvidoso ser mantida assim era o mesmo
que preparar a cova para a nossa empresa."
        Por muito tempo continuamos a falar de contabilidade no
escritrio. Guido azafamava-se para encontrar outra forma
que pudesse proteg-lo melhor das eventuais ciladas (como
as chamava) da lei. Creio que chegou inclusive a consultar
algum contabilista porque um dia entrou no escritrio
propondo-me a destruio dos livros antigos para fazermos outros
novos, nos quais registraramos uma venda fictcia em nome
de uma pessoa qualquer, que figuraria depois como tendo
pago a mercadoria com a importncia que Ada cedera.
Dava-me pena ter que desiludi-lo, pois chegara ao escritrio a
correr, animado de grandes esperanas! Propunha-me uma
falsificao que de fato me repugnava. At ento s havamos
deslocado realidades que ameavam prejudicar aquela que
implicitamente nos dera o seu consentimento. Agora, ao
contrrio, ele queria inventar movimentos de mercadoria,
transaes comerciais. Eu bem que via que assim e s assim
poderamos apagar os traos do prejuzo sofrido, mas a que
preo! Era necessrio ainda inventar o nome do comprador
ou obter a permisso de quem quisssemos fazer figurar como
tal. Nada tinha em contrrio  destruio dos livros, que eu,
no entanto, escriturara com tamanho zelo; o que me aborrecia
era ter que faz-los de novo. Minhas objees acabaram
por convencer Guido. No se pode simular uma fatura
facilmente. Precisvamos saber falsificar tambm os documentos
comprobatrios da existncia e da propriedade da mercadoria.
        Ele renunciou ao plano; no dia seguinte, porm, surgiu no
escritrio com outro, que acarretava igualmente a destruio
dos livros. Cansado de ver nossas atividades embaraadas
por discusses semelhantes, protestei:
        -        Voc pensa tanto nisto que at parece querer de fato
provocar uma falncia! Por outro lado, que importncia pode
haver numa diminuio to insignificante do capital? At
agora ningum tem o direito de consultar os livros. O que pre-

322 323

cisamos  trabalhar, e trabalhar bastante, sem nos ocuparmos
com tolices.
        Confessou-me que aquele pensamento era a sua obsesso. E
como poderia ser de outra forma? Com um pouco de azar
poderia incorrer direitinho naquela sano penal e acabar na
cadeia!
        De acordo com meus conhecimentos jurdicos, sabia que
Olivi expusera com grande exatido o que competia fazer
a um comerciante com um balano igual ao nosso; contudo
para livrar Guido e tambm a mim daquela obsesso
aconselhei-o a consultar algum advogado amigo.
        Respondeu-me que j o fizera, ou seja, que no recorrera
a um advogado expressamente para aquele fim, pois no queria
confiar nem mesmo a um advogado o seu segredo, mas tocara
no assunto com um causdico amigo quando estavam ambos
 caa. Sabia, pois, que Olivi no se enganara nem estava
exagerando... Infelizmente!
        Percebendo a inutilidade, parou de fazer descobertas para
falsificar as contas; nem por isso, no entanto, readquiriu a
calma. Vez por outra vinha ao escritrio e se aterrorizava
consultando os livros. Confessou-se um dia que, entrando em
nosso gabinete, pareceu-lhe encontrar-se na antecmara da
priso e quis fugir.
        De certa feita perguntou:
        - Augusta sabe tudo sobre o nosso balano?
        Corei porque na pergunta pareceu-me sentir uma
reprovao. Evidentemente, porm, se Ada sabia do balano, Augusta
tambm podia saber. No pensei imediatamente assim; ao
contrrio, achei merecer a reprovao que ele pretendia
fazer-me. Murmurei:
        - Deve ter sabido atravs de Ada ou de Alberta, a quem
Ada certamente contou!
        Levei em conta todos os possveis canais que poderiam
conduzir a Augusta, e no me pareceu com isto negar que
ela tivesse sabido tudo de primeira fonte, ou seja, de mim, mas
antes afirmar que teria sido intil de minha parte silenciar
sobre o caso. Que pena! Se tivesse logo confessado que entre
Augusta e eu no havia segredos, ter-me-ia sentido mais leal
e honesto! Um leve incidente assim, ou seja, a dissimulao
de um ato que seria melhor confessar, proclamando sua
inocncia, basta para estremecer a mais sincera amizade.
        Registro aqui um fato, embora sem qualquer importncia
nem para Guido nem para a minha histria: o corretor
falastro, com quem lidamos para o sulfato de cobre, encontrou-me
na rua; olhando-me de cima a baixo, como lhe obrigava
sua pouca estatura, que ele sabia exagerar abaixando-se ainda
mais, falou ironicamente:
        - Comenta-se que vocs fizeram outros negcios to bons
quanto aquele do sulfato!
        Depois, vendo-me empalidecer, apertou-me a mo,
acrescentando:
        - De minha parte, desejo-lhes os melhores negcios. Espero
que no duvide de minhas palavras!
        E deixou-me. Suponho que as nossas transaes tivessem
chegado ao seu conhecimento por intermdio da filha, que
freqentava a mesma classe da menina Anna. No mencionei
a Guido essa pequena indiscrio. Meu objetivo principal era
defend-lo de angstias inteis.
        Surpreendeu-me que Guido no tomasse nenhuma atitude
em relao a Carmen, pois sabia que ele prometera
formalmente  mulher que a despediria. Imaginava que Ada estaria
de volta ao fim de alguns meses, como da vez anterior. Ela,
porm, sem passar por Trieste, foi veranear numa pequena
aldeia do Lago Maior, aonde pouco depois Guido levou as
Crianas.
        De volta da viagem, no sei se ao recordar-se
espontaneamente da promessa ou porque Ada lhe houvesse avivado a
memria, perguntou-me se no seria possvel arranjar uma
colocao para Carmen em meu escritrio, ou seja, no de
Olivi. Eu sabia que l todos os lugares estavam ocupados;
visto, porm, que Guido me pedia com insistncia, aquiesci
em falar com o meu administrador. Por feliz coincidncia,
um empregado de Olivi ia deixar o escritrio por aqueles
dias, s que com um salrio inferior ao atribudo a Carmen
nos ltimos meses graas  liberalidade de Guido, que, a meu
ver, estava pagando suas mulheres a dbito da conta de 'despesas
gerais'. O velho Olivi perguntou-me sobre a capacidade
de Carmen; conquanto eu lhe tivesse dado as melhores in-

324 325

formaes, disps-se a s admiti-la dentro das condies do
empregado que saa. Transmiti a informao a Guido que
aflito e embaraado coava a cabea.
        - Como  possvel oferecermos a ela um salrio inferior
ao que percebe? No seria possvel convencer Olivi a chegar
pelo menos ao que ela j recebe?
        Eu sabia que no era possvel, at porque Olivi no
costumava considerar-se comprometido com seus empregados como
fazamos ns. Quando percebesse que Carmen merecia uma
coroa menos que o salrio acordado, ele a rebaixaria sem
misericrdia. E a coisa acabou assim: Olivi no teve nem nunca
pediu sequer uma resposta definitiva e Carmen continuou a
revirar seus belos olhos em nosso escritrio mesmo.
        Entre Ada e eu havia um segredo, e era importante
exatamente porque permanecia segredo. Ela escrevia assiduamente
a Augusta, mas nunca lhe contou que tivera uma conversa
particular comigo ou que pusera Guido aos meus cuidados.
Eu tambm nada lhe disse. Um dia, Augusta mostrou-me uma
carta de Ada que me dizia respeito. De incio, pedia notcias
minhas e acabava por apelar  minha gentileza no sentido
de lhe transmitir algo sobre o andamento dos negcios de
Guido. Perturbei-me ao sentir que se dirigia a mim, mas esfriei
ao perceber que, como de costume, se dirigia mais uma vez
a mim para saber do marido. No havia, portanto, motivos
de esperana.
        Com o conhecimento de Augusta, mas sem mencion-la a
Guido, escrevi uma carta a Ada. Sentei-me  escrivaninha com
o        verdadeiro propsito de elaborar uma resposta comercial
e comuniquei-lhe estar agora contente com a maneira pela
qual Guido dirigia os negcios, ou seja, com assiduidade e
prudncia.
        O que era verdade; pelo menos, eu estava contente com sua
atuao naquele dia em que nos fizera ganhar algum dinheiro,
vendendo mercadorias estocadas h vrios meses. Verdade
tambm era que parecia mais assduo, conquanto fosse todas
as semanas  caa ou  pesca. Eu exagerava de propsito os
meus elogios, j que assim me parecia contribuir para a cura
de Ada.
        Reli a carta e no me bastou. Faltava qualquer coisa nela.
Ada se dirigia a mim e decerto queria tambm notcias
minhas. Seria falta de delicadeza se no lhas desse. E pouco a
pouco - recordo-me como se tivesse acontecido agora -
fui-me sentindo embaraado naquela mesa, como se me
encontrasse novamente face a face com Ada na saleta escura.
Devia apertar com fora a mozinha que me fora estendida?
        Escrevi algo; depois, tive que refazer a carta, pois deixara
escapar algumas palavras bastante comprometedoras: ansiava
por voltar a v-la e desejava que recuperasse inteiramente a
sade e toda a sua beleza. Isto significava prender para sempre
a mulher que apenas me estendera a mo. Meu dever era
apertar simplesmente a pequenina mo, apert-la suave e
demoradamente, para expressar que eu desejava tudo, tudo
quanto no se devia jamais dizer.
        No repetirei todas as frases que passei em revista para
encontrar algo que pudesse substituir aquele longo, doce e
significativo aperto de mo; apenas aquelas que depois
escrevi. Falei longamente da velhice iminente. No podia ficar
um momento tranqilo sem sentir a velhice. A cada circulao
de meu sangue alguma coisa se agregava a meus ossos e s
minhas veias que significava envelhecer. Cada manh, ao
despertar, o mundo era mais cinza e eu no me dava conta
disto, porque tudo mantinha o mesmo tom; nela no havia
nenhuma pincelada do dia anterior, pois, se o notasse, a
recordao me faria desesperar.
        Recordo-me perfeitamente de haver expedido a carta com
plena satisfao. No estava de fato comprometido com
aquelas palavras; contudo, parecia-me igualmente certo que, se o
pensamento de Ada fosse igual ao meu, ela haveria de
compreender aquele amoroso aperto de mo. No era preciso
muita perspiccia para adivinhar que a longa dissertao sobre
a velhice significava apenas o meu temor de que no pudesse,
na minha corrida pelo tempo, ser alcanado pelo amor.
Parecia gritar ao amor: "Venha, venha!" Contudo, no estou
seguro de ter realmente querido esse amor e, se h uma
dvida, essa resulta apenas do fato de eu haver escrito algo assim.
        Para Augusta fiz uma cpia da carta, omitindo a perorao
sobre a velhice. Ela no compreenderia; contudo, prudncia
nunca  demais. Eu poderia ter corado, sentindo que ela me
Via apertar a mo da irm! Sim! Agora eu sabia corar. E corei

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mesmo, quando recebi um bilhete de agradecimento de Ada
no qual ela no mencionava minha dissertao sobre a
velhice. Parecia-me que ela se comprometia muito mais comigo do
que eu com ela. No retirava a mozinha ao meu aperto.
Deixava-a jazer inerte na minha e, para a mulher, a inrcia
 uma forma de consentimento.
        Poucos dias depois de escrita a carta, soube que Guido
estava jogando na Bolsa. Soube-o por uma indiscrio do
corretor Nilini.
        Eu o conhecia h longos anos porque havamos sido
colegas no curso secundrio, que ele no terminou ao se ver
forado a logo trabalhar no escritrio de um tio. Depois,
voltamos a encontrar-nos algumas vezes, e recordo que a diferena
de nossos destinos criara uma superioridade minha em relao
a ele. Cumprimentava-me sempre primeiro e fazia de vez em
quando tentativas de se aproximar. Isso me parecia natural,
da ter achado menos explicvel, numa certa altura que no
posso precisar, viesse ele a mostrar-se bastante altivo em
relao a mim. J no me cumprimentava e mal-mal respondia aos
meus cumprimentos. Fiquei um pouco preocupado, pois sou
muito sensvel e irrito-me com qualquer coisa. Mas que fazer?
Talvez me tivesse descoberto no escritrio de Guido e, ao
achar que eu ali desempenhava um papel subalterno, passasse
a me desprezar, ou quem sabe, com a mesma possibilidade, eu
podia supor que, com a morte do tio, ao se tornar ele corretor
independente da Bolsa, ficasse agora orgulhoso. Nos
ambientes provincianos h sempre reaes desta natureza. Sem
qualquer ato de animosidade, um belo dia algum olha para outrem
com averso e desprezo.
        Foi por isso que me surpreendi ao v-lo entrar no
escritrio, onde me encontrou s, e perguntar por Guido. Tirara o
chapu e me apertara a mo. Logo depois, com absoluta
semcerimnia, escarrapachou-se numa de nossas poltronas.
Observei-o com curiosidade. H quantos anos no o via de to perto,
e a averso que agora me inspirava granjeou-lhe a minha mais
forte ateno.
        Devia contar quarenta anos e sua feira era ressaltada por
uma calvcie quase total, que se interrompia em osis de
cabelos negros e grossos na nuca e nas tmporas; a face era
amarelada e pelancuda, apesar do imenso nariz. Pequeno e
magro, esticava-se de tal forma para falar comigo que acabei
por sentir uma leve dor simptica no pescoo, alis nica
simpatia que experimentei por ele. Na ocasio parecia
esforar-se por no rir e era como se o rosto estivesse contrado por
um desprezo ou uma ironia no destinados a ferir-me, de
vez que me cumprimentara com tanta gentileza. Descobri depois
que a ironia lhe fora estampada no rosto pela bizarria da
natureza. Seus curtos maxilares no combinavam exatamente entre
si e, numa parte da boca, ficara para sempre um desvo onde
habitava, estereotipada, a sua ironia. Talvez fosse para se
conformar com essa mscara - da qual no podia fugir seno
quando bocejava - que ele mostrava tanto gosto em zombar
do prximo. No sendo nada tolo, lanava suas flechadas
venenosas, de preferncia contra os ausentes.
        Tagarelava bastante e fantasiava ainda mais, especialmente
sobre os negcios da Bolsa. Falava dela como se se tratasse de
pessoa viva, que ele descrevia trepidante sob alguma ameaa,
entorpecida na inrcia ou dotada de um rosto que sabia rir
e tambm chorar. Ele a imaginava subindo as escadas dos
cmbios a bailar ou descendo por ela com o risco de
precipitar-se; depois, admirava a acariciar um valor ou a estrangular
outro, ou mesmo a ensinar moderao e atividade. S as
pessoas de senso podiam tratar com ela. Havia muito dinheiro
espalhado pelo cho da Bolsa, mas no era fcil abaixar-se e
apanh-lo.
        Ofereci-lhe um cigarro e deixei-o  espera de Guido,
enquanto me ocupava da correspondncia. Algum tempo depois,
cansou-se e disse que no podia esperar mais. Alm disso, viera
s para dizer a Guido que certas aes com o estranho nome
de Rio Tinto, as quais na vspera aconselhara Guido a
adquirir - sim, isto mesmo, h vinte e quatro horas apenas -
haviam subido naquele dia de cerca de dez por cento. Ps-se
a rir satisfeito.
        - Enquanto falamos aqui, ou seja, enquanto espero, os
especuladores esto agindo. Se o Sr. Speier quisesse comprar
agora tais aes, quem sabe a que preo teria que pag-las.
Eu, porm, adivinhei logo qual era a tendncia da Bolsa.
        Gabou-se de sua viso, devido  longa intimidade com a
Bolsa. Interrompeu-se para perguntar:

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        - Quem acha que instrui melhor: a Universidade ou a
Bolsa?
        Sua mandbula caiu um pouco mais ainda, ampliando o
orifcio da ironia.
        -        A Bolsa evidentemente! - disse-lhe com convico. Isto
valeu-me dele um aperto de mo afetuoso quando se foi.
        Ento Guido jogava na Bolsa! Se eu tivesse observado
melhor, teria adivinhado antes, pois, quando lhe apresentei a cifra
exata dos importes bem significativos que havamos ganho com
nossas ltimas operaes, ele a olhou sorrindo, s que com
um certo desprezo. Achava que trabalhramos demais para
ganhar aquele dinheiro. E note-se que, com algumas dezenas
de operaes iguais, teramos podido cobrir o prejuzo em que
incorrramos no ano anterior! Que devia fazer agora, eu
que dias antes escrevera loas  sua atuao?
        Em seguida, Guido chegou ao escritrio; transmiti-lhe
fielmente as palavras de Nilini. Ouviu-me com tal ansiedade que
nem se importou com o fato de eu saber que ele jogava, e
saiu a correr.
         noite falei sobre o caso com Augusta, que achou melhor
deixarmos a pobre Ada em paz e, em vez disso, avisarmos
a minha sogra sobre os perigos a que Guido se expunha. Pediu-me
tambm que fizesse tudo para impedi-lo de cometer
desatinos.
        Preparei longamente as palavras que devia dizer. Finalmente
realizava mes propsitos de bondade ativa e mantinha a
promessa feita a Ada. Sabia como tratar Guido para induzi-lo
a me obedecer. Jogar na Bolsa  sempre uma leviandade -
haveria de explicar-lhe -, principalmente se quem joga  um
negociante que apresentou um balano como o nosso.
        No dia seguinte comecei muito bem:
        -        Ento voc anda jogando na Bolsa? Est querendo
acabar na cadeia? - perguntei-lhe duramente. Estava
preparado para uma cena e guardava de reserva a declarao de que
abandonaria a firma, j que ele procedia de modo a
compromet-la.
        Guido soube desarmar-me. Mantivera tudo em segredo at
ento, mas agora, com franqueza de amigo, revelava todos os
detalhes do negcio. Trabalhava com aes de companhias
mineradoras de no sei que pas, que j lhe tinham
proporcionado lucro quase suficiente para cobrir o prejuzo do nosso
balano. Como os riscos haviam cessado, podia contar tudo.
Se tivesse o azar de perder o que ganhara, simplesmente
pararia de jogar. Mas se, em vez disso, a sorte continuasse a
acompanh-lo, trataria imediatamente de acertar.
        Vi que no era o caso de me enfurecer e que, pelo
contrrio, devia congratular-me com ele. Quanto  escrita, disse que
agora podia estar tranqilo, pois com dinheiro no bolso era
sempre fcil dar um jeito  contabilidade mais fastidiosa.
Quando em nossos livros a conta de Ada fosse reintegrada como
de direito e quando diminusse um pouco aquilo que eu
chamava de 'abismo' de nossa empresa, ou seja, a conta de Guido,
nossa contabilidade ficaria impecvel.
        Propus-lhe fazermos a regularizao imediatamente,
lanando na conta da firma as tais operaes da Bolsa. Por sorte ele
no aceitou, pois, do contrrio, eu estaria transformado no
guarda-livros de um jogador, assumindo responsabilidade ainda
maior, ao passo que assim as coisas ocorreram como se eu no
existisse. Ele refutou minha proposta com razes que me
pareceram boas. Era de mau agouro pagar assim de sbito as
dvidas e havia uma superstio divulgadssima em todas as
mesas de jogo, segundo a qual o dinheiro alheio nos d sorte.
No creio nisso, mas, quando jogo, no desprezo nenhuma
precauo.
        Durante algum tempo reprovei-me por ter acolhido tais
explicaes sem protestar. Quando, porm, vi que a Sra.
Malfenti se comportava da mesma maneira ao contar-me como
o marido soubera ganhar bom dinheiro na Bolsa, e que
tambm Ada considerava esse jogo como uma espcie qualquer
de comrcio, compreendi que ningum poderia levantar contra
mim qualquer reprovao por ter agido como agi. Para deter
Guido  beira do abismo meus protestos s teriam efeito se
apoiados por todos os membros da famlia.
        Foi assim que continuou a jogar, e toda a famlia com ele.
At eu participava da comitiva, tanto que entrei em relaes
de amizade um tanto curiosas com Nilini.  certo que no
podia suport-lo, pois achava-o ignorante e presunoso;
parece, contudo, que por causa de Guido, que dele esperava bons

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palpites, consegui disfarar to bem meus sentimentos que
ele acabou imaginando ter em mim um amigo devotado. No
nego que talvez a minha gentileza para com ele fosse devida
tambm ao desejo de coibir aquele mal-estar que a sua
inimizade havia produzido, e que a ironia estampada em sua face
horrenda tornava ainda mais forte. Mas no lhe dispensei mais
gentilezas do que estender-lhe a mo para cumpriment-lo 
chegada e  sada. Ele, ao contrrio, mostrava-se gentilssimo,
e no pude aceitar suas cortesias seno com gratido, que 
de fato gentileza que podemos dispensar neste mundo.
Conseguia-me cigarros de contrabando e me cobrava por eles
apenas o preo de custo, ou seja, muito pouco. Se me fosse
mais simptico, poderia induzir-me a jogar na Bolsa por seu
intermdio; nunca o fiz s para no ter que v-lo com
freqncia.
        No entanto, tive que v-lo assim mesmo! J o via demais!
Passava horas em nosso escritrio, apesar de no
estar - como era fcil perceber - apaixonado por Carmen. Era a
mim que vinha procurar. Parece que estava resolvido a
introduzir-me na poltica, de que era profundo conhecedor em
funo da Bolsa. Mostrava-me como as grandes potncias um dia
se davam as mos e no seguinte trocavam bofetadas. No sei
se chegou a prever o futuro, porque eu nunca o ouvia de fato.
Eu mantinha um sorriso idiota, estereotipado. Nosso
mal-entendido decerto teria sido gerado de uma interpretao errnea
de meu sorriso, que lhe parecia de admirao. No me cabe
a culpa.
        Sei apenas o que me repetia todos os dias. Lembro que era
um italiano no muito convicto, pois achava melhor que
Trieste permanecesse austraca. Adorava a Alemanha,
especialmente os trens alemes, que sempre chegavam com
absoluta pontualidade. Era socialista  sua maneira, e considerava
que devia ser proibido uma nica pessoa possuir mais de cem
mil coroas. No ri no dia em que, conversando com Guido,
admitiu possuir exatamente cem mil coroas, nenhum centavo
mais. No ri nem lhe perguntei se, caso ganhasse mais
dinheiro, no mudaria de opinio. Nosso relacionamento era de
fato estranho. Eu no sabia rir nem dele nem com ele.
        Quando destrinava uma de suas sentenas, erguia-se tanto
na poltrona que seus olhos fitavam o teto, voltando para mim
apenas aquele orifcio que eu designara por mandibular.
Parecia ver com aquele furo! Eu s vezes queria aproveitar-me
da sua posio para pensar em outras coisas, mas ele
reclamava minha ateno, perguntando de chofre:
        -        Est ouvindo?
        Aps aquela simptica efuso, Guido por muito tempo no
me voltou a falar de seus negcios. A princpio, Nilini deixava
escapar algo sobre eles, mas depois se tornou tambm
reservado. Soube pela prpria Ada que Guido continuava a ganhar.
        Quando regressou, achei-a desfigurada como da outra vez.
Estava flcida em vez de gorda. Seus pmulos, desenvolvidos,
pareciam ainda fora do lugar e davam-lhe ao rosto uma
expresso quase quadrada. Os olhos continuavam disformes nas
rbitas. Minha surpresa foi grande, porque ouvira de Guido
e de outros que tinham ido visit-la que ela estava cada vez
mais forte e saudvel. Mas a sade de uma mulher  antes
de tudo a sua beleza.
        Com Ada passei ainda por outras surpresas.
Cumprimentou-me afetuosamente, mas no de forma diversa com que
cumprimentara a irm. Era como se entre ns no houvesse
qualquer segredo e certamente ela no se recordava mais
de que chorara ao recordar o quanto me fizera sofrer. Tanto
melhor! Ela esquecia afinal os direitos que tinha sobre mim!
Era para ela o bom cunhado a quem amava apenas por
encontrar inalterado o meu afetuoso relacionamento com Augusta,
motivo de orgulho e admirao para toda a famlia Malfenti.
        Um dia, fiz uma descoberta que me surpreendeu. Ela se
considerava ainda bela! Em seu retiro,  beira do lago,
andaram fazendo-lhe a corte, e era evidente que ela se rejubilava
com seu xito. Provavelmente exagerava um pouco, pois me
parecia um excesso pretender que fora forada a deixar o
retiro para fugir s perseguies de algum enamorado.
Admito que alguma coisa realmente se passasse, pois que havia
de parecer menos feia a quem no a tivesse conhecido antes.
Mas da ao que dizia, com aqueles olhos, aquelas cores e o
rosto deformado! A ns parecia pior, porque, lembrando-nos

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de como fora no passado, discernamos as evidentes
devastaes que a doena empreendia.
        Uma noite, convidamos a ela e Guido  nossa casa. Foi
um reencontro agradvel, verdadeiramente em famlia.
Parecia a continuao do nosso noivado a quatro. S que a
cabeleira de Ada no refletia nenhuma luz.
        No momento de nos separarmos, eu, enquanto a ajudava
a vestir o casaco, fiquei por um instante a ss com ela. Tive
de sbito uma sensao um pouco diferente das nossas
relaes. Estvamos ss e talvez pudssemos falar algo que em
presena dos outros no queramos. Enquanto a ajudava, refleti
e acabei por encontrar o que devia dizer:
        -        Voc sabe que ele anda jogando! - disse-lhe com voz
sria. Vez por outra me vem a dvida de que com tais
palavras eu pretendesse reevocar nosso ltimo encontro por no
admiti-lo completamente esquecido.
        -        Sei - disse ela sorrindo - e acho que est certo. Ele
est indo muito bem, pelo que me disseram.
        Ri com ela, alto. Sentia-me aliviado de qualquer
responsabilidade. E j saindo ela sussurrou:
        -        A tal Carmen continua no escritrio?
        No cheguei a responder porque saiu antes. Entre ns j
no havia o passado. Havia o cime. Que estava vivo como
em nosso ltimo encontro.
        Agora, pensando a frio, acho que devo ter percebido, muito
antes de me advertirem expressamente, que Guido estava
comeando a perder na Bolsa. Desaparecera de seu rosto aquele
ar de triunfo que o iluminava e voltou a se preocupar com o
balano.
        -        Por que est preocupado com isto - perguntei-lhe na
minha inocncia - se voc tem no bolso o necessrio para
realizar aqueles lanamentos? Com tanto dinheiro ningum
vai parar na cadeia. - Mas j ento, como soube depois,
no tinha mais nada no bolso.
        Acreditei to firmemente que a sorte estava de seu lado
que no levei em conta tantos indcios capazes de me
convencerem do contrrio.
        Uma noite, em agosto, arrastou-me de novo  pesca.  luz
deslumbrante de uma lua quase cheia, poucas eram as
possibilidades de pegarmos qualquer peixe. Ele insistiu, dizendo que
encontraramos no mar uma fuga ao calor. Na verdade, foi s
o que aconteceu. Aps uma nica tentativa, no voltamos a
iscar os anzis e deixamos as linhas penderem,  borda do
barco que Luciano conduzia para o largo. Os raios da lua
atingiam at o fundo do mar, facilitando a viso dos peixes
maiores e tornando-os previdentes quanto ao nosso engodo, e
mesmo a dos animlculos, que eram capazes de roer levemente
a isca sem chegar a pequenina boca ao anzol. As nossas iscas
no passavam, pois, de uma concesso  miualha.
        Guido acomodou-se  popa e eu  proa. Pouco depois
murmurou:
        -        Que tristeza toda esta luz.
        Provavelmente falava assim porque a luz o impedia de
dormir; concordei para lhe ser agradvel e tambm para no
perturbar com uma tola discusso a solene quietude em que
lentamente nos movamos. Mas Luciano protestou, dizendo
que a luz lhe agradava muito. Como Guido no respondesse,
quis eu faz-lo calar-se, dizendo que a luz era certamente uma
coisa triste porque nos deixava ver as coisas deste mundo. Alm
de impedir a pesca. Luciano riu e calou-se.
        Ficamos mudos por muito tempo. Bocejei vrias vezes na
cara da lua. Lamentava ter-me deixado levar a subir naquele
barco.
        Guido de repente perguntou:
        -        Voc que  qumico  capaz de me dizer o que  mais
eficaz, se o veronal puro ou o veronal com sdio?
        Eu, na verdade, no sabia nem mesmo da existncia de um
veronal com sdio. No se pode de maneira alguma pretender
que um qumico saiba tudo de cor. Eu de qumica sei o bastante
para encontrar em meus livros as informaes que quero,
alm de poder discutir - como era o caso - sobre
assuntos que ignoro.
        Com sdio? Mas se todos sabiam que as combinaes com
o        sdio eram as que mais facilmente se eliminavam. Ainda a
propsito do sdio recordei - e reproduzi mais ou menos
exatamente - um hino quele elemento, composto por um
de meus professores na nica de sua prelees a que assisti.
O        sdio era um veculo que permitia aos elementos uma movi-

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mentao mais rpida. O professor recordara como o cloreto
de sdio passava de um organismo a outro e como mergulhava
apenas por efeito da gravidade no abismo mais profundo da
Terra, o mar. No sei se reproduzi exatamente o pensamento
do meu professor; naquele momento, porm, diante da
enorme extenso de cloreto de sdio, falei deste com respeito
infinito.
        Aps certa hesitao, Guido voltou a perguntar:
        - Logo, se um pessoa quer morrer, deve tomar veronal
com sdio?
        - Exatamente - respondi.
        Depois, recordando casos em que se pode querer simular
um suicdio e no me lembrando de que recordava a Guido um
episdio desagradvel de sua vida, acrescentei:
        - E quem no quer morrer deve tomar o veronal puro.
        Os estudos de Guido sobre o veronal poderiam dar-me o
que pensar. Em vez disso, no atentei para o fato,
preocupado que estava com o sdio. Nos dias seguintes, achava-me em
condies de trazer a Guido novas provas das qualidades que
eu atribura ao sdio: at para acelerar os amlgamas - que
no so mais que intensos abraos entre dois corpos, abraos
que substituem as combinaes ou as assimilaes - usava-se
juntar sdio ao mercrio. O sdio era o intermedirio entre o
ouro e o mercrio. Mas Guido j no se mostrava interessado
no veronal, e agora acho que naquele momento a sua posio
na Bolsa teria melhorado.
        No curso de uma nica semana, Ada veio bem umas trs
vezes ao escritrio. S na segunda vez  que me ocorreu a
idia de que queria falar comigo.
        Na primeira vez, topou com Nilini que se entregava uma
vez mais  minha edificao. Esperou por toda uma hora que
ele se fosse, mas caiu na tolice de lhe dar ateno; com isto
Nilini achou que devia ficar. Aps as apresentaes, respirei
aliviado, ao sentir que o orifcio mandibular de Nilini no
mais estava voltado para mim. Excusei-me de participar da
conversa.
        Nilini mostrou-se inclusive espirituoso e surpreendeu Ada
contando-lhe que na Bolsa havia tanto mexerico quanto num
salo de senhoras. S que, segundo ele, no Tergesteo, como
sempre, estavam mais bem-informados. Ada achou que ele
caluniava as mulheres. Disse no saber sequer o que fosse
maledicncia. Neste ponto intervi para confirmar que, durante todos
os longos anos em que a conhecia, jamais ouvi de seus lbios
uma palavra que pudesse, mesmo de leve, soar maledicente.
Sorri ao falar assim; pareceu-me dirigir-lhe uma reprovao.
Ela no era maledicente porque no se preocupava com os
assuntos alheios. A princpio, em plena sade, pensara em
seus prprios assuntos; quando a doena a atingiu, s lhe
restou um pequenino espao livre, imediatamente ocupado
pelos cimes. Tratava-se de uma verdadeira egosta; ela,
porm, acolheu meu testemunho com gratido.
        Nilini fingiu no dar crdito nem a ela nem a mim. Disse
que me conhecia h muitos anos e que me achava dotado de
grande ingenuidade. Isto me divertiu e tambm a Ada. Fiquei,
contudo, perturbado quando ele - pela primeira vez diante
de terceiros - proclamou que era um de meus melhores
amigos e, portanto, conhecia-me a fundo. No ousei protestar, mas
me senti ofendido em meu pudor com essa declarao to
desarrazoada, como uma donzela a quem em pblico se
reprova por haver fornicado.
        Eu era to ingnuo, dizia Nilini, que Ada, com a
costumeira perspiccia das mulheres, podia tecer maledicncias na
minha frente sem que me apercebesse. Pareceu-me que Ada
continuava a se divertir com tais elogios de carter dbio,
embora tenha sabido depois que ela o deixava falar  espera
de que, esgotado o assunto, ele se fosse. Mas teve que esperar
muito.
        Quando Ada voltou pela segunda vez, encontrou-me com
Guido. Li ento em seu rosto uma expresso de impacincia
e adivinhei que queria falar era mesmo comigo. Enquanto no
voltou uma terceira vez, fiquei a me entreter com meus sonhos
de costume. No fundo ela no queria o meu amor; gostava,
porm, cada vez mais de estar a ss comigo. Para os homens
 difcil entender o que as mulheres desejam, at porque elas
prprias no raro o ignoram.
        Suas palavras, contudo, no despertaram qualquer novo
sentimento em mim. Ela, mal pde falar-me, f-lo com voz
embargada pela emoo, e no pelo fato de me dirigir a
palavra. Queria era saber por que Carmen ainda no fora mandada

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embora. Contei-lhe tudo quanto sabia a respeito, inclusive
nossa tentativa de arranjar um lugar para ela junto de Olivi.
        Mostrou-se de sbito mais calma, porque o que eu lhe
dissera correspondia exatamente ao que ouvira de Guido. Depois,
soube que suas crises de cime se tinham tornado peridicas.
Surgiam sem causa determinada e desapareciam ante uma
palavra convincente.
        Fez-me duas perguntas mais: se era de fato difcil
encontrar um emprego para Carmen e se a famlia dela se
encontrava em tais condies que dependia exclusivamente do
salrio da moa.
        Expliquei-lhe que era realmente difcil em Trieste encontrar
escritrios com vaga para moas. Quanto  segunda pergunta,
no podia responder, de vez que no conhecia ningum da
famlia de Carmen.
        - Mas Guido conhece todos naquela casa - murmurou
Ada furiosa, e as lgrimas novamente irrigaram-lhe o rosto,
        Depois, estendeu-me a mo para se despedir e agradeceu.
Sorrindo atravs das lgrimas, disse que sabia poder contar
comigo. O sorriso agradou-me porque certamente no era
dirigido ao cunhado, mas a algum ligado a ela por vnculos
secretos. Tentei provar que merecia o sorriso; murmurei:
        - O que temo por Guido no  Carmen, mas o jogo na
Bolsa!
        Ela ergueu os ombros:
        - No tem importncia. J falei com mame. Papai
tambm jogava na Bolsa e ganhou muito dinheiro!
        Fiquei desconcertado com a resposta. Insisti:
        - Esse Nilini no me agrada. No  verdade que eu seja
seu amigo!
        Olhou-me surpresa:
        - Pois eu o acho um cavalheiro. Guido tambm gosta
muito dele. Em todo caso, creio que Guido est atento aos
seus negcios.
        Eu estava totalmente decidido a no falar mal de Guido e
me calei. Quando fiquei s, no pensei nele, mas em mim
mesmo. Talvez fosse bom que Ada finalmente me surgisse
como irm e nada mais. Ela no prometia nem ameaava
amor. Por vrios dias corri a cidade, inquieto e
desequilibrado. No chegava a me compreender. Por que me sentia como
se Carla me tivesse abandonado naquele instante? No me
acontecera nada de novo. Sinceramente creio que sempre tive
necessidade de aventuras ou de complicaes semelhantes.
Minhas relaes com Ada j no eram intrincadas como
antigamente.
        Nilini, um dia, de sua poltrona predicou mais que de
costume: uma nuvem negra apontava no horizonte, nada menos
que o alto preo do dinheiro. A Bolsa j estava alm de
saturada, e no podia absorver mais nada!
        - Tratemo-la com sdio! - propus.
        A interrupo no lhe agradou de modo algum, mas, para
no se aborrecer, passou ao largo: de um momento para outro
o dinheiro escasseara e, portanto, encarecera. Estava surpreso
de que isto j ocorresse, quando s o previra para dali a um
ms.
        - Tero mandado todo o dinheiro para a lua! - disse eu.
        - Estou falando srio e no h razo para rir - afirmou
Nilini, olhando sempre para o teto. - Agora veremos os
que tm fibra de lutador e os que perecero ao primeiro golpe.
        Porque no compreendesse como o dinheiro neste mundo
podia tornar-se escasso, tambm no adivinhei que Nilini
punha Guido entre os lutadores cuja coragem estaria  prova.
Estava to habituado a me defender de suas prdicas com a
desateno que tambm esta, embora a ouvisse, passou sem
me causar arrepio.
        No entanto, poucos dias depois, Nilini entoou uma msica
completamente diferente. Ocorrera um fato novo. Descobrira
que Guido fizera transaes com outro corretor. Comeou a
protestar num tom agressivo, dizendo que nunca falseara em
relao a Guido, nem faltara jamais com a devida discrio.
Disso queria o meu testemunho. No havia mantido em sigilo
os negcios de Guido at mesmo de mim, que ele continuava
a considerar como seu melhor amigo? Agora, sentia-se
desobrigado de qualquer reserva e podia gritar-me no ouvido que
meu cunhado estava envolvido at a ponta dos cabelos. Quanto
aos negcios que fizera por seu intermdio, podia garantir que
com a mais leve melhoria era possvel resistir,  espera de

        338        339

tempos mais propcios. Era, contudo, inconcebvel que na
primeira adversidade Guido lhe faltasse com a confiana.
        O cime indomvel de Nilini era superior ao de Ada!
Queria saber informaes por seu intermdio; ele, em vez disso,
se exasperava cada vez mais e continuava a falar da sujeira que
Guido lhe fizera. Ainda assim, em oposio aos seus
propsitos, continuava a se manter discreto.
        De tarde, encontrei Guido no escritrio. Estava estendido
no sof, num curioso estado intermdio entre o desespero e
o sono. Perguntei:
        -  verdade que voc est  beira da runa?
        No me respondeu de pronto. Levantou o brao com o
qual cobria o rosto acabado e disse:
        - Voc j viu algum mais desgraado do que eu?
        Voltou a baixar o brao e mudou de posio, deitando-se
de costas. Fechou de novo os olhos e pareceu ter-se esquecido
de minha presena.
        No consegui dar-lhe nenhum conforto. Na verdade,
ofendia-me v-lo considerar-se o homem mais infeliz do mundo.
No era um exagero de sua parte; era uma deslavada mentira.
Eu o teria socorrido se pudesse, mas era-me impossvel
confort-lo. A meu ver nem mesmo os mais inocentes e mais
desgraados que Guido merecem compaixo, pois de outra forma
no haveria lugar em nossa vida seno para tal sentimento, o
que seria bastante tedioso. A lei natural no d direito 
felicidade; ao contrrio, prescreve a misria e o sofrimento.
Sempre que o alimento  exposto, acorrem parasitas de todas as
partes e, se no so em nmero suficiente, logo outros se
apressam em nascer. Com pouco a presa mal  suficiente para
eles, e logo em seguida j no lhes basta, pois a natureza no
faz clculos; procede por experincias. Quando o alimento
comea a rarear, eis que os consumidores devem diminuir
atravs da morte precedida de dor;  assim que o equilbrio,
por um instante, se restabelece. Para que lamentar-se? No
entanto, todos se lamentam. Os que nada tiveram da presa
morrem gritando contra a injustia, e os que tiveram parte
dela acham que deviam ter direito a muito mais. Por que no
morrem e no vivem em silncio? Por outro lado,  simptica
a alegria de quem soube conquistar uma parte exuberante do
festim e se manifesta em pleno sol entre os aplausos. O nico
grito admissvel  o de quem triunfa.
        Mas Guido! Faltavam-lhe todas as qualidades para
conquistar ou simplesmente para manter a riqueza. Vinha do jogo
na Bolsa e se lamentava por ter perdido. No se comportava
mesmo como um cavalheiro; causava-me nusea. Por isso, e
s por isso, no momento em que teve tanta necessidade do
meu afeto, no o encontrou. Nem mesmo meus constantes
propsitos puderam conduzir-me a isto.
        No entanto, a respirao de Guido comeava a se tornar
cada vez mais regular e rumorosa. Adormecera! Como era
pouco viril na desventura! Haviam-lhe tirado o alimento e ele
fechava os olhos talvez para sonhar que ainda o possuia, em
vez de abri-los bem para ver se conseguia arrebatar uma
poro que fosse.
        Veio-me a curiosidade de saber se Ada fora informada da
desgraa cada sobre ele. Perguntei-lhe em voz alta, Sobressaltou-se
e teve necessidade de uma pausa para se habituar 
desgraa, que de repente lhe aparecia por inteira.
-        No! - murmurou. Depois, voltou a fechar os olhos.
         sabido que todo aquele que se sente atingido duramente
recorre ao sono para retemperar suas foras. Fiquei ainda a
olh-lo, hesitante. Como poderia ajud-lo se dormia? No era
o        momento de dormir. Agarrei-o rudemente por um ombro e
o        sacudi:
-        Guido!
        Havia realmente dormido. Olhou-me incerto, com olhos
ainda velados pelo sono; depois perguntou:
        - Que quer voc? - Em seguida, irritado, repetiu a pergunta:
- Diga o que quer?
        Queria ajud-lo, pois, do contrrio, no teria sequer o direito
de despert-lo. Irritei-me tambm e gritei-lhe que no era o
momento de dormir, pois devia apressar-se para ver como
seria possvel reparar a situao. Precisava avaliar tudo e
discutir o assunto com todos da famlia, inclusive com os de
Buenos Aires.
        Guido voltou a sentar-se. Estava ainda um pouco aturdido
por ser despertado daquela forma. Disse com amargura:

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        - Era melhor que me tivesse deixado dormir. Quem voc
acha que pode ajudar-me agora? No se lembra dos esforos
que tive de fazer da outra vez a fim de conseguir o pouco que
era preciso para me salvar? Agora, trata-se de somas
considerveis! Para quem quer que eu apele?
        Sem nenhum afeto e at com raiva por ter de me sacrificar
e aos meus por sua causa, exclamei:
        - Mas no estou aqui? - A avareza, porm, em seguida
me compeliu a atenuar meu sacrifcio:
        - E no tem Ada? No temos nossa sogra? No podemos
reunir-nos para salv-lo?
        Ergueu-se e aproximou-se de mim com a inteno evidente
de me abraar. Mas era exatamente isto que eu no queria.
Tendo-lhe oferecido minha ajuda, sabia-me agora o direito
de repreend-lo e no tive mos a medir. Reprovei-o pela
fraqueza de agora, precedida por uma presuno que o levara
 runa. Agira por si mesmo sem consultar ningum. Tantas
vezes tentei obter esclarecimentos seus para sofre-lo ou
proteg-lo, e ele sempre os sonegava depositando confiana
apenas em Nilini.
        Neste ponto Guido sorriu, sim, sorriu, o desgraado! Disse-me
que h duas semanas j no trabalhava mais como Nilini,
pois lhe havia encasquetado na cabea que o focinho do
homem trazia azar.
        Aquele sono e aquele riso eram suas caractersticas:
arruinava todos em redor e ainda sorria. Arvorei-me em juiz severo;
para salvar Guido era preciso primeiro educ-lo. Quis saber
quanto perdera e aborreci-me quando disse que no sabia
exatamente. Enfureci-me ainda quando enunciou uma cifra
relativamente modesta, que depois acabou sendo apenas a
importncia de que necessitava para pagar uma prestao
quinzenal no fim do ms, a qual estava apenas por dois dias. Mas
Guido imaginava que at l havia tempo de sobra e que as
coisas poderiam mudar. A escassez de dinheiro no mercado
no duraria eternamente.
        Gritei:
        - Mas se j falta dinheiro na Terra, voc quer receb-lo
da lua? - Acrescentei que no devia jogar nem mais um dia.
Para que se arriscar a ver aumentado um prejuzo j enorme?
Disse ainda que, se o atual prejuzo fosse dividido em quatro
partes, haveramos de suport-lo eu, ele (ou seja, seu pai), a
Sra. Malfenti e Ada, a fim de que pudssemos voltar ao nosso
comrcio isentos de riscos, onde no queria mais ver nem
Nilini nem qualquer outro corretor de cmbio.
        Ele, com muito jeito, pediu-me para no gritar tanto, pois
podamos ser ouvidos pelos vizinhos.
        Fiz um grande esforo para me acalmar, mas s consegui
continuar a dizer-lhe desaforos em voz baixa. Seu prejuzo
era sem dvida nenhuma o resultado de um crime. Era
preciso ser um paspalho para se meter em semelhante apuro.
Achei que no lhe devia poupar o sermo completo.
        Aqui, Guido protestou com delicadeza. Quem nunca jogara
na Bolsa? Nosso sogro, comerciante bastante slido, nunca
deixara passar um dia sem alguma especulao. E eu tambm
-        Guido sabia - at eu j jogara.
        Protestei que, entre uma e outra maneira de jogar, havia
grande diferena. Ele arriscara na Bolsa todo o seu patrimnio,
eu apenas os rendimentos de um ms.
        Causou-me triste efeito que Guido tentasse puerilmente fugir
 responsabilidade. Afirmou que Nilini o induzira a jogar
mais do que pretendera, fazendo-o crer que lhe traria grande
fortuna.
        Ri e zombei dele. No era o caso de criticar Nilini, que
fazia seus prprios negcios. E - alm do mais - depois de
haver repudiado Nilini, no correra a aumentar a prpria
aposta por intermdio de outro corretor? Poderia gabar-se de
sua nova ligao se com esta pelo menos comeasse a jogar na
baixa, sem que Nilini soubesse. Para remediar o prejuzo no
bastava mudar de corretor e continuar no mesmo caminho
perseguido pelo mesmo azar. Quis induzir-me finalmente a
deix-lo em paz e, com um soluo na garganta, reconheceu
que se enganara.
        Parei de repreend-lo. Agora causava-me verdadeira
compaixo e eu o teria abraado se ele quisesse. Disse-lhe que
trataria imediatamente de providenciar o dinheiro da minha
parte e que eu poderia igualmente incumbir-me de falar com
fossa sogra. Ele, por sua vez, se incumbiria de Ada.

        342        343

        Minha compaixo cresceu quando confessou que de bom
grado falaria com a sogra em meu lugar, mas o que o
atormentava era ter que falar com Ada.
        - Voc sabe como so as mulheres! No entendem nada
de negcios ou s se interessam quando a coisa vai bem! -
Prefiro no falar com ela e pedir  Sra. Malfenti que a
informe de tudo.
        Esta deciso aliviou-o grandemente e samos juntos. Via-o
caminhar ao meu lado com a cabea baixa e sentia-me
arrependido de t-lo tratado com tamanha rudeza. Como, porm,
proceder de outra forma se o amava? Tinha que ser chamado
 razo, se no quisesse precipitar-se na runa! Como deviam
ser suas relaes com a mulher se temia tanto falar com ela?
        Contudo, ele descobriu uma forma de indispor-me de novO.
Enquanto caminhava, aperfeioava O plano de que tanto se
envaidecia. No s no falaria nada  mulher, como tambm
arranjaria inclusive um modo de ausentar-se por uns dias,
partindo de repente para a caa. Depois de enunciar o seu
propSitO, mostrou-se de todo desafOgadO. parecia-lhe
suficiente a perspectiva de estar ao ar livre, longe de suas
preocupaes, para ter o aspecto de quem j l estivesse a gozar
plenamente. Fiquei indignado! Com a mesma facilidade, ele
poderia retornar  Bolsa para continuar no jogo em que
arriscava a fortuna da famlia e tambm a minha.
        Disse-me:
        - Quero proporcionar-me este ltimo divertimento e
convido-o a vir comigo, mas voc tem de se comprometer a no
me recordar nem mesmo com uma nica palavra os acontecimentos
de hoje.
        At aqui falara sorridente. Diante de minha fisionomia
fechada, tornou-se mais srio do que eu. Acrescentou:
        - Voc h de reconhecer que tenho necessidade de um
descanso aps um golpe desse. Depois, me ser mais fcil
para reasSumir o meu lugar na luta.
        Sua voz estava velada por uma emoO de cuja sinceridade
no consegui duvidar. Contudo, soube reprimir o meu
despeito ou manifest-lo apenas na recusa ao seu convite,
dizendo-lhe que devia permanecer na cidade para providenciar O
dinheiro necessriO. J era uma espcie de censura! Eu,
inocente, permanecia em meu posto, ao passo que ele, o culpado,
andava a divertir-se.
        Chegramos em frente  casa da Sra. Malfenti. Ele no
conseguira readquirir o aspecto de alegria para o divertimento de
algumas horas que o esperava e, enquanto ficou comigo,
conservou estereotipada no rosto a expresso de dor que eu lhe
havia provocado. Mas antes de se despedir, encontrou alvio
numa manifestao de independncia e - como me pareceu
-        de rancor. Disse-me que estava verdadeiramente surpreso
por ter encontrado em mim um tal amigo. Hesitava em aceitar
o sacrifcio que eu lhe propunha e queria por toda a fora
que eu me compenetrasse de que no tinha qualquer
obrigao para com ele, estando, pois, livre para dispor ou no de
meu dinheiro.
        Estou certo de que corei. Para sair do embarao,
respondi-lhe:
        - Por que acha que eu queira voltar atrs se h poucos
minutos, sem que voc me tivesse pedido nada, prontifiquei-me
a ajud-lo?
        Olhou para mim um pouco indeciso e depois disse:
        - J que voc quer assim, aceito sem relutncia e agradeo.
Mas faremos um contrato de sociedade inteiramente
novo, para que cada qual tenha aquilo que merece. Se houver
trabalho, e voc quiser se dedicar a ele, h de ter o seu salrio.
Faremos a nova sociedade em bases completamente diferentes.
Assim, no teremos mais que temer outros danos por haver
ocultado o prejuzo de nosso primeiro ano de exerccio.
        Respondi:
        - Esse prejuzo j no tem a menor importncia e voc
no deve pensar mais nisto. Procure agora obter o apoio de
nossa sogra. O que importa  isto, nada mais.
        Foi ento que nos despedimos. Creio ter sorrido diante da
ingenuidade com que Guido manifestava os seus sentimentos
mais ntimos. Prendera-me com aquela longa exposio apenas
para poder aceitar o meu oferecimento, sem a necessidade
de manifestar-me gratido. Mas eu nada pretendia. Bastava-me
saber que ele devia a mim tal reconhecimento.
        Com efeito, ao afastar-me dele, tambm senti alvio, como
se s ento sasse para o ar livre. Sentia de fato a liberdade

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que me fora roubada com o propsito de educ-lo e reconduzi-lo
ao bom caminho. No fundo, o pedagogo est mais acorrentado
que o aluno. Decidido a arranjar-lhe aquele dinheiro,
no sei dizer se o fazia por ele, por afeio a Ada, ou para
me libertar da pequena parte de responsabilidade que me
poderia tocar por ter trabalhado naquele escritrio. Em suma,
decidira sacrificar uma parte de meu patrimnio e at hoje
encaro esse dia de minha vida com grande satisfao. O
dinheiro salvaria Guido e me garantiria grande paz de conscincia.
        Caminhei at o cair da noite na maior das tranqilidades
e com isto perdi o tempo til para procurar Olivi na Bolsa, a
quem devia recorrer para a obteno de soma to vultosa.
Depois, pensei que a coisa no era to urgente. Eu tinha esse
dinheiro  minha disposio e ele bastava para regularizar
o pagamento que se deveria fazer no fim do ms. Quanto 
outra quinzena, haveria de providenciar posteriormente.
        Naquela noite no pensei mais em Guido. Mais tarde, ou
seja, quando as crianas se recolheram, ensaiei vrias vezes
contar a Augusta o desastre financeiro de Guido e o prejuzo
que devia repercutir sobre mim, mas no quis aborrecer-me
com discusses; achei melhor reservar-me para convencer Augusta
no momento em que a regularizao dos negcios fosse
decidida por todos. Ademais, enquanto Guido se divertisse,
teria sido curioso que fosse eu a me importunar.
        Dormi otimamente e, pela manh, com o bolso no muito
cheio de dinheiro (l estava o antigo envelope que fora abandonado
por Carla e que at ento eu conservara religiosamente
para ela, ou para uma possvel sucessora, e um pouco mais
de Outro dinheiro que eu sacara de um banco) cheguei ao escritrio.
Passei a manh a ler os jornais, entre Carmen, que
costurava, e Luciano, que se adestrava em multiplicaes e
adies.
        Quando voltei para casa  hora do almoo, encontrei Augusta
perplexa e abatida. Seu rosto estava coberto por aquela
palidez que s os desgostos provindos de mim lhe provocavam.
Falou-me com brandura:
        -        Soube que voc decidiu sacrificar uma parte de seu
patrimnio para salvar Guido! Sei que eu no tinha o direito
de ser informada.
        Estava to em dvida quanto a seu direito que hesitou.
Depois decidiu-se e reprovou o meu silncio:
        -  bem verdade que no sou como Ada, porque nunca
me opus a sua vontade.
        Foi preciso tempo para eu perceber o que ocorrera. Augusta
fora informada pela irm quando esta discutia os problemas
de Guido com a me. Vendo-a, Ada rompera a chorar, dizendo-lhe
que ela no queria de modo algum aceitar a minha
generosidade. Havia mesmo pedido a Augusta que me convencesse
a desistir de minha oferta.
        Percebi logo que Augusta sofria de sua antiga doena, cimes
da irm, mas no lhe fiz caso. Surpreendia-me mais a
atitude que Ada assumira.
        - Voc acha que ela ficou ofendida? - perguntei, fingindo-me
surpreso.
        - No! No! Nada ofendida! - gritou Augusta com
sinceridade. - Ela me abraou e me beijou. . . talvez pensando
em voc.
        Parecia um modo de se exprimir bastante cmico.
Observava-me, estudando-me, desconfiada.
        Protestei:
        - Voc acha que Ada gosta de mim? Por que passou isto
pela sua cabea?
        No consegui acalmar Augusta, cujos cimes me aborreciam
horrivelmente. Digamos que Guido quela hora estivesse
longe de se divertir, tendo passado certamente um mau quarto
de hora entre a sogra e a mulher; de minha parte, no entanto,
tambm estava aborrecidssimo e achando que padecia demais
para a minha inocncia.
        Tentei acalmar Augusta fazendo-lhe carcias. Ela afastou
o rosto do meu para ver-me melhor e me fez uma branda
censura, que me comoveu:
        - Sei que voc tambm me ama.
        Evidentemente, o estado de esprito de Ada no tinha importncia
para ela, e sim o meu, e veio-me uma inspirao para
provar-lhe minha inocncia:
        - Ento voc acha que Ada est apaixonada por mim?
        falei rindo. Depois, afastando-me dela para me fazer ver
melhor, enchi um pouco as bochechas e arregalei de maneira

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despropositada os olhos, de modo a parecer-me com Ada
doente. Augusta olhou-me surpreendida, mas adivinhou logo
a minha inteno. Foi tomada por acesso de riso de que imediatamente
se arrependeu.
        - No! - disse. - Por favor no zombe dela. - Depois
confessou, sempre rindo, que eu conseguira imitar
verdadeiramente as protuberncias que davam ao rosto de Ada
aspecto to estranho. E eu o sabia, pois, imitando-a, tinha a
sensao de beij-la. E, a ss comigo, muitas vezes repeti
aquele esgar que me causara desejo e repugnncia.
        Pela tarde fui ao escritrio na esperana de encontrar Guido.
Esperei-o por algum tempo e depois resolvi procur-lo em
casa. Precisava saber se era necessrio recorrer a Olivi para
conseguir o dinheiro. Tinha que cumprir o meu dever
embora no me agradasse rever Ada com as feies desta vez
alteradas pela gratido. Quem sabe as surpresas que me
podiam vir ainda daquela mulher!
        Ao entrar em casa de Guido dei com a Sra. Malfenti que
subia as escadas com dificuldade. Contou-me por alto o que at
ento ficara decidido em relao ao caso. Na noite anterior
chegaram perto da convico de que era necessrio salvar
aquele homem que sofreu desdita to desastrosa. Somente
pela manh Ada tivera conhecimento de que eu iria colaborar
para cobrir o prejuzo de Guido e frontalmente se recusara
a aceitar. A Sra. Malfenti procurava desculp-la:
        - Que se pode fazer? Ela no quer carregar o remorso de
ter empobrecido a irm predileta.
        No patamar, a senhora estancou para respirar e tambm
para falar, e me disse rindo que tudo acabaria sem prejuzo
para ningum. Antes do almoo, ela, Ada e Guido se tinham
reunido para ouvir os conselhos de um advogado, velho amigo
da famlia e agora tambm tutor da pequena Anna. O
advogado disse que no era o caso de pagar porque pela lei
no se estava obrigado a isso. Guido opusera-se vivamente
a essa interpretao, falando em honra e dever, mas ele teria
que se resignar.
        - Mas a firma, na Bolsa, no ser declarada em falncia?
-        perguntei-lhe perplexo.
        - Provavelmente! - disse a Sra. Malfenti com um suspiro,
antes de empreender a subida do segundo lance.
        Guido, aps o almoo, costumava repousar; por isso fomos
recebidos apenas por Ada na saleta que eu conhecia to bem.
Ao me ver ficou por um instante confusa, apenas por um
instante, que eu, no entanto, surpreendi e retive, claro, evidente,
como um atestado de sua confuso. Depois recomps-se
e estendeu-me a mo com um movimento decidido, quase viril,
destinado a apagar a hesitao feminina que o precedera.
        Disse-me:
        - Augusta j lhe ter transmitido o quanto lhe sou
reconhecida. No saberia repetir agora o que sinto, pois estou
confusa. Sinto-me tambm doente. Sim, estou doente! Estou
novamente precisando da casa de sade de Bolonha!
        Um soluo interrompeu-a:
        - Peo-lhe agora um favor. Rogo dizer a Guido que voc
no est em condies de dar o dinheiro. Assim ser mais
fcil induzi-lo a fazer aquilo que deve.
        Antes soluara recordando a prpria doena; soluou depois
novamente, antes de continuar a falar do marido:
        - uma criana, e precisamos trat-lo como tal. Se sabe
que voc est disposto a dar o dinheiro, se obstinar ainda
mais na idia de sacrificar at o resto inutilmente. Inutilmente,
porque agora sabemos com absoluta certeza que  permitida
a falncia em Bolsa. O advogado nos disse.
        Comunicava-me o parecer de uma alta autoridade sem perguntar
o meu. Como velho freqentador da Bolsa, a minha
opinio, mesmo em confronto com a do advogado, podia ter
seu peso, mas nem me recordei de meu parecer, se  que tinha
algum. Recordei, em vez disso, que estava numa posio difcil.
No podia retirar a palavra dada a Guido: graas a esse
compromisso  que me achava autorizado a gritar-lhe na cara
tantas insolncias, embolsando assim uma espcie de juro sobre
o capital que agora no podia mais recusar-lhe.
        - Ada! - disse hesitante. - No creio que possa voltar
atrs assim de um dia para outro. No seria melhor voc
COnvencer Guido a fazer as coisas como vocs desejam?
        A Sra. Malfenti, com a grande simpatia que sempre demonstrou
para comigo, disse que compreendia perfeitamente minha

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posio delicada, e que de resto, quando Guido visse  sua
disposio apenas um quarto da importncia de que necessitava,
teria necessariamente de adaptar-se  vontade delas.
        Ada, porm, ainda no havia exaurido suas lgrimas. Chorando
com o rosto enterrado no leno, disse:
        - Voc agiu mal, muito mal em fazer essa oferta verdadeiramente
extraordinria! Agora se pode ver o mal que voc
fez!
        Parecia-me hesitante entre uma grande gratido e um grande
rancor. Acrescentou que no queria que se falasse mais da
minha oferta e pedia-me para no providenciar o dinheiro,
pois ela me impediria de d-lo ou impediria Guido de
receb-lo.
        Estava to embaraado que acabei por pregar uma mentira.
Disse-lhe que eu j conseguira o dinheiro e apontei para o bolso
interno do palet, onde estava o envelope pouco pesado.
Ada olhou-me desta vez com expresso de verdadeira
admirao, da qual talvez me tivesse alegrado se no soubesse
quo pouco a merecia. De todo modo foi exatamente esta
mentira, que no sei explicar seno como uma tendncia para
elevar-me diante de Ada, que me impediu de esperar Guido
e me arrancou daquela casa. Podia ter ainda acontecido que,
em dado ponto, contrariamente a toda expectativa, pedissem-me
para entregar o dinheiro que eu dizia trazer comigo, e
ento que figura haveria de fazer? Informei que tinha
negcios urgentes a tratar no escritrio e escapuli.
        Ada acompanhou-me at a porta e assegurou-me que ela
faria Guido seguir ao meu encontro para agradecer a minha
bondade e recusar a minha oferta. Fez essa declarao com
tal firmeza que me sobressaltei. Pareceu-me que esse firme
propsito me atingia em parte. No! Naquele instante, ela
no me amava. Meu ato de bondade era grande demais.
Esmagava as pessoas sobre as quais recaa e no era de admirar
que os beneficirios protestassem. Indo para o escritrio
procurei libertar-me do mal-estar provocado pela atitude de Ada,
recordando que eu fazia aquele sacrifcio por Guido, e s
por ele. Que tinha Ada a ver com isto? Prometi a mim mesmo
que o diria  prpria Ada na primeira ocasio.
        Fui ao escritrio mais para no ser depois forado a mentir
uma segunda vez. Ningum me esperava. Caa desde cedo uma
chuvinha mida e contnua que refrescara consideravelmente
o ar daquela primavera indecisa. Com dois passos estaria em
casa, enquanto, para ir ao escritrio, teria que percorrer um
caminho bem mais longo, o que era bastante enfadonho. Mas
era como se tivesse um compromisso a cumprir.
        Pouco depois, Guido veio reunir-se a mim. Afastou Luciano
do escritrio para ficar a ss comigo. Estava com aquele
seu ar transtornado que o ajudava em sua luta com a mulher
e que eu conhecia to bem. Devia ter chorado e gritado.
        Perguntou-me o que achava eu dos projetos da mulher e de
nossa sogra, que j sabia ser do meu conhecimento. Mostrei-me
hesitante. No queria manifestar minha opinio, contrria
 das duas mulheres, mas sabia tambm que, se concordasse
com ela, provocaria novas cenas da parte de Guido. Por outro
lado, desagradava-me parecer indeciso em minha ajuda, e
afinal estvamos de acordo com Ada de que a deciso devia
partir de Guido, e no de mim. Disse-lhe que precisvamos
calcular, ver, ouvir tambm outras pessoas. E no entendia
assim tanto de negcios para poder dar conselhos numa
questo to importante. E, para ganhar tempo, perguntei-lhe se
queria que eu fosse consultar Olivi.
        Tanto bastou para faz-lo gritar:
        - Aquele imbecil! - hurrou. - Peo-lhe por gentileza
que o deixe de lado!
        Eu no estava, na verdade, disposto a acalorar-me na defesa
de Olivi, mas minha calma no foi suficiente para tranqilizar
Guido. Estvamos na mesma situao do dia anterior, com
a diferena de que agora era ele quem gritava e cabia a mim
calar.  uma questo de disposio. Eu estava tomado de
um embarao que me atava os membros.
        Ele queria a todo custo que manifestasse a minha opinio.
Por inspirao que considero divina, falei muito bem, to
bem que se as minhas palavras surtissem um efeito qualquer
a catstrofe que se seguiu teria sido evitada. Disse-lhe que
me inclinava no momento a separar as duas questes, a da
liquidao do dia quinze da do fim do ms. Quanto  do dia
quinze, a importncia a pagar no era to relevante; preciUvamos
apenas convencer as duas mulheres a suportar o prejuzo
relativamente leve. Depois, teramos o tempo necessrio
a providenciar devidamente a outra liquidao.

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        Guido interrompeu-me para perguntar:
        - Ada disse que voc j tinha o dinheiro no bolso. Est a?
        Corei. Encontrei imediatamente uma outra mentira que
me salvou:
        - J que em sua casa no quiseram aceitar o dinheiro,
depositei-o no banco ainda h pouco antes de vir para c.
Mas podemos sac-lo novamente quando quisermos, at mesmo
amanh cedo.
        Censurou-me ento por haver mudado de opinio. Se eu
prprio afirmara no dia anterior que no queria esperar a
outra liquidao para regular o assunto! E neste ponto teve
um acesso de ira violenta, que acabou por derre-lo sem foras
sobre o sof! Poria para fora do escritrio Nilini e os outros
corretores que o haviam arrastado ao jogo. Oh! Jogando ele
havia,  certo, entrevisto a possibilidade de runa; jamais,
porm, a sujeio a mulheres que no entendiam nada de nada.
        Corri a apertar-lhe a mo e, se me tivesse permitido, eu o
teria abraado. S queria v-lo chegar quela deciso. Nada
mais de jogo, e sim o trabalho habitual de cada dia!
        Tal seria o nosso futuro e a sua independncia. Era
necessrio agora superar o breve e duro perodo; depois, tudo seria
mais fcil e simples.
        Abatido, mais calmo, pouco depois me deixou. Tambm
ele, na sua fraqueza, estava penetrado por uma forte deciso.
        - Volto para Ada! - murmurou e deu um sorriso amargo,
mas firme.
        Acompanhei-o at a porta, e o teria acompanhado at sua
casa se  porta no estivesse um veculo  espera dele.
        Nmesis perseguia Guido. Meia hora aps me haver deixado,
achei que seria prudente de minha parte ir  sua casa apoi-lo.
No que suspeitasse de algum perigo que pudesse pairar sobre
ele, mas  que agora estava inteiramente do seu lado e
poderia contribuir para convencer Ada e a Sra. Malfenti a ajud-lo.
A falncia em Bolsa no era de meu agrado, ao passo que o
prejuzo repartido entre os quatro, conquanto no fosse
insignificante, no chegava a representar a runa para nenhum
de ns.
        Recordei-me em seguida de que meu principal dever era
no propriamente ajudar Guido com minha presena, mas
proporcionar-lhe sem tardar no dia seguinte a importncia
prometida. Por isso, parti  procura de Olivi, preparado para
uma nova luta. Tinha imaginado um modo de reembolsar a
minha firma, pagando a vultosa quantia ao longo de alguns
anos; depositaria mesmo dentro de alguns meses tudo o
que ainda me restava da herana de minha me. Esperava que
Olivi no criasse dificuldades, porque at ento eu no lhe
pedira seno o que me cabia dos lucros, e podia inclusive
prometer no mais apoquent-lo com semelhantes solicitaes.
Era evidente que podia ainda esperar recuperar de Guido
pelo menos parte da importncia.
        Naquela tarde no consegui encontrar Olivi. Tinha
acabado de sair do escritrio quando cheguei. Achavam que fora
para a Bolsa. No o encontrei l; dirigi-me  sua casa, onde
soube que estava participando de uma assemblia na
Associao Econmica, na qual ocupava um posto honorfico.
poderia ter ido encontr-lo l, mas j era de noite e caa uma
chuva ininterrupta e abundante que transformava as ruas em
verdadeiros riachos.
        Foi um dilvio que durou toda a noite e cuja lembrana
se guardou por muitos anos. A chuva caa tranqila, mas sem
parar, perpendicularmente, sempre com a mesma abundncia.
Dos morros que circundam a cidade descia lama que, misturada
 escria da nossa vida citadina, obstruiu os escassos bueiros.
Quando resolvi voltar a casa aps ter esperado inutilmente
num refgio que a chuva passasse, e quando percebi
claramente que o tempo era mesmo de chuva, sendo tolice esperar
que melhorasse, j a gua invadia a parte mais alta das caladas.
Corri para casa a amaldioar a chuva, encharcado at os ossos.
Amaldioava-me tambm por ter perdido tanto tempo para
localizar Olivi. Meu tempo pode no ser assim to precioso;
o certo, porm,  que sofro horrivelmente quando constato
que o perdi em vo. E corria pensando: "Vamos deixar tudo
para amanh, quando a chuva passar. Amanh procurarei
Olivi e amanh irei ver Guido. Sou capaz at de acordar mais
cedo, se o tempo tiver melhorado." Estava to convicto da
justeza de minha deciso que disse a Augusta havermos todos
combinado deixar a deciso para o dia seguinte. Troquei de
roupa, enxuguei a cabea e com os ps estropiados metidos
em cmodas e quentes pantufas primeiro jantei e depois fui
deitar-me, para dormir profundamente at a manh, enquanto

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os vidros da janela eram fustigados por uma chuva grossa
como corda.
        Foi assim que s bem tarde soube dos acontecimentos da
noite. Primeiro nos disseram que a chuva provocara inundaes
em vrias partes da cidade, e depois que Guido morrera.
        Muito tempo aps  que soube como tudo acontecera. Cerca
das onze horas, quando a Sra. Malfenti deixou a casa, Guido
preveniu a mulher de que ingerira uma quantidade enorme
de veronal. Quis convenc-la de que fatalmente morreria.
Abraou-a, beijou-a, pediu-lhe perdo por t-la feito sofrer.
Depois, antes ainda que suas palavras se convertessem num
balbucio, afirmou-lhe que ela fora o nico amor de sua vida.
No momento ela no acreditou nem nesta afirmao nem que
ele houvesse ingerido tanto veneno que pudesse morrer. No
acreditou sequer que ele estivesse fora de sentidos, pois achou
que fingia para arrancar-lhe mais dinheiro.
        Depois, transcorrida quase uma hora, vendo que ele dormia
cada vez mais profundamente, sentiu certo receio e escreveu
um bilhete a um mdico que morava no longe dali. Disse
no bilhete que o marido necessitava de auxlio urgente, de vez
que havia ingerido grande quantidade de veronal.
        At naquele momento no havia na casa qualquer agitao
que pudesse despertar na criada, uma senhora idosa h pouco
tempo no emprego, a conscincia da gravidade de sua misso.
        A chuva contribuiu para o resto. A criada enfrentou a chuva
com a gua a lhe bater pelos joelhos e acabou perdendo o
bilhete. S foi dar por isso quando em presena do mdico.
Contudo, soube informar que se tratava de caso de urgncia
e convenceu-o a acompanh-la.
        O Dr. Mali, homem de cerca de cinqenta anos, longe de
ser um portento, era um mdico prtico que sempre cumprira
o seu dever da melhor maneira possvel. No tinha clientela
prpria considervel; por outro lado, no lhe faltava o que
fazer, pois trabalhava intensamente para uma associao cujo
grande nmero de filiados lhe retribua modestamente. Tinha
regressado para casa ainda h pouco e mal conseguira
aquecer-se e secar-se postado junto ao fogo. Pode-se imaginar com
que disposio abandonou o seu cantinho tpido. Quando me
pus a indagar melhor sobre as causas da morte de meu pobre
amigo, preocupei-me tambm em conhecer o Dr. Mali. Dele
soube apenas o seguinte: quando saiu de casa e se sentiu
encharcado pela gua que atravessava os panos do seu guarda-
chuva, arrependeu-se de haver estudado medicina em vez
de agronomia, recordando-se de que os lavradores, quando
chove, ficam em casa.
        Junto ao leito de Guido encontrou Ada inteiramente calma.
Agora que tinha o mdico ao lado, lembrava melhor o
papelo que ele havia feito meses antes simulando suicdio. No
lhe cabia assumir qualquer responsabilidade, mas ao mdico,
a quem devia informar de tudo, inclusive das razes que
podiam fazer pensar numa simulao de suicdio. Tais razes
o doutor as soube todas, ao mesmo tempo em que aguava
os ouvidos para as ondas de chuva que varriam as ruas. No
tendo sido avisado de que o buscavam para socorrer um caso
de envenenamento, viera desprovido dos apetrechos
necessrios ao tratamento. Deplorou-o balbuciando algumas palavras
que Ada no compreendeu. O pior era que, para proceder a
uma lavagem estomacal, no podia mandar algum buscar os
instrumentos; tinha que ir ele mesmo, atravessando duas vezes
a rua. Tomou o pulso de Guido e achou-o magnfico.
Perguntou a Ada se Guido sempre tivera sono profundo. Ada respondeu
que sim, mas no quele ponto. O doutor examinou
os olhos de Guido: reagiram prontamente  luz! Saiu, portanto,
recomendado que lhe dessem de tempos em tempos uma
colherzinha de caf bem forte.
        Soube ainda que, ao chegar  rua, murmurou com raiva:
        - Devia ser proibido algum simular suicdio com um
tempo destes!
        Eu, quando o conheci, no ousei fazer-lhe qualquer censura
pela sua negligncia, mas ele adivinhou minha inteno e
defendeu-se. Disse que ficara aturdido ao saber na manh
seguinte que Guido morrera, tanto  que suspeitou ter o
doente voltado a si e tomado outro veronal. Depois acrescentou
que os leigos no podiam imaginar como os mdicos no
exerccio de sua profisso tinham que aprender a defender sua
vida contra os clientes que atentavam contra ela, pensando
apenas na deles.
        Pouco mais de uma hora depois, Ada cansou-se de
introduzir a colherzinha entre os dentes de Guido; vendo que
ele sorvia cada vez menos lquido, com o resto a derramar

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pelo travesseiro, voltou a ficar espavorida e pediu  criada
que fosse  procura do Dr. Paoli. Desta vez a criada no
perdeu o bilhete, mas levou mais de uma hora para encontrar
o endereo do mdico.  natural que num dia de chuva
torrencial como aquele tivesse necessidade de abrigar-se de
tempos em tempos junto a algum portal. Uma chuva assim no
s encharca, como fustiga.
        O Dr. Paoli no se achava em casa. Chamado pouco antes
por um cliente, sara, dizendo que voltaria logo. Parece que
depois preferiu esperar em casa do cliente que a chuva
passasse. Sua empregada, pessoa bonssima e j de certa idade,
fez a criada sentar-se junto ao fogo e tratou de reanim-la. O
doutor no deixara o endereo de seu paciente; assim, as
duas passaram vrias horas ao p do fogo  espera do mdico,
que s chegou depois de passada a chuva. Por isso, quando
alcanou a casa de Ada com todos os instrumentos mdicos
que j havia utilizado para Guido, era madrugada. Tudo o que
agora podia fazer junto daquele leito era ocultar de Ada
que Guido j estava morto e fazer com que viesse a Sra.
Malfenti, antes que Ada percebesse, para assisti-la no momento
da dor.
        Por isso a notcia s me chegou muito tarde e de forma
imprecisa.
        Levantando-me cedo, tive pela ltima vez um mpeto de
ira contra o pobre Guido: complicava todas as desventuras com
as suas comdias! Sa de casa sem Augusta, que no podia
deixar as crianas sozinhas. Fora, fui assaltado por uma
dvida! No seria melhor esperar que os bancos abrissem e que
Olivi estivesse no escritrio para comparecer diante de Guido
j trazendo o dinheiro que lhe prometera? Tampouco acreditava
na gravidade das condies de Guido, de quem tivera
notcias!
        Soube a verdade pelo Dr. Paoli, que encontrei ao subir as
escadas. Senti uma perturbao que quase me fez cair. Guido,
depois de nosso convvio, tornara-se para mim personagem
de grande importncia. Enquanto vivo, eu o via sob uma certa
luz que iluminava a parte mais longa de meus dias. Morrendo,
aquela luz se modificava, como se tivesse passado de sbito
atravs de um prisma. Era exatamente isto que me perturbava.
Ele errara, mas agora que estava morto, nada restava de seus
erros. A meu ver, no passava de um imbecil aquele tipo
galhofeiro que perguntou, num cemitrio coberto de epitfios
laudatrios, onde  que naquela terra sepultavam os maus e
os pecadores. Os mortos nunca foram pecadores. Guido agora
era um puro! A morte o purificara.
        O doutor mostrava-se comovido por ter presenciado o
sofrimento de Ada. Referiu-se vagamente  noite horrenda que
ela havia passado. A esta altura j conseguira convenc-la de
que a quantidade de veneno ingerida por Guido fora tal que
nenhum socorro adiantaria. Pior se tivesse sabido o contrrio!
        - Na verdade - acrescentou o doutor compungido -,
se eu tivesse chegado algumas horas antes o teria salvo.
Encontrei os frascos vazios do veneno. Examinei-os. Uma dose forte,
mas pouco mais forte do que a anterior.
        Deu-me a ver alguns frascos, nos quais ali estampado:
Veronal. E nem era veronal com sdio. Mais do que ningum,
eu podia agora estar certo de que Guido no queria mesmo
morrer. Contudo, nunca o disse a ningum.
        O Dr. Paoli deixou-me, aps dizer que eu no devia estar
com Ada por ora. Ministrara-lhe fortes calmantes e no
duvidava de que em breve fariam efeito.
        No corredor, senti chegar daquela saleta, onde fora recebido
duas vezes por Ada, seu choro manso. Eram palavras isoladas
que eu no entendia, cheias de angstia. O pronome ele era
repetido vrias vezes e imaginei o que dizia. Estava estabelecendo
relaes com o pobre morto, decerto bem diferentes
das que tivera com o vivo. Para mim era evidente que ela se
enganara com o marido. Ele morrera por um delito cometido
por eles, pois jogara na Bolsa com o consentimento de todos.
Na hora de pagar, deixaram-no sozinho. E ele apressou-se
em pagar. E o nico parente, que na verdade no estava
metido na histria, eu, sentira-me no dever de socorr-lo.
        No quarto do casal o pobre Guido jazia abandonado,
coberto por um lenol. A rigidez j avanada exprimia aqui
no uma fora, mas a estupefao por ter morrido sem querer.
Na face morena e bela estampava-se uma censura. Certamente
no dirigida a mim.
        Voltei para casa a fim de pedir a Augusta que viesse
assistir a irm. Sentia-me muito comovido e Augusta chorou
abraando-me:

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        - Voc foi um irmo para ele - murmurou. - S agora
concordo com voc em sacrificarmos uma parte de nosso
patrimnio para honrar sua memria.
        Preocupei-me em prestar todas as homenagens ao meu
pobre amigo. Tratei de afixar  porta do escritrio um
cartozinho anunciando o fechamento por morte do proprietrio.
Eu prprio compus o aviso fnebre. Mas s no dia seguinte,
de acordo com Ada, foram tomadas as disposies para o
funeral. Soube ento que Ada decidira acompanhar o enterro
ao cemitrio. Queria conceder-lhe todas as provas de afeto
que podia. Pobrezinha! Eu sabia qual a dor de um remorso
sobre um tmulo. Tambm eu sofrera com a morte de meu
pai.
        Passei a tarde trancado no escritrio em companhia de
Nilini. Chegamos assim a fazer um pequeno balano da
situao de Guido. Espantoso! No s consumira todo o capital da
firma, mas ainda devia outro tanto, se tivesse que responder
por tudo.
        Sentia necessidade de trabalhar, trabalhar mesmo em
proveito de meu pobre amigo morto, mas no sabia fazer mais
do que sonhar. Minha primeira idia foi sacrificar toda a
minha vida naquele escritrio e trabalhar para o sustento
de Ada e de seus filhos. Mas estaria seguro de consegui-lo?
        Nilini, como de hbito, tagarelava enquanto eu olhava para
longe, muito longe. At ele sentia necessidade de mudar
radicalmente seu conceito de Guido. Agora compreendia tudo!
O pobre, quando no procedia corretamente com ele, j era
presa da molstia que o conduziria ao suicdio. Por isso, agora
tudo estava esquecido. E exortou dizendo que era mesmo
assim: no sabia guardar rancor de ningum. Sempre quisera
bem a Guido e continuava a querer.
        Acontece que os sonhos de Nilini acabaram por se associar
aos meus, sobrepondo-se a eles. No era na lerdeza do comrcio
que se poderia encontrar maneira de remediar uma catstrofe
daquela natureza; s na prpria Bolsa. E Nelini contou-me que
uma pessoa de suas relaes conseguira salvar-se no ltimo
momento dobrando a parada.
        Falamos por muitas horas; a proposta de Nilini de continuar
o jogo iniciado por Guido foi das ltimas coisas, j quase ao
meio-dia, sendo imediatamente aceita por mim. Aceitei-a com
tal alegria como se tivesse conseguido ressuscitar meu amigo.
Acabei comprando em nome do pobre Guido uma quantidade
de outras aes de nomes bizarros: Rio Tinto, South French,
coisas do gnero.
        Assim, iniciaram para mim as cinqenta horas de maior
trabalho que j tive em toda a minha vida. A princpio e at
a tarde fiquei a andar de um lado para outro no escritrio,
em grandes passadas,  espera de saber se minhas ordens
haviam sido executadas. Temia que na Bolsa tivessem sabido
do suicdio de meu cunhado e que seu nome estivesse
desacreditado para compromissos ulteriores. Por muitos dias,
no entanto, ningum ali atribuiu sua morte ao suicdio.
        Depois, quando Nilini conseguiu avisar-me de que todas
as minhas ordens haviam sido seguidas, comeou para mim
uma verdadeira excitao, aumentada pelo fato de que, no
momento em que recebi os avisos, fiquei sabendo que j perdia
algumas fraes bastantes significativas. Recordo aquela
agitao como um verdadeiro e exaustivo trabalho. Tenho a curiosa
sensao, em minha lembrana, de haver permanecido 
mesa de jogo, ininterruptamente, por cinqenta horas, "chorando
as cartas". No conheo ningum que por tantas horas
tenha conseguido resistir a semelhante fadiga. Todas as
oscilaes de preo eram vigiadas e registradas por mim, e (por
que no diz-lo?) ora estimuladas ora contidas, conforme conviesse
a mim, ou seja, ao meu amigo. Minhas noites foram
igualmente insones.
        Temendo que algum da famlia pudesse interferir no
sentido de impedir a obra de salvamento a que me entregara,
no falei a ningum da liquidao quinzenal quando esta
chegou. Paguei tudo eu mesmo, porque ningum mais se
recordou do compromisso, visto que todos estavam em torno
do cadver que esperava o sepultamento. Ademais, o montante
da liquidao era inferior ao estabelecido a princpio, porque
a sorte de repente me ajudara. Era tal minha dor pela morte
de Guido que me parecia atenu-la comprometendo-me de
todas as maneiras, tanto com minha assinatura quanto com
o risco de meu dinheiro. At ento me acompanhara o sonho
de bondade que eu tivera h muito tempo junto dele. Sofria

        358        359

tanto daquela agitao que no joguei mais na Bolsa por
minha conta.
        Mas  fora de "chorar" (esta era a minha ocupao
precpua) acabei por no intervir no funeral de Guido. A coisa
passou-se assim. Exatamente naquele dia, os papis em que
estvamos empenhados sofreram tremenda alta. Nilini e eu
passamos o tempo todo calculando o quanto havamos
recuperado do prejuzo. O patrimnio do velho Speier estava agora
reduzido apenas  metade! Um magnfico resultado que me
enchia de orgulho. Ocorrera exatamente o que Nilini havia
previsto em tom dubitativo, mas que ele fazia agora, naturalmente,
desaparecer, ao repetir as palavras ditas, apresentando-se
como verdadeiro profeta. A meu ver ele previra isto e
tambm o contrrio. Assim, jamais se enganaria, mas nunca
lhe disse isto, pois me convinha que permanecesse no negcio
com a sua ambio. At o seu desejo podia influir sobre os
preos.
        Partimos do escritrio s trs e corremos porque nos
lembramos de que o funeral teria lugar s duas e quarenta e cinco.
         altura dos arcos de Chiozza, vi a distncia o cortejo e
pareceu-me at mesmo reconhecer a carruagem que um amigo
pusera  disposio de Ada para o funeral. Saltei com Nilini
para dentro de uma viatura de praa, dando ordens ao cocheiro
para seguir o fretro. E no interior da viatura, Nilini e
eu continuamos a "chorar". Tnhamos o pensamento to
distante do pobre defunto que exigamos o passo lento dos animais.
Nesse nterim o que se estaria passando na Bolsa no
vigiada por ns? Nilini, a dada altura, olhou-me bem nos olhos
e perguntou por que eu no arriscava na Bolsa algum por
conta prpria.
        - Por ora - respondi, e no sei por que enrubesci - s
trabalho por conta do meu pobre amigo.
        Ao que, aps uma leve hesitao, acrescentei:
        - Depois pensarei em mim. - Queria deixar-lhe a esperana
de poder induzir-me ao jogo, sempre no esforo de conserv-lo
inteiramente meu amigo. Mas de mim para mim
formulei as palavras que no ousava dizer-lhe: "Nunca cairei
nas suas mos!" Ele ps-se a exortar:
        -        Quem sabe se haver outra ocasio como esta? -
Esquecia haver-me ensinado que na Bolsa a ocasio surge a
cada instante.
        Quando chegamos ao lugar onde habitualmente as carruagens
paravam, Nilini meteu a cabea para o lado de fora e deu
um grito de surpresa. A viatura continuava a seguir o funeral
que se dirigia para o cemitrio grego.
        -        O Sr. Guido era grego? - perguntou surpreso.
Na verdade, o fretro ultrapassava o cemitrio catlico e se
dirigia para outro qualquer, judeu, grego, protestante ou srvio.
        -        Era capaz de ser protestante! - disse eu a princpio,
mas logo me lembrei de ter assistido ao casamento na igreja
catlica.
        -        Deve ter havido um engano! - exclamei, pensando a
princpio que quisessem enterr-lo em lugar errado.
        Nilini, de repente, comeou a rir, um riso irrefrevel, que
o        deixou sem foras no fundo do carro, a bocarra escancarada
na carinha mida.
        -        Ns nos enganamos! - exclamou. Quando conseguiu
frear o mpeto de sua hilaridade, descarregou suas
oburgatrias contra mim. Eu devia ter prestado ateno para onde
amos, e devia saber a hora e quem ia etc. Estvamos no
enterro de outro!
        Irritado, no rira com ele e agora me era difcil suportar
as reprovaes. Por ele tambm no observara melhor?
Controlei o mau humor s porque me interessava mais a Bolsa
do que o funeral. Descemos da carruagem para nos orientarmos
melhor e nos dirigimos para a entrada do cemitrio
catlico. A viatura nos seguiu. Observei que os familiares do
outro defunto nos olhavam surpresos, no sabendo explicar
por que, depois de havermos prestado ao morto a homenagem
fnebre at aquele momento, o abandonvamos assim sem
mais sem menos.
        Nilini impaciente me precedia. Perguntou ao porteiro do
cemitrio, aps hesitar um instante:
        -        O funeral do Sr. Guido Speier j entrou?
        O        guardio no pareceu surpreso com a pergunta que me
parecia cmica. Respondeu que no sabia. Sabia dizer que no
recinto haviam entrado na ltima meia hora dois enterros.

360 361

        Olhamos perplexos um para o outro. Evidentemente, no
podamos saber se o funeral j entrara ou no. Decidi ento
por minha conta. Eu no devia intervir no servio fnebre
talvez j iniciado, perturbando-o. Por isso no entraria no
cemitrio. Por outro lado, no podia arriscar-me a cruzar com
o fretro, se retornasse. Renunciava, portanto, a assistir ao
sepultamento e voltaria para a cidade fazendo uma longa
volta por Srvola. Deixei a viatura a Nilini, que no queria
renunciar a fazer ato de presena em ateno a Ada, a quem
conhecia.
        Com passo rpido, para fugir a qualquer encontro, subi
pela estrada de terra que conduz  cidade. Agora, na verdade,
no me desagradava ter-me enganado de enterro e no prestar
as ltimas homenagens ao pobre Guido. No podia
delongar-me naquelas prticas religiosas. Outro dever me incumbia:
salvar a honra de meu amigo e defender-lhe o patrimnio em
benefcio da viva e dos filhos. Quando informasse a Ada
que conseguira recuperar trs quartos do prejuzo (e voltava
a refazer as contas j feitas tantas vezes: Guido perdera o dobro
do patrimnio do pai; aps minha interveno, o prejuzo
se reduzia  metade daquele patrimnio. Estava, portanto,
certo. Eu recuperara trs quartos do prejuzo), ela certamente
me iria perdoar no ter comparecido ao funeral.
        Naquele dia, o tempo firmara de fato. Brilhava um magnfico
sol primaveril e, sobre a terra ainda mida, o ar estava limpo
e saudvel. Meus pulmes, num movimento que h vrios dias
no me era concedido, se dilatavam. Sentia-me saudvel e
forte. A sade s se projeta mediante comparao. Comparava-me
com o pobre Guido e elevava-me, elevava-me bem alto
com a minha vitria na mesma luta em que ele perecera.
Tudo era sade e fora ao meu redor. At o campo rebentava
de erva nova. O mesmo e abundante aguaceiro, a catstrofe
do dia anterior, agora s produzia efeitos benficos e o sol
luminoso era a tepidez desejada pela terra enregelada. Era certo
que, quanto mais nos afastssemos da catstrofe, o cu azul
se tornaria enfadonho se no voltasse a obscurecer no devido
tempo. Esta, porm, era a previso da experincia e eu no
a recordei; ocorre-me s agora enquanto escrevo. Naquele
momento havia em minha alma um hino  sade,  minha e 
de toda a natureza; sade perene.
        Meu passo tornou-se mais rpido. Alegrava-me senti-lo to
leve. Descendo a colina de Srvola, apressei-o at quase a
avenida. Ao chegar ao passeio de Sant'Andrea, j no plano,
diminu-o de novo, sempre com a sensao de grande facilidade.
O ar me carregava.
        Esquecera inteiramente que vinha do funeral de meu amigo
mais ntimo. Tinha o passo e a respirao de um vitorioso.
E a minha alegria pela vitria era uma homenagem ao meu
pobre amigo em cujo interesse eu descera  lia.
        Fui at o escritrio para ver as cotaes do fechamento.
Estavam um pouco mais baixas, mas no o suficiente para me
fazerem perder a confiana. Estava determinado a continuar
especulando e no tinha dvida de atingir o mu objetivo.
        Fui finalmente  casa de Ada. Augusta veio abrir a porta.
Perguntou de chofre:
        - Como  que voc foi faltar ao enterro, logo voc, o nico
homem da famlia?
        Depus o guarda-chuva e o chapu e um tanto embaraado
disse-lhe que queria falar na presena de Ada para no ter
que repetir a histria. Contudo, podia assegurar-lhe que tinha
minhas razes para faltar ao enterro. J no me sentia to
seguro e de repente comecei a sentir dor nas costas, talvez
pelo cansao. Deve ter sido a observao de Augusta que
me fez duvidar de que me desculpassem pela ausncia, a qual
certamente causara escndalo; estava mesmo a ver a todos
os participantes do servio fnebre distrados de sua dor
para perguntar onde me metera eu.
        Ada no apareceu. Depois, soube que sequer fora avisada
de que eu a esperava. Fui recebido pela Sra. Malfenti, que
comeou a me falar com uma expresso severa, como jamais
lhe havia visto. Comecei por me desculpar, mas estava longe
da segurana com que voltara do cemitrio para a cidade.
Gaguejava. Contei-lhe algo de menos verdadeiro em apndice
 verdade, que era a minha corajosa iniciativa na Bolsa em
favor de Guido, ou seja, que tive de expedir um telegrama
a Paris pouco antes da hora do funeral, no podendo afastar-me
do escritrio antes de receber a resposta. Era verdade

362 363

que eu e Nilini telegrafamos a Paris, mas dois dias antes, e
dois dias antes havamos recebido a resposta. Em suma,
compreendia que a verdade no bastava para me desculpar, at
porque eu no podia diz-la toda e contar as operaes to
importantes que h dias eu esperava, ou seja, a possibilidade
de regular ao meu desejo os cmbios mundiais. Contudo, a
Sra. Malfenti desculpou-me quando ouviu a cifra a que agora
se reduzira o prejuzo de Guido. Agradeceu-me com lgrimas
nos olhos. Eu era de novo no o nico homem da famlia,
mas o melhor.
        Pediu-me que viesse  noite com Augusta para estar com
Ada a quem nesse meio tempo contaria tudo. Ela no estava
em condies de receber ningum no momento. E eu de bom
grado fui embora com minha mulher. Esta, no entanto, antes
de deixar a casa, sentiu necessidade de se despedir da irm,
que passava do pranto desesperado a um abatimento que a
impedia de dar acordo da presena de quem lhe falava.
        Tive uma esperana:
        -        Ada ento no deu pela minha ausncia?
        Augusta confessou-lhe que no me queria contar, mas Ada
demonstrara um ressentimento excessivo pela minha falta.
Exigira explicaes de Augusta e quando esta lhe disse no
saber de nada por no me ter visto ainda ela se abandonou
de novo ao seu desespero, gritando que Guido tinha que
acabar assim, odiado por toda a famlia.
        Eu achava que Augusta devia ter-me defendido, recordando
a Ada que sempre estive pronto para socorrer Guido da
maneira como devia. Se me tivessem ouvido, Guido no teria
motivo algum para tentar ou simular suicdio.
        Augusta, no entanto, havia calado. Comovida pelo
desespero de Ada, temera ultraj-la se armasse uma discusso. Alm
disto, confiava em que as explicaes da Sra. Malfenti
convenceriam Ada da injustia que ela me fazia. Devo dizer que
tambm eu confiava; confesso igualmente que naquele
momento saboreei a certeza de assistir  surpresa de Ada e s
suas manifestaes de gratido. Com ela agora, por causa do
Basedow, tudo era excessivo.
        Retornei ao escritrio, onde soube que de novo havia na
Bolsa uma leve tendncia de alta, levssima, mas o bastante
para que se pudesse esperar, na abertura do dia seguinte, as
cotaes daquela manh.
        Aps o jantar tive que ir  casa de Ada sozinho pois
Augusta se viu impedida de me acompanhar por uma
indisposio da pequena. Fui recebido pela Sra. Malfenti, que se disse
ocupada num servio na cozinha, deixando-me a ss com
Ada. Depois, confessou que Ada lhe pedira para deix-la s
comigo, j que queria dizer-me algo que no podia ser ouvido
pelos outros. Antes de deixar-me na saleta onde por duas
vezes me encontrara com Ada, a Sra. Malfenti declarou
sorrindo:
        - Sabe, ela ainda no est disposta a perdoar sua ausncia
no funeral de Guido, mas. . . est quase!
        Naquele pequeno cmodo o corao sempre me batia. Desta
vez no pelo temor de me ver amado por quem eu no amava.
H poucos instantes, e s pelas palavras da Sra. Malfenti,
reconhecera haver cometido uma grave falta para com a
memria do pobre Guido. A prpria Ada, que j sabia que para
desculpar-me daquela ausncia eu lhe oferecia um patrimnio,
no saberia perdoar-me de imediato. Eu me sentara e olhava
os retratos dos pais de Guido. O velho Cada Volta mostrava
um ar de satisfao que me parecia devido a meu milagre,
ao passo que a me de Guido, mulher magra vestida com um
traje de mangas abundantes e um chapeuzinho equilibrado sobre
uma montanha de cabelos, revelava um ar muito severo.
Mas,  isso! Todo mundo diante da mquina fotogrfica
assume outro aspecto, e olhei para o lado, indignado comigo
mesmo por perscrutar aqueles rostos. A me certamente no
podia ter previsto que eu no assistiria ao enterro de seu
filho!
        A maneira como Ada me falou constituiu para mim dolorosa
surpresa. Deve ter estudado bastante o que dizer-me e
no deu importncia s minhas explicaes, aos meus protestos
e s minhas retificaes, que ela no podia ter previsto e para
as quais no estava preparada. Correu o tempo todo como
um cavalo espavorido, at cansar.
Entrou vestida simplesmente com uma camisola negra, a
cabeleira bastante desgrenhada e como emaranhada por dedos
que estivessem nervosamente  procura de algo que lhes con-

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tivesse o nervosismo. Chegou-se  mesinha junto  qual eu me
achava sentado e apoiou-se nela com as mos para me fitar
mais de perto. Seu rosto estava de novo emagrecido e isento
daquela estranha sade que lhe crescia fora do lugar. No
era bela como quando Guido a conquistara, contudo ningum,
ao v-la, se lembraria da doena. Desaparecera! Havia em
seu rosto uma dor profunda que o realava todo. Eu
compreendia to bem aquela dor que no conseguia falar. Enquanto a
olhava, ia pensando: "Que palavras poderei dizer, mais
significativas do que tom-la fraternalmente em meus braos
para confort-la e permitir que chore a desabafar?" Depois,
quando me senti agredido, quis reagir, mas de maneira to
dbil que ela nem me ouviu.
        Falou, falou sem parar, e no sei repetir todas as suas
palavras. Se no me engano, comeou por agradecer seriamente,
mas sem calor, tudo o que eu fizera por ela e as
crianas. Logo, porm, reprovou-me:
        - Voc acabou fazendo com que ele morresse por uma
causa que no valia a pena!
        Baixou a voz como se quisesse manter em segredo aquilo
que me dizia e em sua voz apareceu um pouco mais de calor,
um calor que resultava de seu afeto por Guido e (ou assim
me pareceu?) tambm por mim:
        - E eu o desculpo por no ter vindo ao enterro. Voc
no podia faz-lo e eu perdo. Ele tambm o desculparia se
estivesse vivo. Que haveria voc de fazer naquele enterro?
Voc, que no gostava dele! Bom como voc , poderia chorar
por mim, pelas minhas lgrimas, mas no por ele que voc
odiava! Pobre Zeno! Meu pobre irmo!
        Era incrvel que me pudesse dizer semelhante coisa,
alterando desta forma a verdade. Protestei; ela no ouviu. Creio
ter gritado, pelo menos senti o esforo na garganta:
        - Mas  um erro, uma mentira, uma calnia. Como voc
pode acreditar numa coisa destas?
        Continuou sempre em voz baixa:
        - Mas eu tambm no soube am-lo. Nunca o tra, nem
mesmo em pensamento, mas sentia que no tinha fora para
proteg-lo. Eu via a sua vida conjugal e a invejava. Parecia-me
melhor do que aquela que ele me oferecia. Fico-lhe grata
por no ter comparecido ao enterro, porque de outra forma
no teria compreendido o que s hoje consegui. Agora, ao
contrrio, vejo e compreendo tudo. At que eu no amava o meu
marido: se no, por que haveria de odiar inclusive seu violino,
a expresso mais completa de seu grande esprito?
        Foi ento que apoiei a cabea sobre o brao e ocultei o
meu rosto. As acusaes que me dirigia eram to injustas que
no se podia discutir, e tambm a sua irracionalidade era to
mitigada pelo tom afetuoso que a minha reao no podia
ser spera como devia, para se fazer vitoriosa. Alm do mais,
Augusta j me dera o exemplo de um silncio respeitoso para
no ultrajar nem exasperar tamanha dor. Quando, no entanto,
meus olhos descerraram, vi na obscuridade que suas
palavras haviam criado um mundo novo, tal como todas as
palavras no verdadeiras. Pareceu-me perceber que tambm eu
sempre odiara Guido e que vivera a seu lado, assduo,  espera
de poder golpe-lo. Em seguida, ela mencionava o violino...
Se no soubesse que ela andava s cegas entre a dor e o remorso,
teria acreditado que aquele violino fora tirado da
caixa como uma parte de Guido para convencer meu esprito
da acusao de dio.
        Depois, na escurido, revi o cadver de Guido, e sempre
estampado em seu rosto o estupor de estar ali, privado da vida.
Espavorido contra a testa. Era prefervel enfrentar a
acusao de Ada, que eu sabia injusta, do que fitar a escurido.
        Ela continuava a falar de mim e de Guido:
        - E voc, pobre Zeno, sem saber, continuava a viver ao
lado dele, odiando-o. Servia-o por amor a mim. No era
possvel! Tinha que acabar assim! Eu mesma pensei certa vez
em aproveitar do amor que voc conservava por mim para
aumentar em torno dele a proteo que lhe podia ser til.
Mas ele s poderia ser protegido por quem o amava, e entre
ns ningum o amou.
        - Que mais podia ter feito por ele? - perguntei, chorando
grossas lgrimas, para fazer sentir a ela e a mim mesmo a
minha inocncia. As lgrimas s vezes substituem o grito. Eu
no queria gritar e estava indeciso sobre se devia falar.
Contudo, tinha de superar suas asseres e chorei.

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        - Salv-lO, caro irmO, um de ns devia salv-lo. Em
vez disso, eu que estava ao lado dele no soube faz-lo por
me faltar o verdadeiro afeto, e voc permaneceu  parte,
distante, sempre ausente, at mesmo no dia do enterrO. s ento
voc apareceu, seguro, armado de seu afeto. Mas antes no
se preocupou com ele. E foi em sua companhia que ele ficou
at a noite. E voc bem podia imaginar, se se preocupasse
com ele, que alguma coisa de grave estava para acontecer.
        Embora as lgrimas me impedissem de falar, murmurei
qualquer coisa que devia estabelecer o fato de que ele havia
passado a noite anterior a divertir-se nos charCOS, e que
ningum no mundo poderia prever que uso ele faria da noite
seguinte.
        - Ele sentia necessidade de caar, sentia realmente! -
exproboume em voz alta. Em seguida, como se o esforo
daquele grito tivesse sido superior s suas foras, desfaleceu
de todo e caiu sem sentidos sobre o pavimento.
        Recordo-me de que por um instante hesitei em chamar a
Sra. Malfenti. Pareceu-me que o desfalecimento poderia revelar
algo do que ela me dissera.
        Mas a Sra. Malfenti e Alberta acorreram logo. A Sra.
Malfenti, amparando Ada, perguntou-me:
        - Estiveram falando sobre aquelas malditas operaes da
Bolsa? - E logo: - o segundo desmaio que teve hoje!
        Pediu-me que me afastasse por um instante; sa pelo
corredor onde fiquei  espera para saber se devia voltar  saleta ou
ir embora. Preparavame para explicaes ulteriOreS com Ada.
Ela se esquecia de que, se tivesse procedido da maneira que
eu lhe propusera, a desgraa seguramente teria sido evitada.
Bastaria dizer-lhe isto e a convenceria da sua injustia para
comigo.
        Pouco depois, a Sra. Malfenti veio ter comigo, disse-me que
Ada recuperara os sentidos e queria despedir-se de mim.
Repousava no div sobre o qual ainda h pouco eu estava
sentado. Vendo-me, comeou a chorar, e foram as primeiras
lgrimas que a vi derramar. Estendeu-me a pequena mo
pOrejada de suor:
        -        Adeus, caro Zeno! peo-lhe que no se esquea!
Recorde sempre! No se esquea!
        InterveiO ento a Sra. Malfenti para perguntar o que ela
queria que eu recordasse; informei que Ada queria que fosse
imediatamente procedida a liquidao de todas as posies
de Guido na Bolsa. Corei com esta mentira e cheguei a temer
um desmentido por parte de Ada. Em vez disso, ps-se a dizer
com voz forte:
        - Sim, isto mesmo! Tudo  para ser liquidado! Nunca
mais quero ouvir falar dessa terrvel Bolsa!
        Estava novamente mais plida e a Sra. Malfenti, para
acalm-la, assegurou-lhe que tudo seria feito imediatamente
conforme ela queria.
        Em seguida, a Sra. Malfenti acompanhou-me  porta e
pediu-me que no precipitasse as coisas: fizesse da
maneira que achasse melhor para os interesses de Guido. Respondi
que no me arriscaria mais. O risco era enorme e no podia
mais ousar tratar daquela maneira os interesses de outrem.
No acreditava mais no jogo da Bolsa ou pelo menos me
faltava confiana de que minha especulao pudesse regular
seu andamento. Devia, pOIS, liquidar tudo, satisfeito de que
as coisas seguissem esse rumo.
        No transmiti a Augusta as palavras de Ada. Para que
afligi-la? Aquelas palavras, porm, talvez porque no as tivesse
transmitido a ningum, continuaram a martelar nos meus
ouvidos e me acompanharam por longos anos. Ressoam at hoje
em minha alma. Com freqncia ainda hoje as analiso. No
posso afirmar que tivesse afeio por Guido, mas a culpa cabia
quele estranho homem. Contudo, permaneci a seu lado como
um irmo e assisti-o no que me foi possvel. No mereo a
reprovao de Ada.
        Nunca mais me encontrei a ss com ela. Ela no sentiu
necessidade de me dizer mais nada, nem ousei exigir-lhe uma
explicao, talvez para no reavivar a dor.
Na Bolsa a coisa acabou como previstOs e o pai de GuidO,
depois do primeiro telegrama em que lhe fora comunicado
que perdera todo o seu capital, teve certamente o prazer de
recuperar a metade. Obra minha, que no me deu a satisfao
que eu esperava.
        Ada tratou-me afetuosamente at a sua partida para Buenos
Aires, para onde foi com os gmeos viver junto  famlia

368 369

do marido. Gostava de estar conosco, comigo e Augusta.
Cheguei a imaginar certa vez que todo aquele discurso no
passara de um mpeto da dor num momento de loucura e que
ela j nem se lembrava dele. No entanto, certa vez, quando
se falou de Guido em nossa presena, ela repetiu e confirmou
em duas palavras tudo aquilo que me dissera naquele dia:
        - Ningum gostava dele, coitadinho!
        No momento de embarcar, tendo no brao um dos meninos
meio indisposto, deu-me um beijo de despedida. Depois,
quando por um momento ningum estava ao nosso lado, ela disse:
        - Adeus, Zeno, meu irmo. Sempre me lembrarei de que
no soube am-lo como devia. Quero que saiba!  com
satisfao que vou para longe. Parece que assim me afasto de
meus remorsos!
        Censurei-a por se martirizar assim. Disse que fora uma
boa esposa, coisa que eu sabia e podia testemunhar. No sei
se consegui convenc-la. No falou mais, vencida pelos
soluos. Muito tempo depois, senti que, despedindo-se de mim,
ela queria renovar com aquelas palavras inclusive as
reprovaes que me fizera. Mas sei que no me julgou com justia.
Sem dvida, no tenho do que me penitenciar por no ter
querido bem a Guido.
        O dia estava turvo e feio. Parecia que uma nuvem imensa,
apesar de inofensiva, se distendesse para encobrir o cu. 
fora de grandes remadas, tentava sair do porto um grande
barco de pesca cujas velas pendiam inertes dos mastros.
Apenas dois homens remavam e, com inmeros golpes, mal
conseguiam mover o imenso arcabouo. Talvez ao largo
encontrassem uma brisa favorvel.
        Ada, da coberta do vapor, agitava um leno. Depois,
voltou-se de costas. Decerto olhava em direo a Sant'Andrea
onde Guido repousava. Sua silhueta elegante tornava-se mais
perfeita quanto mais se distanciava. As lgrimas ofuscavam
meus olhos. a-se sem que jamais lhe pudesse provar minha
inocncia.



8

PSICANALISE


3 de maio de 1915

Acabei com a psicanlise. Depois de hav-la praticado
assiduamente durante trs meses inteiros, sinto-me pior do que a
princpio. Ainda no despachei o doutor, mas minha
resoluo  irrevogvel. Ontem j lhe mandei dizer que estava
impossibilitado de ir  consulta e vou deixa-lo a espera por mais
uns dias. Se estivesse bastante seguro de poder rir dele sem
me irritar, seria at capaz de voltar a v-lo. Tenho medo,
porm, de chegar s vias de fato.
        Nesta cidade, depois que rebentou a guerra, a vida  mais
enfadonha do que antes e, para me recompensar da psicanlise,
volto-me novamente aos meus caros escritos. Havia um ano
que no consignava nenhuma palavra aqui, nisto como em
tudo o mais seguindo obedientemente as recomendaes do
mdico, que achava indispensvel durante o tratamento
fossem as minhas reflexes feitas ao seu lado, pois sem a sua
vigilncia eu estaria reforando os freios que impediam a
minha sinceridade, a minha entrega. Hoje, contudo, acho-me mais
desequilibrado e enfermo do que nunca e, escrevendo, creio
que me livrarei mais facilmente do mal que a cura me
provocou. Pelo menos estou seguro de que este  o verdadeiro
sistema de reatribuir importncia a um passado que j no
di e expulsar o mais rpido possvel o tedioso presente.
        Tal era a confiana com que me havia entregue ao doutor
que, quando ele me declarou curado, acreditei piamente nisto
em vez de acreditar nas dores que continuavam a me achacar.
Dizia a elas: "Vocs no esto a coisa nenhuma!" Agora,
porm, j no h dvida! So elas mesmas! Os ossos de minha
perna se converteram em feixes vibrantes que lesam a carne
e os msculos.

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        Mas eu no dava, na verdade, grande importncia a isso
nem seria esta a razo de abandonar o tratamento. Se as
horas de reflexo junto ao mdico tivessem continuado a ser
portadoras de surpresas e emoes interessantes no o teria
abandonado ou, para abandon-lo, teria aguardado o fim dessa
guerra que me impede qualquer outra atividade. Agora, no
entanto, que conheo o tratamento, quando sei que no passa
de uma tola iluso, de um truque capaz de comover apenas
solteironas histricas, como poderia suportar a companhia
daquele homem ridculo, com um olhar que se pretendia
escrutador e uma presuno que lhe permite agrupar todos os
fenmenos deste mundo em torno de sua grande e nova teoria?
Empregarei o tempo que me resta livre para escrever. Por isso
escreverei sinceramente a histria de minha cura. Toda a
sinceridade entre o doutor e eu havia desaparecido e hoje
respiro aliviado. Nenhum esforo me  mais imposto. No devo
estar constrito a uma f nem preciso simular que a tenha.
Com o propsito de melhor ocultar meu pensamento,
acreditava dever demonstrar-lhe um respeito servil, e ele se
aproveitava disto para inventar todos os dias novas tramas.
Minha cura devia acabar porque minha doena fora
descoberta. Era a mesma que em seu tempo o falecido Sfocles
diagnosticara em dipo: eu amava minha me e queria matar
meu pai.
        Nem por isto me irritei! Ouvia encantado da vida. Era
uma doena que me elevava  mais alta nobiliarquia. Notvel,
cujas origens remontavam aos tempos mitolgicos! E no me
irrita nem mesmo agora, quando estou aqui sozinho, com esta
pena  mo. Rio-me satisfeito. A melhor prova de que eu no
tinha aquela doena decorre do fato de no estar curado. Esta
prova convenceria inclusive o doutor. Ele no precisa
preocupar-se: suas palavras no conseguiram conspurcar a
recordao da minha juventude. Cerro os olhos e vejo imediatamente,
puro, infantil, ingnuo, o amor por minha me, e meu
respeito e grande afeto por meu pai.
        O doutor confia tanto nas minhas benditas confisses que
no quer nem mesmo devolv-las para que as reveja. Meu
Deus! Ele s estudou medicina; por isso no sabe o que
significa escrever em italiano para ns que falamos (e no
sabemos escrever) o dialeto. Uma confisso escrita  sempre
mentirosa. Mentimos em cada palavra toscana que dizemos!
Podemos falar com naturalidade das coisas para as quais
temos frases prontas, mas evitamos tudo quanto nos obrigue
a recorrer ao dicionrio! Dessa mesma forma, escolhemos de
nossa vida os episdios mais notveis. Compreende-se que ela
teria uma feio totalmente diversa se fosse narrada em
dialeto.
        O mdico confessou-me que, em toda a sua longa prtica,
jamais assistira a uma emoo to forte quanto a minha ao
me defrontar com imagens que conseguiu despertar em mim.
Da talvez a sua pressa em me declarar curado.
        E no simulei tal emoo. Foi mesmo uma das mais profundas
que senti em toda a minha vida. Encharquei-me de
suor ao criar essas imagens, chorei de fato ao relembrar as
lgrimas. J adorava a esperana de reviver um dia de
inocncia e ingenuidade. Durante meses e meses essa esperana
ergueu-me e animou-me. No era o mesmo que obter atravs
da lembrana em pleno inverno as rosas de maio? O prprio
doutor assegurava que a lembrana seria ntida e completa,
como se representasse um dia a mais em minha vida. As rosas
conheceriam seu pleno eflvio e quem sabe at mesmo os seus
espinhos.
        Foi assim que,  fora de correr atrs daquelas imagens,
eu as alcancei. Sei agora que foram inventadas. Inventar,
porm,  uma criao, no uma simples mentira. As minhas eram
invenes como as nascidas da febre, que caminham pelo quarto
para que possamos v-las de todos os ngulos, inclusive toc-las.
Tinham a solidez, as cores, a petulncia das coisas vivas. 
fora de desejo, projetei as imagens, que existiam apenas em
meu crebro, no espao em que as guardava, um espao do
qual sentia o ar, as luzes e at os ngulos contundentes, que
no faltaram em nenhum daqueles por onde passei.
        Quando atingi o torpor que deveria facilitar a iluso e que
me parecia no ser mais que a associao de um grande
esforo a uma grande inrcia, acreditei que as imagens fossem
verdadeiras reprodues dos dias longnquos. Teria podido
suspeitar logo de que no eram assim, pois, mal desvaneciam,
eu as recordava, s que sem qualquer excitao ou comoo.

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 Recordava-as como nos recordamos dos fatos que nos so
contados por algum que no os tenha presenciado. Se fossem
verdadeiras reprodues, teria continuado a rir delas e a
chor-las, como no instante em que as tivera. E o doutor
registrava. Dizia: "Conseguimos isto, conseguimos aquilo." Na
verdade, no havamos obtido mais que signos grficos,
esqueletos de imagens.
        Fui levado a crer que se tratava de uma reevocao de
minha infncia, porque a primeira das imagens me colocava
numa poca relativamente recente, da qual eu conservara
antes uma plida recordao que agora parecia confirmar-se.
Houve um ano na minha vida em que eu ia  escola e meu
irmo ainda no. Parecia pertencer a essa poca o momento
agora evocado. Eu me via sair de casa pela manh ensolarada
de primavera, passar pelo jardim para descer em direo 
cidade, l embaixo, levado pela mo de nossa velha criada
Catina. Meu irmo no aparecia na cena evocada por mim,
mas era o personagem principal. Eu o sabia em casa, livre e
feliz, enquanto eu ia  escola. Eu caminhava com soluos na
garganta, o passo relutante, levando na alma intenso rancor.
No visualizei seno uma dessas idas  escola; contudo, o
rancor de minha alma me dizia que todos os dias eu ia 
escola e todos os dias meu irmo ficava em casa. Isso ao
infinito, embora, na realidade, creia que, aps no longo
tempo, meu irmo, mais novo do que eu apenas um ano, deve
tambm ter entrado na escola. Mas a verdade do sonho me
parecia indiscutvel: eu estava condenado a ir sempre 
escola, enquanto meu irmo tinha licena para ficar em casa.
Caminhando ao lado de Catina calculava a durao da tortura:
at o meio-dia! E ele em casa! Recordava tambm que
nos dias precedentes eu fora perturbado na escola por ameaas
e reprovaes e que naquela ocasio tambm pensara:
nele no podem tocar. Era uma viso de enorme evidncia.
Catina, que eu sabia baixinha, me aparecia imensa, certamente
porque eu era pequenino. Parecia-me igualmente velhssima, mas
sabe-se que os muito jovens vem sempre como velhas as pessoas
adultas. E no caminho que eu devia percorrer para chegar
 escola, distinguia as pequenas e estranhas colunas que
naquele tempo marginavam os passeios de nossa cidade. De
fato, em adulto cheguei a ver ainda aquelas coluninhas em
nossas ruas centrais; mas as do caminho que percorri naquele
dia com Catina j haviam desaparecido, mal sa da infncia.
        A f na autenticidade de tais imagens perdurou na minha
alma at mesmo quando, estimulada pelo sonho, minha fria
memria descobriu outros pormenores daquela poca. O
principal: meu irmo tambm me invejava por eu ir  escola.
Eu estava seguro de ter notado isto, mas tal tato no bastou
para lanar suspeitas imediatas sobre a veracidade do sonho.
Mais tarde, retirou-lhe qualquer aspecto de verdade: houvera
inveja,  certo, mas no sonho ela aparecia deslocada.
        A segunda viso reportou-me igualmente a uma poca
recente, se bem que muito anterior  da primeira: um quarto
da casa em que eu vivia, no sei qual, pois muito mais amplo
do que qualquer dos existentes.  estranho que me visse
encerrado no quarto e logo percebi um detalhe que no podia
resultar simplesmente da viso: o quarto era distante do lugar
em que ento dormiam minha me e Catina. E um segundo:
eu ainda no estava na escola.
        O quarto era inteiramente branco, como jamais vi outro
igual, e completamente iluminado pelo sol. Ser que aquele
sol atravessava as paredes? J devia andar alto, mas eu
ainda me achava na cama com uma chvena  mo, da qual
havia bebido todo o caf com leite e na qual continuava a
mexer com uma colherinha raspando o acar. Em certo
ponto, a colhernha j no conseguia trazer mais nada e eu
tentava alcanar o fundo da chvena com a lngua e no
conseguia. Acabei por ficar com a chvena numa das mos
e a colherinha na outra, olhando para meu irmo, que estava
deitado na cama ao lado da minha e vagarosamente ainda
sorvia o seu caf, o nariz enfiado na xcara. Quando
finalmente ergueu o rosto, vi-o como se estivesse contrado por
causa dos raios de sol. que lhe davam em cheio, ao passo
que o meu (Deus sabe por qu) se encontrava na sombra. Seu
rosto estava plido e um pouco enfeado por um leve
prognatismo. Disse-me:
        - Me empresta a sua colher?

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        Percebi ento que Catina se esquecera de lhe trazer a
colher. Sbito e sem qualquer hesitao, respondi:
        - Empresto, mas s se voc me der em troca um pouco de
acar.
        Levantei a colher ao alto para aumentar o seu valor. De
repente, a voz de Catina ressoou no quarto:
        - Que vergonha! Interesseiro!
        O susto e a vergonha fizeram-me recair no presente. Estava
disposto a discutir com Catina, mas ela, meu irmo e eu, tal
como era ento, pequenino, inocente e interesseiro, desaparecemos
mergulhados no abismo.
        Arrependi-me de ter sentido aquela vergonha de maneira
to forte que chegou a destruir a imagem a que eu chegara
com tanto esforo. Melhor seria se tivesse oferecido
gentilmente e grtis a colherinha, sem tentar discutir minha ao
m, provavelmente a primeira que eu havia cometido. A
talvez Catina chamasse minha me para infligir-me algum
castigo e eu, finalmente, voltasse a v-la.
        Poucos dias depois via-a de fato, ou penso que a vi. Posso
imaginar que foi uma iluso porque a imagem de minha me,
tal como a evocara, assemelhava-se muito ao seu retrato, que
tenho  minha cabeceira. Devo, porm, confessar que na
apario ela se movia como uma pessoa viva.
        Sol, muito sol, a ponto de ofuscar! Era tanto o sol que
me chegava da imagem dessa minha juventude que era
difcil duvidar no viesse dela prpria. A sala de jantar nas horas
vespertinas. Meu pai, de volta a casa, est sentado a um sof
junto de minha me, que imprime com uma tinta indelvel
as iniciais na roupa branca espalhada sobre a mesa, ao lado
da qual se senta. Eu estou embaixo da mesa, a brincar com
bolinhas de gude. Aproximo-me cada vez mais de minha me.
Provavelmente a querer que ela participe de minhas
brincadeiras. Num dado ponto, para erguer-me dali agarro as pontas
da toalha que pendem da mesa e acontece o desastre. O
tinteiro cai na minha cabea, derrama-se pelo meu rosto e
roupas, pela saia de mame e vai respingar levemente tambm as
calas de papai. Este ergue uma perna para acertar-me um
pontap...
        Retorno a tempo de minha longa viagem e me encontro
seguro aqui, adulto, velho. Mas devo confess-lo: por um
instante sofri com a ameaa da punio e logo aps lamentei
no ter podido assistir ao gesto de proteo que sem dvida
ter partido de minha me. Quem pode deter essas imagens
quando comeam a fugir atravs de um tempo que jamais
foi to semelhante ao espao? Tal era o conceito que dele
tinha, quando acreditava na autenticidade daquelas imagens!
Agora, infelizmente (oh! quanto o lamento!), no creio mais
nelas e sei que no eram as imagens que fugiam, mas os meus
olhos enevoados, abertos de novo para o verdadeiro espao
em que no h lugar para fantasmas.
        Contarei agora sobre as imagens de um outro dia, s quais
o doutor atribuiu tamanha importncia que me considerou
curado.
        Na sonolncia a que me entregara, tive um sonho em que
havia a imobilidade dos pesadelos. Sonhei que voltara a ser
criana para descobrir como eu sonhava em pequeno. Jazia
mudo, presa de uma alegria que penetrava o meu minsculo
organismo. Parecia-me haver finalmente alcanado o meu
antigo desejo. Contudo, permanecia ali, sozinho e
abandonado! E via e sentia com aquela nitidez com que nos sonhos
vemos e sentimos at mesmo as coisas longnquas. A criana,
deitada num quarto da minha casa, via (Deus sabe como) que
sobre o telhado da mesma havia uma priso construda sobre
bases muito slidas, desprovida de portas e janelas, mas iluminada
por quanta luz se possa imaginar e abastecida de ar
puro e perfumado. O menino sabia que somente ele era capaz
de chegar quela masmorra, e para tanto nem precisava andar,
pois ela podia vir a ele. Em seu interior s havia um mvel,
uma poltrona, na qual se achava sentada uma bela mulher,
de formas delicadas, vestida de negro, loura, com grandes
olhos azuis, as mos alvssimas, e os pequeninos ps metidos
em sapatos de verniz, dos quais, por baixo do vestido, se via
apenas um leve reflexo. Devo dizer que essa mulher constitua
para mim um todo, com seu vestido preto e seus sapatos de
verniz. Ela era tudo! E o menino sonhava possuir a mulher,
da maneira mais estranha possvel: estava certo de que podia
com-la aos pedacinhos desde o vrtice at a base.

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        Agora, pensando nisto, fico admirado de que o mdico
que leu, segundo disse, com tamanha ateno
este manuscrito no se tenha lembrado do meu sonho, antes de ir ao
encontro de Carla. Algum tempo depois, quando voltei a
pensar no caso, pareceu-me que este sonho no passava de
uma variao do anterior, realizada de forma mais infantil.
        Em vez disto, o doutor registrou cuidadosamente tudo, e,
em seguida, perguntou-me com ar um tanto sonso:
-        Sua me era loura e bonita?
        Fiquei surpreso com a pergunta e respondi que minha av
tambm o fora. Para ele, porm, eu estava curado, bem curado.
Escancarei a boca para me alegrar com ele do resultado e
adaptei-me a tudo quanto se seguiria, ou seja, no mais indagaes,
pesquisas, meditaes, mas uma autntica e assdua
reeducao.
        At ento, as sesses haviam sido uma verdadeira tortura
e eu continuava com elas apenas porque sempre me fora
difcil dar fim a uma coisa que tivesse iniciado, ou iniciar
alguma coisa quando estava indeciso. Vez por outra, quando
ele me vinha com alguma que ultrapassava os limites, eu
arriscava uma objeo. No era nada certo - como ele
imaginava - que todas as minhas palavras, todos os meus pensamentos
fossem os de um delinqUente. Ele arregalava os
olhos. Eu estava curado e no queria admiti-lo! Mas que
cegueira a minha!. Ele me mostrara que eu desejava fugir com a
mulher de meu pai - minha me! - e no me sentia curado?
Obstinao inaudita a minha: o doutor, porm, admitia uma
cura mais completa, quando terminasse a minha reeducao,
em conseqncia da qual eu me habituaria a considerar
aqueles atos (o desejo de assassinar o pai e possuir a prpria me)
como coisas inocentssimas, pelas quais no precisava sofrer
remorsos, porque ocorriam freqentemente nas melhores
famlias. Afinal, que mal me podiam causar? Um dia, disse-me
que eu no passava de um convalescente que ainda no se
acostumara a viver sem febre. Pois bem: haveria de me acostumar.
        Ele sentia que ainda no me havia dominado de todo e,
apesar da reeducao, voltava, de tempos em tempos, ao
tratamento. Tentava novamente os sonhos, mas no tivemos mais
nenhum autntico. Aborrecido com tanta espera, acabei por
inventar um. No o teria feito, se pudesse prever a dificuldade
de semelhante simulao. No  nada fcil balbuciar como
se estivssemos imersos num meio-sono, cobrir-nos de suor
ou empalidecer, no nos trair, eventualmente ficarmos
vermelhos, pelo esforo, e no corar: falei como se me dirigisse
 mulher da priso e tentasse convenc-la a introduzir o p
atravs de um buraco que repentinamente se abriu na parede,
a fim de que eu o pudesse chupar e comer. "O esquerdo,
o esquerdo!", murmurei, introduzindo na viso um detalhe
curioso, para faz-la mais parecida com os sonhos precedentes.
Demonstrava desse modo ter compreendido perfeitamente
a doena que o mdico exigia de mim. O dipo infantil devia
ser exatamente assim: sugava o p esquerdo da me para
deixar o direito ao pai. Em meu esforo de imaginar fatos
autnticos (e aqui no se trata de uma contradio), acabei por
enganar-me a mim mesmo, sentindo o sabor daquele p. Quase
cheguei a vomitar.
        No s por causa do doutor; eu prprio queria ainda a
visita das queridas imagens de minha juventude, autnticas
ou no tanto, mas que eu no tinha necessidade de construir.
Visto que junto ao doutor j no me vinham, tentei evoc-las
na ausncia dele. Sem ele, corria o perigo de no consign-las;
contudo, j no me preocupava o tratamento! Queria eram
as rosas de maio em pleno inverno! J as tivera uma vez;
por que no haveria de reav-las?
        Mesmo na solido me aborrecia bastante; depois, porm,
em vez das imagens veio-me qualquer coisa que por algum
tempo as substituiu. Estava simplesmente convencido de que
fizera uma importante descoberta cientfica. Acreditei-me
incumbido de completar todas as teorias das cores fisiolgicas.
Meus predecessores, Goethe e Schopenhauer, jamais
imaginaram aonde se poderia chegar, manejando habilmente as cores
complementares.
         preciso saber que eu passava meu tempo estirado num
sof de frente para a janela de meu estdio, da qual via um
trecho do mar e do horizonte. Eis que numa tarde, ao pr-do-
sol, com o cu colorido em que as nuvens se espalhavam,
abandoneime demoradamente a admirar numa nesga lmpida
uma cor magnfica, um verde puro e suave. No cu havia

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tambm, em grande quantidade, uma colorao encarnada,
na fmbria das nuvens no poente, um vermelho-plido,
descorado pelos raios diretos e fortes do sol. Ofuscado, aps um
intervalo de tempo, fechei os olhos e vi que o verde tinha
chamado a minha ateno, o meu afeto, porque na minha
retina se produzia a sua cor complementar, um vermelho-brilhante
que nada tinha a ver com o vermelho-luminoso,
embora plido, do cu. Observei, acariciei aquela cor
fabricada por mim. Tive uma grande surpresa quando, ao abrir
os olhos, vi aquele vermelho-flamejante invadir todo o cu
e cobrir at o verde-esmeralda, que por longo tempo no
enxerguei mais. Com que ento eu descobrira o modo de tingir
a natureza! Naturalmente a experincia foi repetida por mim
muitas outras vezes. O melhor  que havia at movimento
naquela colorao. Quando reabria os olhos, o cu no
aceitava logo a cor de minha retina. Ocorria mesmo um
instante de hesitao, durante o qual chegava ainda a rever o
verde-esmeralda que havia gerado aquele vermelho pelo qual
seria destrudo. Este surgia do fundo, inesperado, e se
dilatava como um incndio pavoroso.
        Ao adquirir certeza da exatido de minhas observaes,
comuniquei-as ao mdico na esperana de reavivar nossas
sesses to aborrecidas. O doutor acabou logo com a histria,
dizendo que minhas retinas eram hipersensveis por causa da
nicotina. Quase deixei escapar que, neste caso, at as imagens
que atriburamos a acontecimentos de minha juventude
tambm podiam perfeitamente ser derivadas dos efeitos desse
veneno. Assim, porm, lhe revelaria no estar curado e ele
quereria induzir-me a recomear o tratamento desde o
princpio.
        No entanto, o idiota nem sempre me tratou como se eu
estivesse intoxicado. A prova est inclusive na reeducao
preconizada por ele para curar-me da doena que atribua ao
fumo. Eis as suas palavras: o fumo no me fazia mal e, se
me convencesse que era incuo, ele realmente passaria a s-lo.
E continuava: agora que as relaes com meu pai tinham sido
analisadas  luz do dia e apresentadas ao meu julgamento de
adulto, podia compreender que adquirira aquele vcio para
poder competir com meu pai, e que a atribuio de um efeito
venenoso ao tabaco fora feita por um ntimo sentimento
moral, desejoso de punir-me por haver competido com meu
pai.
        Nesse dia, deixei o consuLtrio do mdico fumando como
um turco. Tratava-se de submeter-me a uma prova e prestei-me
de bom grado a isso. Durante todo o dia fumei ininterruptamente.
Seguiu-se da uma noite inteiramente insone. Minha
bronquite crnica voltou a manifestar-se e dela eu no podia
duvidar, pois que era fcil descobrir suas conseqncias na
escarradeira.
        No dia seguinte, contei ao doutor que fumara muito e que
j no me importava com isso. O mdico olhou-me sorridente
e adivinhei que seu peito se inflava de orgulho. Retomou
com calma a minha reeducao! Procedia com a segurana
de ver florir cada torro sobre o qual punha o p.
        Dessa reeducao pouco me recordo. Submeti-me a ela,
e, quando saa do consultrio, sacudia-me como um co que
sai da gua e fica mido, mas no encharcado.
        Recordo, no entanto, com indignao que o meu educador
admitia ter o Dr. Coprosich razo ao dirigir-me as palavras
que me provocaram tanto ressentimento. Com que ento eu
havia at mesmo merecido a bofetada que meu pai quis
dar-me ao morrer? No sei se ele teria dito tambm isto. Sei,
porm, com certeza que me atribua dio tambm ao velho
Malfenti, a quem eu entronizara no 'lugar de meu pai. H
muita gente neste mundo que no consegue viver sem um
afeto; eu, ao contrrio, segundo ele, perdia o equilbrio
emocional se me faltava uma razo de dio. Casei-me com uma ou
outra das filhas do velho, sendo-me indiferente qualquer uma
delas, porque meu objetivo era colocar o pai delas num
Lugar onde meu dio o pudesse alcanar. Depois aviltei a casa
que fizera minha com todo o meu requinte. Tra minha mulher
e  evidente que, se tivesse conseguido, seduziria Ada e
mesmo Alberta. Naturalmente que no procuro neg-lo, e at
tive vontade de rir quando o mdico, ao dizer-me isto,
assumiu uma atitude de Cristvo Colombo descobrindo a Amrica.
No entanto, acho que ele h de ser a nica pessoa
neste mundo, percebendo que eu queria ir para a cama com

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duas belssimas mulheres, capaz de perguntar: - Vejamos
por que ele quer ir para a cama com elas.
        Foi para mim mais difcil suportar o que teve a ousadia
de me dizer sobre as minhas relaes com Guido. Deduzira
de meu prprio relato a antipatia que acompanhou o incio
de meu relacionamento com este. Tal antipatia, segundo o
mdico, jamais cessou e Ada tinha razo em ver na minha
ausncia do funeral a sua ltima manifestao. No
percebeu que eu estava ento entregue  minha obra de amor para
salvar o patrimnio de Ada, nem me dignei recordar-lhe isto.
        Parece que ele andou fazendo algumas indagaes a
propsito de Guido. Admitiu que, tornando-se o eleito de Ada,
no podia ser como eu o descrevera. Descobriu que um
imenso depsito de madeiras, vizinho  casa onde praticvamos a
psicanlise, pertencia  firma Guido Speier & Cia. Por que
eu no lhe falara sobre isto?
        Se o tivesse feito, teria que enfrentar uma nova dificuldade
na minha exposio j um tanto difcil. Esta omisso no
passa de uma prova de que uma confisso feita por mim em
italiano no podia ser nem completa nem sincera. Num
depsito de madeiras h enorme variedade de espcies que ns
em Trieste designamos por barbarismos tomados ao dialeto,
ao croata, ao alemo e s vezes at ao francs (zapin, p. ex.,
nada tem a ver com sapin). Quem me forneceria o
verdadeiro vocabulrio? Velho como sou, conseguiria arranjar um
emprego com um comerciante de madeiras toscano? Alm
do mais, o depsito de madeiras da firma Guido Speier &
Cia. no deu seno prejuzo. Tambm dele nada teria o que
dizer, pois permaneceu inativo, salvo quando foi visitado pelos
ladres que fizeram desaparecer aquelas madeiras de nomes
estranhos, como se estivessem destinadas  construo de
mesas para sesses espritas.
        Propus ao doutor que obtivesse informaes sobre Guido
atravs de minha mulher, de Carmen, ou mesmo de Luciano,
que era um grande comerciante conhecido de todos. Segundo
me consta, ele no se dirigiu a nenhum destes, e devo
acreditar que se absteve por medo de ver ruir com tais informaes
todo o edifcio de acusaes e suspeitas que erguera
contra mim. Quem sabe o motivo de me votar tamanho dio?
Decerto no passava de um grande histrico que, tendo
desejado a me em vo, se vingava em quem nada tinha a
ver com isso.
        Acabei por me sentir muito cansado da luta que era
obrigado a manter com o mdico a quem pagava. Creio que
mesmo aqueles sonhos no me haviam feito bem, e a liberdade
de fumar quando bem quisesse acabou por dar cabo de mim.
Tive uma boa idia: fui ver o Dr. Paoli.
        H muitos anos que no o via. Encanecera um pouco, mas
sua figura avantajada no se deformara com a idade, no estava
obeso nem curvado. Continuava a olhar as coisas como se as
acariciasse. Desta vez descobri por que sempre me dava essa
impresso.  que ele tem prazer no simples ato de olhar, e
        as coisas, as belas como as feias, com a mesma satisfao
com que os outros acariciam.
        Fui ao seu consultrio com o propsito de perguntar se eu
devia continuar as sesses de psicanlise. Quando, porm, me
vi diante daquele olhar, friamente inquisitivo, no tive
coragem. Talvez fizesse papel ridculo, contando-lhe que, na minha
idade, eu me havia deixado arrastar por uma charlatanice
daquelas. Desagradou-me ter que calar, pois, se o Dr. Paoli me
tivesse proibido a psicanlise, minha posio ficaria bastante
simplificada; contudo, haveria de desagradar-me ainda mais
ver-me acariciado um longo tempo por aquele olhar.
        Contei-lhe sobre as minhas insnias, minha bronquite
crnica, uma erupo na face que agora me afligia, certas dores
Lancinantes nas pernas e, finalmente, sobre minha estranha falta
de memria.
        Dr. Paoli examinou minha urina em minha presena. A
mistura coloriu-se de negro e o mdico ficou pensativo. Era
finalmente uma anlise de fato, no uma psicanlise. Recordei-me
com emoo e simpatia de meu remoto passado de qumico a
fazer anlises semelhantes; eu, um tubo de ensaio e um re-
agente! O outro, analisado, dorme at o momento em que o
reagente ir imperiosamente despert-lo. No existe resistncia
no interior do tubo ou, pelo menos, ela cede  menor
elevao da temperatura; tambm no h lugar para simulaes.
Naquele tubo nada ocorria que pudesse recordar minha atitude
de agradar o Dr. S., inventando novos pormenores de minha
infncia, que iriam confirmar o diagnstico de Sfocles. Aqui,

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ao contrrio, tudo era autntico. O corpo a ser analisado estava
preso no interior de um tubo e, sempre igual a si mesmo,
esperava o reagente. Toda vez que este ocorria, a reao era a
mesma. Na psicanlise nunca se repetem as mesmas imagens
nem as mesmas palavras. Seria preciso dar-lhe outro nome.
Chamemo-la aventura psquica. Isto mesmo: quando
semelhante anlise tem incio,  como se entrssemos num bosque
sem saber se vamos topar com um bandido ou um amigo.
Tampouco se sabe, depois de passada a aventura. Nisto a psicanlise
lembra o espiritismo.
        O mdico no acreditava que se tratasse de acar. Queria
voltar a me examinar no dia seguinte, depois de submeter o
lquido  polarizao.
        Eu, no entanto, sa do consultrio glorioso, carregado de
diabete. Estive prestes a procurar o Dr. S. para perguntar-lhe
como ele analisaria agora no meu interior as causas de tal
doena, a fim de extermin-las. Mas j estava farto daquele
indivduo e no queria rev-lo nem mesmo para goz-lo.
        Devo confessar que o diabete foi para mim de uma grande
doura. Falei dele a Augusta, que logo teve lgrimas nos olhos:
        - Voc tanto falou de doenas durante toda a vida, que
acabou por arranjar uma! - disse; depois tratou de consolar-me.
        Eu amava a minha doena. Recordei com simpatia o pobre
Copler que preferia a doena real  imaginria. Agora,
concordava com ele. A doena real era to simples: bastava
deix-la agir. De fato, quando li num livro de medicina a descrio
de minha doce enfermidade, descobri um programa de
vida (no de morte!) em seus vrios estgios. Adeus
propsitos: era finalmente livre. Tudo seguiria o seu destino sem a
minha interveno.
        Descobri ainda que minha doena era sempre ou quase sempre
muito doce. O enfermo come e bebe muito e no passa
por grandes sofrimentos desde que consiga evitar os abscessos.
Depois, morre num coma docssimo.
        Pouco depois, o Dr. Paoli chamou-me ao telefone.
Comunicou-me no haver trao de acar. Fui ao seu consultrio
no dia seguinte e ele me prescreveu uma dieta que no segui
seno durante alguns dias e uma xaropada que garatujou
numa receita ilegvel e que me fez beber por um ms inteiro.
        - O diabete lhe deu muita preocupao? - perguntou-me
sorrindo.
        Protestei, mas sem lhe revelar, agora que o diabete me havia
abandonado, que eu me sentia muito sozinho. No acreditaria
em mim.
        Foi por essa altura que me caiu nas mos a clebre obra
do Dr. Beard sobre neurastenia. Segui seus conselhos e trocava
de medicao a cada semana, segundo as suas receitas,
que copiei com letra bem legvel. Por alguns meses o tratamento
pareceu-me excelente. Nem mesmo Copler tivera em
vida a to abundante consolao medicinal de que eu agora
dispunha. Depois, passou-me tambm essa f; no entanto, eu
ia adiando cada vez mais o meu retorno  psicanlise.
        Um dia, encontrei por acaso o Dr. S. Perguntou-me se eu
decidira abandonar o tratamento. F-lo de maneira corts,
muito mais do que quando me tinha em suas mos.
Evidentemente, queria agarrar-me de novo. Disse-lhe que tinha
negcios urgentes a tratar, questes de famlia que me ocupavam
e preocupavam, e to logo me encontrasse mais desimpedido
retornaria ao seu consultrio. Queria pedir-lhe que me restituisse
o manuscrito, mas no ousei, teria equivalido a
confessar-lhe que eu no queria mais saber do tratamento. Reservei
uma tentativa semelhante para outra poca, quando ele percebesse
que eu no pensava mais em tratamento e j estivesse
resignado com isto.
        Antes de se despedir de mim, disse algumas palavras
destinadas a reaver-me:
        - Se o senhor examinar seu esprito h de encontr-lo
mudado. Ver que retornar aos meus cuidados, to logo se
aperceba de como eu consegui em tempo relativamente curto
aproxim-lo da sade perfeita.
        Eu, na verdade, creio que com sua ajuda,  fora de
estudar minha alma, acabaria por meter-lhe dentro novas
enfermidades.
        Estou decidido a curar-me de seu tratamento. Evito os sonhos
e as recordaes. Por causa destes minha pobre cachola
transformou-se de modo a j no se sentir segura sobre o pescoo.
Padeo distraes terrveis. Falo com as pessoas e, enquanto
digo uma coisa, tento involuntariamente lembrar-me de outra
que pouco antes disse ou fiz e de que no me recordo mais,

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ou ainda algum pensamento que me parece de enorme
importncia, daquela importncia que meu pai atribuiu aos
pensamentos que teve pouco antes de morrer e de que ele tambm
no conseguia lembrar-se.
        Se no quiser parar no manicmio, tenho que acabar com
essas brincadeiras.


15 de maio de 1915

Passamos dois dias feriados em nossa casa de Lucinico. Meu
filho lfio, que convalesce de uma gripe, deve permanecer
a por algumas semanas em companhia da irm. Ns
voltaremos no dia de Pentecostes.
        Consegui finalmente retornar aos meus doces hbitos e
deixar de fumar. Estou muito melhor desde que consegui
eliminar a liberdade que o tolo do mdico me queria conceder.
Hoje que estamos em meados do ms, enfrento as dificuldades
que o nosso calendrio ope a uma resoluo regular e
ordenada. Nenhum ms  igual ao outro. Para destacar melhor a
prpria resoluo,  necessrio que se acabe com o fumo
juntamente com o trmino de alguma coisa, como, por
exemplo, o ms. Salvo, porm, julho e agosto e dezembro e janeiro,
no h dois meses consecutivos que tenham o mesmo nmero
de dias. Uma verdadeira desordem no tempo!
        Para recolher-me melhor, passei a tarde do segundo dia
solitrio junto  margem do Rio Isonzo. No h melhor
recolhimento do que ficarmos a olhar a gua corrente. Estamos
parados e a gua corrente fornece a distrao que surge
porque nunca  igual a si mesma na cor e no desenho, nem
mesmo por um timo.
        Fazia um tempo esquisito. Certamente no alto soprava um
vento forte, pois as nuvens mudavam continuamente de forma,
mas embaixo o ar no se movia. Ocorria, de tempos em
tempos, atravs das nuvens em movimento, o sol j tpido
encontrar uma fresta por onde assestava seus raios sobre este ou
aquele trecho da colina, ou sobre o cimo da montanha,
fazendo ressaltar o doce verde de maio em meio  sombra que
cobria toda a paisagem. A temperatura era agradvel, e at
aquela fuga das nuvens no cu tinha qualquer coisa de
primaveril. No havia dvida: o tempo estava convalescendo!
        Foi um verdadeiro recolhimento o meu, um dos raros
instantes que a vida avara nos concede, de grande e verdadeira
objetividade em que finalmente cessamos de nos crer e de nos
sentir vtimas. Em meio quele verde, ressaltado to
deliciosamente pelos reflexos do sol, eu soube sorrir  vida e at 
minha doena. O encanto feminino encheu a minha
existncia. Ainda que pouco a pouco, uns pezinhos, uma cintura,
uma boca povoaram os meus dias. E revendo a minha vida e
tambm a minha doena, eu as amei e compreendi! Como a
minha vida era mais bela que a dos chamados homens sos,
que batem na mulher ou tm vontade de faz-lo todos os dias,
salvo em certos momentos! Eu, ao contrrio, sempre fora
acompanhado de amor. Quando no pensava em minha mulher,
pensava nela para perdoar-me de haver pensado nas outras. Havia
os que abandonavam um amor, desiludidos e desesperados, ao
passo que minha vida jamais fora privada de desejos e as
iluses renasciam inteiras a cada naufrgio, no sonho de
membros, de vozes, de atitudes mais perfeitas.
        Naquele momento, recordei que entre tantas mentiras que
preguei ao profundo observador que era o Dr. S., havia
tambm a de que eu no trara mais minha mulher depois da
partida de Ada. At sobre esta mentira ele fabricou as suas teorias.
Mas ali,  margem do rio, de repente, com surpresa
recordei ser verdade que desde h alguns dias, talvez desde aquele
em que abandonara o tratamento, eu no tinha procurado a
companhia de outras mulheres. Estaria curado como
pretendia o Dr. S.? Velho como estou, desde algum tempo que as
mulheres no me olham mais. Se deixo de olh-las tambm,
eis que qualquer relao entre ns acabar interrompida.
        Se semelhante dvida me tivesse ocorrido em Trieste, teria
sabido resolv-la em seguida. Aqui era um pouco mais difcil.
        Alguns dias antes, tivera em mos o livro de memrias de
Da Ponte, o aventureiro contemporneo de Casanova.
Tambm ele certamente passara por Lucinico, e fiquei sonhando
encontrar uma daquelas mulheres de que fala, empoadas e
metidas em saias de crinolina. Meu Deus! Como faziam aquelas
mulheres para se entregarem to rpida e to freqentemente,
defendidas por todas aquelas farpelas?

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        Parece-me que a lembrana das saias de crinolina, apesar
do tratamento, foi bastante excitante. Contudo, meu desejo era
um tanto fictcio e no bastou para me dar confiana.
        A experincia que eu procurava surgiu pouco depois e foi
suficiente para dar-me confiana, embora no me tenha
custado pouco. Para obt-la, conspurquei e destru uma das mais
puras relaes que tive na vida.
        Conheci ieresina, filha mais velha de um colono de uma
fazenda situada nas imediaes de minha casa. O pai, h dois
anos, ficara vivo, e sua numerosa prole encontrara uma
segunda me em Teresina. Moa robusta, despertava muito cedo
para trabalhar, acabava suas tarefas  hora de deitar e descansar
a fim de enfrentar novo dia de trabalho. Naquele dia,
ela conduzia o burrico que habitualmente ficava aos cuidados
do irmozinho, e caminhava ao lado da carroa carregada de
forragem, j que seria impossvel ao pequeno animal transportar
morro acima tambm o peso da rapariga.
        No ano anterior, Teresina parecia-me ainda criana, e no
tivera para com ela seno uma simpatia sorridente e paternal.
Mesmo no dia anterior, quando voltei a v-la, apesar de ter
achado que crescera, o rosto moreno tornado mais srio, os
ombros estreitos alargando sobre os seios que comeavam a
desenhar-se no lento desenvolver do pequeno corpo fatigado,
eu continuava a v-la como uma menina imatura em quem
no poderia admirar seno a extraordinria atividade e o
instinto maternal de que se aproveitavam os irmozinhos. Se no
fosse a maldita cura e a necessidade de verificar em que
estado se achava a minha doena, tambm dessa vez teria podido
deixar Lucinico sem haver perturbado aquela inocncia.
        Ela no usava crinolina. E a carinha rechonchuda e
sorridente jamais conhecera p-de-arroz. Andava descala e trazia
a mostra metade das pernas. A carinha, os ps e as pernas
no conseguiram excitar-me. O rosto e os membros que
Teresina deixava  mostra eram da mesma cor; pertenciam ao ar
livre e no havia mal em que ficassem expostos assim. Talvez
por isso no conseguissem excitar-me. Mas, ao sentir-me to
indiferente, fiquei preocupado. Ser que depois da cura eu
necessitava de crinolina?
        Comecei por acariciar o burrico, concedendo-lhe assim um
pequeno descanso. Depois voltei-me para Teresina e pus-lhe na
mo nada menos que dez coroas. Era o primeiro atentado! No
ano anterior, a ela e aos irmozinhos, para exprimir meu
sentimento paterno, dei apenas uns centavos. Sabe-se, porm, que
o afeto paterno  outra coisa. Teresina ficou perturbada com o
rico presente. Cautelosamente ergueu a sainha para guardar
em no sei que bolso escondido o precioso pedao de papel.
Assim vi um trecho adicional da perna, tambm moreno e
casto.
        Voltei-me de novo para o burrico e dei-lhe um beijo na
testa. Minha afetuosidade despertou a dele. Ergueu o focinho
e emitiu um grande zurro de amor, que ouvi sempre com
respeito. Como transpe a distncia e como  significativo aquele
primeiro grito que invoca e se repete, atenuando-se depois e
terminando num pranto desesperado. Mas, ouvido assim de
to perto, fez-me doer os tmpanos.
        Teresina ria e seu riso encorajou-me. Retornei a ela e de
repente agarrei-a pelo bracinho sobre o qual fiz deslizar a
mo lentamente, em direo ao ombro, estudando as minhas
sensaes. Graas aos cus ainda no estava curado! Interrompera
o tratamento a tempo.
        Contudo, Teresina, com uma vergastada, fez seguir o asno
para acompanh-lo e livrar-se de mim.
        Rindo satisfeito, pois permanecia alegre mesmo sabendo
que a camponesinha no queria saber de mim, disse-lhe:
        - Voc tem namorado? Precisa ter. Seria pena se no
tivesse.
        Sempre afastando-se de mim, respondeu:
        - Se eu arranjar, ser decerto mais novo que o senhor!
        Minha alegria no se ofuscou por causa disto. Quis dar
uma pequena lio a Teresina e procurei lembrar-me da
passagem de Boccaccio em que "Mestre Alberto de Bolonha critica
honestamente uma dama que o queria repreender por estar
enamorado dela". Mas o raciocnio de Mestre Alberto no
surtiu efeito porque Madonna Malgherida de Ghisolieri lhe
disse: "O vosso amor -me decerto caro, provindo de algum
to nobre e valente como vs; por isso podeis impor-me o
que seja de vosso desejo, salvo a minha honra".
        Tentei fazer melhor:
        - Quando vai se dedicar aos velhos, Teresina? - gritei
para ser ouvido por ela que j se afastava de mim.

388 389

        - Quando eu tambm for velha - gritou, rindo com
satisfao e sem interromper o passo.
        - Mas ento os velhos no vo querer saber de voc.
Oua o que digo! Eu os conheo bem!
        Eu berrava, satisfeito com aquele humor que me vinha
diretamente do sexo.
        Nesse instante, num ponto qualquer do cu as nuvens se
abriram e deixaram passar os raios do sol, que foram atingir
Teresina distante de mim uns quarenta metros e a uns dez
metros ou mais encosta acima. Era morena, pequenina, mas
luminosa!
        A mim o sol no iluminou! Quando se  velho, fica-se na
sombra mesmo quando se tem esprito.


26 de junho de 1915

A guerra atingiu-me afinal! Eu, que andava a ouvir as
histrias de guerra como se se tratasse de um conflito de outros
tempos sobre o qual era divertido falar, mas que seria tolice
deixar-me preocupar, eis que me vi metido nela sem querer
e ao mesmo tempo surpreso por no haver percebido antes que
mais cedo ou mais tarde acabaria envolvido. Era como se
vivesse tranqilamente num prdio cujo andar trreo estava
em chamas e eu no imaginasse que mais cedo ou mais tarde
todo o edifcio acabaria por arder.
        A guerra apoderou-se de mim, sacudiu-me como um trapo,
privou-me de uma s vez de toda a minha famlia e at de
meu administrador. De um dia para o outro, eu era um homem
totalmente diferente, ou, para ser mais exato, todas as minhas
vinte e quatro horas foram inteiramente diversas. Desde ontem
estou um pouco mais calmo porque finalmente, depois de
esperar um ms, tive as primeiras notcias de minha famlia. Esto
sos e salvos em Turim, quando eu j perdia todas as esperanas
de rev-los.
        Devo passar o dia inteiro no escritrio. No tenho muito
o que fazer, mas  que os Olivi, como cidados italianos,
tiveram que partir e todos os meus poucos empregados, os
melhores, foram convocados para um lado ou outro, da ter
eu que permanecer vigilante em meu posto.  noite vou para
casa carregando o peso das grandes chaves do armazm. Hoje,
que me sinto bem mais calmo, trouxe comigo para o
escritrio este manuscrito, que pode ajudar-me a passar o tempo sem
fim. Na verdade, ele me proporcionou um quarto de hora
maravilhoso, em que eu soube ter havido neste mundo uma
poca de tamanha paz e de silncio, que nos permitia
ocuparmo-nos com brincadeiras desta espcie.
        Seria engraado que algum me convidasse a srio a
mergulhar num estado de semiconscincia tal que pudesse
reviver pelo menos uma hora de minha vida precedente. Rir-lhe-ia
na cara. Como se pode abandonar um presente semelhante para
andar em busca de coisas de nenhuma importncia? Parece-me
que s agora estou definitivamente desligado tanto de
minha sade quanto de minha doena. Caminho pelas ruas
de nossa msera cidade, sentindo-me um privilegiado que no
vai  guerra e que encontra todos os dias aquilo que lhe agrada
para comer. Em comparao com os demais, sinto-me to feliz
- principalmente depois que tive notcias dos meus - que
seria provocar a ira dos deuses se quisesse estar
perfeitamente bem.
        A guerra e eu nos encontramos de um modo violento, que
agora me parece um tanto ridculo.
        Augusta e eu havamos retornado a Lucinico para passar
a festa de Pentecostes com os filhos. No dia 23 de maio, levantei-me
cedinho. Tinha que tomar o sal de Carlsbad e dar tambm
um passeio antes do caf. Durante esse tratamento em
Lucinico percebi que o corao, quando se est em jejum, atua
mais ativamente no trabalho de reconstituio, irradiando sobre
todo o organismo grande bem-estar. Minha teoria devia
aperfeioar-se naquele mesmo dia em que fui constrangido a passar
a fome que me fez tanto bem.
        Augusta, para me dar bom-dia, ergueu do travesseiro a
cabea branca e me lembrou que eu prometera  nossa filha trazer-lhe
rosas. Nosso pequeno roseiral estava murcho; era
necessrio ir procur-las fora. Minha filha j estava uma bela
mocinha, parecida com Ada. De um momento para outro, eu
me esquecera de manter em relao a ela o meu ar de
educador severo e me transformara naquele cavalheiro que
respeita a feminilidade mesmo na prpria filha. Ela rapidamente

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se deu conta de seu poder sobre mim e, com grande regozijo
meu e de Augusta, no raro abusa dele. Queria rosas e eu
tinha que ir busc-las.
        Propus-me caminhar por umas duas horas, O sol estava
bonito e j que minha inteno era a de caminhar sem parar
at a volta para casa no levei comigo nem o chapu nem o
casaco. Por sorte lembrei-me que devia pagar as rosas; s por
isso no deixei tambm junto com o palet a carteira.
        Logo ao sair dirigi-me  casa do pai de Teresina, para
pedir-lhe que me cortasse as rosas, as quais eu apanharia no meu
retorno. Entrei no grande ptio cercado por um muro um
tanto derrudo e no encontrei ningum. Gritei por Teresina.
Da casa saiu o menor dos filhos, que devia ter uns seis anos.
Pus-lhe na mozinha alguns centavos e ele me disse que a
famlia toda sara bem cedinho para o outro lado do rio
a fim de trabalhar num campo de batatas cuja terra precisava
ser batida.
        Isto no me desagradava. Conhecia aquele campo e sabia
que, para chegar a ele, teria de caminhar cerca de uma hora.
Visto que havia fixado um passeio de duas horas, agradava-me
poder atribuir  minha caminhada um objetivo
determinado. Assim, no havia o receio de interromp-la por um
ataque imprevisto de preguia. Avancei atravs da plancie a
um nvel mais elevado que o da estrada de modo que desta
eu s podia ver as margens e a copa de alguma rvore em
flor. Estava realmente feliz: assim em mangas de camisa e
sem chapu, sentia-me bem mais leve. Respirava o ar
purssimo e, como de hbito desde algum tempo, caminhava
fazendo a ginstica respiratria de Niemeyer, que me fora ensinada
por um amigo alemo, coisa utilssima para quem leva vida
sedentria.
        Chegando ao campo, vi Teresina a trabalhar exatamente
naquela parte do caminho. Aproximei-me e ocorreu-me que
bem ali do outro lado trabalhavam junto ao pai os dois irmos
dela, com idades que eu no sabia precisar, entre os dez e os
quatorze anos. Na fadiga os velhos se sentem em geral
exaustos, mas dada a excitao que a acompanha, sentem-se, apesar
de tudo, mais jovens do que na inrcia. Sorrindo aproximei-me
de Teresina:
        - Ainda est a tempo, Teresina. Mas no demore.
        Ela no compreendeu e eu no lhe expliquei nada. No
era o caso. J que no se lembrava, podia voltar s minhas
antigas relaes com ela. J repetira a experincia e alcancei,
tambm desta vez, resultado favorvel. Ao dirigir-lhe aquelas
palavras acariciei-a no apenas com o olhar.
        Com o pai de Teresina entendi-me facilmente sobre as rosas.
Permitiu que eu apanhasse quantas quisesse, e depois no
iramos brigar por causa do preo. Ele queria voltar de
imediato ao trabalho e eu j me punha no caminho de volta
quando este resolveu vir atrs de mim. Alcanando-me, perguntou
em voz muito baixa:
        - O senhor no soube nada? Dizem que arrebentou a
guerra.
        - Ora essa! Claro que sabemos! J faz um ano - respondi
eu.
        - No falo dessa - disse impaciente. - Falo da guerra
com. . . - e fez um sinal em direo  fronteira italiana
vizinha. - O senhor no sabe nada? - Ficou a me olhar ansioso
pela resposta.
        - H de compreender - disse-lhe com toda a segurana
- que se nada sei  porque realmente no h nada. Venho de
Trieste e as ltimas novidades que soube davam a possibilidade
de guerra como definitivamente afastada. Em Roma
haviam derrubado o ministrio que queria a guerra e
chamaram Giolitti.
        Ele sossegou imediatamente.
        - Ento estas batatas que estamos cobrindo e que tanto
prometem ho de ser nossas! O que no falta por a  gente
boateira! - Com a manga da camisa enxugou o suor que
lhe corria da testa.
        Vendo-o to contente, tratei de faz-lo ainda mais feliz.
Gosto de ver as vessoas felizes. Por isso falei coisas de que
verdadeiramente no gosto de recordar. Afirmei-lhe que,
mesmo no caso de rebentar a guerra, os combates no se travariam
ali. Em primeiro lugar haveriam de bater-se no mar, e na
Europa no faltavam campos de batalha para quem quisesse.
Havia a Flandres e vrios departamentos franceses. Alm disso,
ouvira dizer - j no sabia de quem - que havia no mundo

        392        393

tal carncia de batatas que estas eram colhidas cuidadosamente
at nos campos de batalha. Falei muito, sempre de olhos em
Teresina que, pequena, mida, se agachara sobre a terra para
apalp-la antes de comear com a enxada.
        O agricultor, perfeitamente tranqilizado, voltou ao seu
trabalho. Eu, ao contrrio, transferira uma parte de minha
tranqilidade para ele e me sobrara muito menos. Era certo
que em Lucinico estvamos muito prximos da fronteira.
Falaria sobre isto a Augusta. Talvez fizssemos bem em retornar
a Trieste, e talvez at para mais longe, num sentido ou noutro.
No havia dvida que Giolitt retornara ao poder, mas no
se podia garantir se, chegando l, continuaria a ver as coisas
como um cidado qualquer.
        Tornou-me ainda mais nervoso um encontro casual com um
peloto de soldados que marchava pela estrada em direo a
Lucinico. Eram soldados nada jovens e com fardamento e
apetrechos ordinrios. Pendia-lhes da cintura aquela baioneta
longa que em Trieste chamvamos de durlindana e que os
austracos, no vero de 1915, deviam ter exumado de velhos
depsitos.
        Por algum tempo caminhei  retaguarda deles, ansioso por
chegar a casa. Porm, como me desagradasse o cheiro azedo
que emanava deles, acabei por diminuir o passo. Minha inquietao
e minha pressa eram injustificadas. Como tambm o era
inquietar-me por ter assistido  inquietao de um campons.
Principalmente agora que via ao longe a minha vila e que o
peloto desaparecera na estrada. Acelerei o passo para chegar
finalmente ao meu caf da manh.
        Foi a que comeou a minha aventura. Numa curva do
caminho, fui detido por uma sentinela que me gritou:
        - Zurck! - pondo-se em posio de tiro. Quis
responder-lhe em alemo, j que me havia gritado nessa lngua, mas
de alemo o sentinela s conhecia aquela palavra que repetia
sempre mais ameaador.
        Era necessrio voltar zurck (para trs) e eu, olhando
sempre em sua direo, com medo de que ele, para se fazer compreender
melhor, disparasse, retirei-me com certa rapidez de
que no descuidei nem mesmo quando o soldado desapareceu
de vista.
        Contudo, no renunciei logo a voltar imediatamente para
a minha vila. Pensei que, galgando a colina  minha direita,
poderia contornar a sentinela, saindo muito  frente.
        A subida no foi difcil, principalmente porque o capim
alto estava curvado pelas pisadas de muita gente, que devia
ter passado por ali antes de mim, sem dvida obrigada como
eu por causa da proibio de transitar pela estrada. Caminhando,
readquiri minha segurana e pensei que a primeira
coisa que ia fazer, quando chegasse a Lucinico, seria protestar
junto ao burgomestre pelo tratamento que eu fora
constrangido a sofrer. Se permitissem que os veranistas fossem
tratados daquela forma, com pouco ningum mais visitaria Lucinico!
        Contudo, ao atingir o alto da colina, tive a desagradvel
surpresa de v-la ocupada pelo peloto dos soldados que cheiravam
a azedo. Muitos deles repousavam  sombra de uma
cabana de campons que eu conhecia desde muito e que
sabia inteiramente abandonada; trs pareciam de guarda, mas
no do lado por onde eu subira, e alguns outros formavam um
semicrculo em torno a um oficial que lhes transmitia instrues,
utilizando-se de um mapa que trazia  mo.
        Eu no dispunha nem mesmo de chapu com que servir-me
para cumpriment-los. Inclinando-me vrias vezes e com
o mais belo dos sorrisos, encaminhei-me em direo ao
oficial que, vendo-me, parou de falar aos soldados e ps-se a
olhar-me. Os cinco 'mamelucos' que o circundavam
regalaram-me com toda a sua ateno. Andando sob todos aqueles
olhares e por um terreno no plano, no era nada fcil
mover-me.
        O oficial gritou:
        -        Was will der dumme Kerl hier? (Que vem fazer aqui
este idiota?)
        Estupefato de que me ofendessem sem qualquer
provocao minha, quis demonstrar virilmente que compreendera a
ofensa, mas ainda com a discrio que o caso me impunha,
desviei da estrada e tentei chegar  encosta que me levaria
a Lucinico. O oficial ps-se a gritar que, se desse mais um
passo, mandaria abrir fogo sobre mim. Tornei-me muito corts
e daquele dia at este em que escrevo jamais deixei de
demonstrar cortesia. Era uma barbaridade ser constrangido a

        394        395

tratar com um tipo semelhante; pelo menoS, porm, ele tinha
a vantagem de falar corretamente o alemo. Recordando essa
vantagem, tornou-se mais fcil para mim falar-lhe com
brandura. Se aquela toupeira no compreendesse o alemo, eu
decerto estaria perdido.
        Pena  que eu no falasse fluentemente essa lngua pois, do
contrrio, ter-me-ia sido fcil fazer rir o azedo senhor.
Contei-lhe que em Lucnico esperaVa-me um cf da manh do
qual eu estava separado apenas por seu peloto.
        Ele riu afinal, juro que sim. Riu sempre a pragueiar e nem
teve a pacincia de me deixar concluir. Declarou que algUm
haveria de beber meu caf em Lucnico e quando soube que
alm do caf me esperava ainda minha mulher, gritOu:
        -        Auch Ihre Frau wird von anderefl gegesSefl werdefl. (Sua
mulher tambm ser comida por outros.)
        Ele estava agora com melhor humor que o meu. Pareceu-me
em seguida que se arrependera de me ter dito algo que,
sublinhado pelo riso clamoroso dos cinco mamelucos, pudesse
parecer ofensivo. Ps-se srio e explicou que eu no devia
esperar regressar aquele dia a Lucinico e, mesmo a ttulo de
amizade, me aconselhava a no lhe perguntar mais nada, porque
bastaria uma pergunta qualquer para comprometer-me!
        -        Haben Sie verstanden? (O senhor entendeu?)
        Eu entendera, mas no era nada fcil conformar-me com a
idia de renunciar a um caf da manh que estava a nO mais
de meio quilmetro de mim. S por issO hesitava em
prosSeguir meu caminhO, pois estava certo que, se descesse de nOVO
a colina na direo oposta, no chegaria  minha vila no
mesmo dia. Para ganhar tempo, perguntei ao oficial
tranqilamente:
        - Mas a quem devo dirigir-me para ir a Lucnico pelo
menos apanhar meu casaco e meu chapu?
        Devia calcular que o oficial estivesse ansioSO para ficar a
ss com seus soldados e o mapa, mas nunca esperaria que
minha pergunta provocasse tanta ira.
        Urrou, a ponto de me ensurdecer os ouvidOS, que j me havia
prevenido para no lhe fazer perguntas. Depois mandou-me
para onde o diabo quisesse levar-me (wo der Teu fel Sie tragen
will). A idia de me fazer transportar fosse por quem fosse
no me desagradava em absoluto, porque estava esgotado, mas
ainda assim hesitei. Contudo, o oficial  fora de gritar, ficava
cada vez mais irritado, e com tom de grande ameaa chamou
a si um dos cinco homens  sua volta e, tratando-o por senhor
cabo, deu-lhe ordem de me conduzir colina abaixo, vigiando-me
at a estrada que conduz a Gorizia, e podendo disparar
contra mim se no obedecesse s suas ordens.
        Por isso desci da colina com certa satisfao:
        - Danke schn - disse ainda, sem qualquer inteno de
ironia.
        O cabo era um eslavo que falava discretamente o italiano.
Achou que devia mostrar-se rude na presena do oficial e,
para obrigar-me a preced-lo na descida, comandou:
        - Marsch! - Quando, porm, j nos afastramos um
pouco, tornou-se mais afvel e familiar. PerguntOUme se tinha
notcias da guerra e se era verdade que estava iminente a
interveno italiana. Olhava-me ansioso, a espera da resposta.
        Com que ento nem mesmo eles que faziam a guerra
sabiam ao certo se ela existia ou no! Quis torn-lo to feliz
quanto possvel e transmiti-lhe as notcias que propiciara ao
pai de Teresina. Depois, isso pesou-me na conscinCia. No
horrendo temporal que desabou, provavelmente todas aquelas
pessoas que eu tranqilizara pereceram. Quem sabe a surpresa
que ter ficado cristalizada em seus rostos pela morte. Meu
otimismo era incoercvel. No sentira a guerra nas palavras
do oficial, e mais ainda no tom com que as proferiu?
        O cabo alegrou-se muito e, para me compensar, deu-me
tambm o conselho de no tentar chegar a LuciniCO. A julgar
pelas notcias que lhe dera, achava ele que as eventualidades
que me impediam de retornar a casa seriam levantadas no
dia seguinte. Mas at l me aconselhava a ir ao Platzkommando
de Trieste, onde talvez pudesse obter uma permiSSo especial.
        - Ir a Trieste? - perguntei apavorado. - A Trieste, sem
casaco, sem chapu e sem ter tomado o caf da manh?
        A julgar pelo que sabiao cabo, enquanto falvamos, um forte
cordo de infantaria fechava o trnsito para a Itlia, criando
uma fronteira nova e intransponvel. Com sorriso superior
afirmou que, segundo ele, o caminho mais curto para Lucnico
era o mesmo que conduzia a Trieste.

396 397

 fora de ouvi-lo dizer, resignei-me e rumei para Gorizia,
pensando poder ali pegar o trem do meio-dia para Trieste.
Estava, agitado, mas devo dizer que me sentia muito bem.
Fumara pouco e no comera realmente nada. Sentia-me de uma
leveza que h muito tempo no conhecia. No me
desagradava ter ainda que caminhar. Doam-me um pouco as pernas;
parecia-me, porm, poder agentar at Gorizia, tanto que
senti a respirao livre e desimpedida. Espertando as pernas
com passo ligeiro, nenhum cansao me adveio da caminhada.
E nesse bem-estar, marcando o passo, alegre por me sentir
insolitamente clere, retornei ao meu antigo otimismo.
Ameaavam daqui, ameaavam dali, mas  guerra no chegariam.
Foi assim que, ao chegar a Gorizia, hesitei se devia tomar um
quarto no hotel a fim de passar a noite e retornar no dia
seguinte a Lucinico para apresentar minhas reclamaes ao
burgomestre.
        Corri, no entanto,  agncia postal para telefonar a
Augusta. De casa, contudo, ningum me respondeu.
        O empregado, um homenzinho de barbicha rala que
parecia, na sua pequenez e severidade, algo de ridculo e obstinado
- que  tudo quanto dele me lembro -, ouvindo-me
praguejar furioso diante do aparelho mudo, aproximou-se de
mim e disse:
        - Hoje j  a quarta vez que Lucinico no responde.
        Quando voltei-me para ele, em seu olhar brilhava uma
grande e alegre malcia (Enganava-me! Tambm disto me
recordo agora!) e seus olhos brilhantes procuraram os meus para
ver se eu estava de fato surpreso e aborrecido. Foram
necessrios uns dez minutos para que eu compreendesse. J no
havia dvidas para mim. Lucinico encontrava-se, ou em
poucos minutos se encontraria, na linha de fogo. Quando
compreendi perfeitamente aquele olhar eloqente, j me
encaminhava para um caf a fim de tomar,  espera do almoo, a
xcara de caf que me faltara de manh. Desviei de repente e
me dirigi  estao. Queria estar junto dos meus, e -
seguindo as indicaes de meu amigo cabo - embarquei para
Trieste.
        Foi durante essa minha breve viagem que a guerra
estourou.
        Pensando chegar bem depressa a Trieste, no tomei na
estao de Gorizia, embora tivesse tempo de sobra, a xcara de
caf por que tanto ansiava. Subi no vago e, uma vez sozinho,
voltei o pensamento para os meus familiares de quem fora
afastado de forma to estranha. O trem avanou sem
contratempos at alm de Monfalcone.
        A guerra parecia no ter chegado ainda ali. Readquiri minha
tranqilidade, pensando que provavelmente em Lucinico as
coisas se estariam passando como do lado de c da fronteira.
quela hora, Augusta e as crianas se encontrariam viajando
para o interior da Itlia. Aquela tranqilidade, associada 
minha enorme e surpreendente fome, fez-me cair num sono
profundo.
        Foi provavelmente a mesma fome que me despertou. O trem
parara no meio da assim chamada Saxnia de Trieste. No se
via o mar, conquanto devesse estar bem prximo, porque uma
leve bruma impedia a vista ao longe. Em maio, o Carso
possui uma grande doura, mas s aqueles que no esto viciados
pelas primaveras exuberantes de cores e vidas de outras plagas
 que o podem compreender. Aqui a pedra que brota de todos
os lados  circundada por um verde suave, s no humilde
porque logo se torna a nota predominante da paisagem.
        Em outras condies, eu me teria irritado enormemente por
no poder comer quando tinha tanta fome. Nesse dia, ao
contrrio, a grandeza do acontecimento histrico a que eu assistia,
impunha-me e induzia-me  resignao. O condutor, a quem
presenteei com cigarros, no conseguiu arranjar-me nem
mesmo um pedao de po. No contei a ningum as minhas
experincias da manh. Falaria delas em Trieste a qualquer amigo.
Da fronteira para a qual assestava o meu ouvido, no me
chegava qualquer sinal de combate. Havamos parado naquele
stio para dar passagem a uma composio que arrastava oito
ou nove vages, subindo vertiginosamente em direo  Itlia.
A chaga cancerosa (como na ustria logo se chamou a frente
italiana) estava aberta e precisava de matria para nutrir a sua
purulncia. E os pobres homens para l partiam a rir e a
cantar. De todos aqueles vages vinham os mesmos sons de
alegria e ebriedade.
        Quando cheguei a Trieste a noite j cara sobre a cidade.

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        A sombra iluminava-se pelo resplandecer de muitos
incendios e um amigo que me viu seguir para casa em mangas de
camisa gritou:
-        Voc esteve no saque?
        Finalmente consegui comer alguma coisa e logo me deitei.
        Um cansao imenso, total, me empurrava para a cama. Creio
que fora produzido pela esperana e pelas dvidas que se
debatiam em minha mente. Continuava a me sentir muito bem e
no breve perodo que precedeu o sono, cujas imagens a psicanlise
me ensinara a reter, recordo que terminei o dia com
uma idia otimista e infantil: ningum morrera ainda na
fronteira e por isso a paz ainda podia fazer-se.
        Agora que sei minha famlia s e salva, a vida que levo
no me desagrada. No tenho muito o que fazer, mas no
posso afirmar que esteja inerte. No se deve comprar nem
vender. O comrcio renascer quando vier a paz. Olivi
mandou-me conselhos da Sua. Se soubesse como seus conselhos
destoam deste ambiente de todo mudado! Quanto a mim, no
momento nada fao.


24 de maro de 1916

Desde maio do ano passado no tocava neste caderno. Eis
que me escreve da Sua o Dr. S. pedindo-me que lhe mande
tudo quanto eu tenha anotado. Trata-se de um pedido curioso,
mas nada tenho contra o fato de lhe mandar este livrinho no
qual ver claramente o que penso dele e do seu tratamento.
J que est de posse de todas as minhas confisses, que tenha
tambm estas poucas pginas e algumas outras que eu venha
a acrescentar para a sua edificao. No tenho muito tempo,
pois o comrcio me ocupa o dia inteiro. Ao Sr. Dr. S. quero,
no entanto, dar aquilo que merece. Meditei tanto nisto que
agora tenho as idias claras.
        Ele estar  espera de receber outras confisses de minha
doena e da minha fraqueza e, em vez disso, receber a
descrio de uma sade slida, perfeita, tanto quanto a minha
idade avanada o permite. Estou curado! Alm de no querer
submeter-me  psicanlise, tambm no tenho necessidade dela.
E minha sade no provm apenas do fato de que me sinto
um privilegiado em meio a tantos mrtires. No  pelo
confronto que me sinto so. Estou so, totalmente so. Eu j sabia
desde muito que a sade para mim era um caso de convico
e que era uma tolice digna de um sonhador hipnaggico querer
tratar-me, em vez de querer persuadir-me.  verdade que
ainda sofro de algumas dores, mas de nenhuma importncia no
quadro de minha grande sade. s vezes ponho um emplastro
aqui ou ali, mas O resto se move e luta, jamais se entregando
 imobilidade dos esclerosados. Dor e amor; portanto a vida,
em suma, no pode ser considerada uma doena pelo simples
fato de doer.
        Admito que, para chegar  persuaso de estar sadio, o meu
destino teve de mudar e o meu organismo se escaldou na luta
e sobretudo no triunfo. Foi o comrcio que me curou e quero
que o Dr. S. o saiba.
        Inerte e atnito, at o incio de agosto ltimo, estive a
olhar o mundo transtornado. Foi ento que comecei a
comprar. Sublinho o verbo para frisar que tem um significado
mais amplo do que antes da guerra. Antes, na boca de um
comerciante, significava que ele estava disposto a comprar
um determinado artigo. Contudo, quando agora o digo, quero
significar que compro qualquer mercadoria que me for
oferecida. Como todas as pessoas fortes, s tinha uma idia em
mente e dela vivi e com ela adquiri fortuna. Olivi no estava
em Trieste, mas  certo que ele no teria permitido um risco
semelhante e o reservaria aos outros. Para mim, ao contrrio,
no era um risco. Eu sabia do bom resultado com toda a
certeza. A princpio, seguindo antigo costume em poca de
guerra, tratei de converter todo o meu patrimnio em ouro, embora
houvesse certa dificuldade em comprar e vender ouro. O ouro
por assim dizer lquido, porque mais mvel, era a mercadoria
e tratei de aambarc-la. Efetuo de tempos em tempos
algumas vendas mas sempre em quantidades inferiores s
adquiridas. Porque comecei no momento propcio, minhas compras
e vendas foram to oportunas que me forneceram os grandes
meios de que necessitava para adquiri-las.
        Com orgulho recordo que minha primeira aquisio foi uma
verdadeira loucura na aparncia, unicamente destinada a pr

400 401

logo em prtica a minha idia: uma partida razovel de
incenso. O vendedor tentava convencer-me da possibilidade de vir
o incenso a ser utilizado como sucedneo da resina, que j
comeava a escassear; na qualidade de qumico, porm, eu
tinha plena certeza de que esse produto jamais poderia
substituir a resina, de que diferia toto genere. A minha idia,
contudo, era a de que o mundo chegaria a uma misria tal que
era capaz de aceitar o incenso como sucedneo da resina. E
comprei! Poucos dias depois vendi uma pequena parte do
estoque e ganhei tanto quanto despendera para adquirir a partida
inteira. No momento em que embolsei o dinheiro, meu peito
distendeu-se com a sensao da minha fora e da minha sade.
        O doutor, quando receber esta parte de meu manuscrito,
certamente mo devolver.  preciso refaz-lo para maior
clareza porque como poderia compreender a minha vida
quando ainda no lhe conhecia este ltimo perodo? Talvez eu
tivesse vivido todos estes anos apenas a fim de me preparar
para isto!
        Naturalmente no sou ingnuo e desculpo o doutor que v
na prpria vida uma manifestao da doena. A vida
assemelha-se um pouco  enfermidade,  medida que procede por
crises e deslizes e tem seus altos e baixos cotidianos. 
diferena das outras molstias, a vida  sempre mortal. No
admite tratamento. Seria como querer tapar os orifcios que
temos no corpo, imaginando que sejam feridas. No fim da
cura estaramos sufocados.
        A vida atual est contaminada at as razes. O homem
usurpou o lugar das rvores e dos animais, contaminou o ar,
limitou o espao livre. Mas o pior est por vir. O triste e ativo
animal pode descobrir e pr a seu servio outras foras da
natureza. Paira no ar uma ameaa deste gnero. Prev-se uma
grande riqueza.., no nmero de homens. Cada metro
quadrado ser ocupado por ele. Quem se livrar da falta de ar
e de espao? Sufoco s de pensar nisto!
        E infelizmente no  tudo.
        Qualquer esforo de restabelecer a sade ser vo. Esta
s poder pertencer ao animal que conhece apenas o progresso
de seu prprio organismo. Desde o momento em que a
andorinha compreendeu que para ela no havia outra vida possvel
seno emigrando, o msculo que move as suas asas engrossou-se,
tornando-se a parte mais considervel de seu corpo. A
toupeira enterrou-se e todo o seu organismo se conformou a
essa necessidade. O cavalo avolumou-se e seus ps se
transformaram em cascos. Desconhecemos as transformaes por
que passaram alguns outros animais, mas elas certamente
existiram e nunca lhes puseram em risco a sade.
        O homem, porm, este animal de culos, ao contrrio,
inventa artefatos alheios ao seu corpo, e se h nobreza e valor em
quem os inventa, quase sempre faltam a quem os usa. Os
artefatos se compram, se vendem, se roubam e o homem se
torna cada vez mais astuto e fraco. Compreende-se mesmo que
sua astcia cresa na proporo de sua fraqueza. Suas
primeiras mquinas pareciam prolongamentos de seu brao e s
podiam ser eficazes em funo de sua prpria fora, mas, hoje,
o artefato j no guarda nenhuma relao com os membros.
E  o artefato que cria a molstia por abandonar a lei que
foi a criadora de tudo o que h na Terra. A lei do mais forte
desapareceu e perdemos a seleo salutar. Precisvamos de
algo melhor do que a psicanlise: sob a lei do possuidor do
maior nmero de artefatos  que prosperam as doenas e os
enfermos.
        Talvez por meio de uma catstrofe inaudita, provocada
pelos artefatos, havemos de retornar  sade. Quando os gases
venenosos j no bastarem, um homem feito como todos os
outros, no segredo de uma cmara qualquer neste mundo,
inventar um explosivo incomparvel, diante do qual os explosivos
de hoje sero considerados brincadeiras incuas. E um
outro homem, tambm feito da mesma forma que os outros,
mas um pouco mais insano que os demais, roubar esse explosivo
e penetrar at o centro da Terra para p-lo no ponto em
que seu efeito possa ser o mximo. Haver uma exploso enorme
que ningum ouvir, e a Terra, retornando  sua forma
original de nebulosa, errar pelos cus, livre dos parasitos e
das enfermidades.

FIM

        402        403

Posfcio

UMA CULTURA DOENTE?
Alfredo Bosi



James Joyce chegou a Trieste em setembro de 1903. Foi por acaso.
Procurava um emprego e o encontrou na Escola Berlitz da nossa
cidade. Emprego medocre. Mas chegava a Trieste trazendo no bolso,
alm do pouco dinheiro necessrio para a longa viagem, dois
manuscritos: grande parte das lricas que seriam publicadas sob o ttulo de
Msica de cmara e algumas das novelas dos Dublinenses. Todo o
restante da sua obra, at o Ulisses, nasceu em Trieste. Mas, tambm
parte do Ulisses nasceu  sombra de San Giusto, porque Joyce morou
entre ns durante alguns meses depois da guerra. Em 1921 fui eu o
encarregado de levar-lhe, de Treste a Paris, as anotaes para o
ltimo episdio. Eram alguns quilos de papel solto, que nem sequer ousei
tocar, para no lhe alterar a ordem, que me parecia instvel.1

        Enquanto Joyce redigia Ulisses, Italo Svevo comeou a
escrever A conscincia de Zeno. Eram amigos ntimos e correspondiam-se.
Conhece-se uma carta de Joyce a Svevo elogiando a
representao precisa, insistente at  obsesso, do vcio do fumante,
que se encontra nas primeiras pginas da Coscienza. Essa
"afinidade" de interesses, de temas e, em parte, de processos
narrativos tem sido objeto de comentrios marginais ou anedticos em
que se exaure respeitvel mole da literatura comparada.
        Entretanto a permantente importncia de Joyce e a ateno
crescente da crtica  obra de Italo Svevo faLem pensar em uma
relao mais organicamente atual entre os dois narradores;
relao CUjos motivos nos devem interessar de perto, porque hoje se

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1. Italo Svevo, Saggi e pagine sparse, Mondadori, 1954, p. 201.

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404 405

reprope no mundo do romance (e no s de romance,
naturalmente) aquela fome de objetividade radical que marcou o irlands
e o triestino.
        O que Joyce admirava em Svevo era a capacidade de fixar em
um esquema narrativo novo as distraes, os pequenos vcios e
manias, a "psicopatologia da vida cotidiana":

Paris, 30 dejaneiro de 1924. Obrigado pelo romance com a dedicatria.
Estou lendo com muito prazer. Por que se desespera? Deve saber que 
sem comparao o seu melhor livro... Por enquanto duas coisas me
interessam: o tema; nunca teria pensado que o fumo pudesse dominar
uma pessoa daquele modo. Segundo: o tratamento do tempo no romance.
Argcia no lhe falta e vejo que o ltimo captulo de Senilit ('S,
Angiolina pensa e piange...') desabrochou grandemente  socapa...2

        E o que Svevo admirava inicialmente, no Joyce dos Dublinenses,
fora a "impersonalidade" que nada esquece, nem uma linha, nem
uma cor. Era ainda, no fundo, a mesma admirao esttica de
Pound, para quem, com os Dublinenses, finalmente Flaubert teria
entrado na literatura inglesa. Mas Svevo logo constatou que o
realismo de Joyce j no era o do sculo XIX. E que o "poder de
colocar na casca de uma noz todo o destino de uma personagem",
como o fizera Maupassant, diferia do poder de Joyce, que na
mesma casca de noz de um conto inseria "apenas" aquela parte de um
destino que nela pudesse caber. De onde, a maior abertura e o
dom de ambigidade que define o universo dos contos dublinenses.
        Svevo no se enganou diante da verdadeira impersonalidade de
Joyce porque tambm ele, filho de uma cultura de contrastes,
marginal mas aberta para a Europa (Trieste, ento uma cidade
talo-austraco-eslavo-judaica), sentia no ar a crise de uma
realidade social e as dilaceraes que essa crise operava no mago da
pessoa. Svevo e Joyce eram bem os contemporneos de outros
analistas do contraditrio que se chamavam Freud, Pirandello e

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2 Carteggio Svevo-Joyce, introd. Li. Levin, emh?l'ento rio. 11, 1. p. ~2O.

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Proust. Ento toda uma cultura perplexa pesquisava uma
linguagem mais verdadeira, isto , mais dctil, que abrangesse toda a
realidade, na qual o mundo oitocentista ou a belle poque
aparecessem como um setor, quando no como um simples resduo.
        Sabe-se que h um continuum de esvaziamento do heri desde
o poema pico e cavaleiresco ao romance dos pcaros, do
romance romntico ao romance naturalista. Esvazia-se o heri na
medida em que cresce a conscincia das foras condicionadoras. Mas
o romancista de gnio dispe de muitos meios para significar os
caminhos do anti-heri: est em suas mos dizer tanto a
conformidade macia da criatura com o ambiente (a personagem-tipo)
quanto os desvos de titanismo ou de onirismo, de erotismo ou de
estetismo, para onde tendem a evadir-se as personagens
"irregulares" nos seus sonhos de liberdade absoluta.
         nessa perspectiva que se encontram e nos interessam as
trajetrias de Joyce e de Svevo. Para eles o realismo "corrosivo" de
Maupassant, assim como o realismo agnico dos grandes russos,
era sempre uma plataforma que no podiam ignorar. Mas essa
plataforma  o cais de onde zarpa o cantor de Ulisses para a sua
viagem ao mesmo tempo rotineira e espantosa, para a qual
inventa uma linguagem de mltiplos planos no seu desejo de abarcar e
fundir todos os remos, do fisiolgico ao mtico, do histrico ao
supra-real. Svevo, no. Mais tmido, menos inventor, mais
inventariante,  o homem que se detm no cais de uma Trieste sem cor e
monta pea por pea a figura do "heri" que, de romance a
romance, ir murchando e sucumbindo, sob o peso das
contradies,  imanncia abafadia da cidade moderna.
        Joyce parece dizer-nos: Vejam quantas paragens da Odissia,
quantos ciclos do Inferno, quantas torres de Babel eu soube
reinventar neste msero 16 de junho de 1904 de um misrrimo
irlands chamado Leopold Bloom! Svevo nos diz apenas que o
calendrio  eterno retorno, ocasio de marcar as datas de nossas
promessas no cumpridas, isto , mais uma prova da covardia e
da mesmice a que acabou reduzido o heri infatigvel de antanho.
"La vita  una malattia della materia."

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        O poeta Eugenio Montale, que foi um dos primeiros a
compreender a importncia de Svevo, definiu a atmosfera de Una
vita, seu primeiro romance, como "a causalidade cinzenta da
nossa vida de todos os dias". Para esse ponto de vista, Svevo teria
feito "novo romance" antes do tempo, com a diferena de que, "in
illo tempore", o homem ainda despertava mais interesse do que
as maanetas e os paraleleppedos.
        A tica de Svevo partiu de uma situao stendhaliana: em Una
vita, o humilde bancrio Nitti, valendo-se de sua conversa
elegante, seduz a filha do banqueiro para subir de classe; mas diante da
jovem que ainda hesita em aceitar um casamento desigual em
vista de melhor partido, o heri provinciano suicida-se. Foi, porm,
o primeiro e o ltimo enredo entre o romntico e realista em que
Svevo ope a vontade de um homem  rede bem articulada do
preconceito. Nos outros romances j no haver lugar para
jovens literatos sfregos de dinheiro e de prestgio. Ao contrrio,
ser sob o signo da senilidade precoce, mas remediada (Senilit)
quando no abastada (La coscienza di Zeno), que se iro
constituir as suas novas estruturas narrativas. A plataforma econmica
continua slida no rico porto triestino (Svevo nem sequer pressentiu
a crise de 1929), mas o cais j tem muros leprosos e a memria
caminha por labirintos para desnudar alcovas de amores alugados
ao tdio senil. E a vida aparece cada vez mais como "una malattia
della materia".
        Nessa perspectiva, Svevo  escritor de hoje: o seu mundo
cinzento continua, pouco diferenciado, nos romances de Alberto
Moravia, cujo livro de estria, Gli indifferenti foi escrito em 1928,
ano da morte de Svevo.



        Em uma sociedade que envelheceu, at os jovens aprendem
cedo a amornar no banho-maria dos interesses as suas relaes
mais espontneas. Essa atmosfera de decomposio, simulada mas
detectvel a cada passo, assumir contornos ntidos,
desencantados e quase clnicos, nas confisses do velho Zeno a quem um
psicanalista aconselhou a redao de suas memrias.
        O vcio do fumo  o motivo condutor de A conscincia de
Zeno. Tudo  centrado na "cura", ou antes, na veleidade da cura:
as folhinhas e as prprias paredes do dormitrio esto coalhadas
de datas que atestam os bons propsitos de deixar o fumo... Num
dos primeiros captulos, Zeno instala-se em uma clnica
modernssima para tratar-se, mas nem bem desce a noite corrompe com
bebidas a enfermeira e vo por gua abaixo as tcnicas mais
apuradas do terapeuta. Svevo sintetiza no fumo a velhice, o cinismo, a
doena; e o profundo mal-estar que corri a existncia, aproxima,
nesse leitor de Freud3 e de Schopenhauer, o princpio do prazer e
a fatalidade da morte.
        Narrador objetivo de conscincias ocupadas pela esperteza do
dia-a-dia e consumidas no compromisso com as situaes mais
escusas, Svevo parece s vezes tangenciar o cinismo. Como o
Joyce "proibido" que, desencadeada a corrente de conscincia
das suas criaturas, no se detm diante de nada at ser arrastado
pelo gosto febril das associaes mais chocantes. (Para Jean
Paris, a cidade dos Dublinenses j era a prpria imagem da esclerose
e da degradao, antecipando os corredores viscosos de Stephen e
os quarteires infernais do Ulisses.)
        Mas no plano lingstico opera e impe-se uma diferena
visvel entre os dois escritores. Joyce compe, mediante processos

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3 "Grande uomo quel nostro Freud, ma pi per i romanzieri che per gli ammalati"
(Lettere Ined., p. 57). Svevo admitia s em parte a influncia de Freud no seu ltimo
romance. Falando de "coincidncias" entre este e a psicanlise, saiu-se com esta
boutade: " conhecida a aventura de Wagner com Schopenhauer. O compositor
mandou-lhe uma sua msica com protestos de gratido a quem ele considerava o seu
mestre. Mas Schopenhauer respondeu-lhe que julgava a msica de Rossini como a
que melhor se ajustasse  sua filosofia" (Saggi, p. 173). Mas h uma crtica mais
profunda, ou, pelo menos, mais despachada: "Mas que psicanlise, que nada! Sob
a lei do possuidor do maior nmero de engenhos mecnicos, continuaro a prosperar
doenas e doente" (La coscienza di Zeno, p. 519).

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inslitos, uma linguagem nova, animada pelo mpeto do artista para
quem, como pensava Dedalus, "a Histria  um pesadelo de que 
preciso despertar". Italo Svevo, ao contrrio, arrasta-se num
andamento de prosa analtica, fruto de uma posio ctica de
desencanto com seu qu de regressivo. Zeno-Svevo  a conscincia de
uma realidade histrica e psquica que se sabe enferma. E no
quer ser seno isso:

E para que curar a nossa doena? Ser que devemos arrancar 
humanidade o que ela tem de melhor? Eu creio sinceramente que o
verdadeiro acontecimento que me deu paz foi esta convico: ns somos
um protesto vivo contra a ridcula concepo do super-homem como
nos foi contrabandeada (sobretudo a ns italianos...).

        A partir de Senilit o que interessa a Svevo  a fixao dos
limites fatais do burgus "realizado": a sua estrutura declinante, a
eroso da sua vontade e da fora dos seus afetos. O cinqento
Emilio Brentani sente desejos pela costureirinha Angiolina, mas
prope-lhe uma "cauta relazione": no fundo, no cr nem em
Angiolina nem nos seus prprios sentimentos. Para o crtico Alberto
Consiglio, as pginas dedicadas  traio de Angiolina com o
vendedor de guarda-chuvas esto entre as mais belas e eficazes do
livro: a longa meditao noturna de Emilio resolve-se em uma
contnua impossibilidade de exprimir paixes e emoes veementes.
        E na Conscincia de Zeno impressiona aquele deter-se no
enfermio, aquele comprazer-se nos atos falhos (clebre o
episdio em que Zeno segue um enterro que no  o do seu scio e
cordial inimigo), na representao de viciados que se espreguiam
no vo desejo de se emendarem; dos fanfarres que ingerem
doses (fracas) de veronal para fingirem suicdio; dos ablicos que se
estendem no sof do psicanalista e no pretendem levantar-se to
cedo, no por f no mtodo, mas pela tibieza acariciante de uma
distrao. So gordos flcidos que querem e no querem
emagrecer; so ineptos mornos que querem e no querem agir; so
impotentes precoces, sem amor, mas curiosos de sensaes e de
prazer. O romance  o dirio de um universo obsolescente colhido
pela via humorstica da auto-exibio.
        Ora, tudo isso tem um nome na histria da cultura europia, um
nome corrente na crtica italiana: decadentismo. Mas o decadentismo
no  seno a inflexo agnica e contraditria de um
Realismo que se quer mais profundo, isto , a sua hora negativa. E, sem
a referncia constante e dialtica ao Realismo, parece tambm
difcil compreender muito da literatura "dissolvente" que hoje se
reprope em termos ainda mais radicais do que o fazia um Italo
Svevo h cinqenta anos.


(In: Cu, inferno.' ensaios de crtica
literria e ideologia. So Paulo: tica, 1988.
Direitos gentilmente cedidos pelo autor.)

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Este livro foi impresso no Rio de Janeiro, em fevereiro de 2005,
pela Grfica Lidador para a Editora Nova Fronteira. O papel de
miolo  off-set 75g/m2 e o da capa  carto 25C4rn2


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